A nobreza da arte
“Nunca confunda movimento com acção” (Ernest Hemingway).
No dia 21 e 22 de Abril ocorreu a 5.ª edição da Escola da Primavera do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura. Este ano, o destino foi Amarante. Estranharam alguns colegas e alunos não os ter acompanhado. Na semana anterior, a família visitou a Escócia. Também não a acompanhei. Por quê? Só a estrita obrigação me impele a viajar. Os tempos e as circunstâncias transformaram-me num eremita, que apenas se desloca de eremitério para eremitério: de Braga para Moledo e de Moledo para Braga; de Braga para Melgaço e de Melgaço para Braga. Pareço, cada vez mais, o Nero Wolfe. A cada um as suas taras e moléstias. Esta eremitagem resulta penalizadora. Para que serve a quietude nesta vertigem pirotécnica? Vale, curiosamente, a globalização: se Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé. Nenhum sábio me convence que o movimento das ideias e dos corpos coincidem. Tomados pela ultraburocracia e pela estereotipificação quotidiana, arriscamos, imprudentemente, a mais inumana das sociedades humanas. Tornamo-nos indiferentes à diferença. Numa época “empoderada” por tantos recursos, parecemos serigrafias saídas da Factory de Andy Warhol.
Em casa conhecem os meus gostos de cor e salteado. Das viagens, trazem-me originalidades que encantam. Em Edimburgo, a minha companheira e o meu rapaz mais novo tiraram estas fotografias na Galeria Nacional da Escócia. Um quadro com quadros de Willem van Haecht: Art Cabinet with Anthony van Dyck’s ‘Mystic Marriage of St Catherine’, datado de 1630. Acertaram no alvo! Desconhecia a obra e o autor, um bom auspício. Por outro lado, interessa-me a história da exposição das obras de arte, desde os templos antigos até à Internet, passando pelas colecções privadas, pelos museus, pelas galerias e pelas reprografias.

Willem van Haecht: Gabinete de Arte com o Casamento Místico de Sta. Catarina de Anthony van Dyck. 1630.
Willem van Haecht (1593-1637), natural de Antuérpia, retrata, com minúcia e detalhe, a exibição de obras de arte no interior de espaços privados (kunstkamers: salas de arte). A sua obra coincide com o auge das coleções que prenunciam, de algum modo, a criação dos museus no séc. XVIII: o British Museum, em 1753; o Museu Pio-Clementino, no Vaticano, em 1771; a Galleria degli Ufizzi, em Florença, em 1779; e o Louvre, em Paris, em 1793. Não são raros os museus que têm origem em coleções privadas.
Willem van Haecht concebeu várias “naturezas mortas com obras de arte”. Mas não foi o único, nem sequer o primeiro. Jan Brueghel, o Velho, nascido em 1568 em Bruxelas e falecido em 1625 em Antuérpia (1568-1625), e Frans Francken, natural de Antuérpia (1581-1642), anteciparam-se meia dúzia de anos (ver figuras ). Não obstante, Willem van Haecht destaca-se neste género de pintura.
- Peter Paul Rubens & Jan Brueghel, o Velho. Alegoria da Visão e do Cheiro. 1618.
- Jan Brueghel (I), Hendrick van Balen e Gerard Seghers. Alegoria da Vista e do Cheiro. 1620.
- Frans Francken the Younger, Uma Colecção, 1619,
- Frans Francken, o Jovem. Gabinete de Amador. 1620-25.
Willem van Haecht nasceu numa família de pintores. O pai, Tobias Verhaecht, foi professor de Rubens. Entre 1615 e 1626, trabalhou em Paris e na Itália. Em 1928, assume a curadoria da coleção de arte de Cornelis van der Geest, mercador de especiarias, colecionador e mecenas de arte, patrono de Peter Paul Rubens.
Inspirado na colecção de Cornelis van der Geest, Willem van Haecht entrega-se à pintura de quadros de quadros, acompanhados por esculturas e “curiosidades”. filhos da imaginação, constituem alegorias intertextuais saturadas de citações, referências, alusões e segredos. As personagens são, contudo, reais, bem como os quadros.
Na Galeria de Cornelis van des Geest (1628), as personagens são identificáveis. Em baixo à esquerda, está sentada a Infanta Isabel Clara de Espanha, na companhia do Arquiduque Alberto da Áustria, do pintor Peter Paul Rubens e do Príncipe Wladyslaw Vasa da Polónia. O anfitrião, Cornelis van des Geest, aponta para um quadro. Do “catálogo”, constam obras de Ticiano, Antony van Dick, Guido Reni, Francesco Albani, Rubens, Dürer, Jan Brueghel, o Velho, Quentin Metsys ou Correggio, um sortido de artistas actualmente célebres (para uma identificação mais detalhada dos quadros expostos na Galeria de Cornelis van des Geest, consultar Deprouw-Augustin, Stéphanie, La devinette de Willem van Haecht: https://deprouw.fr/blog/la-devinette-de-willem-van-haecht/).
