Oração e cumplicidade
“Quantas formas diferentes e profundas de rezar. Na “Romaria”, Elis Regina também diz que não sabe rezar. Fui escutar de novo, e num concerto ao vivo, ela toda reza, com a voz e com o corpo, terminando numa inclinação total, não para o chão, como é costume nas liturgias, mas para os céus numa total vulnerabilidade e humildade perante um Ser maior” (Almerinda Van Der Giezen, correspondência).

Uma nova pérola, luminosa, para o rosário mariano. Um pingo peregrino a escorrer do cálice ecuménico da cumplicidade. Esta “Romaria”, da Elis Regina, em Lisboa, é uma coroa de graça! Tanto que não vislumbro arte de retribuir. Aproximo-me, talvez, resgatando um cântico medieval, dedicado à “Rainha dos Polos”, entoado por um coro de anjos.
Fra Angelico, Retábulo de Bosco ai Frati (detalhe). Ca 1450
Sonho de Virgem
“A verdadeira intimidade é aquela que nos permite sonhar em conjunto sonhos diferentes” (Jacques Salomé, Et si nous inventions notre vie?, 2006).
Uma amiga tem o dom de adivinhar os meus gostos. Envia-me pérolas a fio num colar sem fim. Compensa a parcimónia dos demais amigos. A cada pérola recebida, o reflexo é tentar retribuir. Nem sempre é fácil. É o caso da canção “Nossa Senhora”, composta por Roberto Carlos, na interpretação de Marina Elali.
Ando obcecado com a iconografia da Virgem Maria. Vai ser o tema da próxima conversa, lá para o início do outono. Quem vê imagens, ouve músicas. A canção “Il sogno di Maria”, do Fabrizio De André, não desmerece. Pode propiciar um belo diálogo com a “Minha Senhora”, do Roberto Carlos.
Música no adro
On a tous un banc, un arbre, une rue
Où l’on a bercé nos rêves
On a tous un banc, un arbre, une rue
Une enfance trop brève
(Séverine. Un banc, Un Arbre, Une Rue, 1971)
Uma criança, um hino, uma catedral. Não é preciso muito para me emocionar.
A Rosa

| Françoise Hardy (1944-2024) Mon Amie La Rose | Gilbert Bécaud (1927-2001) L’important c’est la rose |
| On est bien peu de chose Et mon amie la rose Me l’a dit ce matin À l’aurore je suis née Baptisée de rosée Je me suis épanouie Heureuse et amoureuse Aux rayons du soleil Me suis fermée la nuit Me suis réveillée vieille Pourtant j’étais très belle Oui, j’étais la plus belle Des fleurs de ton jardin On est bien peu de chose Et mon amie la rose Me l’a dit ce matin Vois le dieu qui m’a faite Me fait courber la tête Et je sens que je tombe Et je sens que je tombe Mon cœur est presque nu J’ai le pied dans la tombe Déjà je ne suis plus Tu m’admirais hier Et je serai poussière Pour toujours demain On est bien peu de chose Et mon amie la rose Est morte ce matin La lune cette nuit A veillé mon amie Moi en rêve j’ai vu Éblouissante et nue Son âme qui dansait Bien au-delà des nues Et qui me souriait Croit, celui qui peut croire Moi, j’ai besoin d’espoir Sinon je ne suis rien Ou bien si peu de chose C’est mon amie la rose Qui l’a dit hier matin | Toi qui marches dans le vent Seul dans la trop grande ville Avec le cafard tranquille du passant Toi qu’elle a laissé tomber Pour courir vers d’autres lunes Pour courir d’autres fortunes L’important L’important c’est la rose L’important c’est la rose L’important c’est la rose Crois-moi Toi qui cherches quelque argent Pour te boucler la semaine Dans la ville tu promènes ton ballant Cascadeur, soleil couchant Tu passes devant les banques Si tu n’es que saltimbanque L’important L’important c’est la rose L’important c’est la rose L’important c’est la rose Crois-moi Toi, petit, que tes parents Ont laissé seul sur la terre Petit oiseau sans lumière, sans printemps Dans ta veste de drap blanc Il fait froid comme en Bohème T’as le c?oeur comme en carême Et pourtant L’important c’est la rose L’important c’est la rose L’important c’est la rose Crois-moi Toi pour qui, donnant-donnant J’ai chanté ces quelques lignes Comme pour te faire un signe en passant Dis à ton tour maintenant Que la vie n’a d’importance Que par une fleur qui danse Sur le temps L’important c’est la rose L’important c’est la rose L’important c’est la rose Crois-moi |
Brutal
Tenho um amigo que perante uma realidade invulgarmente impactante costuma classificá-la como “brutal”. Este anúncio de consciencialização da Change The Ref é deveras impressionante. O desfecho, criativo, é surpreendente.

Fundamentado em dados dos Centros de Controle de Doenças (CDC) que revelam que as armas de fogo são a principal causa de morte de crianças e adolescentes, o anúncio de sensibilização “American Cancer Story” confronta a violência armada e o câncer pediátrico a partir da experiência de uma jovem que tendo sobrevivido a um cancro se depara com um tiroteio no seu regresso à escola.
Sequência
Quando falta a inspiração, partilham-se partilhas e agradece-se.
Melancolia grotesca
Sinto-me sem inspiração. Nem tal me apetece. Tudo me cansa, menos o que desejaria. Preciso preservar-me. Talvez um seguro tailandês ajude.
Placebomania e Mentes Perdidas

Pasmo na varanda, um cigarro nos dedos, a ver os melros a roubar a comida do gato. O quintal parece um aeroporto. Aterram por trás do limoeiro e das hortênsias. Ali permanecem escondidos alguns segundos. Seguem-se uns saltinhos até à manjedoura. Não dispensam este ritual de abordagem, embora saibam que só correm o risco de ser capturados pelo olhar.
Neste enlevo, costumam surgir-me as ideias mais parvas.
No mundo atual, os problemas multiplicam-se, reais e graves. Mas as sociedades e as organizações democráticas parecem contentar-se com placebos. Estes “panos quentes” custam, contudo, tanto ou mais do que os remédios. Quem os suporta, os mais vulneráveis, não sente fatalmente os resultados esperados. Tudo isto é má medicina.
Como tudo me lembra alguma coisa, pensei nos Placebo. Deixei os melros sossegados, ignorei os debates da televisão a transbordar de placebos e coloquei um cd. Placebos por placebos…
Esta ideia de placebomania não passa de um exercício mental. Um convite à reflexão. Não é para engolir como comida de gato.
A Inteligência da Inteligência Artificial
Acordei com quatro minutos de inteligência humana na caixa de correio. Partilho-os. Com a dificuldade de ser em francês, mas a inteligência não escolhe línguas. Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo.


