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O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 1

À São, à Beatriz, à Minda,
à Paula e à Fátima,
estrelas deste deserto

Quando tudo é belo e sublime, a intérprete, a voz e a execução, convém sentir mais do que ser. Ekaterina Shelehova, canadiana, de origem russa, a viver em Itália, revelou-se durante o Got Talent de 2022 búlgaro. Desde então, de en-canto em en-canto, abraçou uma carreira de merecido, embora não ofuscante, sucesso.

Sur-preso por uma promessa incomensurável de prazer, que fazer? Tornar-se, como diria Pascal, infinitamente pequeno e infinitamente grande, microchip e parabólica, para sentir concentrado, intensamente, e aberto, extensamente. Depois, agradecer e partilhar alegre e humildemente.

Proponho-me dedicar três artigos a Ekaterina: o primeiro realça a qualidade da voz e da interpretação; o segundo retém algumas canções preferidas; o terceiro contempla parcerias.

Ekaterina Shelehova – Awakening. Awakening, 2023
Ekaterina Shelehova – За Тихой Рекою (Beyond The Quiet River). Cover. Studio version, 2022
Ekaterina Shelehova – Vacanze Romane. Cover. Studio version, 2022
Ekaterina Shelehova – At The Dawn (canção popular russa). Cover. At The Dawn, 2023

Banda filarmónica em hotel do Peso

Anúncio do Grande Hotel Pezo (Ranhada)

Ao Valter Alves

Hoje, domingo, deu-me para arrumar um disco duro. Abri uma pasta cujo nome não me permitia adivinhar o conteúdo. Surpreenderam-me várias imagens das Termas do Peso, provenientes do Arquivo Municipal de Paredes de Coura, cujo conhecimento me foi proporcionado, há bastante tempo, por uma amiga, a Fátima Cabodeira. Retenho, em particular, duas fotografias antigas com uma banda filarmónica, durante a monarquia, a julgar pelas bandeiras, num dos hotéis, creio que o Novo Hotel Quinta do Pezo (Figueiroa), da autoria do fotógrafo Adolfo Gonzalez, de Entrimo. Talvez o Válter Alves queira acrescentar mais informação.

Hotel. Peso. Fotografia de Adolfo Gonzalez

Os anjos sempre cantaram

A Fátima Guimarães e a Almerinda Van Der Giezen colocaram, respetivamente, as canções “Oh Love” e “These Days” interpretadas pela norueguesa Ane Brun. Uma voz a seguir! O prazer partilhado é um regalo exponencial. Acrescento, um pouco no espírito da época, um videoclip, também da Ane Brun: “Do You Remember”. Delirante e cheio de ressonâncias, como apreciam algumas amigas.

Ane Brun – Oh Love. It All Starts with One, 2011
Ane Brun – These Days. It All Starts with One, 2011
Ane Brun – Do You Remember. It All Starts with One, 2011

Falácias da Perceção

Octavio Ocampo. Para Siempre

Apesar de vacinado, vim engripado do Serões dos medos. Deve ter sido um sortilégio. Por falar nos Serões dos medos, nas edições anteriores abordámos os diferentes tipos de alucinação. Mas coloca-se a questão da fidelidade da perceção mesmo quando não existe alucinação. Registamos a realidade tal como existe ou construída por nós?

Os próprios órgãos dos sentidos não são de fiar. Basta ensaiar a velha experiência de colocar uma esfera entre o dedo maior e o indicador cruzados. De olhos fechados, sentimos duas esferas em vez de uma. Acresce que o próprio desempenho dos nossos sentidos está condicionado. Atualmente, com a vista minimamente cansada e o olhar relaxado, vejo dois objetos em vez de um.

Além das perturbações inerentes aos sentidos, a nossa perceção de realidade depende tanto das pressuposições como das sugestões. Para o ilustrar, retomo, adaptando, um exemplo partilhado por Edgar Morin [tem103 anos] no livro Pour sortir du XX siècle (1981). Tal como ele, recorro à primeira pessoa.

René Magritte. The Blank Sgnature. 1965

Caminhava absorto nos meus pensamentos quando um acidente me chama bruscamente a atenção. Em frente, no cruzamento, um mercedes, que não respeitou o sinal vermelho, bateu contra um citroën “dois cavalos”. Aproximei-me disposto a prestar testemunho.

O que vi e como?

Da infinidade de informações que os meus sentidos captavam, concentrei-me apenas numa pequena parte, no acidente. Procedi, portanto, a uma abstração.