A Wikimedia Commons proporciona uma identificação interactiva das obras constantes no quadro Apeles pintando Campaspe (ca. 1630). Para aceder, carregar na figura acima.
Por seu turno, a página Howling Pixel (https://howlingpixel.com/wiki/Cornelis_van_der_Geest), assinala e ilustra as obras reproduzidas, e, por vezes, repetidas, no conjunto nos três quadros com “gabinetes de arte” da autoria de Willem van Haecht.
As pinturas de salas de arte configuram um misto de realidade e fantasia. O quadro O arquiduque Leopoldo Guilherme em sua galeria de pinturas em Bruxelas, de David Teniers (nascido em Antuérpia no ano de 1610) talvez represente uma excepção. Alguns destes quadros eram enviados a outras pessoas como testemunhos, senão catálogos.

David Teniers (II). A Galeria do Arquiduque Leopoldo em Bruxelas. 1651.
“En este caso, personajes y obras convierten a esta pintura en uno de los pocos ejemplos donde se muestra una colección concreta y existente, por lo que puede definirse como un cuadro- catálogo que exhibe las riquezas pictóricas atesoradas por el archiduque en el palacio de Bruselas. En el repertorio predominan los cuadros italianos, pero los pocos flamencos tienen gran importancia conceptual y simbólica. A la izquierda, San Lucas pintando a la Virgen de Jan Gossaert (1478-1532) identifica la procedencia artística de Teniers, mientras que el Retrato de Isabel Clara Eugenia por Anton van Dyck (1599-1641), a la derecha, alude a la posición de Leopoldo como heredero del gobierno de Bruselas. No cabe en esta representación la idea de búsqueda de ennoblecimiento común a otras galerías -Leopoldo era por nacimiento un miembro de los Habsburgo, que se muestra con símbolos habituales de poder como la espada y los perros-, pero sí subyace en ella la justificación del poder principesco mediante el disfrute de una exquisita colección de pinturas, que el archiduque era capaz de apreciar por sí mismo, como evidencia su mirada hacia la Santa Margarita de Rafael.
A mediados del siglo XVII la pintura había triunfado ya sobre las demás artes y era el principal elemento de representación cortesana, por encima incluso de las armas. El poder de un príncipe no se medía exclusivamente por el valor militar, sino también por su gusto y su afición pictórica. Teniers realizó para Leopoldo varias obras similares que fueron enviadas a distintas cortes para impresionar por sus virtudes como aficionado artístico y por la magnificencia de sus tesoros pictóricos. En ese sentido, al remitir a Felipe IV esta obra al poco de ser realizada, el archiduque parece que quiso homenajear a su tío como aficionado a la pintura italiana,imitando las colecciones del Alcázar de Madrid; pero quizá también retarle, al mostrar cómo las guardadas en el palacio de Bruselas podían competir con ellas (Texto extractado de Pérez Preciado, J. J. en: El arte del poder. La Real Armería y el retrato de corte, Museo Nacional del Prado, 2010, p. 126).” (Museo del Prado: https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/el-archiduque-leopoldo-guillermo-en-su-galeria-de/461e64f1-71a3-46fb-961b-3958286a12c5).
Este artigo começou com uma fotografia tirada na Galeria Nacional da Escócia e derivou para Antuérpia. Manhas do destino. Um destes dias vou a Antuérpia, não para ver a casa de Rubens, mas para visitar o meu rapaz mais velho. A deslocação parada é uma conquista do século séc. XX, mas ainda tem algumas falhas.
A pedreira das luzes
Em Baux de Provence, em França, uma pedreira de calcário branco foi transformada num espaço museológico imersivo que acolhe exposições de obras de arte: a Carrière de Lumières. Com técnicas avançadas de projecção, as paredes, num total de 4 000 m2, animam-se com imagens gigantescas, algumas em movimento. Pela Carrières de Lumières, já passaram Paul Cézanne, em 2006, Vincent Van Gogh, em 2008, Pablo Picasso, 2009… Uma exposição com Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel e Giuseppe Arcimboldo está patente até 07 de Janeiro de 2018. Um ramalhete fantástico, acompanhado pela música de Vivaldi e dos Led Zeppelin. Um espectáculo empolgante. “Os franceses não têm petróleo, mas têm ideias”. Obrigado, Adélia!
Bosch, Bruegel e Arcimboldo. Carrières de Lumières. 2017
O carnaval dos alimentos
No dia 25 de Outubro de 2017, o V&A Museum of Childhood, de Londres, promoveu um evento delicioso. Organizou um banquete digno das fantasias infantis: nuvens com sabor a ananás, bolhas de ar feitas com vegetais e muitas outras surpresas, tais como embalagens, cartazes e postais comestíveis.
