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A Boémia na Rua

Place de la Contrescarpe. Paris

Em setembro de 2025, a Place de la Contrescarpe, no Quartier Latin, em Paris, transbordou dopamina. Um conjunto de 30 músicos e cantores entoou e encenou a Bohemian Rhapsody, dos Queen. Empolgante! Agradeço a partilha deste link à Helena Lages, aluna de uma das primeiras turmas de que fui professor na Universidade do Minho, no início dos anos 1980′.

Bohemian Rhapsody, dos Queen, na Place de la Contrescarpe, em Paris, em setembro 20255, por, entre outros, Mickey Callisto e Julien Cohen. Realização de Julien Cohen.  

Abanar o esqueleto

Skeleton Dance. Nuremberg chronicles f 264r (imago mortis). 1493. Latin copy in Sao Paulo

Na semana passada, proporcionou-se mostrar The Skeleton Frolic aos alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário. Trata-se de uma animação, desenhada por Ub Iwerks em 1937, que integra a série Color Rhapsodies da Columbia Pictures. Entretanto, o Fernando lembrou-se de The Skeleton Dance, o “original inspirador”. Desenhado também por Ub Iwerks, inaugurou, há quase um século, em 1929, a série Silly Symphonies criada por Walt Disney.

The Skeleton Dance. A Silly Symphony. A Walt Disney Comic. Drawn by Ub Iwerks. Directed by Walt Disney. Music by Carl W. Stalling. 1929
The Skeleton Frolic. Color Rhapsodies. Columbia Pictures. Directed by Ub Iwerks. 1937

Traseiro arrojado

O grotesco está a pegar de estaca. Na publicidade como na política. Que significa a coexistência de uma censura omnívora cada vez mais zelosa, a que nem sequer escapa a sombra de um seio de uma escultura clássica, com uma permissividade desbragada, em que as nádegas podem falar mais alto? Dualismo ou forma de gerir valores e emoções?

O anúncio norueguês “Start your own”, da DNB, apostado no desafio de uma nova vida, proporciona uma oportunidade para abraçar o dia bem-disposto e irreverente.

Anunciante: DNB Bank. Título: Start your own. Agência: Try (Oslo). Direção: Nalle Sjöblad. Noruega, setembro 2025

A Banheira Fantasma

O mal espalha-se no espírito do tempo como a água por baixo da porta. No início, quase nada. Um pouco de humidade. Quando a inundação começa, é tarde demais (Christian Bobin, La Plus Que Vive, 1996).

O anúncio “DIY Odyssey”, da Hornbach, releva da arte. Alucinante, propõe, antes de mais, um coro e uma coreografia impressionantes. Aprecio os anúncios da Hornbach. Costumam ser criativos e divertidos. O Tendências do Imaginário contempla cerca de uma dezena.

Marca: Hornbach. Título: DIY Odyssey / The Square Meter. Agência: HeimatTBWA, Berlin. Direção: Lope Serrano. Alemanha, agosto 2025

Ausência

Le mal du pays est avant tout un mal de soi et on se sent dépaysé justement à l’endroit où l’on ne se retrouve plus (Bernard Arcand, Quinze lieux comuns, 1993)

A saudade fala português, mas o sentimento é poliglota.

Sabia que a música [“tango da alma”] Ausência, cantada por Cesária Évora e estreada em 1995 no filme Underground de Emir Kusturica, foi composta pelo sérvio-bósnio Goran Bregović e a letra pelo cabo-verdiano Teófilo Chantre? Sabia, não sabia?

Imagem: Goran Bregović

Cesária Évora / Goran Bregović – Ausência. Banda sonora do filme Underground, de Emir Kusturica. 1995

Dançar no inferno

Desperdiço tanto tempo com as minhas páginas que pouco sobra para seguir as alheias. Habituei-me, todavia, a espreitar dois blogues: o Azorean Torpor e o Peixinho de Prata , ambos criativos, bem escritos e com bom gosto musical.

Peixinho de Prata apresenta no último artigo a canção “Papaoutai”, do belga Stromae. Espicaçõu-me a curiosidade. No que respeita às interpretações ao vivo, o YouTube avançou com o concerto filmado no Bell Center de Montreal, em setembro de 2015. Espetacular! Lembrou-me o Jacques Brel, na dicção, na inteligência da letra e na força da energia, estática em Brel, dinâmica em Stromae.

Stromae – Papaooutai. Racine Carrée. 2013. Via Peixinho de Prata

Para aceder à canção “Papaoutai“, carregar na imagem precedente. Acrescento o vídeo oficial de “L’Enfer” e dois excertos do concerto de Montreal: “Alors on danse” e “Ave cesaria” [homenagem a Cesária Évora].

