Archive by Author | Albertino Gonçalves

A ligação à Internet

“A última diligência da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Revelar-se-á fraca se não chegar a conhecer isso” (Blaise Pascal, Pensamentos).

Há quem acredite que a Internet começa no ecrã. O gesto inicial do utilizador seria a ligação, seguida pela imersão. A minha ideia é outra, o utilizador faz parte da Internet. Nem ponto de partida, nem ponto de chegada, mas ponto de passagem. Não vamos à Internet, reencontramo-nos na Internet: no correio electrónico, nas redes sociais, no blogue… Mesmo quando não estamos na Internet, estamos na Internet.

Maurits C. Escher, Convex and Concave, lithograph, 1955

Maurits C. Escher, Convex and Concave, lithograph, 1955

Apesar do entusiasmo pelo fenómeno da imersão, não se vislumbra sombra de luto pela emersão. A emersão enche-nos os olhos e os ouvidos, mais o corpo do que a mente. Entre a imersão e a emersão, as fronteiras são frágeis e porosas. Há filmes, vídeos musicais e anúncios publicitários que, nesse capítulo, lembram as gravuras do E. C. Escher.

Nestes anúncios da Terra Zoo, a imersão e a emersão intrincam-se. Num gesto, conjugam-se, num ápice, imersão e emersão. É raro um anúncio ser, simultaneamente, tão expedito e tão sedutor. Um piscar de olhos perfeito para promover uma empresa comercial online.

“A razão nunca se sobrepõe totalmente à imaginação, o contrário é corrente” (Blaise Pascal, Pensamentos).

Marca: Terra Zoo. Título: Dog Food. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

Marca: Terra Zoo. Título: Coleira. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

Marca: Terra Zoo. Título: Osso. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

A corrente

Nestle-ricore-publicis-paris-blog-communication-publicite-marketing-minute-com-paul-montserret-2A socialidade humana é assim, um quase nada pode despoletar a comunicação, ligar a corrente no grupo. No entanto, a indiferença prevalece. Por quase nada, confraternizamos, mas esse quase nada custa-nos os olhos da cara. Valha-nos o Ricoré! Um belo anúncio.

Marca: Ricoré. Título: Devenez du matin. Agência: Publicis. Direcção: Georgi Bank Davies. França, 2014.

Futura campanha sanitária

A luta contra o tabaco é apenas um passo no sentido da cura universal. Outras campanhas se seguirão, por exemplo, contra o ensino enquanto causa de transtornos psíquicos. Para prevenir o risco de perturbação mental dos professores, encara-se utilizar os manuais escolares de um modo semelhante ao dos maços de cigarros. Eis uma antevisão.

Capa de manual

Protótipo de capa de manual escolar

Contra-capa de protótipo de manual escolar

Protótipo de contra-capa de manual escolar

Detectores

Quino. Nudistas.

Quino. Nudistas.

Há detectores para a caça e para a pesca. A Volkswagen avança com detectores de peões.

Falta inventar um detector de pessoas livres.

Este anúncio intriga-me. É incómodo e irritante. Mas vende o que pretende.

Não é o primeiro anúncio em que o desagradável é suposto agradar.

Marca: Volkswagen Passat. Título: Cinema Pedestrian Detection. Agência: DDB España. Espanha, Maio 2015.

Fichas e Selfies

pizza-hut-selfie-640x351Livrei-me da tropa fazendo-me passar por um neurótico. Eles tomaram-me por louco. Quando preenchi o formulário, na rubrica “raça”, escrevi “humana”. Na rubrica “cor”, escrevi “variável” (Marlon Brando).

Estou fichado. Andei às voltas com um projecto e acabei por preencher a ficha à pressa. Fichei-me. As fichas têm o condão de confundir o essencial e distinguir o acessório. Sem ficha, não existes! Com ficha, estás fichado. Prometido, não volto a prestar-me a burocracias do espírito.

Este anúncio da Pizza Hut é divertido. Humor e loucura de braço dado. Uma paródia que retrata e ridiculariza a mania das selfies. “Se não gosto de mim, quem gostará? Porque eu gosto de quem gosta de mim”. Deve ser isto a reflexividade social.

Marca: Pizza Hut. Título: The Danger of Self Sticks. USA, Maio 2015.

Coincidências

Álvaro Domingues. Rua da Estrada. Dafne Editora. 2009.

Álvaro Domingues. Rua da Estrada. Dafne Editora. 2009.

Não diga que não há coincidências. Carros, cadeiras e câmaras elevam-se no ar até furar o céu. Lembram a ascensão diária de Santa Maria Madalena para alimentação divina. Álvaro Domingues publicou em 2009 o livro Rua da Estrada. Na capa, uma fotografia com um carro nas alturas (Fig. 1). Cruzando esta fotografia com a “cadeira espacial” do anúncio da Toshiba (2009; vídeo 1), desembocamos no anúncio Stratoquest (2014), com um Citroen C4 a subir ao espaço (vídeo 2). Coincidências…

Marca: Toshiba. Título: Chair. Agência: Grey London. Direcção: Andy Amadeo. UK, 2009.

Marca: Citroen C4. Título: Stratoquest. Agência: Les Gaulois. Direcção: Ivan Laprade. França, 2014.

