O papel dos videojogos
Quando o senso comum se torna ciência e a ciência, senso comum, todos os argumentos são verosímeis. Estes anúncios chineses explicam, a pais e a filhos,que quando existem problemas comportamentais em casa, a razão pode não decorrer dos videojogos.
Marca: Changyou. Título: Mother. Agência: Saatchi & Saatchi Greater China. Direcção: Nico Perez Veiga. China, Maio 2015.
Marca: Changyou. Título: Little Girl. Agência: Saatchi & Saatchi Greater China. Direcção: Nici Perez Veiga. China, Maio 2015.
Deste lado da lua
Roberto Chichorro é um pintor moçambicano radicado, a partir dos anos oitenta, em Portugal.
Nos seus quadros, aluados, a vida não adormece, prolonga-se pela noite dentro, morna e mágica.
Lembra Marc Chagall, mas em versão mais colorida e mais voluptuosa.
Álvaro Lobato de Faria caracteriza bem a pintura de Chichorro no seguinte texto: http://defesesfinearts.com/2011/01/mac-lisboa-agua-de-cheiro-po-de-arroz-em-tempo-de-beija-flor-e-papagaio-de-papel/, que passo a citar:
“Chichorro não representa. Cria mundos. Abre-nos frestas de portas. E acorda em nós o desejo de espreitar. Vermos sem sermos vistos. Sermos de novo meninos, em noite escura de insónia ou de bicho papão, à procura de um mundo de luz e cor que não é nosso, para espantar o medo. / O nosso reino de fantasia, denso e subtil, realista e fantástico, onde os homens ensinam os bichos e os bichos aprendem a ser homens, na festa das cores da vida. / Aqui tudo se passa à noite. Nunca amanhece. Mas não existe tristeza, só nostalgia…” (Álvaro Lobato Faria).
A página Movimento Arte Contemporânea contém cerca de uma centena de imagens de quadros de Roberto Chichorro. Segue um pequeno documentário e uma galeria de imagens.
Exposições Roberto Chichorro no Porto e Lamego @ Canal 180.
Galeria com imagens de quadros de Roberto Chichorro.
- 01. Roberto Chichorro., Janela com gato emulher devermelho. 2010.
- 02. Roberto Chichorro. Acordes em Azul com Flores. 2008.
- 03. Roberto Chichorro. Festa circense. 2013.
- 04. Roberto Chichorro. Festa em Noite Suburbana. 2010.
- 05. Roberto Chichorro. Memórias de Cabra Cega. 2009.
- 06. Roberto Chichorro. Noivamento com beija-flor em noite de muitos sonhos.
- 07. Roberto Chichorro. Namoro Embandeirado por Pássaros. 2011.
- 08. Roberto Chichorro. Oferendas. 2009.
- 09. Roberto Chichorro. Regresso Musicado. 2008.
- 10. Roberto Chichorro. Sapato cor de rosa para dia de casamento. 2008.
- 11. Roberto Chichorro. Sonho de Columbina. 2010.
- 12. Roberto Chichorro. Venda de Sonhos. 2009.
- 13. Roberto Chichorro. Guitarrista.
- 14. Roberto Chichorro. Rodar de Pião.
- 15. Roberto Chichorro. Sem título. 1999.
- 16. Roberto Chichorro. Sonho circense com lágrimas. 2006.
- 17. Roberto Chichorro.
- 18. Roberto Chichorro.
Artes da pós-modernidade
Há palavras que, pelo risco de se tornar tóxicas, agradeciam uma passagem pelo purgatório. No artigo anterior, sugeri que a América Latina era um oásis de refluxos. O anúncio peruano “Artistas Hogaristas Postmodernos” é um exemplo. A pós-modernidade é motivo de riso. Torna-se risível. Ressalte-se, porém, que o humor deste anúncio não é “chuva dissolvente”, limita-se a fazer cócegas.
Existe uma versão espanhola e uma versão inglesa do anúncio. Não são iguais. Por exemplo, a música de fundo é diferente. Pode aceder à versão inglesa neste endereço: https://www.youtube.com/watch?v=1Kg5OTIYIhc.
Marca: Promart Home Center. Título: Artistas Hogaristas Postmodernos. Agência: Fahrenheit DDB. Direcção: Julian Fernández. Perú, Maio 2015.
Simples, seguro e sentado
O que mais gosto nos fluxos são os refluxos. Enquanto o coro alto entoa o refrão “exercício e dieta”, o coro baixo refastela-se, sedentário, no sofá, ao som de uma música que lembra o Bob Dylan. Os anúncios da América Latina são os mais dados à estética do refluxo.