Provavelmente, não assisti ao choque propriamente dito, observei o resultado, uma vez que foquei a cena apenas após ouvir o estrondo. Ver o mercedes a não respeitar o sinal vermelho e a bater no dois cavalos resulta de uma reconstituição, de uma construção imediata e automática. Trata-se de uma sugestão que me leva a “ver” o que, de fato, não vi.

Com que olhar? O caraterístico do homem contemporâneo que tende a atribuir às coisas propriedades exclusivas do ser humano (reificação). O mercedes não desrespeitou o sinal vermelho, quem o fez foi, quando muito, o condutor.

De qualquer jeito, estava convencido que vi o mercedes a bater no dois cavalos. Ao aproximar-me, a “prova dos fatos” corrigiu-me: a frente do dois cavalos que bateu no lado do mercedes! Foi, portanto, o dois cavalos que embateu no mercedes.

Restava uma “certeza”:  foi o condutor do mercedes quem desrespeitou o sinal vermelho. Pois não! O condutor do dois cavalos assumiu a culpa.

Afinal, o que sucedeu?

Não vi realmente o choque e ainda menos os momentos que o precederam. Alertado pelo estrondo, vi o resultado. A partir deste, reconstrui o resto. Quase tudo o que “vi” foi por inferência, por sugestão. Mas foi “isso” mesmo que “vi”. Para mim, uma realidade mais real do que o real.

Por que é que registei o acontecimento desse modo, nesses termos?  Porque, sugestionado, o construí em conformidade com as minhas predisposições, com os meus valores e esquemas mentais. Assevera-se lógico, natural, ser o grande e forte a bater no pequeno e fraco. Raciocínio similar se aplica à questão da responsabilidade, da culpa. Trata-se de uma espécie de arquétipo que rege a minha “presciência” e (pre)visão do mundo. O que eu vejo com os meus esquemas mentais, além de se tornar mais real do que o próprio real, faz mais sentido! Ao mesmo tempo que percecionamos, atribuímos sentido, sentido que resiste à dissonância com os nossos valores e esquemas mentais.

Como testemunha num tribunal teria feito triste figura. Muitos romances policiais, como, por exemplo, do Erle Stanley Gardner, cujo protagonista é advogado, incluem episódios em que os testemunhos decisivos acabam desmontados de fio a pavio.

Simon & Garfunkel – The Sound Of Silence. Wednesday Morning, 3 A.M. 1964
Camel – Lady Fantasy. Mirage. 1974. Live At Hammersmith Odeon, 1976

Sentinela. Vista sobre Santa Tecla

Monte de Santa Tecla visto do Forte da Ínsua. Fotografia de Fernando Gonçalves

Do cume do monte de Santa Tecla tiram-se fotografias magníficas: em baixo, de Moledo, ao monte, também. Só é preciso ter bom olho e boa câmara. Associar uma fotografia a uma música é um entretenimento desafiante. Cismei, um pouco desbussolado, que devia ser música eletrónica. Da discografia dos Tangerine Dream, do Klaus Schulze e do Mike Oldfield, retive três canções: Song of the Whale, Pt. 1: From Dawn…; Wellgunde; e Sentinel. Qual valoriza e resulta mais valorizada? Se obtiver respostas, coloco a eleita em primeiro lugar.

Tangerine Dream – Song of the Whale, Pt. 1: From Dawn… Underwater Sunlight, 1988
Klaus Shulze & Lisa Gerrard – Liquid Coincidence 6. Farscape, 2008
Mike Oldfield – Sentinel. Tubular Bells II, 1992

Sombras e transparências

Fotografia de Almerinda Van Der Giezen

A escala cinza e o claro-escuro permitem captar a aura, a tonalidade e a energia dos fenómenos, sem o ruído das cores. Como diria Henri Bergson, dão vida às sombras sem desperdiçar a luz. Como na Alegoria da Caverna de Platão, as sombras partem de alguma realidade, não a reproduzem. Dependem a luminosidade, da projeção e do olhar. Geram ilusões: “Se enxerga um gigante, inteire-se primeiro da posição do sol, e veja se o gigante não é a sombra de um pigmeu” (Novalis). Um fenómeno pode inclusivamente mudar de feição: clássico, hierático como o copo, pode tornar-se barroco ou trágico, redobrando-se. “Se o corpo é direito que importa que a sombra seja retorcida” (provérbio chinês).

Uma pessoa diz para logo se desdizer. As sombras também permitem, mais ou menos indiretamente, o acesso à verdade dos fenómenos. Atente-se na seguinte asserção atribuída a Fernão de Magalhães: “A igreja diz que a terra é plana, mas vi a sombra na lua e tenho mais fé na sombra do que na igreja”.

