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Abensonhar

Ministerio de la Educación de Colombia. El Balígrafo. 2016

“Abensonhar” é um verbo criado por Mia Couto no livro Estórias Abensonhadas (1994), cujos contos “falam desse território onde nos vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada”. Creio que estes dois anúncios latino-americanos, com balas transformadas em canetas (e votos) e um campeonato de pesca de plástico, foram, a seu tempo (2016 e 2022), abensonhados. O Presidente da República de Colômbia, Juan Manuel Santos, presente no primeiro anúncio, foi distinguido com o Nobel da Paz em 2016.

[Este artigo foi removido do Facebook]

Anunciante: Ministerio de Educación de Colombia. Título: El Balígrafo. Agência: McCann Colombia. Colômbia, 2016
Anunciante: AB INBEV/Corona. Título: Campeonato de Pesca de Plástico. Agência: We Believers. México, 2022

Azedume

Rafael Bordalo Pinheiro. O dia dos reis. Publicado em O António Maria, em 6 de janeiro de 1881

Não sei como, nem porquê, assombram-me, de repente, o Goya e o Bordalo Pinheiro. Seremos uma espécie de novos avatares do Zé Povinho com a mesma propensão a cavalgaduras? Importa, naturalmente, compreender, mas sem condescender, nem subestimar.

Imagem: Caricatura do Zé Povinho com o rei D. Luís a cavalo em cima dele e Mariano de Carvalho como agulheiro. Litografia de Rafael Bordalo Pinheiro, in António Maria, 9 de Setembro de 1880

Por pouca margem de manobra que tenhamos e bem-intencionados que sejamos, somos responsáveis pelas nossas escolhas e pelos nossos atos. Se, por desventura, acabarmos albardados a carregar burros pesados, aguentaremos o fa(r)do que criamos. Entrementes, as furnas dos infernos continuam a acolher vítimas ingénuas e paladinos espertos.

Imagem: Francisco de Goya. Tu que no puedes. Estampa 42 dos Caprichos, 1799

Martirografia

Nikola Saric. Les Martyrs de Libye, 2018. Aguarela (100 x 70 cm). Original no Petit Palais, em Paris

Impressionou-me a aguarela “Os mártires da Líbia” (2018), da autoria de Nikola Saric, artista sérvio residente na Alemanha (ver Interview With Nikola Sarić). Foi concebida em memória dos 21 operários coptas assassinados pelo Daesh, na Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. À primeira vez, pensei estar perante uma imagem medieval. Ocorreu-me, então, a palavra “martirografia” para aludir à análise das imagens respeitantes a mártires e martírios.

Não encontrei a palavra “martirografia” nos dicionários de língua portuguesa que consultei. Mas, como de costume, acabo por “inventar a pólvora”. Um vício entranhado que me dá um certo gozo.

Outros já tiveram a mesma inspiração, muito embora em italiano. Por exemplo, Roberta Denaro no subtítulo da obra Dal martire allo sahid: Fonti, problemi e confronti per una martirografia islamica, publicada em 2007.

“Os mártires da Líbia”, de Nikola Saric, foi recentemente incluída na coleção do Petit Palais, de Paris. Esta aquisição justifica uma notícia circunstanciada pela Aleteia, redigida por Caroline Becker, que entendo colocar. Para aceder ao artigo correspondente, carregar no seguinte endereço: https://fr.aleteia.org/2019/09/27/une-icone-sur-le-martyre-des-21-coptes-accrochee-au-petit-palais/. Acrescento a tradução simultânea do texto.

O Petit Palais acaba de fazer uma aquisição verdadeiramente emocionante. O museu parisiense adquiriu uma enorme aquarela contemporânea pintada em memória dos 21 trabalhadores coptas assassinados pelo Daesh na praia de Sirte, Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. Uma tragédia que muitos não esqueceram, incluindo o pintor Nikola Saric, autor desta obra inspirada na iconografia bizantina.