Nunca registei na Comunidade Europeia tanta proibição como nos últimos anos. Tudo para nosso bem! Fluxo sem refluxo, eis o sonho do tecnocrata. Este Maio está longe, muito longe, do Maio de 1968.
Anunciante: Cámara de Comercio de Santiago. Título: Compra sentado, compra por Internet. Agência: 10:10. Chile, Maio 2015.
Do Japão, com humor
- S.T. Dupont Andy Warhol Limited Edition – Marilyn Monroe Line 2 Lighter.
- S.T. Dupont Andy Warhol Limited Edition – Marilyn Monroe Line 2 Lighter.
A publicidade oriental é um caso à parte. Ora nos brinda com anúncios de seis minutos de fazer chorar as pedras, ora nos espevita com sequências frenéticas que, ao jeito japonês, fazem dançar as galinhas.
No Anúncio da Shop Japan, o segredo reside na repetição acelerada do disparate (ver excerto de Henri Bergson). Pouco importa o que te faz cair, o que interessa é o que te levanta, eventualmente, um aparelho para abdominais. No segundo anúncio, Lighters, a evolução de uma pen USB isqueiro, desde a criação até à conquista do planeta, é pretexto para uma miscelânea tresloucada de tudo quanto é símbolo japonês e mundial.
Marca: Shop Japan. Título: Wonder Core – Ab Machine. Japão, 2014.
Marca: Jii USB Lighter. Título: Lighters. Japão, 2013.
Soluciona-se assim o pequeno enigma proposto por Pascal a certa altura dos Pensamentos: “Dois rostos semelhantes, cada um dos quais por si não faz rir, juntos fazem rir por sua semelhança.” Por nossa vez diríamos: “Os gestos de um orador, cada um dos quais não é risível em particular, por sua repetição fazem rir.” É que a vida bem ativa não deveria repetir-se. Onde haja repetição ou semelhança completa, pressentimos o mecânico funcionando por trás do vivo. Que o leitor analise a impressão obtida diante de dois rostos muito parecidos: verá que pensa em dois exemplares obtidos de um mesmo molde, ou em duas impressões de um mesmo carimbo, ou em duas reproduções de um mesmo clichê, em suma, num processo de fabricação industrial. No caso, a verdadeira causa do riso é esse desvio da vida na direção da mecânica (Henri Bergson, O Riso: Ensaio sobre a significação do cómico. 1ª edição: 1899).
350 000 visualizações
Tendências do Imaginário ultrapassou as 350 000 visualizações (250 000 no final de Dezembro). Para um blogue académico não especializado, o cenário podia ser pior. A distribuição por países pouco se alterou: o Brasil, na frente, com 32%; Portugal,com 22%; e os demais países, com 46%. Registe-se a subida da Espanha para quarto lugar (7%).
Humor e ternura
Humor com ternura é uma combinação abençoada.
Raymond Peynet (1908-1999), desenhador humorístico francês, ficou célebre graças às suas séries com pares de namorados (amoureux).
Para acompanhar a galeria de imagens, um pequeno trecho, Mother’s Journey, de Frédéric Chopin.
Frédéric Chopin. Mother’s Journey.
Desenhos de Raymond Peynet
- Raymond Peynet 01
- Raymond Peynet 02
- Raymond Peynet 03
- Raymond Peynet 04
- Raymond Peynet 05
- Raymond Peynet 06
- Raymond Peynet 07
- Raymond Peynet 08
- Raymond Peynet 09. The Lovers Dream
- Raymond Peynet 10
- Raymond Peynet 11
- Raymond Peynet 12
- Raymond Peynet 13
- Raymond Peynet 14. The Lovers Serenade
- Raymond Peynet 15
- Raymond Peynet 16. Please I want to come.
- Raymond Peynet 17
- Raymond Peynet. Façade.
A civilização da leveza

Luis Ricardo Falero. Faust’s dream. 1880.
Ontem decidi começar a escrever um artigo, desses que dão pontos, sobre a leveza. À semelhança daqueles que escrevi sobre o grotesco, a dobra, o fragmento e a ilusão. Há anos que debico o tema. Desde Outubro de 2011, o blogue Tendências do Imaginário dedicou, pelo menos, 31 artigos aos tópicos da leveza e da levitação (ver lista no fim do artigo). Antes de iniciar um artigo, costumo proceder ao levantamento das publicações mais recentes. Como primeira referência, calhou-me um farol do pensamento contemporâneo: Gilles Lipovetsky, De la légèreté, Grasset, 2015. Nem mais, nem menos. Eis um autor que escreve rápido: 10 livros em 13 anos.
