Vestir os Nus. Vídeo da conferência
Eu saí nu do ventre da minha mãe e nu hei de voltar ao seio da terra. Deus mo deu, Deus mo tirou (Job: 1:21)
Na última década e meia, pouco me preocupei com a divulgação dos meus estudos. Quando muito um ou outro apontamento no blogue Tendências do Imaginário. Entretanto, a predisposição mudou. Passei a atender à transmissão dos conhecimentos amealhados, desde que pelos canais e do modo que bem entendo: sem demandas, candidaturas ou submissões. Multiplico, portanto, conversas e partilhas. Durante três dias a fio, empenhei-me na montagem do vídeo da conferência “Vestir os Nus: Censura e Destruição da Arte”. Embora obra de amador, não deixo de apresentar o resultado obtido.
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Acabei de me inteirar de um novo caso de “agasalho de um nu”. Desta vez, o São Sebastião, de Guido Reni (1617-1618), da coleção do Museu do Prado. Acabado de restaurar, o original está exposto desde o mês de março.
Re-vira-voltas. Sílvia Pérez Cruz
Com o visual pensamos, com o acústico nos sentimos
A vida é feita de viragens. Quando regressei a Portugal nos anos oitenta, a tónica passou de estimulado para estimulante; com o advento do milénio, a vocação académica emagreceu para profissão universitária; e, recentemente, a devoção à sociologia, acompanhada pela música e pela arte, a devoção à música e à arte, acompanhada pela sociologia.
Durante a infância, a sombra da Espanha pairava por todos os cantos. O olhar para lá se estendia e a eletricidade de lá provinha. O contrabando ia e vinha. Até o apito do comboio da outra margem anunciava o tempo: consoante se ouvia mais ou menos, assim faria chuva ou sol. A televisão era a espanhola. Para assistir a um jogo de futebol com equipas portuguesas, deslocávamo-nos a Castro Laboreiro. Pelo menos, em duas novidades, o progresso chegou primeiro ao monte do que à ribeira: nas antenas e nas eólicas. Tenho raízes transfronteiriças, regadas com calda gaulesa. No entanto, o Tendências do Imaginário tem-se dedicado pouco à música destes países. Nunca é tarde para emendar. Por vias travessas, reencontrei a música de Sílvia Pérez Cruz, mui rara compositora e intérprete catalã.

“Sílvia Pérez Cruz é uma grande voz. Diria mais! É uma grande voz que sabe cantar. “Pequeño Vals Vienés” baseia-se na música que Leonard Cohen compôs (Take This Waltz, 1986) para o poema Pequeño Vals Vienés, de Federico García Lorca. Os gostos tendem a cruzar-se. São as tais afinidades electivas. Ontem. Leonard Cohen, hoje, Sílvia Pérez Cruz. Dancemos, não de lado, mas de frente” (https://tendimag.com/2016/03/29/valsa/).
Para tomar o gosto, meia dúzia de canções, dispostas por ordem cronológica.
O Homem sem Qualidades e a Banalidade do Mal
O primeiro de abril também é dia de persistir na aproximação da verdade.

“O problema com um criminoso nazista como Eichmann é que ele insistia em renunciar a qualquer traço pessoal. Como se não tivesse sobrado ninguém para ser punido ou perdoado. Repetidas vezes ele protestava rebatendo as questões da promotoria dizendo que não tinha feito nada por iniciativa própria. Que jamais fizera algo premeditadamente para o bem ou para o mal. Apenas cumprira ordens. Esta desculpa típica dos nazistas torna claro que o maior mal do mundo é o mal perpetrado por ninguém. Males cometidos por homens sem qualquer motivo, sem convicção, sem razão maligna ou intenções demoníacas. Mas seres humanos que se recusam a ser pessoas. E é este fenómeno que eu chamei a ‘banalidade do mal’ (Hannah Arendt).
