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Embaixadores e semideuses

“A dúvida nasce do espírito, a fé é filha da alma” (John Peti-Senn, Les bluettes et boutades, 1846).

É antiga a história do burro e da cenoura. Hoje, a tendência é para substituir a cenoura por um “embaixador”, uma espécie de semideus contemporâneo. Vilfredo Pareto (Tratado de Sociologia Geral, 1916) classificava como acção não-lógica a tendência para seguir a opinião de uma pessoa célebre mas em domínios afastados do assunto. Por exemplo, um músico ou um político para resolver um problema de saúde. Na publicidade, abundam os anúncios que recorrem à figura do embaixador. Em muitos casos, o embaixador não tem, logicamente, quase nada a ver com o assunto; mas, não logicamente, tem quase tudo a ver. Herança da cenoura? Prodígios da fé? Convém lembrar uma máxima da Sociologia: não é porque uma ideia é falsa que ela perde eficácia.

Marca: The Allstate Foundation: Purple Purse. Título: Invisible Weapon. Agência: Leo Burnett (Chicago). Estados Unidos, Outubro 2018.

Eros e Thanatos

Kelvin Klein. Love

Calvin Klein. Love. 2018.

Love é um anúncio brutal da Calvin Klein. Primorosamente filmado, acelerado, entrelaça amor, violência e (homo)sexualidade. Eros e Thanatos. What else? Hate me, dos Blue October. Esta noite fui assistir a uma sábia conferência do Moisés de Lemos Martins. Não me sobrou tempo para mais palavras.

Marca: Calvin Klein. Título: Love. Produção: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Direcção: Eugen Mehrer. Alemanha, Setembro 2018.

Blue October performing Hate Me (10th Anniversary) [Live]. (C) 2015.

Incerteza

 

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Janus tem duas faces. Cristo, três. Hoje, os jovens parecem ter dezenas. Têm resmas de identidades e fronteiras. E cabe tudo na cabeça. No anúncio Clones, do DNB Bank, as faces são muitas e conflituosas. Todos nos comprazemos a receitar incerteza, uma palavra para uns, um desafio corrosivo para outros.

Marca: DNB Bank. Título: Clones. Agência: try. Direcção: Joe vanhoutteghem. Noruega, Maio 2018.

A comédia e a tragédia

Mosaic showing theatrical masks of Tragedy and Comedy. Roman artwork, 2nd century CE.

Mosaic showing theatrical masks of Tragedy and Comedy. Roman artwork, 2nd century CE.

As relações de género são uma tentação para publicidade actual. Acontece, por vezes, a quantidade gerar variedade. Por exemplo, variedade de registos. Os anúncios The Real You Matters, da SBS, e Streetguard, da Tracking Systems de Mexico, aludem a problemas graves: a insegurança das mulheres nas ruas e a discriminação sexual no emprego. Um adopta um registo cómico, o outro, um registo dramático. O primeiro convida a rir a pretexto de situações de vulnerabilidade laboral, tais como a gravidez ou a homossexualidade. O segundo publicita a descoberta de um escudo protector na ameaça da escuridão urbana: um novo comando que activa os alarmes dos carros em redor. Este anúncio é intrigante. Importa, naturalmente, capacitar as potenciais vítimas com meios adequados de defesa. Mas esta solução técnica comporta riscos. O controlo do acesso aos comandos não se adivinha fácil. Se caírem em mãos impróprias, por exemplo de bandos urbanos, o que sucede? O baile da meia-noite no bairro dormitório? Todas as noites passam a noite de S. João? As técnicas costumam oscilar entre o diabo e o bom Deus. Importa saber como aproveitá-las.

“A través de nuevos e innovadores productos integradores de tecnología, Tracking Systems de México, empresa de Grupo UDA, fomenta la prevención y brinda soluciones a empresas en cuatro áreas indispensables como: Logística, Tráfico, Seguridad, y Atención al Cliente” (http://naciontransporte.com/tracking-systems-de-mexico/).

Marca: SBS. Título: The Real You Matters. Agência: Havas Melbourne. Direcção: Carl Sorheim. Austrália, Maio 2018.

