A Semente e o Caroço

Sexta 18, desloquei-me a Melgaço para os Serões dos Medos. Parti de Braga com o receio de um decréscimo da afluência e da participação do público. O tema, possessões e bruxarias, parecia apontar nesse sentido.
Os acompanhamentos noturnos, em 2022, e os prenúncios de morte, em 2023, remetiam para fenómenos e protagonistas do Além, sobretudo do mundo dos mortos. Os vivos eram meras testemunhas, quando muito vítimas, nos casos raros de acompanhamentos mais “agressivos”. As possessões e as bruxarias podem comportar uma marca surreal, mas pertencem a este mundo, o dos vivos. São agenciadas e experienciadas “aquém” por “nós”. Acontece com os exorcismos, os esconjuros, as bruxarias e os feitiços. Mobilizamo-nos para combater o mal presente, os espíritos e os sortilégios. Acredita-se, recorre-se e (per)segue-se. Benzemos, salgamos e queimamos. Experiências pessoais dramáticas e íntimas, que exigem reserva e segredo. A própria palavra faz parte do fenómeno. Não admira que se observe uma propensão para o silêncio, para ocultar estes fenómenos e experiências.
Serões dos Medos 2024. Exposição de cartazes e imagens de filmes




O receio da falta de público depressa se dissipou. O número de pré-inscrições depressa superou as expectativas mais optimistas. Voltou a ser necessário alterar os planos. Tínhamos previsto um espaço a condizer com a afluência do ano anterior. Decorado a preceito, incluía uma “instalação” e uma exposição de cartazes e imagens de filmes emblemáticos provenientes do Museu do Cinema. Tivemos, porém, que prescindir dessa solução. Impunha-se o recurso ao auditório.
Mal acabou a intervenção introdutória do Luís Cunha, o público não se fez rogado; a eventualidade de uma retração suplementar desvaneceu-se. O ambiente de confiança e partilha, com empatia e respeito, depressa se aproximou do nível dos encontros precedentes. Interessadas e envolvidas, as pessoas sentiram-se suficientemente à vontade para intervir e se abrir. E, embora o tema fosse mais delicado, não faltaram testemunhos na primeira pessoa. Sucederam-se momentos mental e emocionalmente únicos e densos cuja dinâmica rondou, por vezes, a terapia social.
A conversa terminou perto da meia noite. Duas horas e meia bem passadas que não esgotaram a matéria, nem o interesse ou a disponibilidade para continuar o diálogo. Os derradeiros momentos não representaram um fecho ou uma conclusão, mas antes abertura e, de algum modo, antecipação. Surpreenderam-se casos suscetíveis de inspirar e animar a próxima edição, esboçando novos mapas, caminhos e companhias. Ficou a porta aberta!
Serões dos Medos 2024. Auditório




Saio sempre destas moderações com a impressão desconfortável de que, por vezes, teria ganho em falar menos. Calado, os outros teriam desfrutado de mais tempo e oportunidade para intervir. Iludo-me, contudo, com algumas dúvidas acerca desta mecânica da comunicação. As ideias e a respetiva circulação não obedecem ao princípio dos vasos comunicantes nem relevam da geração espontânea. Carecem de motivação e orientação. Importa, por exemplo, complementar uma dada intervenção, para a reconhecer e valorizar; sugerir tópicos, para sondar e estimular novos contributos; matizar, para evitar desequilíbrios, por exemplo, nem só ciência, nem só crença. Pode ainda resultar útil introduzir quebras de pausa e descontração, para restauro e relançamento. Certo é que não ocorreram vazios a preencher ou disfarçar. A palavra nem sempre é excesso e ainda menos desperdício. Como diria John Langshaw Austin, as palavras ajudam a fazer, a acontecer.
De qualquer modo, o incómodo desta autocrítica acaba por ser um bom sinal. Sinal da qualidade e da potencialidade do protagonismo da assistência. O que é deveras importante. O sucesso dos Serões dos Medos deve-se principalmente à adesão e ao desempenho do público. Acresce um bom augúrio: a presença de jovens é cada vez mais expressiva.
É um desafio aliciante e um prazer imenso trabalhar com a equipa responsável pelos Serões dos Medos. Precisamente a mesma do Cortejo Histórico, de há dois meses, e do Boletim Cultural, que, já impresso, aguarda o lançamento.
Após quarenta anos de academismos, sabe bem trabalhar assim, a criar, plantar e regar sementes em vez de engolir caroços. A colaboração com o Município de Melgaço tem praticamente a mesma antiguidade. O que é obra, atendendo ao meu instinto de borboleta e à diversidade de jardins de tentação.
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Acontece não me inclinar para nenhum tipo de música em particular. Clássica, pop, rock, blues ou jazz, vocal ou instrumental, rimada ou melodiosa, tanto faz! Tiro à sorte das prateleiras dos CDs. Seja qual for o eleito, pelo menos gostei dele quando o adquiri. Calhou uma coletânea de baladas do duo sueco Roxette. À vocalista, Marie Fredriksson, foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral em 2002. Faleceu em 2019 com 61 anos de idade. Seguem quatro hits: A Thing About You; It Must Have Been Love; Listen To Your Heart; e Queen Of Rain. Escrevi o presente texto a escutar estas canções. Não condiz a letra com a caneta. Ditosa incongruência!
Os Serões dos Medos. Noite dos Medos Melgaço 2024

Avec son air très naturel, le surnaturel nous entoure / Com o seu ar muito natural, o sobrenatural rodeia-nos (Jules Supervielle. Le Jeune Homme du Dimanche. 1952)

