Geração e criação

Um filho gera-se, não se cria (inspirado em C.S. Lewis: “uma pessoa gera um filho, mas cria uma estátua” – Cristianismo puro e simples, Vida Melhor Editores, 2017, p. 211)
Sociólogo da arte, da cultura e dos estilos de vida, interesso-me pelos gostos partilhados pelas pelos indivíduos, na senda de autores tais como Norbert Elias, Erwin Panofsky, Howard S. Becker, Paul-Henry Chombart de Lauwe, Roland Barthes, Jean Duvignaud, Umberto Eco, Jean Baudrillard, Pierre Bourdieu e Bernard Cathelat.


Ensaiar acertar no gosto desta ou daquela pessoa é um dos meus desportos favoritos. Mas nem sempre é óbvio. Existem, porém, aves especiais. Oferecer-lhes algo que apreciem é um desafio. Dedico estas duas músicas, da compositora inglesa Imogen Holst (1907-1984) e do compositor japonês Tôru Takemitsu (1930-1996), a uma dessas raras aves do paraíso.
A um filho emigrante

“O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai” (Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, 1878).
“O Filho de Deus tornou-se homem para possibilitar que os homens se tornem filhos de Deus” (C.S. Lewis, Mere Christianity, 1952).
Passaram trinta e um anos, toda e metade de uma vida. A primavera e o outono. Revejo-me como num espelho maior e melhor, com invulgar determinação em crer, querer, arriscar e criar. Quem tem a bênção de um filho não precisa renascer, simplesmente congratular-se e agradecer.
Como lembrança, acrescento, sem surpresa, quatro músicas. É o bem mais disponível, pessoal e rápido para enviar para a Holanda. Podem não entusiasmar de imediato, mas estou convencido que pertencem àquelas que se prestam a que as interrompamos a meio para voltar a escutá-las com outros ouvidos. Possuem a virtude de nos sintonizar à distância. Formam dois pares: um, “primaveril”, que abre com um bailado de Pina Bausch, o outro, “outonal”. Duas músicas para adormecer a Sara, outras tantas para a acordar.
João e Sara
A riqueza humana

Prima irmã (beneficiei do cuidado e do afeto de quatro “mães”: a mãe Ilda e as tias Celina, Leonor e Edite), a Salomé enviou-me, discretamente, esta “muy hermosa y sencilla canción”, The Haves, do Eddie Vedder. Mais do que qualquer outra realidade, a partilha da música é uma entrega pessoal, uma dádiva de si. Como é bom receber! Embora esteja em crer que é mais grato dar.

Bem hajas, pelo gesto e pelo exemplo! Não hesites em repeti-lo. Na autoestrada entre Viana de Castelo e Braga, destaca-se, num dos suportes para publicidade, o seguinte provérbio: “O que não é visto não é lembrado”. É uma meia verdade. Pelo sim, pelo não, junto três fotografias para regalar o olhar e a memória.

Dou-me bastante bem com o isolamento. Não convivo mal a sós comigo próprio. Aflige-me, no entanto, a clara consciência de que o outro é que é a minha maior riqueza.
Quem não se encosta não pesa

