Com a verdade me enganas

As imagens-choque dos maços de tabaco – que passaram a ser obrigatórias faz hoje três anos – não surtem efeito junto da maioria dos consumidores e a própria Direção-Geral de Saúde admite não ter estudos que confirmem o impacto desta medida. Há quem escolha os maços em função das fotografias menos chocantes, mas, apesar de ligeiras flutuações, as vendas não apontam para uma forte quebra. Este ano, há sinais que indicam mesmo uma subida. Até abril, os dados da Autoridade Tributária mostram que a indústria colocou no mercado 3,1 mil milhões de cigarros contra 2,3 mil milhões em 2018 (aumento de 31%) e 2,8 mil milhões registados em 2016, quando a medida entrou em vigor (Ana Rita Seixa e Dina Margato, “Três anos de imagens-choque não demovem consumidores de tabaco”, Jornal de Notícias, 20.05.2019).

Para o ano, se Deus quiser! Em Portugal e noutros países. No entanto, a razão e o bem estão do lado dos pregadores. O medo é uma forma de recurso pedagógico. Parece funcionar com os animais. Por que não com os fumadores? Vale, porventura, a pena enganar as pessoas com a verdade.

Duas imagens da campanha anti tabaco são acompanhadas pela seguinte mensagem: “Fumar provoca 9 em cada 10 cancros do pulmão”. Os números variam de país para país e de região para região. A Roche adianta que “a nível mundial, uma em cada quatro pessoas vítimas de um cancro do pulmão nunca fumou (fonte:  SUN S et al. Lung cancers in never smokers. A different disease. Nature Review Cancer 2007;7 :778-790). Dr. Sergio Salmeron & Pr. Jean Trédaniel apresentam um gráfico que tem o interesse de distinguir os ex-fumadores: em França, em 2010, 49,2% das mortes por cancro do pulmão foram de fumadores, 39.9% de ex-fumadores e 10.9% de não fumadores (http://www.sfrnet.org/rc/org/sfrnet/htm/Article/2013/20130715-130826-576/src/htm_fullText/fr/donn%C3%A9es%20%C3%A9pid%C3%A9miologiques%20r%C3%A9centes.pdf).

Enfim, qual é a probabilidade de morrer com um cancro do pulmão? Em Portugal, em 2010, a taxa de incidência bruta é 35.8 por 100 000, e a taxa padronizada 26.5 por 100 000 (Portugal Doenças Oncológicas em Números – 2015, Direcção-Geral da Saúde, Lisboa, 2016). Perdi horas à procura de taxas de incidência da morte por cancro do pulmão nos fumadores e nos não fumadores. Arrisco uma estimativa: cerca de 64 por 100 000 no que respeita aos fumadores e 6,2 por 100 000 para os não fumadores: 64 por 100 000 correspnde 0.064% (Hammond et al. Ann NY Acad Sci 1979; 330: 473-90; http://www.sfrnet.org/rc/org/sfrnet/htm/Article/2013/20130715-130826-576/src/htm_fullText/fr/donn%C3%A9es%20%C3%A9pid%C3%A9miologiques%20r%C3%A9centes.pdf). O assunto não justifica mais perda de tempo. Que a taxa de mortalidade do cancro do pulmão nos fumadores ronde os 64 por 100 000 assusta-me menos e informa-me mais do que “fumar provoca 9 em cada 10 cancros do pulmão”. Acho que vou adiar, por um tempo, a compra da sepultura. Tudo isto é mórbido e necrófilo. Tudo isto existe, tudo isto é triste, mas não é fado. A fumar à entrada do edifício, a maioria dos amigos e colegas acenava-me com o espantalho da morte. Não era para menos: “fumar provoca 9 em cada 10 cancros do pulmão”. Tentavam ressuscitar-me.

Pink Floyd. Have a cigar. Wish you were here. 1975.

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