“Nous vivons une immense révolution qui agence pour la première fois une civilisation du léger.Le culte de la minceur triomphe ; les sports de glisse sont en plein essor ; le virtuel, les objets nomades, les nanomatériaux changent nos vies. La culture médiatique, l’art, le design, l’architecture expriment également le culte contemporain de la légèreté. Partout il s’agit de connecter, miniaturiser, dématérialiser. Le léger a envahi nos pratiques ordinaires et remodelé notre imaginaire : il est devenu une valeur, un idéal, un impératif majeur. Jamais nous n’avons eu autant de possibilités de vivre léger, pourtant la vie quotidienne semble de plus en plus lourde à porter. Et, ironie des choses, c’est maintenant la légèreté qui nourrit l’esprit de pesanteur. Car l’idéal nouveau s’accompagne de normes exigeantes aux effets épuisants, parfois déprimants. C’est pourquoi, de tous côtés, montent des demandes d’allègement de l’existence : détox, régime, ralentissement, relaxation, zen… Aux utopies du désir ont succédé les attentes de légèreté, celle du corps et de l’esprit, celle d’un présent moins lourd à porter. Voici venu le temps des utopies light.” (pode ler online o livro de Lipovetsky no seguinte endereço: https://play.google.com/books/reader?id=RmGjBQAAQBAJ&printsec=frontcover&output=reader&hl=pt_PT&pg=GBS.PP1.
“Este anúncio encaixa-se que nem uma luva no que tenho andado a estudar: a suspensão da gravidade como levitação e libertação, ou seja, como desprendimento das amarras da vida e do mundo” (AG:http://tendimag.com/2011/11/12/a-insustentavel-leveza-da-compra/).

Michelangelo. La tentazione di Sant’Antonio. 1488. Tempera su tavola, Kimbell Art Museum,
“Estou convencido que a leveza atrai mais as pessoas do que a liquidez, a velocidade, a imaterialidade ou a fragmentação. Consumimos comidas e bebidas leves. Deslizamos em desportos leves tais como o surf e o asa delta. Os corpos e os gestos querem-se elegantes e graciosos. A leveza anda associada à liberdade. Os pássaros não voam em gaiolas. Pelo menos à vontade. Devem, vadios, acabado o voo, vir ter connosco, decididos. Tive duas aves assim, soltas. Uma era uma pega que, tendo todo o mundo à disposição, vinha pousar no meu ombro ou na minha mão. A leveza é uma aspiração, raramente uma realidade. As nossas vidas têm conta, peso e medida. A sociedade emprega-nos e desemprega-nos, mas não nos larga. A leveza pede desgravitação e desprendimento. Normalmente, arrastamo-nos. Arrastamos os passos, arrastamos os dias, arrastamos a alma, arrastamos a vontade. Eis o nosso valor de uso (AG http://tendimag.com/2013/11/20/so-sobe-o-que-tem-peso/)”.

Two scotsmen and a witch flying on a broomstick. Etching by Paul Sandby with text by Hopkins.
“Não há paciência para tanta levitação. Mas a publicidade insiste. Nos anúncios a bebidas gaseificadas, as borbulhas refrescam, tonificam e, sobretudo, libertam. A não ser mais pela recorrência, convém registar o ato, o modo e a missão: bebe, descola e voa! O homem contemporâneo sonha! Sonha em desprender-se. Sonha que é líquido num vaporizador. Sonha que é múltiplo, com plataformas ambulantes. Sonha que é mais arcaico do que as árvores do Paraíso. O homem sonha como nunca sonhou. Sonha com os prodígios do ecrã, com a circum-navegação, com galerias de espelhos, pós-narrativas e guerras de Titãs. Joga às escondidas na floresta da vida, líquido, plural, arcaico e sonâmbulo. Com os pés no ar!” (AG: http://tendimag.com/2015/03/03/borbulhas/).

Luís Ricardo Falero. L’étoile double: ca. 1881.
Ando ultrapassado porque sou lento. Leio devagar, “publico” pouco… Apraz-me comunicar, de perto ou de longe, com quem dialogo e interajo. Devia escrever mais e com outra urgência, mas, para mim, o pensamento é alambicado. Pede evaporação e condensação. Está pronto quando está pronto, se algum dia o estiver. Sou assim, atrasado. Com este ritmo, não vou chegar a tempo ao caixão. Apresentei uma comunicação na Sorbonne, no mês de Junho de 2011, sobre “La suspension de la gravité dans l’enluminure médiévale et dans la publicité actuelle” (Socialité Postmoderne, Journées du CEAQ). Entretanto, “não escrevi” sobre o tema. Não escrevi? Escrevi textos para dezenas de milhares de leitores espalhados pelo mundo. Mas, não escrevi. Neste mundo que é o meu, escrever significa submeter um paper a um júri de pressupostos pares. Como sustentam Lipovetsky, Maffesoli, Eco e outros cientistas sociais, a sociedade contemporânea tem muito de medieval. Parece uma roleta: pós-moderna, moderna, clássica, medieval… Não sou apóstolo das minhas próprias ideias. Ainda menos, candidato a vitrinas em que não encontro reflexo. Prefiro a proximidade e o interconhecimento. A edição do livro do Lipovetsky, mais do que terra queimada, oferece-se como um balsamo. Acompanhado, sinto-me menos excêntrico: “não sou o único a olhar o céu!”