Marca: The Tracking Systems de Mexico. Título: Streetguard. Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Mónica G. Carter. México, Maio 2018.

 

Partindo do princípio

goofy self defense

Hoje, tive o privilégio de reouvir a expressão “partindo do princípio”. Eloquente! No que me respeita, partir por partir, prefiro partir do fim. O anúncio tailandês Who says tiny has to be weak?, da Kleenex, intriga-me. Focaliza-se no bullying. O anúncio parte de princípios: 1) o bullying é, sobretudo, físico; 2) a resposta é individual, da iniciativa da vítima. Em suma, a solução quer-se individual e física. Para lidar com o bullying, nada como a vítima tornar-se campeã de artes marciais: “follow Rika Ishige’s journey from former bullying victim to becoming Thailand’s top female ONE Championship athlete”.

Aproveito para disponibilizar um guia online de auto defesa: The Art Of Self Defense, da Walt Disney.

Marca: Kleenex. Título: Who says tiny has to be weak? Agência: J. W. Thompson BangKok. Direcção: Baz Poompiryia. Tailândia, Fevereiro 2018.

The Art Of Self Defense, Walt Disney Studios, Dezembro 1941.

Três dedos abaixo de cão

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).

O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.

Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.

Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso.  Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.

Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.

Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.

É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999

O lado feio

Nike

Eva quase asfixiou Adão com um caroço de maçã. Deus condenou ambos ao trabalho e à morte. O filho Abel mata o irmão Caim. A humanidade é, desde o início, semente de violência. Hegel assinala-o e Freud enfatiza-o. Norbert Elias, que tanto estudou o autocontrole e o recalcamento da violência, duvida que seja domesticável. A violência arrebata-nos e enfeitiça-nos. À semelhança do sexo e da beleza, não conseguimos desviar o olhar da violência. Uma aflição e uma excitação permanentes. Na vida como no ecrã: nos telejornais, nos filmes, nos videojogos, nas ruas e nas casas. Urbi et Orbi.

O anúncio Couldn’t Be Less Nice, da Nike, convoca a violência, com os estereótipos do costume: a oscilação entre simpatia e agressividade; a figura do violento bom vizinho e amigo dos animais; e a profecia do vencido de que a força está do lado do inferno. O protagonista é uma versão do Alex, o vilão do Laranja Mecânica (1971). A própria música do anúncio convoca a banda sonora do filme. A abertura de O Barbeiro de Sevilha (1816), de Gioachino Rossini, condiz com a abertura de La Gazza Ladra (1817) e a abertura de Guillaume Tell (1829), do mesmo compositor, incluídas no filme Laranja Mecânica. Não deve ser por acaso. Do Dr. Mabuse (Fritz Lang, 1924) ao Dr. Hannibal Lecter (O Silêncio dos Inocentes, 1991), a violência está no meio de nós; é a nossa tara e o nosso isco.

Marca: Nike. Título: Couldn’t be less nice. Agência: Wieden+Kennedy. Direcção: Keith Mccarthy. Canadá, Dezembro 2017.

De casa até ao ringue, o percurso assemelha-se a um parkour. Por vias, desvios e atalhos, o protagonista supera obstáculos. As palavras que dizem o movimento são carregadas de sentido. O jogging, a caminhada, o deslize, a maratona e o parkour comportam praticantes com propriedades, disposições e valores distintos (ver  Gonçalves, Albertino, “O desporto do nosso contentamento”, Boletim Cultural de Melgaço, nº1, 2002, pp. 127-161). Algumas oferecem-se como metáforas da mobilidade social: ascensão, rebaixamento, impasse; navegação, desvio, travessia; velocidade, deambulação; exploração; seguir, empatar ou abrir caminho… No parkour, o traceur faz carreiro onde este não existe. Supera e contorna obstáculos “por mares nunca antes navegados”. E alcança, mais rápido e por linhas travessas, o destino. O parkour lembra uma ideologia em voga, venerada, empolada e ensinada, inclusivamente, nas universidades: o “empreendedorismo”, herdeiro da “criação destrutiva”, de Joseph Schumpeter (Capitalismo, Socialismo e Democracia, 1942). Estou com uma ânsia de ter netos, só para lhes ler contos de empreendedorismo…

Blue October. Ugly Side. History for Sale. 2003.