As nossas sombras escapam-se à frente ou demoram-se atrás; nada as impede de andar ao lado. São, porém, de outra ordem aquelas que se aninham na nossa alma. Nem sempre nos é dado escolhê-las.

A fotografia, premiada, da Almerinda Van Der Giezen tem a arte de sugerir estas diversas perspetivas e experiências, mesmo o que vai na alma! Não é qualquer música que se presta para a acompanhar. Em 2015, com 92 anos, Menahem Pressler interpretou o Noturno nº 20 de Chopin. Uma escolha que não desmerece.

Menahem Pressler interpreta o Noturno nº 20 de Chopin em dó sustenido menor, op. post. 2015

A Semente e o Caroço

Serões dos Medos. Melgaço, 18 de outubro de 2024

Sexta 18, desloquei-me a Melgaço para os Serões dos Medos. Parti de Braga com o receio de um decréscimo da afluência e da participação do público. O tema, possessões e bruxarias, parecia apontar nesse sentido.

Os acompanhamentos noturnos, em 2022, e os prenúncios de morte, em 2023, remetiam para fenómenos e protagonistas do Além, sobretudo do mundo dos mortos. Os vivos eram meras testemunhas, quando muito vítimas, nos casos raros de acompanhamentos mais “agressivos”. As possessões e as bruxarias podem comportar uma marca surreal, mas pertencem a este mundo, o dos vivos. São agenciadas e experienciadas “aquém” por “nós”.  Acontece com os exorcismos, os esconjuros, as bruxarias e os feitiços. Mobilizamo-nos para combater o mal presente, os espíritos e os sortilégios. Acredita-se, recorre-se e (per)segue-se. Benzemos, salgamos e queimamos. Experiências pessoais dramáticas e íntimas, que exigem reserva e segredo. A própria palavra faz parte do fenómeno. Não admira que se observe uma propensão para o silêncio, para ocultar estes fenómenos e experiências.

Serões dos Medos 2024. Exposição de cartazes e imagens de filmes

O receio da falta de público depressa se dissipou. O número de pré-inscrições depressa superou as expectativas mais optimistas. Voltou a ser necessário alterar os planos. Tínhamos previsto um espaço a condizer com a afluência do ano anterior. Decorado a preceito, incluía uma “instalação” e uma exposição de cartazes e imagens de filmes emblemáticos provenientes do Museu do Cinema. Tivemos, porém, que prescindir dessa solução. Impunha-se o recurso ao auditório.

Mal acabou a intervenção introdutória do Luís Cunha, o público não se fez rogado; a eventualidade de uma retração suplementar desvaneceu-se. O ambiente de confiança e partilha, com empatia e respeito, depressa se aproximou do nível dos encontros precedentes. Interessadas e envolvidas, as pessoas sentiram-se suficientemente à vontade para intervir e se abrir. E, embora o tema fosse mais delicado, não faltaram testemunhos na primeira pessoa. Sucederam-se momentos mental e emocionalmente únicos e densos cuja dinâmica rondou, por vezes, a terapia social.

A conversa terminou perto da meia noite. Duas horas e meia bem passadas que não esgotaram a matéria, nem o interesse ou a disponibilidade para continuar o diálogo. Os derradeiros momentos não representaram um fecho ou uma conclusão, mas antes abertura e, de algum modo, antecipação. Surpreenderam-se casos suscetíveis de inspirar e animar a próxima edição, esboçando novos mapas, caminhos e companhias. Ficou a porta aberta!

Serões dos Medos 2024. Auditório

Saio sempre destas moderações com a impressão desconfortável de que, por vezes, teria ganho em falar menos. Calado, os outros teriam desfrutado de mais tempo e oportunidade para intervir. Iludo-me, contudo, com algumas dúvidas acerca desta mecânica da comunicação. As ideias e a respetiva circulação não obedecem ao princípio dos vasos comunicantes nem relevam da geração espontânea. Carecem de motivação e orientação. Importa, por exemplo, complementar uma dada intervenção, para a reconhecer e valorizar; sugerir tópicos, para sondar e estimular novos contributos; matizar, para evitar desequilíbrios, por exemplo, nem só ciência, nem só crença. Pode ainda resultar útil introduzir quebras de pausa e descontração, para restauro e relançamento. Certo é que não ocorreram vazios a preencher ou disfarçar. A palavra nem sempre é excesso e ainda menos desperdício. Como diria John Langshaw Austin, as palavras ajudam a fazer, a acontecer.