Os serões dos medos dos últimos anos foram fantásticos, inesquecíveis. Graças à afluência e participação do público que os animou e enriqueceu com os seus conhecimentos e testemunhos pessoais. Depois de “Coisas do outro mundo”, em 2022, e “Prenúncios de Morte”, em 2023, o tema deste ano, “Possessões & bruxarias”, também promete. A conversa terá início às 21 horas do dia 18 de outubro na Casa da Cultura. Acresce o valor e o prazer da companhia do colega e amigo Luís Cunha.
Em Coisas do Outro Mundo. 2022
Segue, em pdf, o programa da Noite dos Medos 2024, acompanhado por duas interpretações da canção Ronda das Mafarricas: a original do José Afonso e a versão dos Moura, da Corunha.
Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

As coisas que temos de aprender antes de fazer, aprendemo-las fazendo-as – por exemplo, os homens se tornam construtores construindo, e se tornam citaristas tocando cítara; da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente, e corajosos agindo corajosamente (Aristóteles. Ética a Nicômacos. Livro II, 1103b. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília, Editora Universidade de Brunia, 1985).

Dos temas para o cortejo histórico de Melgaço de 2024, a lenda da Senhora da Orada foi o primeiro a surgir, tendo sido adotado sem hesitação.
Convocava, antes de mais, um notável património cultural imaterial exclusivo do concelho.
Mas também envolvia vários elementos importantes do património histórico material local. A inserção no cortejo permitiria divulgá-los.
Fotografia – Miguel Bandeira
Por outro lado, reunia potencialidades de caraterização, encenação e interpretação suscetíveis de interessar, atrair e entusiasmar tanto os participantes como os espetadores.
Por último, tanto a distribuição por determinadas freguesias como a respetiva adesão e empenho não comportavam incertezas e obstáculos relevantes.

Antiga, a lenda da Senhora da Orada tem raízes seculares. Remete para um surto de peste ocorrido no século XVI. Embora associada à respetiva capela em Melgaço, o enredo envolve populações de outros concelhos.
Segue uma reprodução integral da lenda, precedida por um breve resumo:
Em 1569, grassava a peste. Tomé, alcunhado o Vira-pipas por andar sempre alcoolizado, cuidava da capela da Senhora da Orada. Certa manhã, surpreendeu-o a ausência da imagem da Senhora. Tê-la-iam roubado? À noitinha, voltou com um amigo para testemunhar o incidente; a Senhora estava, para sua surpresa, no seu lugar. O Vira-pipas até deixou de beber, mas o fenómeno repetia-se: a Senhora ausentava-se de madrugada e regressava ao anoitecer. Temendo o ridículo, guardou segredo.
Entretanto, a uma vintena de km, em Riba do Mouro, apareceu uma dama que se empenhava a cuidar dos doentes. Vinha de manhã e despedia-se ao anoitecer. Passada a epidemia, constatou-se a inexistência de vítimas na freguesia e reconheceu-se a semelhança entre a dita dama e a imagem da Senhora da Orada.
Os testemunhos do Vira-pipas e de Riba de Mouro cruzam-se. Tudo aponta para a intercessão milagrosa da Santa. Como agradecimento, o povo de Riba de Mouro compromete-se a vir todos os anos em clamor à capela da Senhora da Orada.
Lenda da Senhora da Ourada
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Esta lenda envolve um património material histórico notável.
Em primeiro lugar, a capela, um monumento nacional de estilo tardo-românico, cuja construção teve início em 1245, em local onde, presumivelmente, já existia um eremitério, referido em documento de 1220. Em 1166, a Orada já é mencionado numa “doação a favor do Mosteiro de Fiães pela Condessa Froila [Fronilla]”:
Fotografia: Miguel Bandeira
A Condeça Dona Fronilla deu a este Mosteiro, & ao seu Abbade João em Janeiro do anno 1166, a quinta de Cavalleiros junto de Melgaço, cousa boa, particularmente de vinhas : & entendemos que com ella lhe daria tambem a Igreja de Nossa Senhora da Oráda alli pegado, que os Frades dizem foy Mosteiro de S. Bento, & fundado quando se edificou o de Feaens, de que veyo a ser Priorado : outros dizem (o que tenho por mais certo, & alguns sinaes mostra para isso) que foy de Cavalleiros Templarios, de que esta quinta tomou o nome, & era passal seu. Pouco ha se lhe vião ruínas de cellas, claustros, & canos de pedra, pelos quaes lhe vinha agua (P. Antonio Carvalho da Costa, Corografia Portugueza, e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal,Tomo Primeiro, 1ª edição em 1706, 2ª edição, Braga, Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, 1868. p. 259).
Válter Alves, a propósito da proveniência e significado do nome Orada, releva um número apreciável de referências à palavra em documentos dos séculos XII e XIII [As origens da Orada (Melgaço) – algumas notas para discussão, Melgaço, entre o Minho e a Serra: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2023/08/as-origens-da-orada-melgaco-algumas.html%5D.