Na parte superior, Cristo é cercado por uma suave luz rosa. Sua figura entronizada e hierática é contrabalançada pela bondade de seu rosto. Num gesto paternal, seus braços se estendem e abraçam seus filhos, os 21 mártires cristãos egípcios brutalmente assassinados pelo Daesh em 2015 em uma praia da Líbia. Um drama filmado, visto por milhões de internautas, que ninguém esqueceu.
Nikola Saric, o artista cristão sérvio por trás desta obra, também não se esqueceu. Ansioso por transcender esse martírio coletivo, ele escolheu a pintura como válvula de escape. O resultado é um ícone fortemente inspirado na iconografia tradicional bizantina. Composta a partir do vídeo da execução, a obra sintetiza os diferentes elementos da encenação: os 21 reféns, alinhados de joelhos, vestem macacões laranja. Os carrascos, atrás deles, formam outra fila e estão escondidos sob trajes pretos com capuz. Eles seguram os condenados no chão, com facas na mão.
O artista optou por incluir a figura de Cristo para recordar o sacrifício dos coptas que se recusaram a renunciar à sua fé. A sua presença realça, assim, que não se trata de uma simples execução, mas sim de um martírio. Cristo também está, simbolicamente, vestido com a mesma cor laranja. Uma iconografia que lembra o ícone dos Quarenta Mártires de Sebaste , um ícone do século XV que narra o martírio de 40 soldados cristãos durante o reinado do imperador romano Licínio, em 320. Outro martírio coletivo testemunhado por Cristo e do qual Nikola Saric se inspirou para criar o seu ícone. Com esta obra contemporânea, o artista sérvio coloca-se imediatamente na linhagem dos ícones hagiográficos.
Com esta aquisição, o museu parisiense completa sua já impressionante coleção de ícones. No entanto, esta é a primeira vez que adquire um ícone contemporâneo, marcando uma virada na história de suas coleções. Com esta obra original, a instituição testemunha eventos recentes da história e revela o nascimento do culto aos santos contemporâneos. Os 21 coptas já estão, de fato, listados no Synaxarium , o equivalente ao Martirológio Romano para a Igreja Copta, o que significa que já estão canonizados.”
(Caroline Becker, ” Um ícone do martírio dos 21 coptas pendurado no Petit Palais”. Aleteia, publicado em 27/09/2019)
40 Martyrs at Lake Sebaste – Greek Orthodox Archdiocese of America – Orthodox Church

Do belo Horrível

Segue um artigo oportuno e lúcido sobre algumas tendências atuais do “processo civilizacional” estudado por Norbert Elias. Se o Luís Bastos não se importar, subscrevo. [Pode também aceder ao artigo carregando na imagem precedente]

Verde que te quero verde

A morte de um jardineiro não lesa a árvore. Mas se ameaçares a árvore, então o jardineiro morre duas vezes (Antoine de Saint-Exupéry, Citadelle, 1948)

A presente onda de calor lembra-me três anúncios dedicados aos riscos de desflorestação. O primeiro, “Refugee Tree”, brasileiro, é promovido por organismos estatais (The Climate Reality Project Brasil, GT.INFRA e ENGAJAMUNDO), o segundo, “Weird Search Requests”, internacional, pela plataforma privada Ecosia, e o terceiro, “EcoAlarm”, pela parceria público privada entre a fundação argentina Banco de Bostes e a Spotify.

Total de incêndios em Portugal. Fonte – FOGOS.pt

Segundo a FAO, entre 2010 e 2020, o planeta sofreu uma perda líquida cerca de 4,7 milhões de hectares de floresta por ano. Em contrapartida, no mesmo período, a Europa, incluindo a Rússia, conheceu um aumento líquido da área florestal de cerca de 0,3 milhões de hectares por ano. Em Portugal, a cobertura não está a diminuir significativamente, mas a qualidade e a resiliência dos ecossistemas florestais estão a degradar-se, devido, sobretudo, aos incêndios e à expansão da monocultura, designadamente, do eucalipto.      

Anunciante: The Climate Reality Project. Título: Refugee Tree. Agência: Africa DDB Sao Paulo. Brasil, 2021
Anunciante: Ecosia. Título: Weird Search Requests. Produção: Filmacademy Baden-Württemberg. Direção: Sandro Rados. Internacional, 2021
Anunciante: Banco de Bostes / Spotify. Título: EcoAlarm. Argentina, 2017

Os Valores da UNESCO no Contexto Local

Na próxima sexta-feira, 4 de julho, participo no painel “Histórias Contadas. Memórias Guardadas” do encontro Os Valores da UNESCO no Contexto Local (Uma década de Clube para a UNESCO), na Casa do Tempo, em Cabeceiras de Basto.

Procurarei ilustrar, mais do que teorizar, com excertos de entrevistas filmadas, a importância dos testemunhos de vida para as ciências sociais e para a sociedade.

Programa do Encontro Os Valores da UNESCO no Contexto Local. Casa do Tempo. Cabeceiras de Basto, 4 julho 2025

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Mercedes Sosa – El tiempo vuelve. Cover de Pablo Milanés (Años. No me pidas, 1978

Nem Shakespeare, nem Molière

Não há Shakespeare, nem Molière, que resista! Ultrapassou-se, ao mesmo tempo, a tragédia e a comédia.

