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Bom Dia, Tristeza

“Somos poucos a pensar demasiado, demasiados a pensar pouco” (Françoise Sagan, Le Cheval évanoui, Paris : René Julliard, c1966)

Quando desejo música a preceito, costumo pesquisar neste blogue. Do compositor polaco Zbigniew Preisner, encontrei uma dúzia de obras repartidas por 4 artigos: Tristeza pasmada, Purgatório eterno, Zbigniew Preisner e Amor e lamentação. O mais antigo, Tristeza pasmada, encontrava-se desformatado e amputado. Retomo-o como lembrete da existência de fases em que a desolação, embora acompanhada por lindas palavras e boa música, se arrasta até secar a esperança.

Não me apetece dormir como o gato, nem pensar como a Françoise Sagan

Tristeza pasmada

Edvard Munch. Melancholy. 1894.

Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.

Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.

Zbigniew Preisner – Decision (Instrumental, From “A Short Film About Killing”). 1988
Zbigniew Preisner – Homecoming. When a Man Loves a Woman. 1994
Zbigniew Preisner – Damage. Fatale. 1992
Zbigniew Preisner – Holocaust. Decalogue 8. 1988-1989

Outra música, outras danças

Outra música (ZZ Top, Gimme All Your Lovin, Eliminator, 1983), outros excertos (Who’s Been Sleeping in my Bed?, 1963; The Swinger, 1966; The Oscar, 1966; Flareup, 1969), outras dançarinas (Elizabeth Montgomery, Ann-Margret, Joey Heatherton, Jill St. John; Raquel Welch).

Elizabeth Montgomery, Ann-Margret, Joey Heatherton, Jill St. John and Raquel Welch Dance to ZZ Top. Colocado por RetroTVCentral em março de 2024

Duelo de dança

Com a primavera, o bailado digital floresce. Almerinda Van Der Giezen enviou-me um vídeo extraído do filme “Carmen” (1983), de Carlos Saura, acompanhando-o com uma mensagem breve: “Algo diferente mas poderoso”. De Carlos Saura, recordo também os filmes Cria cuervos (1975), Mamá cumple cien años (1979) e Fados (2007). Todos com músicas notáveis.  

Acrescento ao excerto de Carmen outro de Cria Cuervos, com a canção “Por que te vas”, interpretada por Jeanette, bem como o “Fado da Saudade”, interpretado por Carlos do Carmo, original do filme Fados.

Fragmento de la tabacalera, con el duelo interpretativo entre Laura del Sol y Cristina Hoyos. Carmen. 1983
Jeanette – Porque Te Vas. Cria Cuervos OST. 1976
Carlos do Carmo – Fado da Saudade. Fados OST. 2007

A valsa de Brel em Paris e de Karenina em São Petersburgo

O “bailado digital” funciona. Na sequência do artigo “Passinhos de dança” (https://tendimag.com/2024/05/24/passinhos-de-danca/), Luís Bastos, administrador do blogue Azorean Torpor (https://azoreantorpor.wordpress.com/), partilhou o vídeo oficial da canção “La valse à mille temps”, de Jacques Brel. Uma delícia ternurenta que convoca Brel, Paris e a valsa. Pares de sensibilidade sem idades em vertiginoso rodopio. Que mais desejar?

Porventura a “Valsa nº 2”, composta por Dmitri Shostakovich e dirigida por André Rieu, com imagens do filme “Anna Karenina” (2012).

Jacques Brel – La valse à mille temps (Clip Officiel). La valse à mille temps. 1959
Dmitri Shostakovich – Second Waltz, Op . 99a, pela Johann Strauss Orchestra, com direção de André Rieu. Edição: 2019. Imagens do filme “Anna Karenina”, 2012

Cigarros com filtro duplo

Inma Cuesta é uma atriz e ativista, nomeadamente feminista, espanhola. Também canta. Seguem três canções: a primeira, original, “Una de esas noches sin final”; a segunda, um cover, “Volver, volver”; e a terceira, “Fumando espero”, da série Amar en Tiempos Revueltos 2ª Temporada.

Não resisto a partilhar a letra de “Fumando espero”.

Imagem: Alfred Crowquill. Anti-Tobacco cartoon.

Fumando espero

Fumar es un placer
Genial, sensual

Fumando espero
Al hombre a quien yo quiero
Tras los cristales
De alegres ventanales

Y mientras fumo
Mi vida no consumo
Porque flotando el humo
Me suele adormecer

Tendida en la chaisse longue
Fumar y amar…

Ver a mi amante
Solícito y galante
Sentir sus labios
Besar con besos sabios

Y el devaneo
Sentir con más deseo
Cuando sus ojos veo
Sedientos de placer

Por eso estando mi bien
Es mi fumar un Edén

Dame el humo de tu boca
Anda, que así me vuelves loca

Corre, que quiero enloquecer de placer
Sintiendo ese calor
Del humo embriagador
Que acaba por prender la llama ardiente del amor

Sublinhe-se que acima de uma em cinco pessoas fuma. “Mais de 22% da população mundial consumiu tabaco em 2020, alerta a Organização Mundial da Saúde (…) os dados de 2020 mostram que 1300 milhões de pessoas consumiram tabaco a nível mundial (…). O relatório abrange produtos como cigarros, cachimbos e tabaco aquecido, mas não inclui o uso de cigarros electrónicos” (https://www.publico.pt/2021/11/16).

