O burro e a violência doméstica (aumentado)
| Estou a adquirir o mau hábito de revisitar os artigos entretanto esquecidos que constam entre os 10 mais vistos no dia anterior. Não estranha que não os recorde: são perto de 4500 artigos dispersos por 15 anos. Os títulos, eventualmente apelativos, mas não descritivos, também não ajudam. Ontem, o Tendências do Imaginário somou 462 visualizações. O artigo “O burro e a violência doméstica” surgiu em quinto lugar. Escrito há 10 anos, manifesta demasiada ousadia, senão atrevimento. Não tinha ainda consciência de algumas limitações e futuras vulnerabilidades. Recupero-o, acrescentando uma citação e duas gravuras. |
O burro e a violência doméstica (março 29, 2015)

Na França pós-renascentista, o marido agredido ou dominado pela mulher era colocado às arrecuas num burro, com a cauda na mão. Neste preparo, percorria, injuriado e ridicularizado, as ruas da cidade. Em Inglaterra, era atrelado a uma carroça e coletivamente humilhado (Bough, Jill, Donkey, London, Reaktion Books, Ltd, 2011. p. 17). Estes costumes lembram-me as apupadas, que, ainda não vai muito tempo, fustigavam, pela noite dentro, o casamento de viúvos, velhos e noivos com grande diferença de idade.
Nos séculos XVII e XVIII, em França e em Inglaterra, existiam maridos agredidos e dominados pelas esposas. A sociedade não só conhecia a existência do fenómeno, como previa formas de o corrigir. Vigorava o patriarcado. Um homem vítima da mulher configurava uma inversão inadmissível dos papéis de género. Homem que é homem é dono da casa. Se é vítima da mulher que não espere solidariedade mas vexame.
Volvidos dois séculos, as nossas instituições, nacionais e internacionais, resolveram experimentar o efeito Pigmaleão. Estudaram a violência doméstica confinando-se às mulheres. Confirmaram, naturalmente, que só havia mulheres vítimas de maus tratos domésticos! Admitia-se a existência de um número reduzido de homens possivelmente vítimas da autodefesa feminina. Esqueceram-se, porventura, que esses homens tinham direitos e que os direitos não se medem aos palmos. Orientei uma investigação numa instituição de apoio à vítima. Durante a observação, apresentaram-se alguns homens. Não voltaram. Ou a solução foi súbita ou a esperança morreu. A Pós-modernidade não cumpriu o que prometeu: acabar com grandes narrativas e ideologias. Há casos em que se restauram. O patriarcalismo e o feminismo até podem complementar-se! A cegueira em relação à violência doméstica ancora-se em estereótipos tais como: “um homem é um homem” e “a mulher é quem sofre”.
Foi preciso aguardar pelos anos setenta pelo início, nos Estados-Unidos, de estudos envolvendo homens e mulheres (para o “estado da arte”, a partir de 111 estudos, http://www.cronicas.org/informe111.pdf). Os resultados são “surpreendentes”: as taxas dos homens aproximam-se das taxas das mulheres (ver http://www.fact.on.ca/Info/dom/george94.htm).

Não sou especialista em violência doméstica, mas pergunto: Já avaliaram e adaptaram os dispositivos de apoio à vítima de modo a atender quem necessita como necessita? Vários autores sustentam que as políticas zarolhas de luta contra a violência doméstica têm agravado a situação. É verdade?
Tantos disparates em tão poucas letras merecem um passeio de burro. Como Napoleão Bonaparte, a caminho do exílio.
Adenda

O GENERAL
Está tranquilo, meu rapaz; não diremos nada. Mas afundas-te em mau caminho, meu amigo; um marido que tem medo da sua mulher, é risível, palavra de honra.
MOUTONET
Não é que tenha medo, senhor conde, é porque gosto muito dela e não a quero molestar.
O GENERAL
Ta! Ta! Ta! Eu conheço isso; já vi mais que um; quando a mulher resmunga, o marido dobra as costas, e a mulher bate em cima. E tu sabes o que acontece a um homem batido pela sua mulher?
LAURENT
Então, o quê, meu tio? O que acontece?
O GENERAL
A população da freguesia junta-se, coloca o marido de bom grado ou à força sobre o dorso de um burro, com a cara virada para o lado do rabo, e passeia-o por todas as aldeias da freguesia.
LAURENT
Mas isso é muito divertido; a mim, isso divertir-me-ia imenso.
O GENERAL RINDO
Pois bem! quando te casares, poderás proporcionar-te esse prazer.
(Contesse de Ségur. Diloy le chemineau, 1868, 2e édition, Paris, Librairie Hachette, 1887. p. 114)

A mobilização das identidades locais. O caso da aldeia da Varziela de Castro Laboreiro

Acaba de ser publicado na revista Trabalhos de Antropologia e Etnologia (2025, volume 65, pp. 379-398) o artigo “Varziela – Do comunitarismo agro-pastoril às redes sociais”, da autoria de Álvaro Domingues.
Chegou a estar previsto integrar este estudo na revista Boletim Cultural nº 11, da Câmara Municipal de Melgaço, lançada em janeiro de 2025, mas não se proporcionou.