Stefano di Giovanni.The Blessed Ranieri Frees the Poor from a Prison in Florence. Between 1437 and 1444. Louvre.

Luis Ricardo Falero. The Butterfly. 1893.
Sinto-me ultrapassado. O mundo fugiu-me. Lembro-me de algumas revistas: Revue Française de Sociologie, Année Sociologique, Cahiers Internacionaux de Sociologie, Communications, L’Homme et la Société, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, Populations, L’Homme… Revistas sem indexação, mas com identidade. Agora, os meus olhos perdem-se no meio de tanto apelo global. Naquele tempo, as revistas ainda não se pautavam por métricas de rankings e apelos internacionais. A burocracia não era a carroça da ciência.
E pronto! O Gilles Lipovetsky escreveu um livro sobre a leveza. Quanto a mim, nem um artigo submeti. Não basta plantar ideias, convém colher também as letras.
Artigos do Tendências do Imaginário sobre a leveza:
– Levitação: 01 de Outubro de 2011.
– Asas para quê: 07 de Outubro de 2011.
– Libertação: 29 de Outubro de 2011.
– A insustentável leveza da compra: 12 de Dezembro de 2011.
– A insofismável leveza do tacto: 28 de Janeiro de2012.
– Celebridades aos saltos: 09 de Fevereiro de 2012.
– Perdido em movimento: 10 de Fevereiro de 2012.
– Um par de asas: 18 de Fevereiro 2012.
– We robots: 14 de Março de 2012.
– Levitação 2: 05 de Abril de 2012.
– Descolagens: 12 de Abril de 2012.
– Voar ou levitar?: 10 de lAgosto 2012.
– Hipnose: 12 de Outubro de 2012.
– Da necessidade de voar: 16 Setembro de 2012.
– A levitação do Professor Tournesol: 28 de Outubro de 2012.
– Da banalidade da levitação: 08 de Dezembro de 2012.
– Só sobe o que tem peso: 20 de Novembro de 2013.
– Balões: 28 de Novembro de 2013.
– Voo pesado: 29 de Novembro de 2013.
– Memórias com asas: 6 de Dezembro de 2013.
– A incomensurável leveza do beijo: 12 de Fevereiro de 2014.
– Deslizar: 09 de Março de 2014.
– Flutuar naturalmente: 15 de Maio de 2014.
– O milagre da queda: 26 de Junho de 2014.
– Cerveja debaixo de água: 27 de Outubro de 2014.
– Mercúrios: 22 de Fevereiro de 2015.
– Geração ultraleve: 03 de Março de 2015.
– Borbulhas: 03 de Março de 2015.
– Baloiços: 08 de Março de 2015.
– Vertigens a baixa altitude: 02 de Abril de 2015.
– Magnetismo: 27 de Abril de 2015.
A cor e o farnel
Dois anúncios portugueses acabados de sair. Um contra o racismo, o outro pelo hambúrguer! Ambos contam histórias, que lembram episódios de séries de televisão. No primeiro, Stop (SOS Racismo), um jovem negro não escapa à conjunção de dois actos de racismo. No segundo, Typical McDrive (McDonald’s), o hambúrguer vai às festas de Santo António, de tão típico e familiar.
Anunciante: SOS Racismo. Título: Stop. Agência: Havas Worldwide Lisboa. Direcção: Roger Serrasqueiro. Portugal, Abril 2015.
Marca: McDonald’s. Título: Typical McDrive. Agência: TBWA Lisbon. Portugal, Abril 2015.
A música e a comunicação das almas
“A música ajudava-me a descer em mim mesmo, a descobrir em mim coisas novas (…) Eu pensava comigo se a música não era o exemplo único (…) da comunicação das almas” (Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido – A Caminho de Swann).
Music Has No Enemies é uma organização que produz música e conteúdos multimédia para instituições não lucrativas socialmente responsáveis. Um anúncio excelente.
Marca: Music has no enemies. Título: Jack. Agência: Latinworks. Direcção: Carlos Lopez Estrada / CINCO. USA, Abril 2015.













































