Jogar às cartas com o Diabo 2. Chove no inferno
No dia 3 de agosto de 2021, após três semanas de internamento, tive, enfim, alta. Pouco são, mas salvo [aguardava-me cerca de um ano de cadeira de rodas e ainda não dispenso a bengala]. Espreitava, porém, a esperança. A tendência desenhava-se auspiciosa: de mal para melhor. Chegado a casa, logo acudi ao Tendências do Imaginário. Era o reencontro com uma componente pessoal de que sentia saudades.

Os primeiros artigos suspiravam alívio. Recomeçava o alfabeto [Vangelis- Alpha]. “Sobrevivente do desespero (…) estava de volta” (Regresso, 03.08.2025); escapara graças a um fenómeno contranatura: “choveu no inferno” (Alívio, 04.08.2025). A terra ainda ressumava um cheiro abençoado a fumo molhado.
Seguem os artigos Regresso (03.08.2021) e Alívio (04.08.2021)
Regresso
Uma coisa é escrever sobre a morte, outra privar com ela. Durante um ano, fui vítima de intoxicação severa não diagnosticada. Uma degradação galopante interminável. Para fumar, tinham que me segurar no cigarro. Sobrevivente do desespero. Acabei internado, uma semana nos cuidados intensivos. Cruzei-me com a morte e não dei por ela. Nem sombra de memória. Espero estar de volta. Obrigado!
Alívio
Chove no inferno!
Jogar às cartas com o Diabo 1. Purgatório
Não se consegue pentear um diabo que não tem cabelos (Provérbio belga)

O Tendências do Imaginário é, desde a criação em agosto de 2011, uma espécie de oxímetro que afere a minha atividade vital, os seus altos, baixos, derivas e vazios. Também se oferece como um memorando ou diário regular. Por sinal, útil, porque não quero esquecer. As memórias dão alento e sentido à vida. São veio e vento!
Imagem: Com João Gigante e Álvaro Domingues. Alvaredo, agosto 2025
Faz, precisamente, quatro anos, que tive alta de um internamento hospitalar complicado que durou três semana. Não posso dizer que conheci a morte [creio que ninguém o pode], mas passei a saber, aliás como muitos, o que significa [estar a] morrer.

Joguei às cartas [em vez de xadrez] com o diabo [ou a morte]. Por trapaça ou desembaralho, vinguei. E choveu no inferno! Como Dante ou Epistémon, regressei, embora chamuscado.
Os artigos de agosto de 2021 foram redigidos durante este “renascimento”. Para proveito próprio, retomo-os. Retenho os onze publicados entre os dias 3 e 18. Arrumo-os em quatro grupos.
Imagem: Albertus Pictor, Death playing chess. Mural. 1480
- Resgate: “regresso” e “alívio, dias 3 e 4;
- Regeneração: “Sara”, “reincidência” e “aleijados, dias 5, 6 e 7;
- Apelo: “abrigo”, “embarcados” e “a tua mão”, dias 6 e 8;
- Trauma: ”sofrimento”, “anjo da guarda” e “raiva”, dias 9, 17 e 18.

Nos meses de julho e agosto, a vida tendeu a mudar e o mundo a virar do avesso.
- O discurso torna-se esquelético, esfíngico e estético. Palavras, apenas as suficientes para partilhar ideias e sentimentos;
- Primazia à subjetividade, menos pretensão “científica” e mais poesia, música e artes;
- Nada de hierarquias temáticas. Sem assuntos maiores ou menores, todas as sementes podem dar flores e nada escapa ao humor;
- Aceitação dos outros, sem ilusões;
- Enfim, depois de dez anos sempre a piorar, os últimos quatro a melhorar.

Existe, pelo menos, uma porta do inferno no purgatório. Publiquei só dois artigos em julho, antes do internamento (dias 4 e 6). Acamado, com escassa motricidade, os principais estímulos resumiam-se à incontinência da televisão, ao refúgio do portátil e ao desconforto físico. Corpo, imagens, poesia e música compunham o mundo vital. Não surpreende, portanto, o destaque que lhes é reconhecido. Ironicamente, convoco, ainda, os pés, tão prestáveis, mas agora entorpecidos. Um dia após o último artigo, dei entrada nas urgências do Hospital. Concederam-me expeditamente alta [talvez para morrer em casa]. Volvida uma semana, a 15 de julho, retornei moribundo. Afortunadamente, além do Diabo, tinha um Anjo à minha espera.
PURGATÓRIO
Recoloco, portanto, os artigos Ideologia a domicílio e Da excelência dos pés, os únicos publicados no mês de julho de 2021. O texto propriamente dito quase desaparece. Predominam os conteúdos: a música (In Loving Memory), o anúncio (Les Pieds) e um excerto do poema Dans ma maison, de Jacques Prévert. Estava saturado dos ecrãs e, pelos vistos, os pés tinham potencialidades fantásticas, ironicamente, fora do alcance dos meus. Pouco convivia. Apenas com a esposa, o filho e a empregada, progressivamente conformados com a presença de um quase cadáver. Acreditavam no inevitável. A despedida resultou extremamente longa e o luto quase antecipado. Todos menos a vítima! Mal diagnosticado e medicado, estava a morrer há tanto tempo que não lhe via o fim. Só nos últimos momentos, rodeado por médicos impotentes e uma enfermeira, ex-aluna chorosa como Madalena, resigmado, se dispôs a entregar a alma ao Diabo. Inesperadamente, antes da última badalada, um anjo interveio surgiu. Afinal, existem na terra.
[Carregar nas imagens seguinteses para aceder artigos.]
Artigo Ideologia a domicílio – 4 de julho de 2021