Próximo da capela, com uma vista ampla sobre o rio Minho, ergue-se o Cruzeiro da Orada: “Datado de 1567 ele é um ex-voto dos melgacenses daquela era, ali colocado naquele ano de peste, para agradecer a Deus ter poupado Melgaço aos seus horrores ou a pedir um Pai nosso por alma dos ceifados por ela nestas redondezas” [Obras completas de Augusto César Esteves. Vol. I. Tomo 2. Melgaço: Câmara Municipal de Melgaço, p. 552]. Repare-se que a construção deste cruzeiro precede dois anos a data apontada na lenda.
Perto, situa-se a pequena capela de São Julião. “As primeiras referências ao edifício datam da primeira metade do século XIII e indicam que, neste local, ou anexo a ele, existia uma gafaria, que funcionava como local de acolhimento no caminho entre a vila de Melgaço e a ermida de Nossa Senhora da Orada” (https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=73898). Destinado a leprosos (denominados também gafos ou lázaros), ter-se-ia chamado Hospital de São Gião (A Gafaria de Melgaço. melgaçodomonteàribeira, 06.04.13: https://iasousa.blogs.sapo.pt/99284.html).




Por razões práticas e simbólicas, os edifícios religiosos e as gafarias costumavam localizar-se junto a nascentes e cursos de água. Entre as capelas da Nossa Senhora da Orada e de São Julião existe uma nascente cuja importância justificou a construção de uma fonte imponente na segunda metade do século XVIII. Terminada em 1780, foi financiada por João Pedro de Sá, juiz de fora de Melgaço, com o apoio de vários donativos de famílias aristocráticas locais. Com uma planta retangular e corpo de cantaria de granito, o espaldar, de estilo barroco, apresenta-se generosamente decorado. Conhecida como fonte de São João, foi transferida em 1903 para a atual Praça da República.

O antigo e o atual lugares da fonte de São João, a capela de São Julião, a capela e o cruzeiro da Orada estão interligados por um percurso curto, fácil e agradável, que ganharia, no meu entendimento, em ser promovido como um trilho temático.

A devoção à Nossa Senhora da Orada estende-se de Norte a Sul de Portugal, do Alto Minho ao Algarve. Existem, por exemplo, santuários em Vieira do Minho e São Vicente da Beira, igrejas em Sanfins, Sousel e Borba, capelas em Cabeceiras de Basto e Ferreira do Zêzere e uma ermida em Albufeira. A capela da Senhora da Orada de Melgaço é, contudo, a mais antiga.
Fotografia – Município
Também coexistem diversas lendas. Mas muito distintas da lenda de Melgaço. Por exemplo, Vieira do Minho e São Vicente da Beira partilham uma mesma lenda, que envolve meninas inocentes e serpentes:
Uma jovem surda-muda que de um dia para outro começou a crescer-lhe a barriga, tudo fazendo crer que estava grávida (…) Como não era casada, a jovem foi fortemente condenada pela comunidade e pelos pais, que não hesitaram em castigá-la severamente. A jovem, que por ser muda, não se podia defender, foi expulsa de casa dos seus pais e levada para um bosque fora da povoação, onde se situa hoje o santuário da Senhora da Orada. Neste degredo e perante o desespero, a jovem suplicava noite e dia pela proteção divina. No meio desta angustiante súplica de oração, apareceu-lhe Nossa Senhora que mandou a jovem procurar um recipiente e um pouco de leite e se debruçasse sobre ele. Nesse instante saiu pela boca uma enorme cobra, que tinha sido ingerida pequenina quando a jovem bebeu água num riacho. (…) Para a jovem, e depois para a comunidade, isto foi considerado um milagre. A rapariga foi perdoada e regressou para casa. Querendo saber como poderia agradecer tal benesse, Nossa Senhora voltou a aparecer à jovem surda-muda e pediu-lhe que lhe construíssem uma capela onde tinha acontecido o milagre (José Carlos Ferreira, Francisco de Assis, Património de Vieira, Vieira do Minho, Câmara Municipal de Vieira do Minho e Empresa do Diário do Minho, Lda, 2007, pp. 212 – 213).

Na Festa das Papas de Gondiães, em Cabeceiras de Basto, a narrativa que justifica a celebração resulta homóloga à da Senhora da Orada de Melgaço. O motivo é o mesmo, a salvação da peste, também se admite a intercessão divina e se assime um compromisso anual. Só que o santo é outro, São Sebastião, por sinal o mais invocado contra a peste. Por outro lado, o enredo resulta pobre, praticamente inexistente, e a ação de graças consiste, em vez de um clamor, num banquete, ao ar livre, oferecido a todos aqueles que comparecem no dia do santo, 20 de janeiro. Em Ferreira do Zêzere, no dia da festa da Senhora da Orada também se oferecia um jantar, custeado pela confraria, mas limitado aos pobres.
Em suma, a lenda da Senhora da Orada, além de original, vincula-se a um contexto e a um património histórico e cultural singulares, únicos.


