Entre o céu e a terra: festas e romarias de Cabeceiras de Basto. Tertúlia com Albertino Gonçalves
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A tertúlia terá como orador convidado o Doutor Albertino Gonçalves, professor aposentado da Universidade do Minho.
“As festas de Cabeceiras de Basto evidenciam um profundo enraizamento geográfico, histórico, religioso e estético. São Bartolomeu é inseparável da ponte, da fonte e da capela, tal como S. Tiago, do ribeiro das bichas. A feira de S. Miguel é um mar agitado de gente e a Festa das Papas um banquete comunitário com reminiscências pagãs, sob proteção de S. Sebastião. A festa de Santa Senhorinha remonta à fundação de Portugal e ocorre no mesmo local onde a Santa viveu e repousa. A estética, a arte de sentir em conjunto, acompanha, passo a passo, a procissão de velas da Senhora dos Remédios.”
Gonçalves, Albertino; Gonçalves, João. “Entre o céu e a terra: festas e romarias de Cabeceiras de Basto”. In Cabeceiras de Basto. História e património, 188-201. Cabeceiras de Basto, Portugal: Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, 2013
Surrealismo animado à Disney

Sou, afinal, uma pessoa “prendada”! A Ana Paula Alves Pinto enviou-me uma nova relíquia: Silly Symphony – Flowers and Trees, do Walt Disney, um dos primeiros filmes de animação a cores (1932). Persistem, portanto, obras magníficas que datam de há quase um século. Apoquenta-me, contudo, a impressão de que, com meios como nunca para rasgar horizontes, nos esmeramos tanto a estreitá-los.
Wall-E e E.T.

O que concorre para que máquinas como o Wall-E ou monstrinhos como o E.T. nos fiquem cravados na memória?
Seguem duas compilações produzidas por JoBlo Animated Videos: uma com excertos do filme Wall-E, a outra com trailers do filme E.T.
Imagem: E.T. e Wall-E – Fonte: Deviant Art
Diga-o com robots!
Trauma, garra, amor, frustração, engano… diga-o com máquinas, de preferência com robots! Resulta mais eloquente.
As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

Entre os primeiros temas a surgir, as Termas do Peso no início do século XX foi dos últimos a ser adotado. Apesar do inegável interesse, pela carga histórica, mas também como promessa para o futuro, receava-se que se revelasse demasiado difícil. Ao contrário dos outros temas, não se tratava de encenar um evento ou uma ação, mas um ambiente, que, por sinal, se repartia por cenários distintos: as fontes, o balneário, os hotéis, as festas, os bailes, os serões, os passeios…
O tema acabaria por vingar graças a vários argumentos decisivos.

Num início do Século XX de indigência e precariedade, as Termas do Peso constituíam um reduto de luxo, hedonismo e elegância reservado à elites, visitantes mas também locais, onde se ensaiavam iniciativas de progresso e, até, de vanguarda. Recorde-se a criação, em 1912, da empresa de transporte passageiros entre Melgaço a Valença e, em 1913, do cinematógrafo, ambos pelo Cícero Cândido Solheiro, “brasileiro” empreendedor e visionário.
Inestimável embaixadora do concelho, a estância termal atraía pessoas, muitas ilustres, que conhecedores, quando não estudiosos, do património local o divulgam. Não é só o mundo que vem a Melgaço, Melgaço também corre o mundo. Este duplo efeito de atração e expansão ainda não se dissipou por completo. Ainda sensibiliza muita gente, por via direta ou indireta. Nem todas as brasas se reduziram a cinzas, persistem, por experiência própria ou por contágio, fagulhas que podem tornar-se centelhas. Recorde-se, por exemplo, Manoel de Oliveira e o filme Viagem ao Princípio do Mundo, estreado em 1997. As memórias podem revelar-se mais resistentes do que as paredes do hotel Rocha.