De qualquer modo, o incómodo desta autocrítica acaba por ser um bom sinal. Sinal da qualidade e da potencialidade do protagonismo da assistência. O que é deveras importante. O sucesso dos Serões dos Medos deve-se principalmente à adesão e ao desempenho do público. Acresce um bom augúrio: a presença de jovens é cada vez mais expressiva.

É um desafio aliciante e um prazer imenso trabalhar com a equipa responsável pelos Serões dos Medos. Precisamente a mesma do Cortejo Histórico, de há dois meses, e do Boletim Cultural, que, já impresso, aguarda o lançamento.

Após quarenta anos de academismos, sabe bem trabalhar assim, a criar, plantar e regar sementes em vez de engolir caroços. A colaboração com o Município de Melgaço tem praticamente a mesma antiguidade. O que é obra, atendendo ao meu instinto de borboleta e à diversidade de jardins de tentação.

*****

Acontece não me inclinar para nenhum tipo de música em particular. Clássica, pop, rock, blues ou jazz, vocal ou instrumental, rimada ou melodiosa, tanto faz! Tiro à sorte das prateleiras dos CDs. Seja qual for o eleito, pelo menos gostei dele quando o adquiri. Calhou uma coletânea de baladas do duo sueco Roxette. À vocalista, Marie Fredriksson, foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral em 2002. Faleceu em 2019 com 61 anos de idade. Seguem quatro hits: A Thing About You; It Must Have Been Love; Listen To Your Heart; e Queen Of Rain. Escrevi o presente texto a escutar estas canções. Não condiz a letra com a caneta. Ditosa incongruência!

Roxette – It Must Have Been Love. It Must Have Been Love, 1987
Roxette – Listen To Your Heart. Look Sharp!, 1988
Roxette – Spending My Time. Joyride, 1991
Roxette – Queen Of Rain. Tourism, 1992

Órgão sinistro. Música de arrepiar

O Bruno, de quem tenho saudades, partilhou The “Mysterious Vanishing of Electra”, da sueca Anna Hausswolff. Lembrou-me outro melgacense, o Abel, que selecionou vídeos para a próxima edição dos Serões dos Medos. Sugeri o Marilyn Manson, mas esqueci a Anna von Hausswolff, cujos vídeos, minimalistas, arrastados e estranhos, perturbam o mais vacinado dos mortais.

Recoloco “The Mysterious Vanishing of Electra” (ver A música soturna de Anna von Hausswolff ) e acrescento “Deathbed” e “Epitaph of Theodor”. Vídeos não aconselháveis a pessoas sensíveis.

Anna von Hausswolff. The Mysterious Vanishing of Electra. Dead Magic. 2018
Anna von Hausswolff – Deathbed. Ceremony, 2012
Anna von Hausswolff – Epitaph of Theodor. Ceremony, 2012

Os Serões dos Medos. Noite dos Medos Melgaço 2024

Avec son air très naturel, le surnaturel nous entoure / Com o seu ar muito natural, o sobrenatural rodeia-nos (Jules Supervielle. Le Jeune Homme du Dimanche. 1952)

Os serões dos medos dos últimos anos foram fantásticos, inesquecíveis. Graças à afluência e participação do público que os animou e enriqueceu com os seus conhecimentos e testemunhos pessoais. Depois de “Coisas do outro mundo”, em 2022, e “Prenúncios de Morte”, em 2023, o tema deste ano, “Possessões & bruxarias”, também promete. A conversa terá início às 21 horas do dia 18 de outubro na Casa da Cultura. Acresce o valor e o prazer da companhia do colega e amigo Luís Cunha.

Em Coisas do Outro Mundo. 2022

Segue, em pdf, o programa da Noite dos Medos 2024, acompanhado por duas interpretações da canção Ronda das Mafarricas: a original do José Afonso e a versão dos Moura, da Corunha.

Moura – Ronda das Mafarricas. Moura. 2020
José Afonso – Ronda das Mafarricas. Cantigas do Maio. 1971

Aprendizagem da discriminação. O olhar da idade

Discriminar, desvalorizar e excluir, atribuindo diferenças consideradas relevantes a outrem, é um comportamento que se aprende com a idade. Esta ideia inspira o anúncio “Les yeux d’un enfant”, da associação francesa Noémi. É, aliás, um dos pontos de partida de uma tese de doutoramento em curso apostada na observação das relações entre crianças em jardins de infância.

Anunciante: Noémi. Título: Les yeux d’un enfant. Agência: Leo Burnett. Direção: Thomas Rhazi. França, 2014