Imagem: 0xec6d0 (XX-XXI) – Smokers Die Younger.

Neste quadro, é possível que fumar tenha algum aliciante.

Inma Cuesta – Una de esas noches sin final. Todos Lo Saben (Original Motion Picture Soundtrack). 2018
Inma Cuesta – Volver, volver. En directo con Pablo Motos en El Hormiguero Vuelve. Antena 3 Internacional, 2022
Inma Cuesta – Fumando Espero. Amar en Tiempos Revueltos 2ª Temporada, 2006-2007

Cigarettes After Sex

Jean-Paul Belmondo

Fumar após o sexo tranformou-se numa espécie de contraordenação. Invocando o nome dos Cigarettes After Sex e convocando a campanha provocadora do IKEA, apetece-me brincar, alinhando combinações com as palavras “sexo” e “fumo”:
[Ontem] Sexo e fumo
[Hoje] Sexo sem fumo
[Amanhã] Nem sexo, nem fumo
[No inferno] Fumo sem sexo
Com 1,32 M de subscritores, i’m a cyborg but that’s ok edita canções dos Cigarretes After Sex acompanhando-as com cenas de filmes: Nothing’s Gonna Hurt You Baby, com Lost in Translation (2003); Affection, com Breathless (1960). Em ambos, sexo e fumo. No segundo, destaca-se Jean-Paul Belmondo, “l’acteur à la cigarrette par excellence”:

“Belmondo’s sexiness was connected – in a way that would now be problematic – to smoking. Stuck aggressively in his mouth, or insolently dangling, cigarettes emphasised his lips and made him look blasé and nonchalant – a look that a generation of young males would try to emulate”. (https://www.bfi.org.uk/news/jean-paul-belmondo-1933-2021).

Cigarettes After Sex – Nothings Gonna Hurt You Baby. I., 2012
Cigarettes After Sex – Affection. Affection, 2015

Surf

Levantar ondas e surfar é o que está a dar. Na política como no resto.

Jack Johnson, surfista e cineasta, é sobretudo conhecido como cantor e compositor, com sete álbuns publicados (a eles haveremos de voltar). Formado em cinema, realizou, com Chris Malloy, o documentário Thicker Than Water (200) que convoca “a alma do surf (…) um poema visual [que] mostra as diversas vertentes do surf e as virtualidades da Irlanda, Índia, Austrália, Indonésia e Havaí para promover a sensação de ser surfista” ((https://surfthegreats.org/blogs/journal/5-surf-movies-you-can-stream-for-free). Estas músicas integram a banda sonora desse documentário.

Jack Johnson. Holes to Love. Thicker Than Water. 2003
Natural Calamity. Dark Waters & Stars. Thicker Than Water. 2003
Finley Quaye. Even After All. Thicker Than Water. 2003

Música lenta

Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon coeur d”une langueur monotone.(Paul Verlaine)

Afinal, no programa “A Voz do Cidadão” de hoje foi só questão das RTP Açores e Madeira. Precipitei-me. Se houver algo aproveitável, passará quando passar. Mais do que a conferência “Vestir os Nus”, esta entrevista à RTP1 teve o condão de entreabrir um postigo mais fechado do que aberto. Algumas músicas de filmes tidos como eróticos tiveram o seu momento de celebridade. Destaca-se Emmanuelle, composta, tal como Bilitis e Love Story, por Francis Lai. Uma outra também se aproximou: a banda sonora do filme de culto do género, Histoire d’O (1975), composta por Pierre Bachelet. Das 14 faixas, retenho 4. Depois do tango, o slow.

Histoire d’O, do filme Histoire d’O. Compositor: Pierre Bachelet. 1975
O’ Et Le Chateau de Roissy, do filme Histoire d’O. Compositor: Pierre Bachelet. 1975
Tout celà est pour toi, do filme Histoire d’O. Compositor: Pierre Bachelet. 1975
O’ Comme Histoire d’O, do filme  Histoire d’O. Compositor: Pierre Bachelet. 1975

Ninfas

“A zona mais erótica é a imaginação” (Vivienne Westwood)

Acabei de ser entrevistado sobre “o nu na sociedade contemporânea”. A ver o que dá! Para quem tiver curiosidade, a transmissão ocorrerá no programa A Voz do Cidadão, da RTP1, sábado às 14 horas. Proporcionou-se uma breve alusão, como exemplo do erotismo pretensamente artístico no cinema dos anos setenta, ao realizador, fotógrafo e escritor David Hamilton. Filmes, tais como Laura, les ombres de l’été (1979) e Bilitis (1977), obtiveram, a seu tempo, um sucesso apreciável, sendo, inclusivamente, estimados obras de culto. A sua lente, “esfumada”, convoca, a raiar a obsessão, mulheres adolescentes, “ninfas”.