Artigo Da excelência dos pés – 6 de julho de 2021

Trans. Antony e Anohni
A neta já partiu e os dois textos agendados, um prefácio e uma recensão, já saíram da forja. Solitário, como quase sempre, e com tempo disponível, regresso ao vício, ao Tendências do Imaginário [por exemplo, ler artigos de história da arte seria mais edificante].
Escrevo este post a pensar em amigas que lamentam ter perdido o rasto do Antony, leader da banda Antony and the Johnsons.

Por volta de 2015, Antony assume-se transgénero, muda o nome para Anohni e pede para ser tratada no feminino, como mulher.
Antony, publicou quatro álbuns: Antony and the Johnsons (2000), I Am a Bird Now (2005), The Crying Light (2009) e Swanlights (2010). A Anohni, que tenha conhecimento, três: Hopelessness (2016), Paradise (2017) e My Back Was A Bridge For You To Cross (2023).
“Anohni e a sua banda são uma presença assídua em Portugal, onde já atuaram em Lisboa, Porto e em Braga. Anohni considerou o Theatro Circo um “local mágico” e um dos mais belos teatros onde já havia tocado.” (Wikipedia, Anohni, consultado 30.07.2025).
Segue uma mão cheia de canções do último mais recente da Anohni (My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023): “Sliver of Ice”; “Spacegoat”; “Rest”, “You Be Free”; e “It Must Change”.
Luminárias


Os “intelectuais” ganhavam em ser mais contidos quando falam sobre assuntos e pessoas que não conheceram. Pela experiência que tenho, que pode ser errada, considero o “mundo intelectual” particularmente propenso ao delírio. A banda norte-americana The Lumineers vem, pelo título (luminárias), a talhe de foice.
O artigo Numinoso, de 11.02.2022, já inclui os sucessos “Ho Hey” e “Stubborn Love”, do álbum The Lumineers (2012). Acrescento, agora, “Cleopatra”, “Sleep On The Floor” e “Gloria”.
Folk-Rock Chinês

Em casa a ver mar, apetece sonhar. Ousar, como os antigos navegantes, ir além do Cabo da Boa Esperança rumo às longínquas terras do Extremo Oriente. Não por causa das especiarias, mas pelo pouco conhecido folk-rock chinês. Por exemplo, descobrir quatro canções da banda Wu Tiao Ren / 五条人.
Imagem: Xian’e Changchun Album. 1722-1735
Wu Tiao Ren é uma banda de Haifeng, Guangdong. Eles cantam no dialeto local de Haifeng desde 2003. As letras de suas músicas são principalmente sobre episódios de suas vidas nesta cidade, com os quais estão familiarizados, ou histórias ou sentimentos que gostariam de compartilhar. Eles retratam sua vida de forma surpreendente em melodias suaves e na língua nativa. Além do som, pode-se encontrar sua sátira aos tempos modernos (…) Ao ouvir o som de seus violões e acordeões (às vezes gaitas ou harpas), é possível sentir a brisa soprando desta pequena cidade litorânea, trazendo sussurros incompreensíveis do oceano. (…) A vida e a música de Wu Tiao Ren são sempre repletas de alegria. Eles são como dois pardais sempre prontos para bicar um pouco de arroz e depois voar de volta para o poste de arame. (https://www.last.fm/music/%E4%BA%94%E6%9D%A1%E4%BA%BA/+wiki)
Cosmética pomífera. Maçãs, ideias e ilusões

“Se tens uma maçã [um dólar] e eu tenho outra; e trocamos as maçãs [os dólares], então cada um ficará com uma maçã [um dólar]. Mas se tens uma ideia e eu tenho outra, que partilhamos; então cada um terá duas ideias.” (A partir de George Bernard Shaw)
Imagem: George Bernard Shaw
Numa série de anúncios provenientes da Arábia Saudita, a Apple propôe-se contribuir para a (re)composição dos retratos e dos laços de família, designadamente no que respeita ao protagonismo e ao encanto dos membros atuais e futuros. Trata-se de uma gestão da imagem capaz de potenciar o desígnio de ilusionismo almejado, sobretudo, por tantas figuras públicas, ver políticas.
Ausência
Le mal du pays est avant tout un mal de soi et on se sent dépaysé justement à l’endroit où l’on ne se retrouve plus (Bernard Arcand, Quinze lieux comuns, 1993)

A saudade fala português, mas o sentimento é poliglota.
Sabia que a música [“tango da alma”] Ausência, cantada por Cesária Évora e estreada em 1995 no filme Underground de Emir Kusturica, foi composta pelo sérvio-bósnio Goran Bregović e a letra pelo cabo-verdiano Teófilo Chantre? Sabia, não sabia?
Imagem: Goran Bregović