Mas a história das Termas do Peso não se restringe aos visitantes. Convoca, também, os residentes que as promoveram, como o António Ranhada, ou que, em elevado número, as frequentaram, principalmente nos anos sessenta e setenta. Impôs-se como um local de encontro, convívio, lazer e desporto que deixou marcas indeléveis.
| Permito-me um parênteses com um testemunho pessoal para ilustrar a influência das termas na vida das pessoas. Enquanto jovem, frequentava regularmente as termas: jogava mini golf, ténis ou patela, andava de barco, convivia e pasmava a observar a vegetação, as trutas, as libelinhas e os meus semelhantes. Assisti, ainda, aos bailes no salão devoluto do Grande Hotel do Peso. Tive, assim, acesso a atividades invulgares numa sociedade rural. Íamos ao Peso em grupo por atalhos através dos campos. Pelo caminho, fazíamos questão de provar as uvas e antecipar a vindima. Tínhamos muito respeitinho a uma gruta que considerávamos um refúgio do Tomás das Quingostas. Acontecia aventurar-me só com os meus patins imprudentes, da Serra ao Peso, pela estada de alcatrão muito liso. Sempre a descer, sem parar. A não ser para um ou outro tombo. Nem sequer as “carreiras”, que em algumas curvas ocupavam quase toda a passagem, me inibiam. Numa queda, em Bouça Nova, quase afocinhei num tanque de água. O tio Nino era diabético. As águas não podiam faltar em casa. No verão, colocadas na mina, misturavam-se com vinho. Servia como refresco. Uma figura típica de Prado, a Vera, uma idosa solteira dedicava-se ao transporte de garrafas de águas a pedido. Ainda se conta que um dia um par de malandros lhe deu boleia num carrinho com rodas de rolamentos. Radiante, acenava a anunciar: “Cá imos (caímos)!”. Na garagem do hotel Rocha, fiz, em 1975, um dos meus primeiros e últimos comícios políticos e no café Internacional festejámos a vitória nas eleições. Apareceu o responsável pelo partido rival que, com fair-play, fez questão de nos felicitar demorando-se a confraternizar. Naquele tempo, os cafés do Peso constavam entre os mais frequentados do concelho. O meu avô paterno, Avelino, foi quase toda a vida cozinheiro chefe no hotel Rocha. Contava, a brincar ou não, que quando havia demasiados comensais até às latas de ervilhas se recorria na cozinha. Quando, à noite, regressava a pé do Peso aos Moinhos, comentava-se que cheirava bem, cheirava, naqueles tempos de carestia, a comida boa! A casa onde cresci comprou-a o meu avô materno, Amadeu, ao Cícero, figura incontornável das termas no início do século XX, entretanto com casa no Peso, a casa da Dona Angelina. A casa era, portanto, duplamente de “brasileiro”: mandada construir por um e comprada por outro. Ainda me lembro do leilão, muito participado, do mobiliário do Grande Hotel do Peso. O meu avô, oportuno, aproveitou para renovar um quarto que eu viria a ocupar; arrebatado, arrematou um lote de várias dezenas de lavatórios. Atafulharam anos a fio uma das divisões do rés-do-chão. É assim! Quando se desfia o passado, tudo se enrosca de tal feição que resulta difícil escapar à teia que se avoluma e adensa. Cada um tem o seu próprio percurso, mas no que respeita a sentir o Peso nas veias, estou muito longe de ser um caso isolado. |

Outros motivos contribuíram para a eleição do tema.
Antes de mais, a manifesta adesão por parte das juntas da freguesia de Paderne e do Agrupamento das Freguesias de Prado e Remoães. Tratava-se de uma condição indispensável, tanto mais que a missão se apresentava exigente e complicada.

A estância termal do Peso comporta uma importância atual estimável enquanto promessa para o futuro. Há tempos que o Município almeja a sua revitalização económica e social. A reabilitação e ampliação do Grande Hotel do Peso e a tendência presente para o incremento do turismo termal podem concorrer para esse desígnio. A inclusão do tema no Cortejo Histórico assinala simbolicamente esta aposta do Município. O estudo de Antero Leite e Susana Ferraz, “O edifício da Fonte Principal das Termas do Peso (Melgaço)” ( Boletim cultural, 2007. N.º 6, p. 109-136), associado a um projeto promovido pela Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, conclui com esse repto: O Complexo Termal do Peso, como outras estâncias, aguarda um plano de revitalização centrado não só na reabilitação dos edifícios dos seus hotéis e na exploração das suas águas mas também considerando outras valências. A animação deverá ser uma delas tirando partido da sua envolvente natural e patrimonial”. Há lugares que, como a Bela Adormecida, parecem estar à espera de algo ou de alguém para despertar.