Curiosamente, a lenda da Senhora da Orada de Melgaço alude explicitamente apenas à freguesia de Riba de Mouro. Se é verdade que esta população honrou o compromisso, cumprindo ano após ano, século após século, a promessa (até meados dos anos cinquenta), este destaque pode induzir em erro. Como o reconhece o Padre Bernardo Pintor, pároco da freguesia, já naquele tempo, os clamores à Senhora da Orada abundavam dentro e fora do concelho de Melgaço.
| À Senhora da Orada afluíam clamores de penitência de várias freguesias. (…) No primeiro quartel do nosso século ainda se realizavam os clamores das freguesias mais próximas da vila. Com várias intermitências vieram a terminar durante o segundo quartel deste século. De todos esses antigos clamores, houve um que ultrapassou o meio deste século. Foi o de Riba de Mouro, freguesia do antigo concelho de Valadares e agora de Monção. As freguesias de Melgaço realizavam os seus clamores na Quinta Feira da Ascensão, dia santo de guarda e feriado municipal, e Riba de Mouro sempre teimou em ir à Senhora da Orada na Segunda Feira do Espírito Santo com o seu clamor independente, a que se associava muita gente da vila em gesto de simpatia. No mesmo dia realiza-se em Rouças a festa de Santa Rita, cujo santuário se desenvolveu nos últimos tempos atraindo o povo da Vila. Riba de Mouro, terra distante, começou em 1954 a fazer o clamor da Senhora da Orada no Santuário de Santo António de Val-de-Poldros, da mesma freguesia, continuando ainda a promovê-lo, embora em data diferente.´ A peste a que se refere Frei Agostinho de Santa Maria deve ser qualquer das epidemias da segunda metade do século XVI. Três grandes epidemias grassaram em Lisboa e se estenderam ao país inteiro: a de 1568-69 que deu origem à festa da Senhora da Saúde que ainda se realiza em Lisboa com carácter oficial, a de 1579 e a de 1598-99 que de novo se ateou no fim de 1599 e se prologou até 1602. De todas a maior foi a primeira e a menor a segunda.” (P.e M. A. Bernardo Pintor, Melgaço Medieval, s.l., [Comp. e imp. nas ofic. gráf. Augusto Costa & C.a, L.da], 1975, pp. 117-118) |
A peste não era, naturalmente, o único motivo para a realização de clamores. Os santos costumam prestar-se a diversos usos. São polivalentes.
“A Imagem da Senhora (…) que agora exise he muito devota, & de perfeytissima escultura, tem ao Menino Deos sobre o braço esquerdo, & tem cinco palmos de estatura; he de madeyra com as roupas estofadas de outo. He muito milagrosa, & como tal he buscada, & invocada da devoção dos fieis, os quaes por sua intercessão alcanção de seu Santissimo Filho, o que justamente pretendem. A este Santuario, desde o dia da Ascenção do Senhor até a festa do Espirito Santo vão em romarias as mais das Freguesias da Villa de Monçaõ, & do seu termo, a offerecer o residuo do cirio Paschal, & acompanha a procissão ao menos huma pessoa de cada Casa, com os seus Parochos, & isto por voto antigamente fizeraõ em tempo de huma grande peste, de que ficou preservada a mesma Villa, & as Freguesias do seu termo, as quaes fizeraõ o referido voto; & tambem muytas Freguesias do termo de Valadares, & todas as do termo de Melgaço , vaõ em procissaõ à Senhora e no mesmo tempo, humas por devoçaõ, & muytas por voto, com clamores, & procissaõ ao mesmo Santuario, para implorar da Senhora favores do Ceo. E tambem em tempo que se necessita de Sol, ou de chuva, vaõ muytas Freguesias em procissaõ com ladainhas, a pedir à Senhora os soccorra; o que com evidencias experimentão, porque esta misericordiosa Senhora lhes alcança logo os bons despachos de tudo o que pedem” (Frei Agostinho de Santa Maria (1712) – Santuário mariano, e história das imags milagrosas de Nossa Senhora… Tomo IV, Oficinas de António Pedrozo Galram, Lisboa, 1712, p. 251).

Esta devoção e esta polivalência observada por Frei Agostinho de Santa Maria em 1712, prossegue, como sustenta Válter Alves, nos séculos seguintes:
“Diga-se que a devoção à Nossa Senhora da Orada continuava viva e socorremo-nos de alguns episódios que o comprovam. Em anos de crise agrícola, o concelho vinha em procissão à capela pedir proteção e implorar socorro divino. Assim aconteceu em 1760, devido ao rigor da chuva, bem como em 1768, ou em 1778 por causa da estiagem. Lá foi também depois do sismo de 31 de Março de 1761, onde toda a comunidade foi descalça, com cordas ao pescoço e coroas de espinho na cabeça” (As origens da Orada (Melgaço) – algumas notas para discussão: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2023/08/as-origens-da-orada-melgaco-algumas.html).
Na primeira metade do século XX, ainda era concorrida a romaria. Por vezes, os ânimos exaltavam-se em demasia, como aconteceu nesta espécie de “luta sacerdotal pelo pálio” durante um clamor proveniente da freguesia de Roussas.

Apesar da proibição formal pelo governo desde 1940, os clamores continuaram a realizar-se nas áreas mais rurais e tradicionais. Em 1950, o clamor de Riba de Mouro à Senhora da Orada ainda é notícia. Digna de nota é, neste contexto, a prévia autorização da realização de clamores no ano seguinte por parte do Arcebispo Primaz de Braga (reproduzo a página inteira do jornal porque inclui dois temas passíveis de interessar: “Apreensão do rebanho de Portelinha” e “Pelo Hospital”; carregar na imagem seguinte para aumentar).

Entre os séculos XIV e XVIII, os dois cavaleiros do Apocalipse mais proeminentes foram a Peste e a Morte. Como cantam os Aguaviva, a Morte era a única a vencer a Peste. Um “castigo de Deus” que só a interferência sagrada podia aliviar. O ser humano nunca viveu tão rodeado e obcecado pela Morte. Aliás, o medo da Morte chegou, porventura, a ofuscar o do Diabo. Assim o revela, pelo menos, a arte daquela época.
Tal como as fotografias e os postais constituíram o principal recurso para caraterizar ambientes, personagens, adereços e atividades respeitantes às Termas do Peso, no caso da lepra e da peste socorremo-nos de pinturas e gravuras da época.
Galeria com imagens da peste



















Sobre a peste e a lepra pouco há acrescentar que estas imagens não expressem: promiscuidade, desespero e triunfo da morte. Algumas até o cheiro pestilento, nauseabundo e inevitável, conseguem sugerir. O último grande surto de peste, a “gripe espanhola” (a variante pneumónica), ocorreu há um século, em 1918 e 1919. A peste e a lepra ainda existem em alguns países, mas já são curáveis.