José Afonso – Os Eunucos. Traz Outro Amigo Também, 1970
Georges Brassens – Le temps n’a rien à faire. Le temps ne fait rien à l’affaire, 1961
Jacques Brel – Au suivant. Les Bombons, 1964

Música da Grécia Antiga

As árvores com raízes profundas são as que sobem mais alto

A música não tem margens nem fundo. Navegamos e revemo-nos nas águas sem pressa de ancorar. Os ventos sopram para a Grécia Antiga. O timoneiro é Gregorio Paniagua, nascido em Madrid em 1944. Celebrizou-se como músico e musicólogo. Estudou violoncelo e viola de gamba, bem como direção de orquestra. Tocava, também, outros instrumentos musicais tais como a vihuela, o alaúde e a sanfona.

Autorretrato de Gregorio Paniagua

Em 1954, fundou, com irmãos e primos, o ensemble Atrium Musicae com que se apresentou à volta do mundo. Estudou, recuperou e interpretou repertórios de música antiga. Para esta “arqueologia”, criou uma oficina onde recria os instrumentos musicais da época. Publicou cerca de 20 álbuns. O mais célebre é, porventura, o dedicado à música da Grécia Antiga, recolhida em papiros. Destacam-se, também, as coletâneas de música árabe andaluza, pré-colombiana e medieval.

“L’ enfant terribile nasceu um ano antes da era atómica. Desde então, dedicou-se à arqueologia musical, especializando-se em musicologia e realizando suas próprias transcrições em concerto, baseadas nas fontes musicais originais de cada época. Ele também reconstruiu instrumentos musicais antigos em sua própria oficina, utilizando-os em suas apresentações e gravações.
Aos 22 anos, as nove Musas, filhas de Zeus e Mnemosine, o incentivaram a seguir um caminho diferente, e ele decidiu abandonar os estudos de medicina e se especializar em violoncelo no último ano de ambos os cursos. Decidiu não se tornar médico nem violoncelista, dedicando-se à musicoterapia (à qual dedicou sua tese de doutorado: Tarântula-Tarantela, HarmoniaMundi, 1976 ) e ao estudo de códices e manuscritos musicais antigos, a fim de se dedicar à ” arte de viver da arte” , em suas próprias palavras. Fundou o ATRIUM MUSICAE em 1964.
Gregorio Paniagua, na minha opinião, nunca se cansa de sua hiperatividade; seu dom para a música é inato. (GREGORIO PANAGUA. ATRIUM MUSICAE – COMPOSITOR, FUNDADOR E DIRETOR).

Seguem 5 das 25 faixa que compõem o álbum Musique de la Grèce Antique, editado em 1979 pela Harmonia Mundi (França).

Gregorio Paniagua & Atrium Musicae de Madrid – Anonymi Bellermann. Musique de la Grèce Antique, 1979
Gregorio Paniagua & AMM – Papyrus Oxyrhynchus 2436. Musique de la Grèce Antique, 1979
Gregorio Paniagua & AMM – Hymne à Némésis. Musique de la Grèce Antique, 1979
Gregorio Paniagua & AMM – Anakrousis – Orestes Stasimo. Musique de la Grèce Antique, 1979
Gregorio Paniagua & AMM – Hymne au Soleil. Musique de la Grèce Antique, 1979

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Não creio que seja necessário percebermos de musicologia para apreciar “música erudita”. A música é uma linguagem universal e, sobretudo, uma jexperiência sensorial.

Estas peças musicais da Grécia Antiga transcendem-nos no tempo e também nos cânones musicais, tal como os conhecemos. O que transforma a experiência num estado de espírito. Pede-nos aquele “silêncio” intemporal e expectante, como quando queremos ouvir o som da água, do vento e das próprias pedras. Ideal para escutar num templo, cheio de memórias nos seus muros e com uma abóbada a ampliar as ressonâncias do tempo.

A segunda peça foi a que mais me apelou aos sentidos. Curta mas surpreendente, nos seus sons compassados e quase cintilações dissonantes vindas de um estranho mas fascinante instrumento.

Por outro lado, a quarta peça, com uma abertura caótica e alucinante, seguida de lamúrios nos sons e nos cânticos, desenhou uma história trágica no meu imaginário.

O importante é abrirmo-nos para o desconhecido, e, mais importante ainda, permitir-nos sentir. Apenas. São essas memória que nos mantêm verdadeiramente vivos.