A bênção escatológica num mundo às avessas. Os Serviços da Tarde na Festa de São João de Sobrado

Dedico este artigo aos alunos de Sociologia da Cultura. Sabem aprender, descobrir e conhecer de diversas formas. Uma sabedoria em perdição. Gosto dos alunos! São pinceladas coloridas numa tela que tanto se esforça por ser cinzenta. Os alunos ajudam-me a não enterrar o pensamento. Aflitos com o pico de trabalhos práticos, contra-organizaram-se; pediram o adiamento da aula. Segue um texto de apoio. Tornou-se vício crónico a avaliação sobrepor-se à função.

01. A Bênção Escatológica. Os Serviços da Tarde na festa de S. João de Sobrado

01. A Bênção Escatológica. Os Serviços da Tarde na festa de S. João de Sobrado

Este texto decorre de um estudo em curso dedicado à festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado, no concelho de Valongo, estudo coordenado por Rita Ribeiro, que integra os seguintes investigadores do CECS (Centro de Estudos Comunicação e Sociedade) e do CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia): Moisés de Lemos Martins; Manuel Pinto; Luís Santos; Emília Rodrigues Araújo; Luís Cunha; Jean-Yves Durand; e Maria João Nunes. Caiu-me em sorte escrevinhar sobre os Serviços da Tarde.

Vídeo 01. Festa dos Bugios e Mourisqueiros. Sobrado – Valongo. CECS. 2016. Ver, também, para uma panorâmica global, o documentário Viagem ao Maravilhoso: Bugios e Mourisqueiros, RTP, 1990.

Os Serviços da Tarde, ou Sementeiras, consistem numa sequência de episódios, de índole carnavalesca, associados à atividade agrícola. Culmina numa farsa: a Dança do Cego, ou Sapateirada. Trata-se de um ritual único e notável, antes de mais, pela consistência. Os princípios gerais, a macroestrutura, reiteram-se em cada uma das partes, as microestruturas (Goldmann, Lucien, 1970, “Microstrutures das les vingt-cinq premières répliques de Nègres de Jean Genet”, in Structures Mentales et Création Culturelle, Paris, Ed. Anthropos, pp. 341-67). Esta “cristalização fractal” decorre da sedimentação e da consolidação de crenças e rituais ancestrais. Os Serviços da Tarde, mormente a Dança do Cego, não destoariam das festas populares que excitavam as praças e ruelas medievais. O grotesco, acentuadamente escatológico, anima as diversas atividades, conferindo-lhes espontaneidade, irreverência e impacto. Não se observa qualquer separação entre os protagonistas e o público. Não existem palcos ou cercas passíveis de contrariar a abrangência turbulenta do convívio coletivo (Maffesoli, Michel, 1988, Le Temps des Tribus, Paris, Méridiens-Klincksieck). A interação, desejada, é constante. Predomina a cultura cómica popular  (Bakhtin, Mickail, [1965] 1970, L’oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Rennaissance, Paris, Gallimard). As máscaras, omnipresentes, escondem ou revelam? Alteram. Retomando Mikhail Bakhtin ([1929] 1970, La poétique de Dostoïevki, Paris, Seuil), a máscara propicia o diálogo com a alteridade que coabita dentro e fora de nós. Quando a mascarada é coletiva, são as próprias comunidades que se descentram e transformam.

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02. Bugios mascarados. Fotografia de Michel Sasso. 2012.

Os Serviços da Tarde abrem com a Cobrança dos Direitos. Ao ar livre, acompanhado por bugios e rodeado pelo público, o cobrador monta num burro às avessas. Para escrever a contabilidade, finge carregar a enorme pluma no rabo do burro. Este episódio marca toda a série. A figura do burro montado às avessas é remota. Esculturas da Antiguidade mostram Sileno (ver Sileno, o vinho e o burro: https://tendimag.com/2015/03/28/sileno-o-vinho-e-o-burro/) e Dionísio às arrecuas num burro (Imagem com Dionísio). Estas imagens popularizam-se nas iluminuras medievais. Durante as Festas dos Loucos e a Festa do Burro, o eclesiástico eleito bispo entra na igreja montado às avessas num burro, por sinal, o animal celebrado durante a “cerimónia” (ver Heers, Jacques, 1984, Fête des fous et carnavals, Paris, Fayard). Estes casos são convergentes: o burro montado às avessas simboliza a desordem cósmica, mais precisamente, a inversão do mundo, tópico maior dos Serviços da Tarde.  (Imagem da Idade Média; som com a missa do burro).