Dois motivos suplementares reforçaram a adesão ao tema. Por um lado, existe imensa documentação, sobretudo fotografias e artigos de jornais, sobre as termas no início do século XX, o que facilitava a caraterização dos figurantes e dos ambientes. Por outro lado, podia-se contar com a colaboração do Válter Alves, que acabara de escrever um artigo sobre as termas para publicação no próximo Boletim Cultural. Fonte inesgotável de informação, o Válter Alves foi o autor do texto para a apresentação durante o Cortejo, bem como da galeria de imagens das termas no início do século XX para o presente artigo.
Galeria de imagens das Termas do Peso selecionadas por Válter Alves
































Tanto argumento favorável não diminuiu significativamente a dificuldade da missão. Valeu a mobilização e o engenho das juntas e das gentes da freguesia de Paderne e do Agrupamento de Freguesias de Prado e Remoães. Merece especial menção a forma como souberam envolver entidades locais tais como a APPACDM, o Centro Hípico de Melgaço e associação Noites Gaiteiras.
Um pequeno incidente ocorreu durante o cortejo. Um dos cavalos das carruagens evidenciou sinais de nervosismo. Por precaução, a apresentação foi abreviada, ficando por apresentar algumas cenas. Por exemplo, a distribuição de águas do Peso pelo público assistente.

Houve um pouco de quase tudo: carruagens, cavalos, uma maquete da fonte primitiva, empregadas fardadas a rigor e aquistas trajados à moda da Belle Époque. Ao todo, cerca de 60 participantes.
De um modo geral, o cortejo valorizou o acompanhamento musical. Abriu com música medieval e fechou com uma valsa. A música era um dos ingredientes da vida das termas, com recurso a orquestras (chegaram a coexistir várias em Melgaço) nas festas e nos bailes e ao piano e ao canto nos serões. Intentou-se formar uma pequena orquestra, pedindo a cedência de instrumentistas a bandas filarmónicas dos concelhos vizinhos. Mas o pico das festas coincide com o 10 de agosto. Não sobrava trompete, trombone, saxofone, tuba ou bombo. Contratar uma charanga na Galiza era hipótese que comportava uma despesa excessiva. Chegou a pensar-se numa voz feminina a cantar a solo e à capela um fado. Depressa se descartou a ideia: com o ruído de fundo de um desfile ao ar livre, pouco ou nada se ouviria. Adotou-se uma solução de recurso: numa das carruagens, uma coluna de som emitiria música da época.

Mas nada nos impede de sonhar. Mergulhemos na atmosfera de um dos hotéis do Peso na primeira metade do século passado.
“Os empregados de mesa do Hotel Ranhada nunca iam vestidos “às três pancadas” para a sala de jantar. Faziam sempre duas mudas diárias. Ao almoço envergavam casaquinho branco, com botões dourados, e calça preta. Ao jantar, iam de trajo escuro, tipo smoking, com os colarinhos de camisa branca virados e laçarote preto. Mas José Meleiro de Castro, que lá trabalhou ainda no período áureo, já não é do tempo dos colarinhos virados e do “fato à grilo”. Embora vestisse à noite fato escuro, a gola do casaco já levava cetim preto. Ao almoço era a farda do costume. Os hóspedes não se aprontavam por aí além para a refeição do meio-dia. Mas à noite já iam para a mesa mais aperaltados. Os cavalheiros caprichavam com “bom fato de fazenda lisa, de tons azuis ou castanhos, e gravata a condizer”, tanto quanto se recorda José Meleiro. As senhoras apareciam com vestidos de seda, muito “levezinhos”, e não esqueciam os seus colares. Só as mais idosas faziam questão de levar, às vezes, o seu “xailezinho”. Em Julho e Agosto, serviam-se entre 150 a 200 hóspedes. “Todos ao mesmo tempo naquela sala de jantar”, lembra José Meleiro. Eram rápidos a comer, estavam quase todos a dieta, “tudo à base de peixe cozido e de carnes grelhadas”. Durante a refeição conversavam baixinho, eram muito delicados, não se ouvia sequer um bater de talheres. “Até exageravam”. Mas eram pessoas “de muito respeito e de muita educação”. À noite, acabada a refeição, passavam à sala de jogos e não resistiam a contar anedotas “sem palavrões, nem grandes gargalhadas”. Os cavalheiros falavam também de negócios, mas a conversação era cordata. Aos fins-de-semana, a sala de visitas virava, às vezes, sala de baile, mas apenas se polcava, à falta de melhor orquestra, ao som das concertinas” (Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa”, texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013; retirado de Melgaço, entre o Minho e a Serra (https://entreominhoeaserra.blogspot.com/), blogue de Válter Alves: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2013/05/1948-um-qualquer-dia-no-hotel-ranhada_14.html).