Stromae – L’enfer. Multitude, 2022
Stromae – Alors on danse. Cheese, 2010. Ao vivo no Bell Center de Montreal, em setembro de 2015
Stromae – Ave cesaria. Racine Carré, 2013. Ao vivo no Bell Center de Montreal, em setembro de 2015

NOSTALROCK & NOSENSERAP

Ávidos de certezas num mundo problemático. A busca de um univocidade extemporânea. No que me respeita, procuro variar, senão contrapor. Após uma série de músicas sensatas e melífluas, apetece-me convocar um par de compositores e cantores excecionais e contrastantes. Um, desenvolto e divertido, dispõe bem, o outro, nem por isso. Ambos resultam marcantes e portentosos.

Começo com o Adriano Celentano, o “homem com molas”, como lhe chamam no seu país, a Itália, pelo seu modo frenético de dançar. Compositor, cantor, artista e realizador, iniciou a carreira em 1957, alcançando o planalto nos anos sessenta a oitenta. Mediático, com um humor apurado e energia em palco, não deixa ninguém indiferente. Quem nasceu no milénio passado, provavelmente há muito que não ouve falar dele, mas não o esqueceu. Como memória em vez de arquivo, segue uma mão cheia de canções.

Adriano Celentano – Il ragazzo della via Gluck. La festa, 1966. Ao vivo em Berlim, em 1994
Adriano Celentano – “Prisencolinensinainciusol”. Nostalrock. 1973
Adriano Celentano – L’Unica Chance. Single, 1973.
Adriano Celentano – Susanna. I miei americani, 1984
Adriano Celentano – Don’t play that song. Variations, 1977

Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno

“Being an artist is like a journey to build something and I feel like I’m not building things, I’m just been driven by whatever comes to me (…) When I dance, when I move under water, I really feel that I become one, one with the water (…) I love the smell of the forest, I love the sound of the forest, it’s really beautiful, I feel part of it, part of the system (…) But what hidden in the under world is something that is really personal, it’s opening to your imaginary.” (Dancing Through the Waters with Julie Gautier, 2023)

Segundo alguns estudiosos do imaginário, nomeadamente Carl G. Jung, Gaston Bachelard e Gilbert Durand, podem-se associar e contrapor símbolos elementares. Associar, por exemplo, o sol, a luz, o ar, o elevado, a ascensão, a árvore, o seco, o duro, o direito, o exterior, o convexo, o fálico, o masculino, a espada ou a separação, remetendo-os para o “regime diurno do imaginário” (Gilbert Durand); e contrapô-los à lua, à sombra, à água, ao baixo, ao mergulho, à floresta, ao húmido, ao mole, ao sinuoso, ao interior, ao côncavo, ao uterino, ao feminino, ao cálice ou à (con)fusão, que remetem para o “regime noturno do imaginário”.

Seguem cinco bailados subaquáticos protagonizados pela francesa Julie Gautier, natural da Ilha da Reunião. Cinco, nem mais nem menos. Até podiam ser seis, mas o mais visualizado, AMA (2018), já está colocado no Tendências do Imaginário (Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática). Todos nos convidam, portanto, a mergulhar profundamente no regime noturno do imaginário.

Carlos Hof – “Adore” (Julie Gautier Visualiser). Por Marriott Bonvoy, 2019
Narcisse (feat. Julie Gautier). Por Julie Gautier & Behind The Mask, abril 2022
NARCOSE by Julie Gautier with Guillaume Néry, janeiro 2023
Carte Blanche (Directed by Julie Gautier). Paris Haute Couture week, January 23rd, 2023
BAKELITE by Julie Gautier | #SickOfPlastic campaign. Produced by @imagine2050_ and Magali Payen. Directed by  @juliegautierofficial, 07/11/2023

Devagar sem avanços

Ana Popović, de origem sérvia, a residir atualmente nos Estados Unidos, é uma autora, compositora, guitarrista e cantora de blues, que se afirmou, sobretudo, na Holanda e na Alemanha na primeira década do novo milénio.

A canção Slow Dance fala, como o título indica, de uma dança vagarosa sem qualquer promessa de avanço. Apenas uma dança, nada mais!

Imagem: Ana Popović

Ana Popović – Slow Dance. Like It on Top. 2018

O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 2

A primeira é a preferida do Fernando; a segunda, minha; a terceira, não sei!

Ekaterina Shelehova – Savage Daughter. Cover. Sauvage Daugter, 2023
Ekaterina Shelehova – Vlad the Vamp. Composição: Luca Morelli. Vlad the Vamp (Original Soundtrack), 2022
Ekaterina Shelehova – Alla Luna. Moonlight, 2014