Archive | Outubro 2017

O dilema da testemunha

Burger king

Bullying Jr., da Burger King, é mais um anúncio-causa promovido por uma marca. Não deixa, porém, de ser interessante. O bullying envolve, pelo menos, três tipos de actores: quem o pratica, quem o sofre e quem o tolera. Neste anúncio, testemunhas de uma agressão a uma criança, nove em cada dez pessoas incomodam-se, mas não intervêm. Reagem, porém, perante um hamburger maltratado. O que significa este comportamento? Não sei, mas pode arriscar-se um palpite.

Um espectador compulsivo de uma situação de bullying depara-se com uma situação de duplo vínculo: intervém, expõe-se à violência, logo à justiça; não intervém, permite a violência, logo incorre em não assistência a pessoa em perigo. Subsistem mais opções: a tentativa diplomática e a comunicação às autoridades.

“Preso por ter cão, preso por não ter”. Em que assenta este dilema das testemunhas de bullying?  O cidadão moderno não tem direito ao uso da violência. Nem sequer a uma agressão verbal. Pode configurar um crime. Retomando Max Weber, o Estado detém o monopólio da violência legítima. Os fora da lei detêm o monopólio da violência ilegítima. Entre ambos, posiciona-se o cidadão domesticado, sem qualquer direito à violência, seja ela legítima ou ilegítima. Segundo Norbert Elias, o processo de esvaziamento do uso da violência por parte do cidadão remonta, pelo menos, à Idade Média. Este processo ainda continua.

O anúncio da Burger King coloca uma segunda questão: será, na nossa sociedade, mais razoável proteger os objectos do que proteger as pessoas? Todo o anúncio aponta nesse sentido.

Marca: Burber King. Título: Bullying Jr. Agência: David. Reino Unido. Outubro 2017.

Com a morte no bolso

Artigo revisto.

Tendências do imaginário

Insisto na ferida que nos últimos anos mais magoou a minha cidadania. O problema é que a falta de respeito pela dignidade das pessoas é algo que se pega e que se paga.

smoking-kills

“Não há dúvida que na Idade Média se falava mais francamente e mais frequentemente do que hoje da morte e da agonia. A literatura popular da época comprova-o. Os mortos, ou a morte em pessoa, aparecem em numerosos poemas (…) A Vida queixa-se que a Morte espezinha os seus filhos. A Morte gaba-se das suas vitórias. Em comparação com a época contemporânea, a morte dos jovens e dos velhos era nesse tempo menos dissimulada, mais omnipresente e mais familiar (Elias, Norbert, La Solitude des Mourants, Paris, Christian Bourgois Ed, 1988, p. 26).

Norbert Elias engana-se, pelo menos, em parte. Mais de 20% da população actual vive sob permanente ameaça ou assédio de morte. Deve ser um…

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O lenço e o telemóvel

Norbert Elias

Norbert Elias

No Processo civilizacional (1939), Norbert Elias adopta uma abordagem indirecta. Para apreender as mudanças nos usos e nos costumes no Ocidente, desde a Idade Média, recorre aos livros de boas maneiras. Quando vários livros mencionam uma prática a evitar, isso significa que essa prática é, embora indesejável, corrente. Se, com o tempo, essa prática desaparecer dos livros de boas maneiras, isso pode significar que essa prática deixou de ser problema, passando outras a estar em foco. Vários autores aludem, por exemplo, a formas impróprias de limpar o nariz à mesa:

“Se um homem à mesa limpa o nariz com a mão e não sabe que não o deve fazer, então, acredita, ele é um idiota (The babies book. 1475).

“O homem que limpa a garganta pigarreando quando come e o que se assoa na toalha da mesa são ambos mal-educados, isto vos garanto” (Rhodes, Hugh, Boke of Nurture. Ca 1550).

O lenço, introduzido no Renascimento, foi, durante décadas, de uso raro. Erasmo menciona-o:

“Assoar-se com um boné ou com um pedaço do casaco é próprio de um camponês; no braço ou no cotovelo, de um comerciante de salgados. Não é muito mais asseado assoar-se com a mão para em seguida a limpar na roupa. É mais decente servir-se de um lenço, afastando-se, caso esteja presente uma pessoa honorável.” (Erasmo, De civilitate morum puerilium, 1530).