A Costela de Adão. Corpo, técnica e imaginário

O primeiro transplante da história da humanidade. Paraíso, mulher e pecado.  Museu Condé Chantilly. Por volta do Séc. XV.

O primeiro transplante da história da humanidade. Paraíso, mulher e pecado. Museu Condé Chantilly. Por volta do Séc. XV.

the_hands_of_orlacNo filme The Hands of Orlac (1924), de Robert Wiene, um pianista perde as mãos num acidente, sendo-lhe transplantadas as mãos de um criminoso. As mãos apoderam-se do corpo e da mente do pianista, que começa a adoptar comportamentos próprios do dador, o criminoso.

Christian Barnard conclui, em 1967, o primeiro transplante do coração.

“A notícia do transplante se propagou como fogo. O acontecimento era até então inconcebível, revolucionário, embora há muito tempo se transplantassem rins, córneas e os ossos do sistema auditivo. Mas havia uma grande diferença: os obstáculos morais levantados mundo afora contra o transplante de coração. Predominava naquele tempo a crença de que não se tratava de um órgão como os demais, mas o lugar da alma, o núcleo humano, o centro da personalidade” (http://www.dw.de/1967-primeiro-transplante-de-cora%C3%A7%C3%A3o/a-340975).

No filme de Robert Wiene, de 1924, num mundo marcado pelas próteses do pós-guerra, o corpo humano ainda era íntegro, um todo não desmembrável, sob risco de a parte dominar o todo.

Otto Dix. Pagerstrasse. 1920.

Otto Dix. Pagerstrasse. 1920.

Em 1967, o coração era encarado como um órgão com uma forte carga simbólica: “o lugar da alma”. A posição de Christian Barnard era distinta:
“A partir de um determinado momento, a gente é apenas um pesquisador e tem que se ater ao fato de que o coração tem apenas a função de bombear o sangue. Um transplante de coração não é mais do que um transplante de rins ou de fígado” (http://www.dw.de/1967-primeiro-transplante-de-cora%C3%A7%C3%A3o/a-340975).

Passo a passo, a biotecnologia abre caminho.

perrito

O anúncio da Fundación Argentina de Transplante Hepático, “The Man and the Dog”, é ambivalente. Por um lado, o cão, fiel companheiro do dador, reconhece o dono na figura da pessoa transplantada. O mestre habita, através do fígado, um novo corpo. Por outro lado, o transplante surge como um desfecho normal da biotecnologia, sem qualquer sombra simbólica. Num século, passa-se de um estranho conflito de identidades (The Hands of Orlac) para a proeza biotecnológica com resistência simbólica (cirurgia de Christian Barnard), para arrimar, enfim, ao anúncio “The Man and the Dog”, um conto de fadas com final feliz. Uma história criativa, com o cão a merecer um Óscar.

Anunciante: Fundación Argentina de Transplante Hepático. Título: The Man and the Dog. Agência: DDB Argentina. Direcção: Álvarez Casado. Argentina, Maio 2015.

Do pensador ao perito

Quino

Quino

Os peritos penduram-se nos galhos mais altos das sociedades democráticas burocráticas. Lembram nobres de toga em corte de rei pasmado. Até os políticos se dão ares de peritos. Como os gatos, os peritos metem, inimputáveis, o focinho em tudo. O que mais me irrita nos peritos é a sua vontade de nos aperfeiçoar. Fazem tudo para nosso bem. São os novos anjos da guarda. E escolhem primorosamente a gaiola em que nos vão libertar. Libertam-nos de todos os vícios, de todas as gorduras, de qualquer autonomia e, se possível, do mais ínfimo rendimento. Neste excerto do filme Laranja Mecânica, um jovem ultra-violento está em vias de ser curado por dois peritos. Um perito para ti! Um perito para mim! E a vida sorri!

Stanley Kubrick. Laranja Mecânica. 1971. Excerto.

Fotogenia

Albert EinsteinPor que motivo Einstein mostra a língua? É um dos mistérios do século XX, agora desvendado pela Sony graças a uma alta tecnologia de reconstituição fotográfica. Afinal, Einstein está a colar envelopes de correio, sendo a língua o humidificador. Quem pensou noutro motivo, pecou. Noutra fotografia célebre, o riso de Marilyn Monroe ofusca o sorriso da Gioconda. Funciona, segundo a Sony, como um recurso para se livrar de apuros. Quem pensou numa virtude, errou! Ambos os casos convocam a sedução: Einstein seduzido pela gula, Marilyn, sedutora por conveniência.

Marca: Sony Cybershot. Título: Einstein. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, Argentina. Direcção: Marcelo Burgos. Argentina, 2011.

Marca: Sony Cybershot. Título: Marilyn. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, Argentina. Direcção: Marcelo Burgos. Argentina, 2011.

As Mil Faces de David Bowie

bowie-mercuryDavid Bowie está associado a uma das imagens mais versáteis do séc. XX. A paródia do anúncio da Marvin, MechaBowie, fica aquém da realidade. Nem Klaus Nomi, nem Fred Mercury (cantou com ambos), nem Marylin Manson (vários covers de David Bowie) lhe fazem sombra.

Marca: Marvin. Título: MechaBowie. Agência: Latinworks. Direcção: Andrés Rothschild. USA, Maio 2015.

Queen & David Bowie. Under Pressure.