Reincidência. O híbrido e o ciclista

Sem descurar a pedalada belga, holandesa e chinesa, a França é, em termos míticos, o país do ciclismo. Retenha-se, por exemplo, o filme As Bicicletas de Belleville (ver anexo 2) ou o álbum Tour de France, dos Kraftwerk (anexo 3). O protagonista do anúncio Unstoppable, da Renault, é um veterano ciclista que regressa à estrada. Barroco, o argumento não é original (anexo 1). Um sucedâneo da lenda da fonte da juventude, neste caso, a prenda.. Empolgante, o anúncio é extenso, sinuoso, invertido e retorcido. Ironicamente, vejo e revejo este anúncio sentado numa cadeira de rodas.
Anexo 1: Anúncio Dream Rangers.
Anexo 2: Trailer do filme Les Triplettes de Belleville.
Anexo 3: Tour de France, dos Kraftwerk.
O bom, o mau, o feio e o crítico
Somos um país de marretas. Tempo de pandemia, tempo de crítica. Crónicas de maldizer.
O império das mercadorias

A Coca-Cola oferece-se como uma poção mágica (vídeo 1). À semelhança da beberagem do Panoramix (vídeo 2). A primeira resulta numa dança acelerada e colorida, a segunda, numa pancadaria ciclópica. Os objetos, as mercadorias, apoderam-se de nós e transfiguram-nos. Atente-se nos sofás Snug (vídeo 3).
Mãos de tesouras

O anúncio Super Bowl ScissorHandsFree, da Cadillac, inspira-se, assumidamente, na figura do Eduardo Mãos de Tesoura, de Tim Burton (1990). O novo Mãos de Tesoura é, seja qual for o contexto, um desastre. Ressalve-se o All-Electric Cadillac LYRIQ, um automóvel sem mãos. Mais uma fábula.
Paris. Yves Montand.

Vivi seis anos em Paris. Parte da minha juventude. Ainda me sinto parisiense. Admiro Yves Montand, ator e cantor francês memorável. Selecionei três canções. No vídeo da primeira, C’est si bon, aparece uma fotografia com Marilyn Monroe. Tiveram um caso, por ocasião do filme Vamo-nos amar (1960), de George Cukor. Arthur Miller acabou por se separar de Marilyn Monroe. A segunda canção é um hino a Paris. A terceira, Les feuilles mortes, um poema de Jacques Prévert, é uma canção especial.
Master and Commander. Luigi Boccherini

Luigi Bocherini (1743-1805), compositor de origem italiana, radicou-se jovem em Espanha (1768). Sobre a vida de Luigi Bocherini, pode consultar-se: https://tendimag.com/2018/12/28/beleza-interior/. Acrescente-se que durante séculos repousou no lado cinza da fama. Em 1927, Benito Mussolini resolveu transladar os seus restos de Madrid para a igreja de sua terra natal, Lucca. Segue o Quinteto de Cordas em C Maior, Op 30 Nº 6, G324, tal como é interpretado na banda sonora do filme Master and Commander: O Lado Longínquo do Mundo (2003).
Babe e Camille Saint-Saens

O cinema anda de braço dado com a música. Tommy, Laranja Mecânica, Blade Runner, Titanic… No filme Babe (1995), a música, adaptada, é de Camille Saint-Saens. Segue a música do filme (If I Had Words) e o original de Saint-Saens, dirigido por Myung-Whun Chung. Não admira que tenha fascinado Stanley Kubrick.
Riqueza vaidosa

Passam ferrari, porsche e lamborghini. E carros de colecção. Portugal é um país particularmente desigual? A desigualdade dos rendimentos de um país pode ser medida pelo índice de Gini. Varia entre um máximo de igualdade, 0, e um máximo de desigualdade, 100. Observemos os valores do índice de Gini nos países europeus, em 2017.

Portugal consta entre os países em que existe maior desigualdade de rendimentos. Tem um índice de Gini de 33,5, próximo da Grécia e da Espanha, ultrapassado apenas por três países de leste: a Letónia, a Lituânia e a Bulgária.
Portugal é dos países mais desiguais da Europa. Justifica os carros de desporto e de luxo? Pode-se ser rico e discreto. Segundo Max Weber, os protestantes imbuídos do espírito o capitalismo preferiam o investimento ao fogo de artifício. Em Portugal, não impera nem a ética protestante, nem o espírito do capitalismo, predomina o consumo ostentatório e o espírito de corte. Consome-se luxo, faz-se lixo. Somos o 24º país mais desigual da Europa. Somos, também, aquele em que a riqueza rima com uma opulência quase ofensiva.
O índice de Gini é uma sequência da curva de Lorenz. No gráfico , indica-se na abscissa a população acumulada e na ordenada, os rendimentos acumulados.

Comprova-se, por exemplo, que aos 20% mais pobres corresponde uma parte ínfima do rendimento nacional, enquanto os 20% mais ricos possuem acima de 60% do rendimento nacional. Segundo o gráfico, entre 1989 e 2004, a desigualdade diminuiu. A curva aproxima-se da diagonal a que corresponde a igualdade absoluta.
No início dos anos oitenta, era professor do curso de Relações Internacionais. Um dia, pergunto: “Conhecem a curva de Lorenz?”. Responde-me um aluno: “Não, professor, só conhecemos as curvas da Bo Derek”. Dar aulas pode ser estimulante.