Imaginemo-nos encostados a um canto do salão, eventualmente com um copo na mão e um cigarro nos lábios. A noite promete: as damas, prendadas e elegantes, entregam-se ao piano e ao canto. Escolhem, porventura, canções da Ercília Costa, “a santa do fado”, atriz, compositora e fadista, nascida em 1902, que alcançou um sucesso notável, inclusivamente no estrageiro, com digressões em França, nos Estados Unidos e no Brasil.
“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XIII).
Com um convite ao sonho, despeço-me.
Seguem:
- Uma galeria com fotografias de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
- O texto da autoria de Válter Alves que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
- Um recorte, “As origens do hotel Ranhada, com uma nota biográfica dedicada a António Ranhada;
- Um recorte, “O Animatógrafo em Melgaço”, com uma nota biográfica dedicada a Cícero Cândido Solheiro;
- Três fados de Ercília Costa.
Galeria de imagens: As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024


























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As Termas do Peso no início do século XX. Texto para a apresentação durante o cortejo
Viajamos até ao Pezo do Minho na viragem para o século XX. Era por este nome que, fora da terra, era conhecido o Peso, onde em 1884 tinha sido descoberta uma nascente de águas termais com caraterísticas medicinais singulares. Rapidamente, a boa nova se espalhou pela região e pelo país e a chegada de doentes à procura destas águas milagrosas não se fez esperar.
A descoberta destas águas mergulhou o Peso numa era dourada durante várias décadas, tornando a estância num oásis de opulência, elegância e glamour, que contrastava com as dificuldades no resto do concelho.
A necessidade de hospedar um número crescente de aquistas levou ao surgimento de várias unidades hoteleiras. Depois do Ranhada, outras foram construídas, entre as quais o Hotel Quinta do Pezo, o Alto Minho e o Rocha, e mais tarde, a Pensão e Hotel Boavista.
Pelo Peso, nas temporadas termais, era frequente encontrarmos governantes, industriais, magnatas, fidalgos, artistas, ou distintos membros da comunidade científica das mais reputadas academias deste país. Nomes como Leite de Vasconcelos ou Rocha Peixoto, na área da etnografia, o pintor António Carneiro, ou Aurélio da Paz dos Reis, pioneiro do cinema em Portugal, entre tantos outros, eram presença assídua. A afluência de académicos deste calibre ao Peso tornava as temporadas termais, épocas de intensa produção científica. Algumas das mais importantes recolhas arqueológicas ou etnográficas no concelho de Melgaço datam desta época e eram realizadas em passeios exploratórios a locais como Paderne, São Gregório ou Castro Laboreiro. Entre os tratamentos, os passeios a pé, as tertúlias, o Peso também se tornou uma espécie de Academia.
O Peso do início do século XX representava a procura da cura das maleitas, o glamour, a ostentação, as festas mas também promovia eventos de solidariedade a favor das instituições melgacenses.
A partir de meados do século XX, esta era dourada das termas do Peso começou a perder a luz, entrando numa sombria decadência com uma queda abrupta da procura destas águas. A inexistência de caminho de ferro era uma das principais fragilidades.
Nos anos oitenta do século passado, fecharam os últimos hotéis históricos e o Peso foi sendo invadido por uma agonia e uma saudade dos seus tempos dourados. Hoje, o Peso procura um novo futuro onde encontre novamente a prosperidade.
Válter Alves
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Recorte: As origens do Hotel Ranhada

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Recorte: O Animatógrafo em Melgaço