No cortejo histórico praticamente nada faltou. Incluiu leprosos e pestíferos, de todos os feitios, géneros e idades; médicos e curandeiros; guardas, clérigos e devotos; transeuntes, carregadores, condutores e cadáveres. Com carroça para transporte das vítimas, defumadores e ervas, amuletos, crucifixos e livros sagrados

A caraterização dos corpos degradados e da indumentária andrajosa não podia ser mais apropriada e expressiva. Acrescem os movimentos, as posturas e os gestos: deriva dos leprosos, condução penosa da carroça, vigilância dos guardas, cuidado dos monges e dos médicos, marcha arrastada dos pestíferos, queda de um idoso, curas, milagres, súplicas e um clamor devoto, adaptado pelo padre Rogério Rodrigues.

E a Santa, a Senhora da Orada? Um regalo do céu. Imaculada, graciosa e misericordiosa, zela pelo aflitos, imperturbável, sob um tórrido sol pagão. Com o Menino no colo, encantador, muito compenetrado e bem-comportado. À espera ou em movimento, sempre no momento e no sítio certos, discretos e atenciosos, a Mãe e o Filho iluminam o caminho e apaziguam as almas.

Quando sobra brio, vontade e inspiração, os desafios tornam-se estímulos e a obra faz-se. As juntas da União das Freguesia da Vila e Roussas, da União das Freguesias de Chaviães e Paços e da freguesia de Cristoval entraram com o pé direito nesta nova versão do Cortejo Histórico.
Por seu turno, os participantes souberam identificar-se com a lenda da Senhora da Ourada e partilhá-la. Incorporaram e vestiram as respetivas personagens como se estivessem mergulhados no flagelo de uma fatalidade irreversível. Apenas uma nota dissonante, por sinal gratificante: um brilho de alegria nos olhos e um sorriso de satisfação nos lábios. Quando se junta uma pitada de profissionalismo com a frescura voluntariosa do amador costuma soprar uma brisa agradável.
Despeço-me com uma galeria de fotografias e a convicção de que a maior recompensa de um autor, especialmente de um artista, é a sua obra.
Galeria com fotografias da Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024



















































A Economia do Sexo

Da frugalidade de género no anúncio do artigo precedente à prodigalidade generosa do sexo no presente.
Bajo el lema “El sexo reactiva la economía”, Zurda Agency y Tulipán presentan su nueva campaña. “Porque para concretar, generalmente arrancamos por una cita y para eso, hay que invertir. Ya sea en una buena cena, ropa nueva o un corte de pelo, todo suma. Pero en tiempos en donde gastar está más difícil que nunca, Tulipán salió al rescate”, explican desde la agencia.
Para esto, crearon una plataforma con descuentos y beneficios con más de veinte marcas de distintos rubros como gastronomía, moda, estética, delivery y entretenimiento, para que la gente disfrute de sus relaciones con responsabilidad, y de paso, mueva el consumo.
“Sabemos que en primavera la gente tiene más ganas de hacer planes y conocer personas. Pero también entendemos que, con la situación económica, no es tan sencillo. Por eso creamos una plataforma con beneficios en más de veinte marcas que cubre todos los momentos de una cita: desde la preparación con ropa y peluquería, pasando por la salida en sí –ya sea una cena, cine o un show– hasta el posible cierre en un albergue transitorio”, comentó Victoria Kopelowicz, directora de Tulipán (https://www.adlatina.com/publicidad/tulipan-zurda-y-retina-lanzan-una-plataforma-para-reactivar-la-economia-con-sexo).
Aventura na Casa do Tempo

Ontem à noite, estive na Casa do Tempo, em Cabeceiras de Basto. A sala estava cheia. Conversei como quem confidencia, durante hora e meia, de pé e à vontade. Sem trejeitos académicos. À medida que envelheço apercebo-me quão castradores da inteligência e da sensibilidade podem revelar-se os academismos. Ressalvando alguma reação a uma picardia, o público manteve-se em profundo silêncio. É verdade que o recurso a ideias e imagens surpreendentes e estranhas ajuda! De qualquer modo, o silêncio prolongado resulta raro. Tanto pode ser bom como mau sinal, traduzir interesse e concentração como enfado e evasão. Fiquei, contudo, com a impressão de ter sido compreendido. Aliàs, uma mensagem pode ser desconcertante sem ser aberrante. Acarinhado, com a sexta-feira dia 13 a acabar, despedi-me com vontade de voltar.
Acordei bem-disposto. Procurei nos arquivos uma música ou um anúncio a condizer. Eventualmente festivos. Encontrei ambos num simples vídeo: o Play It Safe, da Sydney Opera House com Tim Minchin.
Entre o Céu e a Terra

Hoje, sexta, vou fazer uma comunicação em Cabeceiras de Basto. Volvidos dez anos de um estudo, regresso à abordagem de quatro festas locais: Santa Senhorinha, São Bartolomeu de Cavez, São Sebastião das Papas e São Tiago das Bichas. Regresso, mas não repito. Prevejo uma conversa literária. Proponho-me imaginar imaginários. Receio falar pouco das festas e muito doutros assuntos. Vou falar demasiado e abusar das imagens. Noite de sexta-feira 13! Entre o Céu e o Inferno.
Paris: Esculturas e Jogos Olímpicos
Há muitos tempo que não me impressionava um anúncio com o conceito, o ritmo e o efeito do “Honor History, Create History”, da empresa chinesa Alibaba Cloud. Propõe uma conexão de ordens de realidade distintas através de uma série vertiginosa de decomposições, recomposições e justaposições. Simplesmente extraordinário! Lembra um anúncio antigo, igualmente chinês: “Statues”, da Skoda, de 2006. Não o encontro através dos motores de busca. Afortunadamente, guardei-o nos arquivos.
Entre o céu e a terra: festas e romarias de Cabeceiras de Basto. Tertúlia com Albertino Gonçalves
Carregar na imagem para aumentar.

