Tag Archive | Volkswagen

Cegonhas

 

Álvaro Domingues. Bestiário do imobiliário 2

Fotografia de Álvaro Domingues.

“Somos as cegonhas eléctricas (…) No tempo em que as crianças não percebiam nada de sexo e reprodução, o nosso emprego era transportar bebés no bico. Com a quebra da natalidade, as normas de segurança no transporte de crianças e as incubadoras, ficámos sem emprego. O resto adivinha-se: desde que nos tornamos sedentárias metemo-nos a comprar uma casa que não há como pagar. Ficou para o banco. Que se lixe. Sempre que passamos em cima, cagamos nele” (Álvaro Domingues, Bestiário do Imobiliário II. Punkto (https://www.revistapunkto.com/2013/05/bestiario-do-imobiliario-ii-alvaro_3.html).

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo.

Os bebés, dizia-se, vinham de França no bico das cegonhas. A cegonha é o símbolo de Estrasburgo. Segundo a lenda, “sob a catedral de Estrasburgo, existia um lago, o Kindelsbrunnen, nome que podia ser traduzido por “poço das crianças”. Neste lago, as almas das crianças por nascer esperavam para vir ao mundo. Um gnomo gentil pegava a alma do recém-nascido com a ajuda de uma rede de ouro e entregava-o, de seguida, à cegonha para que ela pudesse entregá-lo aos pais. Os pais que desejassem um filho deviam colocar alguns pedaços de açúcar no rebordo da sua janela de modo a cativar a cegonha” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Do outro lado da fronteira, na Alemanha, existe uma versão com um teor mais mitológico:

“A cegonha é a mensageira da deusa Holda, encarregada de reincarnar as almas dos defuntos nos nascituros. Nas grutas ou perto de um ponto de água, “elfos” resgatavam as almas das profundezas da terra, que a deusa reincarnava em nascituros que a cegonha levava, em seguida, aos pais” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Com o tempo, os relatos míticos sofrem alterações. No anúncio Cegonha, da Volkswagen, o carro novo é o bebé que a cegonha terá trazido e do qual não se separa. A mulher também parece estar grávida. Conjugam-se assim dois nascimentos: o mecânico e o humano.

Marca: Volkswagen. Título: Cegonha. Agência: AlmapBBDO (São Paulo). Direcção: Claudio Borrelli. Brasil, Julho 2018.

Se me encomendassem um print para acompanhar este anúncio, não andaria longe do seguinte: o carro com fraldas electrónicas, a cegonha no capot em pose de Vitória de Samocrácia; o pai, ao volante, confuso; a mãe, ao lado, como uma Vénus de Willendorf; no banco traseiro, os filhos, mais um lugar vago para a próxima cegonha.

Chover ou não chover no molhado

 

Volkswagen 2

O anúncio Rain, da Volkswagen, retoma os tempos dos festivais hippies e dos míticos “carocha” e “pão de forma”. Não aparece nenhuma versão recente! É certo que o trio hippie, carocha e pão de forma desfruta de uma carga simbólica ímpar. Mas também é verdade que ainda não desapareceu da memória a falsificação dos resultados das emissões de poluentes em motores diesel. Fazer a ponte entre as versões “históricas” e as versões em lançamento é procurar não chover no molhado.

Tive um carocha 1 500 cor de laranja. Era quase um tractor, mas bebia gasolina como quem bebeu petróleo. Como quem bebeu petróleo? Era criança, no tempo do Woodstock, a família tinha uma mercearia. Numa esquina, um dispositivo imponente para medir petróleo. Naquele tempo, consumia-se muito petróleo. Volta e meia, era necessário encher a “máquina”. Os barris de petróleo estavam numa divisão afastada. Um dia, coube-me ir buscar um balde de petróleo. O processo era simples: colocar a extremidade de uma bicha dentro do barril, aspirar com a boca na outra extremidade e colocá-la no balde. Cheio o balde, a operação também era simples: tapar com um dedo a bicha e levantá-la para que o petróleo da bicha regressasse ao barril. Pois bem, eu aspirei com toda a vontade e não retirei a bicha a tempo. Resultado: bebi umas boas goladas de petróleo. Deu-me tamanha sede que quase sequei o fontanário. Não há palavras! Estou convencido que parte da sede que agora sinto ainda me vem desse episódio.

Marca: Volkswagen. Título: Rain. Agência: Deutsch Los Angeles. Direcção: Lance Acord. USA, Outubro 2017.

Os cavalos também riem

jolly-jumper“Os cavalos também se abatem” é o título de um filme de Sydney Pollak (1969), a partir do romance homónimo de Horace McCoy (1935). Embora “o riso seja apanágio do homem” (François Rabelais), os cavalos também riem. Por exemplo, o Jolly Jumper, do Lucky Luke. Os anúncios abrem-se cada vez mais ao disparate. A promoção do produto processa-se através do desvio. Um desvio impregnado de imaginação. Os cavalos riem, rebolam-se no chão. Riem de um condutor que não consegue estacionar. Este é o caudal do anúncio. Outro condutor consegue estacionar graças ao dispositivo de reboque do Volkswagen Tiguan. Esta é a foz em que desagua o anúncio.

Os cavalos riem! Mas, a crer neste anúncio, não riem de tudo. “Rir de tudo o que se faz ou diz é estúpido, não rir de nada é imbecil” (Erasmo). Bem-aventurados os cavalos: “a faculdade de rir às gargalhadas é sinal de uma alma excelente” (Jean Cocteau).

