Força
Para Alfred L. Kroeber, Ruth Benedict ou Margaret Mead, a humanidade alberga uma enorme diversidade cultural. Numa perspectiva relativista, não há culturas melhores nem culturas piores, apenas culturas diferentes. Esta diversidade cultural tem resistido à globalização, mesmo num domínio tão exposto como a publicidade. É com este espírito que devemos encarar o humor destes anúncios egípcios da campanha Tonger makes you stronger. A “força” expressa nestes anúncios é destrutiva (de um avião, de um prédio e, eventualmente, de uma criança). Esta figura da força, voluntária ou involuntariamente, destruidora é frequente na publicidade e comum a várias culturas.
Marca: Tonger Energy Bar. Títulos: Slingshot / Cooking Pan / Baby. Agência: Thinkk, Cairo. Direção: Hisham Kharma. Egipto, Novembro 2012.
Despedida
“Every 3 seconds the world loses a child due to hunger, disease and contaminated water. To highlight this fact on Universal Children’s Day, the Wuppertaler Kurrende Boy’s Choir performed Mad World in front of an unsuspecting audience. During the performance a singer left the stage every 3 seconds until only one boy was left to deliver the message to a stunned audience.”
Anunciante: Universal Children’s Day. Título: Lost Choir. Mad World. Agência: Grey Worldwide Germany. Alemanha, Novembro 2012.
Este anúncio lembra a Sinfonia do Adeus de Joseph Haydn (1732-1809): a certa altura, os músicos retiram-se um a um, sobrando, no fim, apenas dois. Esta sinfonia teria sido criada por Haydn para chamar a atenção do rei sobre a condição lamentável dos músicos.
O Burro e a Harpa
A figura do burro que toca harpa ou lira atravessa os tempos e as fronteiras. O burro harpista aparece já, acompanhado por um touro trompetista, numa gravura com mais de 3000 anos encontrada em Samaria, no Próximo Oriente (ver figura 1).
No início da era cristã, Fedro (14 AC- 50 DC.) escreve a seguinte fábula: uma rainha que não consegue ter filhos implora ajuda aos deuses. Acaba por dar à luz um burro. Criado e educado como um príncipe, Asinarius, assim o batizaram, adora a música e aprende a tocar lira. Um dia vê a sua imagem refletida num rio e, ao contrário de Narciso, horroriza-se. Foge para o fim do mundo, onde se apaixona por uma princesa. A fealdade é suplantada pelo brilho com que toca a lira. Casa com a princesa. E, lembrando a Bela e o Monstro, na noite de núpcias Asinarius despe a pele de burro e transforma-se num belo homem, herdando os dois reinos.

Fig 2. Petrus Comestor. Burro tocando harpa face a um caprino. Sermones. Angers, abbaye Saint Aubin. Início do séc. XIII.
A figura do burro tocador de harpa ou de lira tornou-se popular durante a Idade Média. Multiplica-se nas iluminuras (figura 2), bem como nos tímpanos (figura 3) e nos capitéis das igrejas (figura 4).
Mas a simbologia da imagem altera-se. O burro já não domina a arte da harpa. É, antes pelo contrário, um desajeitado, que, no tímpano da Igreja de Aulney, segura a lira ao contrário (figura 3). Já não é questão da humanidade da besta, mas da bestialidade do homem. A exemplo do burro, o homem é animal, corpo e carne. A carne é fraca, preguiçosa, pecaminosa. A música, sopro do sagrado, é espiritual. É pelo espírito, e não pela carne, que acedemos às maravilhas criadas por Deus.
Às vezes, cogitar na figura do burro músico pode provocar assombrações. Tanta referência teórica, tanta estratégia metodológica, tanta ferramenta técnica… e a harpa não toca! Falta de jeito? Falta de cordas?
Convite ao mistério
A Louis Vuitton habituou-nos a excelentes anúncios. Este Invitation Au Voyage não desmerece. É lindo. Aproveita ao máximo um quadro de eleição: o Museu do Louvre. O episódio da “comunicação” com a Gioconda é um encanto. Publicidade francesa, com certeza!
Marca: Louis Vuitton. Título: Invitation au Voyage. Agência: Louis Vuitton. Direção: Inez van Lamsweerde, Vinoodh Matadin. França, Novembro 2012.