Assoar-se à mão, ao braço, à roupa ou à toalha são comportamentos criticados pelos livros de boas maneiras. Representam práticas efectivas. Quando, mais tarde, a menção a estas incivilidades desaparece, isso pode significar que caíram em desuso, passando a atenção a incidir noutras actividades antes toleradas e agora censuradas, tais como tocar na comida com as mãos.

Estas palavras funcionam como um atalho, algo despropositado, para os dois anúncios da Roxy Cinema, uma cadeia de salas de espectáculos dos Emirados Árabes Unidos. Os anúncios Bomb e Western, da série Silence your phone, procedem a uma paródia de determinado tipo de filmes para censurar a intrusão dos toques de telemóvel durante as sessões de projecção. Como diria Norbert Elias, se existe a censura é porque existe a prática. Se existem práticas não censuradas é porque são toleradas, por exemplo, a luz do ecrã do telemóvel e o batuque das mensagens.

Marca: Roxy Cinema. Título: Silence your phone (Bomb). Agência: Misfits. Emirados Árabes Unidos, Abril 2017.

Marca: Roxy Cinema. Título: Silence your phone (Western). Agência: Misfits. Emirados Árabes Unidos, Abril 2017.

Chover ou não chover no molhado

 

Volkswagen 2

O anúncio Rain, da Volkswagen, retoma os tempos dos festivais hippies e dos míticos “carocha” e “pão de forma”. Não aparece nenhuma versão recente! É certo que o trio hippie, carocha e pão de forma desfruta de uma carga simbólica ímpar. Mas também é verdade que ainda não desapareceu da memória a falsificação dos resultados das emissões de poluentes em motores diesel. Fazer a ponte entre as versões “históricas” e as versões em lançamento é procurar não chover no molhado.

Tive um carocha 1 500 cor de laranja. Era quase um tractor, mas bebia gasolina como quem bebeu petróleo. Como quem bebeu petróleo? Era criança, no tempo do Woodstock, a família tinha uma mercearia. Numa esquina, um dispositivo imponente para medir petróleo. Naquele tempo, consumia-se muito petróleo. Volta e meia, era necessário encher a “máquina”. Os barris de petróleo estavam numa divisão afastada. Um dia, coube-me ir buscar um balde de petróleo. O processo era simples: colocar a extremidade de uma bicha dentro do barril, aspirar com a boca na outra extremidade e colocá-la no balde. Cheio o balde, a operação também era simples: tapar com um dedo a bicha e levantá-la para que o petróleo da bicha regressasse ao barril. Pois bem, eu aspirei com toda a vontade e não retirei a bicha a tempo. Resultado: bebi umas boas goladas de petróleo. Deu-me tamanha sede que quase sequei o fontanário. Não há palavras! Estou convencido que parte da sede que agora sinto ainda me vem desse episódio.

Marca: Volkswagen. Título: Rain. Agência: Deutsch Los Angeles. Direcção: Lance Acord. USA, Outubro 2017.

A dança da consciência

Jules Massenet

Jules Massenet

“A música faz dançar as consciências” (Cormann, Enzo in Bretonnière, Bernard, 2000, Petit Dictionnaire du Thêatre, Editions Thêatrales). Deixemo-las, pois, dançar. A frustração encostada ao desejo, a vontade ao compromisso, a investigação ao ensino… “Leve, levemente, como quem chama por mim”.

André Massenet. Méditation. Opéra Thais. 1894. Intérprete : André Rieu.

Michel Colombier. Emmanuel. Wings. 1971

Vangelis. 12 O’clock. Heaven and Hell. 1975.

Aborrecimento empreendedor

Wavo

Honoré de Balzac observa que o aborrecimento “nasceu num dia da Universidade(1844, Un début dans la vie). Trata-se, naturalmente, da Universidade do século XIX. Julien Green acrescenta que “o aborrecimento é uma das faces da morte” (Journal, 1922-1998, Plon). Vêm estas citações a propósito dos anúncios Helium Suit e Garbage Slide, da Wavo, dos Emirados Árabes Unidos: o “aborrecimento é perigoso”, sobretudo quando é empreendedor.

Marca: Wavo. Título: Boredom is dangerous: Helium Suit. Agência: Mifitis. Emirados Árabes Unidos, Outubro 2017.

Marca: Wavo. Título: Boredon is dangerous: Garbage Slide. Agência: Mifitis. Emirados Árabes Unidos, Outubro 2017.