Dionísio montado num burro  (200AC) Minneapolis Institute of Fine Art

03. Dionísio montado num burro. 200 a. C. Minneapolis Institute of Fine Art.

O burro possui uma elevada carga simbólica que o inclina mais para as profundezas do inferno do que para as alturas do paraíso. Animal do presépio, o único montado por Cristo (na fuga para o Egipto e na entrada em Jerusalém), o burro é associado à teimosia e à sexualidade exuberante. Por seu turno, o uso do rabo do burro como tinteiro indicia, para além da inversão, o rebaixamento grotesco: a pluma e, por extensão, o cobrador deixam-se contaminar pelo baixo corporal asinino. A inversão e o rebaixamento são escatológicos (Cabral, Muniz Sodré A.& Soares, Raquel Paiva de A., 2002, O Império do Grotesco, Mauad, pp. 65-72). O baixo material e corporal, a sexualidade, os excrementos, a desordem e a poluição comportam uma potência de morte e de vida, de regeneração (Douglas, Mary, 1966, Purity and Danger, New York, Frederick A. Praeger).

À Cobrança dos Direitos, sucede a Lavra da Praça, que engloba três atividades agrícolas: semear, gradar e lavrar. A representação da agricultura como ciclo de tarefas povoa os livros de salmos e de horas medievais: o Livro de Horas de D. Manuel, da primeira metade do séc. XVI (1983, Imprensa Nacional / Casa da Moeda) constitui um bom exemplo. Mas os Serviços da Tarde acrescentam um pormenor crucial: a inversão do tempo. O camponês não só monta o burro como cavalga o calendário agrícola às avessas. Semeia antes de gradar; grada, antes de lavrar; paga os direitos antes de colher. Baralha-se o tempo, baralha-se a vida. Destroem-se ordens e constroem-se desordens (Balandier, George, 1980, Le pouvoir sur scènes, Paris, Balland; e Gonçalves, Albertino, 2009, Vertigens. Para uma sociologia da perversidade, Coimbra, Grácio Editor).

04. Montando um burro. Macclesfield Psalter (c.1320-30).

04. Montando um burro. Macclesfield Psalter (c.1320-30).

Montado às avessas, o camponês semeia. Retira de um saco “sementes” que espalha sobre o público. Dissemina e, simbolicamente, insemina. Fertiliza e fecunda, como manda a festa de S. João! O “saco das sementes” continha, nos tempos do linho, baganhas esmagadas, substituídas, hoje, por serrim, ambos desperdícios. Segundo consta, com impurezas à mistura. A arruada toma ares de charivari: gaitas, gritos, obscenidades, provocações e um banho de gente. A violência espreita: o camponês, derrubado do burro, envolve-se com os bugios e com a assistência até aos limites do simulacro. A terra e a semente, o caos e a violência, a campa e o túmulo…

Os “actores” que “vestem a personagem” do camponês (Stanislavski, Constantin, [1949], A Construção da Personagem, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1986) evidenciam arte e treino. Aqui, o camponês deixa-se cair do burro desamparado e roda pelo chão. Logo, passa por baixo da cavalgadura. São gestos de rebaixamento, mas também habilidades teatrais de saltimbancos. A festa prepara-se, de facto, durante todo o ano, de ano para ano.

 

Vídeo 02. Lavra da Praça. Gradar.