Os cavalos riem! Os burros mordem.

Marca: Volkswagen. Título: Laughing horses. Agência: Grabarz & Partners. Direcção: Bart Timmer. Alemanha, Setembro 2016.

A chave da juventude. O efeito George Clooney

Mencionei, há dias, o mito da eterna juventude (https://tendimag.com/2015/12/13/dar-vida-a-morte/). Não demorou a cair na rede um anúncio a preceito: Forever Young, da Volskwagen. Uma mostra de jovens quarentões. Qual é o segredo? Um novo elixir da juventude? O Volskswagen Polo?

Dando asas à curiosidade, quais são, no anúncio, os sinais exteriores de juventude? A aparência: corpo à Leni Riefenstahl e roupa à Hugo Boss. Os próximos: mulher e filhos adoráveis. Raça desportiva, homem muito homem e um Volkswagen Polo.

Num site argentino, o vídeo aparece com a seguinte mensagem: “Publicidad discriminatoria”: “Una publicidad discriminatoria que propaga estereotipos estandarizados y promueve la valoración personal positiva sólo por la belleza exterior” (https://www.youtube.com/watch?v=WMhBFlEXehE). Mas a discriminação não fica por aí, vai muito além da beleza exterior.

“Forever is our today”. Vale a pena recordar os Queen.

Para aceder aos vídeos, carregar nas imagens.

Volkswagen_ForeverYoung15

Marca: Volkswagen. Título: Forever Young. Agência: DDB (Argentina). Direcção: Lucian Podcaminsky. Argentina, Dezembro 2015.

who-wants-to-live-forever

Queen. Who wants to live forever. A kind of Magic. 1986.

Detectores

Quino. Nudistas.

Quino. Nudistas.

Há detectores para a caça e para a pesca. A Volkswagen avança com detectores de peões.

Falta inventar um detector de pessoas livres.

Este anúncio intriga-me. É incómodo e irritante. Mas vende o que pretende.

Não é o primeiro anúncio em que o desagradável é suposto agradar.

Marca: Volkswagen Passat. Título: Cinema Pedestrian Detection. Agência: DDB España. Espanha, Maio 2015.

A Volkswagen vai ao museu

Uma campanha da Volkswagen promovida em 2008 pela agência BBD de Berlim publicita o baixo consumo do Polo Bluemotion através de prints inspirados em Hieronymus Bosch, René Magritte e Salvador Dali.

Volkswagen Bosch

vw_bluemotion_pz_magritte

vw_bluemotion_dali

A Criança e a Mãe

Pablo Picasso. Retrato de Mulher. 1936

Pablo Picasso. Retrato de Mulher. 1936

O homem é uma criança: um “eterno bambino”, como dizem os italianos. Um Peter Pan. E a mulher, o que é a mulher? Uma “eterna mamma”? Desde a primeira boneca? Com “música no coração”? Ou talvez não… Vem esta provocação a propósito do anúncio Little Boy, da Volkswagen.

Marca: Volkswagen. Título: Little Boy. Agência: DDB & Tribal Amsterdam. Direção: Vincent Lobelle. Holanda, Maio 2014.

Os Últimos Desejos

Volkswagen Kombi. Os últimos desejos.Não me digam que já não há histórias para contar, que terminaram as narrativas prenhes de sentido! Pois ainda existem: com pessoas e com objectos. A carrinha Kombi (“pão de forma”) deixou de ser produzida no ano passado (2013). A Volkswagen não encontrou solução para a equipar com air bag e travões ABS, entretanto obrigatórios. A pretexto da “última viagem”, o anúncio, bastante longo, convoca alguns dos momentos mais simbólicos da vida da carrinha.

Marca: Volkswagen Kombi. Título: Os Últimos Desejos. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Fernando Grostein Andrade. Brasil, Março 2014.

Detalhes

Volkswagen-Golf-Mk7-24Passamos parte da vida a habituar-nos: ao mundo, aos outros, a nós próprios. Passamos outra parte a desabituar-nos: do mundo, dos outros, de nós próprios. A memória gagueja, mas adquire importância. Aprendemos a fixar os detalhes. Por eles, se chega ao todo. Neste anúncio da Volkswagen, por entre tanta procura e tanta informação, sobressai um simples detalhe.

Marca: Volkswagen Golf. Título: Blind Man. Agência: Ogilvy & Mather. Direção: Greg Gray. República da África do Sul, 2007.

 

Asas com rodas

2014_super_bowl_volkswagen

Gostamos de asas. Basta escrever a palavra para a frase ficar mais leve. Gostamos também de passarinhos. E dos pobrezinhos. “Pobres dos pobres são pobrezinhos, almas sem lares, aves sem ninho…” (Guerra Junqueiro, Os Pobrezinhos, Os Simples). Mas “de quem eu gosto, nem às paredes o confesso” (Amália Rodrigues). Se calhar, do Leonard Cohen… “Oh like a bird on the wire / Like a drunk in a midnight choir / I have tried in my way to be free” (Bird on the Wire, Songs from a Room, 1969). Pelos vistos, ainda não perdi a mão à “difícil arte de cavalgar” (Dom Duarte) uma citação por linha.

Marca: Volkswagen. Título: Wings. Agência: Argonaut. USA, Janeiro, 2014.

(“Bird on the Wire” from Songs from the Road by Leonard Cohen)