Contactos

M&Ms

Aproxima-se o Halloween. Multiplicam-se os fatídicos anúncios de horror e de contacto com a morte. Da série “Bite Size” Horror, promovida por várias marcas (M&Ms, Fox, Starbust), segue o anúncio Floor 9.5. Qualidade garantida.

Marca: M&Ms. Título: Floor 9.5. Direcção: Toby Meakins. USA, Outubro 2017.

 

Amor a três

O anúncio Beach, da BMW, é um concentrado de humor absurdo. Apresenta o trio do costume: o homem, a mulher e o carro, num amor a três. Ao volante, o homem; a reboque, a mulher. Entre ambos, o beijo. Um beijo trepidante, com perfume a maresia. Assim pode começar uma moda: a moda do beijo radical.

Acrescento uma imagem humorística bem gizada. Insólita e desproporcionada. Nem por isso deixa de inquietar o pensamento. Nesta viragem das universidades para a investigação e a internacionalização, que lugar sobra para os estudantes?

Marca: BMW. Título: Beach. Agência: KBS. Direcção: Pretty Bird. USA, Outubro 2017.

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

 

Sentinelas da desgraça

O anúncio It’s a hard knock life, da empresa de lacticínios norueguesa Tine, faculta um minuto de choques, quedas e pancadas de crianças. Mostra-nos os incidentes, bem como o sofrimento decorrente. O que seria sem o leite Tine? A acompanhar o anúncio, uma notícia enfatiza que nenhuma criança se magoou durante as filmagens. Este tipo de reparo adquire, por vezes, mais relevo do que o próprio anúncio.

Vídeos semelhantes, com acidentes e desastres humanos, infestam a Internet. Com milhões de visualizações. As pessoas gostam! Tine tão pouco pensa incomodar e, ainda menos, afastar as pessoas, pretende, outrossim, cativá-las.

Os próprios telejornais parecem um rosário de desgraças. Inflacionam as notícias associadas ao sofrimento e encolhem as notícias susceptíveis de gerar felicidade.

A empresa Tine e os canais de televisão sabem o que fazem. Não é sadismo. Tudo indica que o espectáculo do sofrimento é atraente.

Exposição Vertigens do Barroco. Baú. Séc. XVIII. Paço dos Duques de Bragança.

Exposição Vertigens do Barroco. Baú. Séc. XVIII. Paço dos Duques de Bragança.

O que significa este voyeurisme de massas?

Com Aida Mata e Anabela Ramos, participei na organização da Exposição Vertigens do Barroco: em Jerónimo Baía e na actualidade, aberta ao público de 24 de Março até 2 de Setembro de 2007, no Mosteiro de São Martinho de Tibães. No recanto das “emoções confortáveis”, um baú barroco, um sofá  e um ecrã com anúncios publicitários. Emoções aconchegadas no regaço da segurança. Falso ou verdadeiro, o espectáculo do sofrimento comove, revolta e mobiliza. Afloramentos efémeros de solidariedade inconsequente. A quintessência da identificação e da tele-solidariedade traduz-se na seguinte equação: “não é a mim, mas é como se fosse”. Luc Boltanki (1993, La souffrance à distance, Paris, Metailié) fala em “sofrimento à distância”. Uma espécie de tele-sofrimento. Um sofrimento que ressoa no vazio, estremece a bondade e recompõe a alma.

Marca: Tine. Título: It’s a hard knock life. Agência: Try (Oslo). Direcção: Martin Werner. Noruega, Outubro 1017.

 

O Galo e a morte. A arte de morrer

 

Uma mulher confidencia a outra que acabou de viver uma situação de emergência médica: “O galo rondou esta casa, deu várias voltas, mas foi pousar noutro sítio”. Por coincidência, um vizinho faleceu nessa noite.

O galo é um símbolo solar. Anuncia a aurora e a luz. É também um símbolo de valentia. Na mitologia grega, o galo, consagrado a Hermes, é um psicopompo, “função tradicionalmente atribuída a Hermes no mito grego, pois ele, além de mensageiro dos deuses, era o deus que acompanhava as almas dos mortos, sendo capaz de transitar entre as polaridades (não somente a morte e a vida, mas também a noite e o dia, o céu e a terra)” (Dicionário Crítico de Análise Junguiana, Edição Eletrônica © 2003 Andrew Samuels/Rubedo, p. 88). Além desta função de transição entre as polaridades (as trevas e a luz; a morte e a vida), o galo comporta um lado lunar.