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Fados de primórdios do século XX: Ercília Costa
A festa da Bugiada e Mouriscada de S. João de Sobrado
Sobrará, ainda em férias, alguma disponibilidade para dar uma vista de olhos a um documentário extenso?
Fiz parte da equipa do projeto Festivity, coordenado pela Rita Ribeiro, que concretizou, em 2023, um livro e, em 2024, um documentário, ambos dedicados à festa da Bugiada e Mouriscada, que ocorre na véspera do S. João, na freguesia de Sobrado, concelho de Valongo. Trata-se de uma festa grandiosa e incrível, ímpar do ponto de vista estético e da adesão popular.
Seguem o documentário Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz e o capítulo “Os serviços da tarde na Festa de S. João de Sobrado: A bênção escatológica num mundo às avessas”, do livro São João de Sobrado. A festa da Bugiada e Mouriscada.
Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

O tema do casamento nos anos setenta foi o segundo a surgir para o Cortejo Histórico de Melgaço de 2024, logo a seguir ao tema da lenda da Senhora da Orada. Entre outros aspetos, manifestava-se estimulante a possibilidade de incluir o vetusto carro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço que chegou a ser utilizado para o transporte de noivos: um Buick vermelho modelo 1928.

Sobre a história deste automóvel pode consultar-se o artigo de Manuel Igrejas, “O Carro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço / Um lugar onde nada acontecia XI”, publicado no jornal Voz de Melgaço e retomado no blogue Melgaço, do Monte à Ribeira (https://iasousa.blogs.sapo.pt/o-carro-dos-bombeiros-voluntarios-de-240186).

Não se regatearam esforços para restaurar o Buick de modo a que estivesse pronto para desfiliar no dia 10 de agosto. Lamentavelmente, não se logrou recuperar uma peça. Foi substituído por um Mercedes vintage.

Definido o tema, a implementação e concretização coube às juntas do Agrupamento de Freguesias de Parada de Monte e Cubalhão, da freguesia de Cousso e da freguesia da Gave. Contaram com o apoio da associação CUBO D’QUESTÕES, ASSOCIAÇÃO JUVENIL, de Parada do Monte, e, naturalmente, da equipa da Câmara Municipal.

Abraçaram o desafio com entrega, criatividade e sentido de oportunidade. Previa-se, inicialmente, um cortejo com os carros dos noivos e dos convidados engalanados a preceito. Adicionou-se a encenação da própria cerimónia do casamento, com espera da noiva, padrinhos, meninas das alianças, celebração, beijo da noiva, chuva de arroz e arremesso do ramo. Nem sequer faltou a pose para as fotografias.
A apresentação culminou com o baile, uma valsa bem dançada, empolgante e envolvente, a que até o padre aderiu (sugere-se o vídeo publicado pela Voz de Melgaço: https://www.facebook.com/jornalvozdemelgaco/videos/1023897019126966?locale=pt_PT). Fechou, assim, com chave d’ouro o casamento nos anos setenta e, por coincidência, o próprio Cortejo Histórico.
Além do entusiasmo e do espírito de iniciativa, convém sublinhar a criatividade e o sentido de oportunidade dos organizadores e dos participantes. Quando se aguardava um casal jovem, tipo Barbie e Ken, surgem vários casais perto das bodas de ouro, que, com à-vontade e alegria contagiantes, representaram, vestiram as personagens, com uma competência e um brio raros em muitos profissionais do teatro. Uma última palavra para o guarda-roupa, os adereços e a caraterização. vestuário e os adereços. Deveras adequados, em alguns casos configuravam autênticas relíquias.

Os organizadores, os participantes e o público não esquecerão, certamente, tão cedo o casamento nos anos setenta em Melgaço. Ultrapassando as expetativas, consubstanciou uma iniciativa simpática, no sentido etimológico da palavra: teve a virtude de atrair, juntar e mover vontades.

Seguem:
- Uma galeria com fotografias provenientes, sobretudo, de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
- Um exemplo de notícia de casamento nos anos setenta;
- O texto que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
- Um artigo sobre os ritmos sazonais e os estilos de vida dos melgacenses residentes e emigrantes por volta dos anos setenta.
Galeria de imagens: Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

















