Lavrar e gradar são actividades agrícolas consecutivas. Lavra-se e, de seguida, grada-se para, depois, semear. O arado que sulca a terra destaca-se como um símbolo quase universal da sexualidade (Chevalier, Jean & Gheerbant, 1969, Dictionnaire de symboles, Paris, Robert Laffont). Agora apeado, o camponês guia a grade, ou, no episódio seguinte, a charrua, puxada, uns metros à frente, por um burro ou por um cavalo. Destemperado, a frisar a doidice e a embriaguez, o camponês grada e sulca o asfalto, o granito e a terra. A condução, imprevisível, ameaça chocar com a assistência. Às vezes, acontece. Circulam e cruzam-se insultos e palavrões. A grade acaba destruída. O camponês faz questão. Não faltou pontaria para acertar numa árvore. O lavrar e o gradar convocam a sexualidade, a loucura, o caos, o movimento e a violência. O ambiente de “efervescência criativa” (Durkheim, Émile, [1912] 1991, Les formes élémentaires de la vie religieuse, Paris, Le Livre de Poche) frisa a orgia (Maffesoli, Michel, 1982, L’Ombre de Dionysos. Contribution à une Sociologie de l’Orgie, Paris, Méridiens/Anthropos). Catarse? Despedida cíclica? Libertação ? Violência fundadora (Maffesoli, Michel, 1984, Essai sur la violence banale et fondatrice, Paris, Librairie Méridiens/Klincksiec ; Girard, René, 1972, La Violence et le Sacré, Paris, Editions Grasset)?

Os Serviços da Tarde operam uma inversão do tempo, uma das maiores tentações da humanidade. Num anúncio publicitário célebre, um jovem casal despede-se, no meio da praça, à vista de todos. Ele sobe para o autocarro e ela fica desconsolada. As pessoas começam a “andar para trás”: o ciclista, o carro e os peões; o barbeiro recoloca o cabelo na cabeça do cliente, o pintor apaga a tinta, o varredor esvazia o lixo… E o autocarro reaparece, lentamente, de marcha atrás; o jovem desce, abraçam-se e ficam felizes para sempre. Este anúncio da Orange chama-se, apropriadamente, Rewind City (agência: Publicis; França, 2008). Encena o recurso à magia para alterar o destino e a ordem cósmica (ver Publicidade e Magia; https://tendimag.com/2013/08/05/publicidade-e-magia/). Os Serviços da Tarde invertem o ciclo agrícola para fazer recuar a vida? As gentes de Sobrado sabem que não há magia que valha. O que não os impede de retomar, ano após ano, o ritual. Os bugios também sabem que vão perder a guerra com os mourisqueiros. Mas entregam-se ao combate!

Um pouco por todo o mundo, na noite de São João, acendem-se, nas praças e nos campos, fogueiras para dar mais dia à noite. Mas ninguém se ilude: amanhã, por artes do solstício, o dia será mais curto e a noite mais longa. Há algo de trágico e de glorioso nesta luta lúcida contra o inelutável (ver Goldmann, Lucien, 1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard).

A Dança do Cego, ou Sapateirada, último episódio dos Serviços da Tarde, exibe todos os pergaminhos de uma farsa. Entaladas entre os mistérios e as moralidades, as farsas medievais aliviavam os fiéis de tanta seriedade. Surgiu, assim, um género teatral breve, com poucas personagens, apostado na ação, nos adereços e no cenário, em detrimento da palavra. A linguagem é vulgar, os gestos e os objetos impróprios e a violência, uma pantomina. Propensa a equívocos e absurdos, a farsa privilegia as reviravoltas que vitimam o agressor, humilham o soberbo ou enganam o aldrabão. Menção especial merece a inversão de género: a mulher engana e domina o homem, como no caso da Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente. Não obstante, a farsa não visa propósitos moralizadores ou edificantes. A interação com o público é apanágio da farsa. Relíquia histórica, a Dança do Cego ostenta estas propriedades. Convoca, inclusivamente, as personagens da farsa mais antiga de que há registo. Da segunda metade do séc. XIII, Le Garçon et l’Aveugle (Paris, Librairie Ancienne Honoré Champion, 1921) também inclui um cego acompanhado pelo criado.

Vídeo 03. Dança do cego. São João de Sobrado.