 

Existem imensas histórias em que a morte e o galo se cruzam. O galo de Barcelos é o primeiro exemplo que ocorre. Cozinhado e ressuscitado, o galo é protagonista de uma lenda marcada pela morte (ver https://tendimag.com/2017/08/20/o-cruzeiro-do-senhor-do-galo-em-barcelos-revisao/). Acresce o galo da Negação de São Pedro antes da crucificação de Cristo. A associação do galo à morte está arreigada na crença popular. No Brasil, em Espanha e em Portugal, acredita-se que o canto do galo fora de horas (antes ou à meia-noite) é mau augúrio: alguém da casa, ou vizinho, vai morrer. O galo junta-se, assim, aos animais anunciantes da morte: o mocho, a borboleta negra, o morcego, o cão, o gato… Um conto brasileiro inicia com um galo a matar uma criança. A mãe pede a outro filho para matar o galo e o abandonar em água corrente. O filho não segue a recomendação. Ele e três amigos matam o galo, cozinham-no e morrem antes de o provar (http://www.recantodasletras.com.br/contosinsolitos/830891).

03. Mestre E.S. Tentação da falta de fé. Ca. 1450

03. Mestre E.S. Tentação da falta de fé. Ca 1450

Estas gravuras de Mestre E. S. (1420-1468) foram publicadas no ano em que nasceu Hieronymus Bosch (1450-1516). Artes distintas, temas semelhantes: a morte, o pecado, a condenação, o céu e o inferno (Figuras 1 e 2). As gravuras de Mestre E. S. integram a torrente de imagens dedicadas à Ars moriendi (Arte de morrer). Testemunham uma mudança de atitude perante a morte. Observa-se uma antecipação do juízo final. A decisão deixa de esperar pelo fim dos tempos para se concentrar no momento de morrer. Continua a envolver um combate cósmico. De um lado, as forças celestiais, do outro, as forças demoníacas. As pessoas presentes não conseguem ver estas forças que disputam a alma do defunto. Apenas o moribundo (atente-se no alheamento do grupo de três pessoas na Figura 3). Acredita-se que o moribundo é submetido a uma prova, a uma tentação. Consoante a sua reacção assim é salvo ou condenado, não obstante as boas ou as más acções do livro da vida. Num ápice, resgata-se ou desgraça-se uma vida inteira. Faz sentido convocar o pensamento de Petrarca: “Que uma bela morte toda a vida honra”. Neste quadro, os livros dedicados à Ars moriendi, à arte de morrer, alcançam um enorme sucesso.

04. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca. 1450

04. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca 1450

“O moribundo está recostado, rodeado pelos seus amigos e parentes. Seguem-se os rituais bem conhecidos. Mas sucede algo que perturba a simplicidade da cerimónia e que os assistentes não vêem; um espectáculo reservado apenas ao moribundo, que, por acréscimo, o contempla com um pouco de inquietação e muita indiferença. A habitação foi invadida por seres sobrenaturais que se apinham na cabeceira do jazente. De um lado, a Trindade, a Virgem e toda a corte celestial; do outro, Satanás e o exército dos demónios monstruosos. A grande concentração que nos séculos XII e XIII tinha lugar no fim dos tempos ocorre, a partir de agora, no século XV, na habitação do enfermo (…) Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelon, Cadernos Crema, 2000,  pp. 48 e 49).

05. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca. 1450

05. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca 1450

As gravuras de Mestre E. S. condizem com a análise de Philippe Ariès. Na hora da morte, defrontam-se as cortes celestial e demoníaca. Na gravura da Figura 3, apesar das preces do rei e da rainha, o desfecho inclina-se para o lado do inferno. Na gravura seguinte (Figura 4), a prova está vencida: um anjo acolhe a alma do defunto. Na terceira gravura (Figura 5), pela disposição dos protagonistas, o moribundo está a superar a prova. A chave de São Pedro está próxima e os demónios parecem resignados. À cabeceira do leito, destaca-se um galo. Qual é o seu papel? Cantor de mortes? Psicopompo? “Luz da noite”, o galo situa-se, de facto, entre dois mundos: o céu e o inferno, a luz e as trevas, a vida e a morte. O galo é também “companheiro” inseparável de São Pedro. Na morte como na vida, a polissemia é uma tentação, que tem a virtude de nos fazer oscilar.