Notícia de casamento no jornal Voz de Melgaço de 1971

O casamento nos anos setenta. Texto para a apresentação durante o cortejo
Quem não conheceu Melgaço nos anos setenta dificilmente o conseguirá imaginar. Correspondeu a uma época de mudanças e excessos.
O concelho nunca antes teve tantos emigrantes. A partir de meados dos anos sessenta, aos homens juntaram-se as mulheres. Nesta conjunção, nunca vieram tantos emigrantes de férias, que, agora em família, Agora em família, se concentram no verão, principalmente no “querido mês de agosto”. A sua presença alcançou o auge de densidade, mobilidade e visibilidade.
Entretanto, Melgaço despedia-se de uma economia assente na agricultura, com as antigas hierarquias a descoser-se sem que novas as substituíssem claramente. Em termos de estrutura e organização, os anos setenta configuraram um período de transição propício à indefinição, à turbulência e à competição social.
O ciclo anual oscilava entre duas fases com tipos e ritmos de vida contrastados. Tudo crescia e acelerava no verão para abrandar e esmorecer abruptamente em seguida durante o resto do ano. Uma tempestade de verão! Tudo parecia rebentar pelas costuras: os bancos, as repartições, os comércios, as feiras, os cafés, as praças e as estradas. Agendam-se e afunilam-se os compromissos e os afazeres de todo o ano em meia dúzia de semanas: negócios, contratos, obras, atos religiosos, casamentos, batizados e até os namoros! Não havia dia ou noite sem festas nas proximidades. Depois de um prolongado e monótono inverno, o inverso, a inquietude. Tudo urge e se multiplica. Aspira-se à ubiquidade: estar em todo o lado ao mesmo tempo. Omnipresença, efervescência, aceleração e velocidade.
Entre as festividades, os convívios e as cerimónias, destacam-se os casamentos. Faustos e fartos, proliferavam. Propiciam um momento de reencontro de parentes e amigos, a residir dentro ou fora do concelho. Oferecem-se, ainda, como um palco apropriado para a afirmação, a distinção e a ostentação social, tanto dos noivos e das suas famílias como dos convidados, de preferência muitos e com prestígio. Tudo frisava o exagero: o vestuário, o cortejo, o banquete, as prendas… Criaram e cresceram empresas que não tinham mãos a medir: restaurantes, cabeleireiras, esteticistas, floristas… Até lojas especializadas em prendas!
Os casamentos impõem-se como um espetáculo notável. Registam-se, apreciam-se e comentam-se os convites, a cerimónia, as roupas, o vestido e o ramo de noiva, os padrinhos, o valor das prendas, as fotografias, o cortejo, a quantidade, qualidade e matrícula dos carros, o destino da lua-de-mel, o local, a ementa, a animação e a generosidade do banquete.
“Primeiro de agosto, primeiro de inverno”. Por volta da Nossa Senhora da Assunção, é altura de fazer as malas. Melgaço esvazia-se e entorpece. A agitação e a estúrdia cedem à contenção e à modorra.
Os anos setenta um intervalo no decurso de uma história que não se repete. Tudo o que sobe desce. Incha, desincha e passa. Tamanha excitação e extravagância são difíceis de sustentar. A situação, sobretudo, económica e financeira, do País foi periclita, a relação entre os emigrantes e a sociedade de origem altera-se e a demografia, principalmente o envelhecimento, não dá tréguas. Em suma, uma dinâmica que resulta menos de feição a excessos e euforias.
(Albertino Gonçalves)
Artigo sobre os ritmos sazonais e os estilos de vida dos melgacenses residentes e emigrantes por volta dos anos setenta
Melgaço lunar
A lua cheia quando não assombra encanta, em particular os caranguejos. Reuni três fotografias fabulosas da Carla Cristina Esteves, provenientes do arquivo do Município de Melgaço. Datam de 2021 e 2023. Adicionei outras tantas músicas do Paul de Senneville, compositor francês, falecido fez um ano, aliás bastante popular e pouco conhecido.



Bom Dia, Tristeza
“Somos poucos a pensar demasiado, demasiados a pensar pouco” (Françoise Sagan, Le Cheval évanoui, Paris : René Julliard, c1966)

Quando desejo música a preceito, costumo pesquisar neste blogue. Do compositor polaco Zbigniew Preisner, encontrei uma dúzia de obras repartidas por 4 artigos: Tristeza pasmada, Purgatório eterno, Zbigniew Preisner e Amor e lamentação. O mais antigo, Tristeza pasmada, encontrava-se desformatado e amputado. Retomo-o como lembrete da existência de fases em que a desolação, embora acompanhada por lindas palavras e boa música, se arrasta até secar a esperança.
Não me apetece dormir como o gato, nem pensar como a Françoise Sagan
Tristeza pasmada


Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.
Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.