A ninguém
Após ano e meio de confinamento rigoroso, agora que começo a ter forças para sair de casa (já fui a Moledo, a Melgaço, ao museu D. Diogo de Sousa, a uma reunião do Fórum Cidadania: Pela Erradicação da Pobreza e ao Mercadona), considero chegado o momento oportuno para balanço, para reequacionar a minha própria inscrição no mundo e partilhar testemunho.
Durante este longo período de isolamento e incapacidade, quase não tive visitas! Foi um aperto de solidão. A esmagadora maioria dos familiares, amigos e colegas entendeu por bem não dar esse passo. Contam-se pelos dedos das mãos as exceções, a maior parte, ironicamente, amizades da minha mulher. Ressalvo o Miguel Bandeira que me visitou mais do que uma vez. Significará este facto que passei a ter familiares de não trazer por casa, falsos amigos e colegas de pacotilha?
Não creio que esta “distância social”, esta travessia do deserto, seja imputável a um qualquer menosprezo ou apagão. Não desapareci do mapa mental dos familiares, amigos e colegas. De qualquer modo, a minha obsessiva participação nas redes sociais não o terá permitido. Continuei a bater à porta das pessoas. Este alheamento justifica-se, sobretudo, devido a dois fatores.
Não desapareci do mapa mental das pessoas. Desapareci, isso sim, da sua agenda, um risco das ausências de longa duração. Uma crise mais ou menos aguda, mas breve, por exemplo uma cirurgia, demarca um momento de visita, um clímax ou punctum no tempo. Neste caso, a afluência até pode revelar-se incomodativa. Já o afastamento prolongado, mesmo com sofrimento, tende a arrastar-se num calendário pantanoso. Não existe urgência. Sem agenda, o adiamento propicia-se. Sobra quem confesse, sinceramente, ao telemóvel, andar para me visitar há mais de um ano. Acomoda-se, eventualmente, um pequeno “peso na consciência”, um grilo falante afónico, que, quanto mais se prolonga, paradoxalmente, mais se normaliza e menos estimula e apressa. Envolvido nesta dinâmica, o familiar mais próximo, o amigo mais íntimo e o colega de projetos nunca chega ao porto. Quero, convém-me, apostar com convicção nesta leitura.
Mas admito ser o principal responsável por este isolamento. Não sou um misantropo, mas detesto encostar-me às pessoas. Sou bastante alérgico a dependências. Tanto no trabalho como no lazer. Peco, confesso, por algum orgulho, orgulho que comporta vários custos, incluindo uma dose de desprendimento e solidão. Quem não se encosta, não pesa! Sem peso, diminuem e aligeiram-se as rotinas de interação e os rituais de lealdade.
Sinto-me abençoado: já posso sair de casa, ir ao encontro de familiares, amigos e colegas. No dia 6 de abril, regresso, por exemplo, à Universidade do Minho para a eleição dos órgãos do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade. Vou certamente re(a)ver amigos e colegas. Ressurgir, recomeçar um “novo normal”. Hoje é o dia 1 de abril. Este texto, reflexivo, cru e duro, parece uma mentira, um desvario insano que, não obstante, assino com um revigorado sentimento do mundo, da vida e da humanidade.
Um anjo sem repouso

Ela é ela, a mulher, um anjo livre que voa sem repouso, ano após ano.
Para brindar, uma canção inesquecível, na versão mais célebre, de Elvis Costello (She, Notting Hill, 1999), e na versão original, de Charles Aznavour (Tous les visages de l’amour, tradução em francês de She, Seven faces of woman, 1974).
A sentinela do espírito



Ao primo
“A memória é a sentinela do espírito” (William Shakespeare. Macbeth. 1605)
O meu avô e o meu padrinho costumavam trautear a canção Só a Noitinha (Saudades de ti), da Amália Rodrigues, quando jogavam as cartas, mormente à lerpa, nas traseiras do café. Repisavam os versos “bendita a hora em que o esqueci por ser ingrato e deitei fora as cinzas do seu retrato”, em modo de disco riscado. Fazia parte do jogo psicológico. Era uma cartada. “A cantiga é uma arma de pontaria”, já repetia José Mário Branco (ver Maçã electrónica. A publicidade é uma arma). O que não obstava que o avô, mais hábil na arte de cantar do que de enganar, perdesse quase sempre.
Recuperação
A um primo irmão

Saio pouco de casa. Mas tento abraçar o mundo. Como posso e se propicia. O Tendências do Imaginário ajuda, como meio de comungar com o silêncio da rede.
O concerto em Dó Maior, RV 443, para flautim, de Antonio Vivaldi, consta entre as minhas músicas prediletas. Uma bênção, um sopro único de ternura alegre e esperança tranquila. Boa recuperação!
Balada de amor e mortificação

De outra divisão da casa, chegam os ecos da canção If Tomorrow Never Comes, de Garth Brooks. Costumo arremedá-la. Não sei cantar, mas gosto de cantar. Também não sei dançar, e gosto de dançar. Gosto também de pesquisar… Pelos anos oitenta, interessei-me pela música country. Talvez me proponha a repescar uma ou outra canção de grata memória. If Tomorrow Never Comes é uma canção lamechas, ao jeito da música country. Não deixa de convocar um sentimento que não é insólito: amar e saber-se mortal. Resulta, contudo, pouco recomendável a um jejum de horas à espera de uma ecografia.
Uma criança no balde do lixo
Às vezes, uma simples ideia vale, por si só, quase tudo. Com o risco, aliás, de ofuscar o resto. A figura de uma criança entrincheirada num balde do lixo para defender a reciclagem dos resíduos é quase um ovo de Colombo em termos de sensibilização publicitária. Por um tempo, quando pensar em reciclagem, acudirá esta imagem que, inspirada, dispensa grande elaboração.