(Almerinda Van Der Giezen)

O Canto das Crianças do Inferno

Para acompanhar os filhos, os pais ganham em aprender com eles

Quando aquilo que deveria estar longe está perto e o que deveria a estar perto está longe, dá vontade de mudar de lugar, de se deslocar para outras coordenadas espaciotemporais, mesmo que seja esporadicamente. Demandar, por exemplo, o rock japonês do início dos anos setenta ou os cânticos da Grécia Antiga de há dois milénios. Comecemos pelo rock progressivo e psicadélico japonês.

O Fernando mostrou-me uma pérola rara. “É a tua cara! A música e a letra.” Adoro quando me surpreendem adivinhando os meus gostos.

Quando era jovem, acompanhava artistas estrangeiros no rock, mas depois de ouvi-los novamente depois de muitos anos, descobri que artistas e bandas japonesas como J.A. Caesar, Jax e Happy End, que enveredam por um gênero um pouco diferente, alcançam muito mais profundidade e um nível mais alto do que as bandas britânicas e americanas da mesma época. (Comentário no YouTube: @blueearth5000).

J. A. Seazer (…), às vezes ortografado Julious Arnest Cesar ou Julious Arnest Caesar, batizado Terahara Takaaki (寺原 孝明?), é um músico e compositor de bandas sonoras japonês nascido a 6 de outubro de 1948. Alcançou alguma popularidade entre os estudantes japoneses nos anos sessenta e colaborou com o realizador Shuji Terayama (…) Adquiriu notoriedade com a composição da banda sonora da adaptação animada do manga de Suehiro Maruo, Mr. Araxhi’s Amazing Freak ShoW (Wikipedia, 16.06.2025).

Retive quatro vídeos. O primeiro, “When Everybody’s Going to Die” [Quando todos estiverem a morrer], foi o que o Fernando me deu a conhecer [coloco a letra no fim”. Pertence a um EP lançado em 1970, que inclui a canção do segundo vídeo: “Hanging Tree” [árvore da forca]. Segue a canção “Wasan” do álbum Kokkyou Junreika, de 1973. Estas músicas namoram o rock progressivo e psicadélico. O quarto vídeo contempla sete músicas da banda sonora do filme Den-en ni shisu (Pastoral: To Die in the Country), realizado por Shuji Terayama em 1974. Embora todas sejam notáveis, deste conjunto destaco as duas últimas canções: “Hymn of Praise” (12:53) e “Everyone Suddenly Disappears” (17:08). Já que se fez tão rara viagem, vale a pena atardar-se.

 J. A. Seazer – すべての人が死んで行く時に / Quando todos estiverem a morrer, EP, CBS Sony.1970
J.A. Seazer – Hunging Tree 首吊りの木 / Árvore da Forca. EP, CBS Sony. 1970
J.A. Seazer – Wasan. Kokkyou Junreika, 1973
J.A. Seazer – Den-en ni shisu (Pastoral: To Die in the Country). Dir. Shuji Terayama! Pastoral Hide and Seel, song selections. 1974

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Quando todos estiverem a morrer
(When Everybody’s Going to Die)


Quando todos estiverem a morrer,
cantarei um hino de amor

Quando todos estiverem a morrer,
alguém cantará uma canção de embalar

Os pássaros negros que se aglomeram nas árvores mortas
Gritarão na escuridão

Quando todos estiverem a morrer,
Gritarão na escuridão

Quando todos estiverem a morrer,
ouço a voz de uma mãe

Quando todos estiverem a morrer,
há risos e choros

Das profundezas de uma garrafa enegrecida,
A voz das crianças do inferno a cantar

Quando todos estiverem a morrer,
A voz das crianças do inferno a cantar

Quando todos estiverem a morrer,
quando todos estiverem a morrer

(J. A. Seazer, 1970)

O Pintassilgo de Vivaldi

Faz dois meses (24 de março) publiquei um artigo dedicado à lenda do pintassilgo, que incluía oito pinturas com o Menino Jesus e um pintassilgo, acompanhadas pela música “Grantchester Meadows” (1969), dos Pink Floyd. Hoje, não resisto a acrescentar quatro, acompanhadas agora pelo concerto para flauta Il Cardellino (O Pintassilgo), de Antonio Vivaldi, interpretado pela multifacetada Anna Fuzek, de origem checa.

Imagem: Anna Fuzek

Pelos vistos, não vai ser fácil espaçar os artigos. Não convence a perspetiva de congelar as ideias em bicos de pés numa fila de espera. Mesmo ao ritmo atual, muitas acabam abortadas pelo caminho… Armazenar restos pesa numa mente cansada. E importa semear e comunicar. Até no deserto com a própria sombra. Enquanto houver um nada a acrescentar.

Antonio Vivaldi – Il Gardellino, op. 10, no. 3, RV 428. Anna Fuzek com a Orquestra Barroca de Veneza, 2020