O postal comestível não é novidade. Existem empresas especializadas, como, por exemplo, a marselhesa Cracocarte. Abordo o tema dos postais comestíveis num capítulo de um livro em que colaborei (Postais Ilustrados: Textura e Sensibilidade, in Martins, Moisés de Lemos & Oliveira Madalena, Postal a Postal, Centro de Estudos Comunicação e Sociedade, 2011. pp. 109-119)
“Visão, tato, audição e olfato. Falta o paladar. Assim como não há “tele-olfato”, também não há “tele-paladar”, nem e-cards comestíveis. Mas há, em contrapartida, bilhetes postais muito saborosos. Postais com uma face em chocolate ou bombom podem ser encomendados pela internet. Para crianças e para adultos. Por exemplo, as cracocartes propostas pelo site http://www.bonbonsgourmands.fr custam 3,60 euros, pesam 12gr., medem 17x12cm., o lado da imagem é comestível e no verso pode redigir-se uma mensagem. Em Portugal, o Festival Internacional de Óbidos propôs “um produto inovador e no mínimo original: bilhetes postais com chocolate”, conforme menciona Madalena Oliveira no post de 12 de março de 2009.
O bilhete postal tem marcado a nossa relação com a imagem e com o mundo, estendendo a sua influência a várias atividades, tais como a arte, a publicidade e, até, a pastelaria. Se o postal ilustrado se cobre de calorias, os bolos (de aniversário, de primeira comunhão e de casamento) adoptam, cada vez mais, o formato do bilhete postal. “As coisas mimosas ao paladar”sempre se prestaram à reciprocidade.
“O postal ilustrado tem duas faces – a frente e o verso. E é um objeto tátil, com uma textura e uma memória, entre o mesmo e o outro, o longínquo e o próximo”, conforme anota Moisés de Lemos Martins no post de 25 de abril de 2010. Textura e sensibilidade. Em papel, ou noutra matéria qualquer, o postal ilustrado é uma paleta de sentidos: de significados, de sensações e de sentimentos. A sua textura alberga um “não-sei-quê” (Jankélévitch, 1980) que franqueia a personalização e um “quase-nada” onde cabe o infinito. Do mais vulgar ao mais criativo, no postal ilustrado também mora o ser humano” (pp. 117-118).
Anunciante: V&A Museum of Childhood. Título: Edible Exhibition. Agência: AMV BBDO (London). Reino Unido, Outubro 2017.
“Parents of kids who are fussy eaters will know: the best way to get them to try new foods is to spark their interest in it. So, to get kids playing with their fruit and vegetables, London’s V&A Museum of Childhood held an “Edible Exhibition” last weekend in a collaboration with agency AMV BBDO, foodie creative company Bompas & Parr and illustrator at Blink Art, Rob Flowers.
At a free food workshop earlier this year, over 100 children were given the chance to use their imagination and invent their ultimate food fantasies. Six winning designs were then selected and turned into reality with the help of Bompas & Parr. They included glow-in-the-dark ice cream made from carrots, edible bubbles made from broccoli and cucumber and a “parsnip tornado.”
Rob Flowers helped bring the “Edible Exhibition” to life with a series of posters and invitations for AMV BBDO that were also entirely edible. Every aspect of the printing process, from edible paper to the multi-flavored inks, was custom-made for the exhibition in collaboration with Bompas & Parr. The posters went on display at the museum and visitors could take away postcards to eat for themselves.
The exhibit took over a year to create, according to Neil Clarke, copywriter at AMV BBDO who came up with the idea alongside his creative partner, art director Jay Phillips. “There was a lot of trial and error. But it was an amazing experience, and we all felt like kids again making it” (Editors).
Os Indígenas do Paraíso Perdido
Uma bela natureza num belo filme. Todos ansiamos pelo paraíso perdido. Para os lados da Mongólia, existem dois indígenas munidos de instagram para salvaguarda ecológica. Lembram os “embaixadores” das colónias na Grande Exposição do Mundo Português, de 1940, o álbum Tintin no Gongo, o livro A Nação nas malhas da sua identidade, de Luís Cunha, e o filme Os Deuses Devem Estar Loucos. Águas passadas movem moinhos; a nossa atracção pelo genuíno, pelo outro idealizado, também. A figura do indígena guardião da natureza, que com ela quase se confunde, é recorrente na publicidade.
Marca: Crosscall. Título: Nature’s eyes. Agência: Leo Burnett. Direcção: Fabien Ecochard. França, Março 2017.
A Grande Exposição do Mundo Português (1940). Realizador: António Lopes Ribeiro.
Públicos da Arte

O anúncio Art Gallery, da Sportsbet Multi Builder, é uma paródia da arte, designadamente da recepção e da avaliação das obras de arte pelos públicos. Trata-se de um tema recorrente. Recordo Mr. Bean às voltas com o quadro Whistler’s mother, o ministro russo que, após visitar o Ocidente, regressa encantado com a arte de fazer arte com lixo (Rafael Pividal, Pays Sages, 1977). Humor à parte, destaque-se, também, a investigação de Pierre Bourdieu sobre os públicos da arte: L’Amour de l’Art (1966) e Un Art Moyen (1965).
Marca: Sporsbet. Título: Art Gallery. Agência: Sportsbet Creative Team supported by DPR&Co. Direcção: Dave Wood. Austrália, Julho 2016.





