A tertúlia terá como orador convidado o Doutor Albertino Gonçalves, professor aposentado da Universidade do Minho.
“As festas de Cabeceiras de Basto evidenciam um profundo enraizamento geográfico, histórico, religioso e estético. São Bartolomeu é inseparável da ponte, da fonte e da capela, tal como S. Tiago, do ribeiro das bichas. A feira de S. Miguel é um mar agitado de gente e a Festa das Papas um banquete comunitário com reminiscências pagãs, sob proteção de S. Sebastião. A festa de Santa Senhorinha remonta à fundação de Portugal e ocorre no mesmo local onde a Santa viveu e repousa. A estética, a arte de sentir em conjunto, acompanha, passo a passo, a procissão de velas da Senhora dos Remédios.”
Gonçalves, Albertino; Gonçalves, João. “Entre o céu e a terra: festas e romarias de Cabeceiras de Basto”. In Cabeceiras de Basto. História e património, 188-201. Cabeceiras de Basto, Portugal: Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, 2013
As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

Entre os primeiros temas a surgir, as Termas do Peso no início do século XX foi dos últimos a ser adotado. Apesar do inegável interesse, pela carga histórica, mas também como promessa para o futuro, receava-se que se revelasse demasiado difícil. Ao contrário dos outros temas, não se tratava de encenar um evento ou uma ação, mas um ambiente, que, por sinal, se repartia por cenários distintos: as fontes, o balneário, os hotéis, as festas, os bailes, os serões, os passeios…
O tema acabaria por vingar graças a vários argumentos decisivos.

Num início do Século XX de indigência e precariedade, as Termas do Peso constituíam um reduto de luxo, hedonismo e elegância reservado à elites, visitantes mas também locais, onde se ensaiavam iniciativas de progresso e, até, de vanguarda. Recorde-se a criação, em 1912, da empresa de transporte passageiros entre Melgaço a Valença e, em 1913, do cinematógrafo, ambos pelo Cícero Cândido Solheiro, “brasileiro” empreendedor e visionário.
Inestimável embaixadora do concelho, a estância termal atraía pessoas, muitas ilustres, que conhecedores, quando não estudiosos, do património local o divulgam. Não é só o mundo que vem a Melgaço, Melgaço também corre o mundo. Este duplo efeito de atração e expansão ainda não se dissipou por completo. Ainda sensibiliza muita gente, por via direta ou indireta. Nem todas as brasas se reduziram a cinzas, persistem, por experiência própria ou por contágio, fagulhas que podem tornar-se centelhas. Recorde-se, por exemplo, Manoel de Oliveira e o filme Viagem ao Princípio do Mundo, estreado em 1997. As memórias podem revelar-se mais resistentes do que as paredes do hotel Rocha.

Mas a história das Termas do Peso não se restringe aos visitantes. Convoca, também, os residentes que as promoveram, como o António Ranhada, ou que, em elevado número, as frequentaram, principalmente nos anos sessenta e setenta. Impôs-se como um local de encontro, convívio, lazer e desporto que deixou marcas indeléveis.
| Permito-me um parênteses com um testemunho pessoal para ilustrar a influência das termas na vida das pessoas. Enquanto jovem, frequentava regularmente as termas: jogava mini golf, ténis ou patela, andava de barco, convivia e pasmava a observar a vegetação, as trutas, as libelinhas e os meus semelhantes. Assisti, ainda, aos bailes no salão devoluto do Grande Hotel do Peso. Tive, assim, acesso a atividades invulgares numa sociedade rural. Íamos ao Peso em grupo por atalhos através dos campos. Pelo caminho, fazíamos questão de provar as uvas e antecipar a vindima. Tínhamos muito respeitinho a uma gruta que considerávamos um refúgio do Tomás das Quingostas. Acontecia aventurar-me só com os meus patins imprudentes, da Serra ao Peso, pela estada de alcatrão muito liso. Sempre a descer, sem parar. A não ser para um ou outro tombo. Nem sequer as “carreiras”, que em algumas curvas ocupavam quase toda a passagem, me inibiam. Numa queda, em Bouça Nova, quase afocinhei num tanque de água. O tio Nino era diabético. As águas não podiam faltar em casa. No verão, colocadas na mina, misturavam-se com vinho. Servia como refresco. Uma figura típica de Prado, a Vera, uma idosa solteira dedicava-se ao transporte de garrafas de águas a pedido. Ainda se conta que um dia um par de malandros lhe deu boleia num carrinho com rodas de rolamentos. Radiante, acenava a anunciar: “Cá imos (caímos)!”. Na garagem do hotel Rocha, fiz, em 1975, um dos meus primeiros e últimos comícios políticos e no café Internacional festejámos a vitória nas eleições. Apareceu o responsável pelo partido rival que, com fair-play, fez questão de nos felicitar demorando-se a confraternizar. Naquele tempo, os cafés do Peso constavam entre os mais frequentados do concelho. O meu avô paterno, Avelino, foi quase toda a vida cozinheiro chefe no hotel Rocha. Contava, a brincar ou não, que quando havia demasiados comensais até às latas de ervilhas se recorria na cozinha. Quando, à noite, regressava a pé do Peso aos Moinhos, comentava-se que cheirava bem, cheirava, naqueles tempos de carestia, a comida boa! A casa onde cresci comprou-a o meu avô materno, Amadeu, ao Cícero, figura incontornável das termas no início do século XX, entretanto com casa no Peso, a casa da Dona Angelina. A casa era, portanto, duplamente de “brasileiro”: mandada construir por um e comprada por outro. Ainda me lembro do leilão, muito participado, do mobiliário do Grande Hotel do Peso. O meu avô, oportuno, aproveitou para renovar um quarto que eu viria a ocupar; arrebatado, arrematou um lote de várias dezenas de lavatórios. Atafulharam anos a fio uma das divisões do rés-do-chão. É assim! Quando se desfia o passado, tudo se enrosca de tal feição que resulta difícil escapar à teia que se avoluma e adensa. Cada um tem o seu próprio percurso, mas no que respeita a sentir o Peso nas veias, estou muito longe de ser um caso isolado. |