Nascido em Londres em 1933, suicidou-se, supostamente, em 2016 em Paris. Até aos últimos anos de vida, foi alvo de várias acusações de abusos sexuais. Filmes, livros e fotografias foram, aliás, proibidos em alguns países.

Autodidacta, iniciou a sua carreira de fotógrafo já depois dos 30 anos, trabalhando para revistas de moda – e vendo o seu trabalho chegar a publicações como a Vogue ou a Photo.

O facto de eleger como “objecto” da sua câmara jovens adolescentes, ninfas virginais que fotografava em poses sensuais e eróticas, sempre com um filtro brumoso e em décors que deviam algo ao imaginário hippie, entre camas e prados floridos, elevaram-no a ícone da fotografia mundial. Passou inclusivamente a falar-se de um “estilo hamiltoniano” para classificar esta estética fotográfica – que Hamilton viria também a explorar no cinema, realizando meia dúzia de filmes entre 1975 e 1983, o mais citado dos quais é Bilitis (1977).

Simultaneamente, houve quem se indignasse e o acusasse de pornografia – e países como a África do Sul, por exemplo, censuraram os seus álbuns. As suas fotografias foram muitas vezes colocadas no centro do debate sobre as fronteiras entre a arte e a pornografia. (Público. Ípsilon. “Morreu David Hamilton, o polémico fotógrafo das “ninfas””,  26 de Novembro de 2016: https://www.publico.pt/2016/11/26/culturaipsilon/noticia/morreu-david-hamilton-o-polemico-fotografo-das-ninfas-1752784)

Recordo ter assistido ao filme Bilitis, em Montparnasse, na companhia de um amigo, por sinal, jesuíta! Provavelmente, poucos terão ouvido falar de David Hamilton e ainda menos visto os seus filmes. Em contrapartida, a música do filme, composta por Francis Lai, creio ser bastante conhecida. Seguem um trailer e a banda sonora do filme Bilitis.

Bilitis (trailer). Realizador: David Hamilton. 1977
Bilitis. Música do filme, de David Hamilton, composta por Francis Lai. 1977

Podia ser pior!

A Vaca e o Prisioneiro (1959)

Para uma noite de insónia

Meu avô contava-me a seguinte anedota:

Um minhoto e um galego estavam entusiasmados numa espécie de conversa ao desafio.

  • Unha cabra golpeo cos cornos unha muller que pasaba polo camiño.
  • Podia ser pior.
  • Como podería ser peor?
  • Se em vez de uma cabra fosse um rinoceronte.
  • Unha procesión pasaba pola liña e un tren chega a toda velocidade…
  • Podia ser pior.
  • Como podería ser peor?
  • Se o comboio, em vez de vir de frente, viesse de lado, atravessado.
  • Onte, Francisco estivo con María, chegou o seu marido e apuñalouno por todas partes.
  • Podia ser pior.
  • Como podería ser peor?
  • Se fosse uma hora antes, não teria sido o Francisco, teria sido eu.

Vem esta anedota a propósito do último anúncio da Levi’s em que um homem troca a vaca por umas calças. Segundo as conveniências contemporâneas, podia ser pior.

  • Como podia ser pior?
  • Se en lugar dunha vaca, era unha muller.
  • Tens razão. Mas podia ainda ser pior.
  • Como podería ser peor?
  • Se no lugar de uma vaca, fosse uma criança.

De inconveniência em inconveniência, por aí adiante…

Marca: Levi’s. Título: Fair Exchange. Agência: Droga5, New York. Direção: Martin de Thurah. USA, fevereiro 2023

A caminhada do homem com a vaca trouxe-me à memória um filme bem-disposto de Henri Verneuil: La vache et le prisonnier (1959), com Fernandel. Seguem o trailer, a banda sonora e as ligações para o filme (dividido em três partes).

Trailer do filme La vache et le prisonnier (1959)
Banda sonora do filme La vache et le prisonnier (1959)

La vache et le prisonnier (primeira parte): https://gloria.tv/post/wLaTA7bRYzhr4UCiDfgixsame#25

La vache et le prisonnier (segunda parte): https://gloria.tv/post/R8nxZNx9ViJY1f4XLWnx8k3FY#5

La vache et le prisonnier (terceira parte): https://gloria.tv/post/JR4Wyu7Jkmgx4gHAK8uKbEQyu#5