Centrado em Castro Laboreiro, nomeadamente na aldeia de Varziela, o artigo constitui, antes de mais, um ensaio sobre a mobilização das identidades locais na era da globalização, no caso vertente um projeto de aproveitamento turístico por um influencer de um lugar (destino) recôndito com selo (#) de autenticidade cultural e qualidade ambiental.
Centrado em Castro Laboreiro, nomeadamente na aldeia de Varziela, o artigo constitui, antes de mais, um ensaio sobre a mobilização das identidades locais na era da globalização, neste caso, a propósito de um projeto, promovido por um influencer, de aproveitamento turístico de um lugar (destino) recôndito com selo (#) de autenticidade cultural e qualidade ambiental.
Para aceder ao artigo através do link respeitante à globalidade da revista, carregar na imagem com a capa ou no seguinte endereço: https://revistataeonline.weebly.com/uacuteltimo-volume.html
Acrescento um vídeo com o projeto de aproveitamento turístico da aldeia da Varziela programado pelo influencer João Amorim.
“Medos” voltam a “assombrar” Melgaço
Sexta, 24 de outubro, pelas 21 horas, haverá mais uma edição dos Serões dos Medos, dedicada ao “sexto sentido”, na Casa da Cultura, em Melgaço. Na semana seguinte, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos. Entretanto, pode visitar, até ao dia 16 de novembro, na Casa da Cultura, a Exposição Entre Mundos e Segredos.
Para aceder ao respetivo programa, bem como a quatro galerias com imagens e fotografias, carregar aqui ou na imagem seguinte.

Ver com o coração

“Conhecemos a verdade, não apenas pela razão, mas também pelo coração” (Pascal, Pensamentos, artigo XXII)
“O coração tem razões que a própria razão não conhece: sabe-se isso em mil coisas” (Pascal, Pensamentos, artigo XVI)
“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” (Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, cap. XVII)
Abra, concentre-se e sinta! O anúncio “The boy at the window”, da Thai Life Insurance, consegue comover um calhau. Ora, nós somos mais moles.
Abstinência social. Contos de solidão e mal viver

Das 417 visualizações que o Tendências teve ontem, 15 de novembro, 7 incidiram sobre o artigo “Contos de solidão e mal viver”. O título despertou-me a curiosidade e fui espreitar. Não engana: o assunto é mesmo a abstinência social, o isolamento e a fata de convívio, principalmente dos mais velhos. Na altura, sentia-me só. Aliás, ainda me sinto, embora menos. Instalada a solidão, a morte social, resulta difícil livrar-se dela. Entre nós e os outros ergue-se como que um véu deveras complicado de rasgar. Recoloco o artigo.
Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…
Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.
Com o Filho no Colo – Convite

O Luís Pinto, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), acaba de produzir o convite para a conversa Com o Filho no Colo: As Esculturas da Humildade e da Piedade, que preparo há quase três anos, desde a conferência dedicada ao “Cristo Estrábico” (29/11/2022), no mesmo local, o auditório do Museu de Arqueologia Dom Diogo de Sousa. Está previsto abrir com um momento musical pela Escola Arquidiocesana de Música Litúrgica – São Frutuoso; no fim, em jeito de compensação, um Alvarinho de Honra (da adega Quintas de Melgaço).
O Pecado. Michelangelo

Estou a abordar a vida e a obra de Michelangelo na Universidade Sénior de Braga e a concluir uma conversa sobre as imagens da Virgem da Piedade e da Humildade nos séculos XIV e XV.
Uma hora é um colete muito apertado. Não dá para quase nada. Informações relevantes não podem ser contempladas. Passo a colocar artigos com conteúdos que compensem essa falha. Uma espécie de complementos.
Começo com o filme russo-italiano “Il peccato – Il furore di Michelangelo”, realizado por Andrei Konchalovsky e estreado em outubro de 2019. Não se demora nas obras, concentrando-se na personalidade do artista e no ambiente da época. Tem a particularidade de relevar a importância da escolha do bloco de mármore a esculpir. Boa parte do filme passa-se nas carreiras de Carrara e acompanha o transporte do “monstro”. Segue o filme falado em italiano e legendado em espanhol.
Impressão 3D da Pietà


O Fernando acaba de me oferecer uma pequena Pietà que imprimiu em 3D; por sinal, muito mais fiel ao original do que as cópias que possuo. Em jeito de gratidão, retomo um cântico à Virgem que se destaca entre os meus preferidos: “Polorum Regina”, compilado no Llibre Vermell de Monserrat, escrito cerca de 1399 (ver o artigo Deserdados do futuro, colocado no Tendências em 30.11.2019).
Acrescento outro (en)canto ainda mais antigo e jubiloso: “Santa Maria, Strela do Dia”, das Cantigas de Santa Maria, compilação em galaico-português datada do século XIII.
Fantasmas do Mês dos Medos
O anúncio mexicano “Todo por Cheetos”, da Pepsico, inaugura brilhantemente e com sentido de oportunidade o mês dos medos. Associado à série Merlina, da Netflix, foi supervisionado por Tim Burton.

Mano a mano, pasito a pasito, a publicidade leva o Tendências do Imaginário um pouco por todo o mundo. Inclino-me, contudo, a contornar as geografias que tresandam a ódio (por todos os contentores e conteúdos, incluindo as vacinas) e a excesso de higienização (com overdoses de salvadores e detergentes). Não me cativam as misérias alheias sublimadas em emblemas pessoais de trazer ao peito.
Prefiro dirigir o olhar, cansado e limitado, para os centros e eixos passíveis de decidir o (meu) futuro, com ou sem candidatos a prémios da paz. Pelo caminho, sobram paladinos genuínos da generosidade, cujas maçãs caem menos vítimas de ventos adversos e mais por apodrecimento interno. “Hoje é domingo, ai que preguiça! Hoje é domingo, não vou à missa!”













