Outros motivos contribuíram para a eleição do tema.
Antes de mais, a manifesta adesão por parte das juntas da freguesia de Paderne e do Agrupamento das Freguesias de Prado e Remoães. Tratava-se de uma condição indispensável, tanto mais que a missão se apresentava exigente e complicada.

A estância termal do Peso comporta uma importância atual estimável enquanto promessa para o futuro. Há tempos que o Município almeja a sua revitalização económica e social. A reabilitação e ampliação do Grande Hotel do Peso e a tendência presente para o incremento do turismo termal podem concorrer para esse desígnio. A inclusão do tema no Cortejo Histórico assinala simbolicamente esta aposta do Município. O estudo de Antero Leite e Susana Ferraz, “O edifício da Fonte Principal das Termas do Peso (Melgaço)” ( Boletim cultural, 2007. N.º 6, p. 109-136), associado a um projeto promovido pela Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, conclui com esse repto: O Complexo Termal do Peso, como outras estâncias, aguarda um plano de revitalização centrado não só na reabilitação dos edifícios dos seus hotéis e na exploração das suas águas mas também considerando outras valências. A animação deverá ser uma delas tirando partido da sua envolvente natural e patrimonial”. Há lugares que, como a Bela Adormecida, parecem estar à espera de algo ou de alguém para despertar.

Dois motivos suplementares reforçaram a adesão ao tema. Por um lado, existe imensa documentação, sobretudo fotografias e artigos de jornais, sobre as termas no início do século XX, o que facilitava a caraterização dos figurantes e dos ambientes. Por outro lado, podia-se contar com a colaboração do Válter Alves, que acabara de escrever um artigo sobre as termas para publicação no próximo Boletim Cultural. Fonte inesgotável de informação, o Válter Alves foi o autor do texto para a apresentação durante o Cortejo, bem como da galeria de imagens das termas no início do século XX para o presente artigo.
Galeria de imagens das Termas do Peso selecionadas por Válter Alves
































Tanto argumento favorável não diminuiu significativamente a dificuldade da missão. Valeu a mobilização e o engenho das juntas e das gentes da freguesia de Paderne e do Agrupamento de Freguesias de Prado e Remoães. Merece especial menção a forma como souberam envolver entidades locais tais como a APPACDM, o Centro Hípico de Melgaço e associação Noites Gaiteiras.
Um pequeno incidente ocorreu durante o cortejo. Um dos cavalos das carruagens evidenciou sinais de nervosismo. Por precaução, a apresentação foi abreviada, ficando por apresentar algumas cenas. Por exemplo, a distribuição de águas do Peso pelo público assistente.

Houve um pouco de quase tudo: carruagens, cavalos, uma maquete da fonte primitiva, empregadas fardadas a rigor e aquistas trajados à moda da Belle Époque. Ao todo, cerca de 60 participantes.
De um modo geral, o cortejo valorizou o acompanhamento musical. Abriu com música medieval e fechou com uma valsa. A música era um dos ingredientes da vida das termas, com recurso a orquestras (chegaram a coexistir várias em Melgaço) nas festas e nos bailes e ao piano e ao canto nos serões. Intentou-se formar uma pequena orquestra, pedindo a cedência de instrumentistas a bandas filarmónicas dos concelhos vizinhos. Mas o pico das festas coincide com o 10 de agosto. Não sobrava trompete, trombone, saxofone, tuba ou bombo. Contratar uma charanga na Galiza era hipótese que comportava uma despesa excessiva. Chegou a pensar-se numa voz feminina a cantar a solo e à capela um fado. Depressa se descartou a ideia: com o ruído de fundo de um desfile ao ar livre, pouco ou nada se ouviria. Adotou-se uma solução de recurso: numa das carruagens, uma coluna de som emitiria música da época.

Mas nada nos impede de sonhar. Mergulhemos na atmosfera de um dos hotéis do Peso na primeira metade do século passado.
“Os empregados de mesa do Hotel Ranhada nunca iam vestidos “às três pancadas” para a sala de jantar. Faziam sempre duas mudas diárias. Ao almoço envergavam casaquinho branco, com botões dourados, e calça preta. Ao jantar, iam de trajo escuro, tipo smoking, com os colarinhos de camisa branca virados e laçarote preto. Mas José Meleiro de Castro, que lá trabalhou ainda no período áureo, já não é do tempo dos colarinhos virados e do “fato à grilo”. Embora vestisse à noite fato escuro, a gola do casaco já levava cetim preto. Ao almoço era a farda do costume. Os hóspedes não se aprontavam por aí além para a refeição do meio-dia. Mas à noite já iam para a mesa mais aperaltados. Os cavalheiros caprichavam com “bom fato de fazenda lisa, de tons azuis ou castanhos, e gravata a condizer”, tanto quanto se recorda José Meleiro. As senhoras apareciam com vestidos de seda, muito “levezinhos”, e não esqueciam os seus colares. Só as mais idosas faziam questão de levar, às vezes, o seu “xailezinho”. Em Julho e Agosto, serviam-se entre 150 a 200 hóspedes. “Todos ao mesmo tempo naquela sala de jantar”, lembra José Meleiro. Eram rápidos a comer, estavam quase todos a dieta, “tudo à base de peixe cozido e de carnes grelhadas”. Durante a refeição conversavam baixinho, eram muito delicados, não se ouvia sequer um bater de talheres. “Até exageravam”. Mas eram pessoas “de muito respeito e de muita educação”. À noite, acabada a refeição, passavam à sala de jogos e não resistiam a contar anedotas “sem palavrões, nem grandes gargalhadas”. Os cavalheiros falavam também de negócios, mas a conversação era cordata. Aos fins-de-semana, a sala de visitas virava, às vezes, sala de baile, mas apenas se polcava, à falta de melhor orquestra, ao som das concertinas” (Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa”, texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013; retirado de Melgaço, entre o Minho e a Serra (https://entreominhoeaserra.blogspot.com/), blogue de Válter Alves: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2013/05/1948-um-qualquer-dia-no-hotel-ranhada_14.html).

Imaginemo-nos encostados a um canto do salão, eventualmente com um copo na mão e um cigarro nos lábios. A noite promete: as damas, prendadas e elegantes, entregam-se ao piano e ao canto. Escolhem, porventura, canções da Ercília Costa, “a santa do fado”, atriz, compositora e fadista, nascida em 1902, que alcançou um sucesso notável, inclusivamente no estrageiro, com digressões em França, nos Estados Unidos e no Brasil.
“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XIII).
Com um convite ao sonho, despeço-me.
Seguem:
- Uma galeria com fotografias de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
- O texto da autoria de Válter Alves que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
- Um recorte, “As origens do hotel Ranhada, com uma nota biográfica dedicada a António Ranhada;
- Um recorte, “O Animatógrafo em Melgaço”, com uma nota biográfica dedicada a Cícero Cândido Solheiro;
- Três fados de Ercília Costa.
Galeria de imagens: As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024


























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As Termas do Peso no início do século XX. Texto para a apresentação durante o cortejo
Viajamos até ao Pezo do Minho na viragem para o século XX. Era por este nome que, fora da terra, era conhecido o Peso, onde em 1884 tinha sido descoberta uma nascente de águas termais com caraterísticas medicinais singulares. Rapidamente, a boa nova se espalhou pela região e pelo país e a chegada de doentes à procura destas águas milagrosas não se fez esperar.
A descoberta destas águas mergulhou o Peso numa era dourada durante várias décadas, tornando a estância num oásis de opulência, elegância e glamour, que contrastava com as dificuldades no resto do concelho.
A necessidade de hospedar um número crescente de aquistas levou ao surgimento de várias unidades hoteleiras. Depois do Ranhada, outras foram construídas, entre as quais o Hotel Quinta do Pezo, o Alto Minho e o Rocha, e mais tarde, a Pensão e Hotel Boavista.
Pelo Peso, nas temporadas termais, era frequente encontrarmos governantes, industriais, magnatas, fidalgos, artistas, ou distintos membros da comunidade científica das mais reputadas academias deste país. Nomes como Leite de Vasconcelos ou Rocha Peixoto, na área da etnografia, o pintor António Carneiro, ou Aurélio da Paz dos Reis, pioneiro do cinema em Portugal, entre tantos outros, eram presença assídua. A afluência de académicos deste calibre ao Peso tornava as temporadas termais, épocas de intensa produção científica. Algumas das mais importantes recolhas arqueológicas ou etnográficas no concelho de Melgaço datam desta época e eram realizadas em passeios exploratórios a locais como Paderne, São Gregório ou Castro Laboreiro. Entre os tratamentos, os passeios a pé, as tertúlias, o Peso também se tornou uma espécie de Academia.
O Peso do início do século XX representava a procura da cura das maleitas, o glamour, a ostentação, as festas mas também promovia eventos de solidariedade a favor das instituições melgacenses.
A partir de meados do século XX, esta era dourada das termas do Peso começou a perder a luz, entrando numa sombria decadência com uma queda abrupta da procura destas águas. A inexistência de caminho de ferro era uma das principais fragilidades.
Nos anos oitenta do século passado, fecharam os últimos hotéis históricos e o Peso foi sendo invadido por uma agonia e uma saudade dos seus tempos dourados. Hoje, o Peso procura um novo futuro onde encontre novamente a prosperidade.
Válter Alves
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Recorte: As origens do Hotel Ranhada

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Recorte: O Animatógrafo em Melgaço

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Fados de primórdios do século XX: Ercília Costa