A Dança do Cego é tão apreciada que, à semelhança de outros números, é representada em vários locais da vila de Sobrado. Replicada junto à igreja e noutros locais, as pessoas acotovelam-se à volta de um lamaçal imundo. Dezenas de metros quadrados de lama, urina e excrementos de animais. Sentado num banco, andrajoso, o sapateiro martela o calçado, molha-o e atira-o indiscriminadamente para o público, que o recebe como uma espécie de bênção escatológica. O sapateiro e a mulher (representada por um homem) não param de se desentender. Aproxima-se um cego com o seu criado. O cego tropeça e estatela-se de bruços no lamaçal. Furioso, o sapateiro bate-lhe com a vara. Arrepende-se. Para verificar o estado de saúde, aproxima a cara do traseiro do cego. Respira, pelo menos por baixo! Deslocando-se de um lado para o outro, o sapateiro bate com a vara no lamaçal. Mais uns salpicos providenciais. O público aproxima-se e afasta-se; delira. Entretanto, o criado do cego rapta a mulher do sapateiro, que terá que recorrer ao jogo do pau para a reaver.

A auscultação de sinais vitais junto ao traseiro é rara e insólita, mas não é inédita. No livro Pantagruel, Epistemão foi decapitado durante uma batalha épica. Panurgo coze-lhe a cabeça:

“De repente, Epistemão começou a respirar, depois a abrir os olhos, depois a bocejar, depois a espirrar, e por fim deu um grande peido da sua reserva. Disse então Panurgo: – Está, com toda a certeza, curado” (Rabelais, François, [1532] 2006, Pantagruel, Lisboa, Frenesi, p. 168).

A Dança do Cego é uma obra-prima, sistemática e radical, de rebaixamento escatológico. O lamaçal é uma espécie de húmus. “O humano é também húmus” (Maffesoli, Michel, 1998, Elogio da Razão Sensível, Petrópolis, RJ, Vozes, p. 35). O cego estatela-se no lamaçal e aí permanece imobilizado. Os sapatos remetem para os pés, rasteiros e desvalorizados. O arremesso dos sapatos e os salpicos de esterco configuram um ritual misto de batismo e poluição. Tudo servido com entusiasmo público. Estamos perante um rebaixamento grotesco festivo, que regenera e restaura. A solução adotada pelo sapateiro para descortinar os sinais vitais do cego representa um caso paradigmático de rebaixamento mediante aproximação dos contrários: a face nobre e o traseiro ignóbil. Graças a este mergulho na terra e no corpo, a comunidade resulta renovada e reforçada. Não se vislumbra a mínima sombra de grotesco do estranhamento corrosivo kayseriano (Kayser, Wolfgang, [1957] 1986, O grotesco: configuração na pintura e na literatura, São Paulo, Editora Perspectiva). Na Dança do Cego, o rebaixamento quer-se cómico, vitalista e popular, “bakhtiniano”. O baixo, prenhe, é esperançoso.

Existem festas e rituais congéneres um pouco por todo o mundo. Lidamos com arquétipos (Jung, Carl Gustav, 2000. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Vozes), “estruturas antropológicas do imaginário” (Durand, Gilbert, 1960, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, Paris, P.U.F.). Assim como, em Sobrado, o camponês brinda o público com sementes e o sapateiro com lama imunda, em Lanjarón (Granada, Espanha), durante a “Carrera del Agua”, logo a seguir à meia-noite de S. João, residentes e forasteiros percorrem cerca de 1 500 metros molhando-se uns aos outros, com o que estiver à mão, sob uma “chuva” que cai das janelas, das varandas e dos telhados, enviada pelos não participantes. A rega no lugar da sementeira.

O cego e o sapateiro movem-se na lama. Em Bibiclat, no norte das Filipinas, durante o São João, ao amanhecer, os aldeões reúnem-se em silêncio num campo pantanoso, cobrem-se de lama e vestem capas feitas de folhas de bananeira. Assistem neste preparo à celebração da missa.

Mais perto, nas freguesias de Romarigães (Paredes de Coura), Covas (Vila Nova de Cerveira) e São Julião (Valença) ocorre a pega ou apanha do porco. À volta de um recinto cercado, enlameado a rigor, o público assiste à briosa perseguição de porcos bravos. Ganha o concorrente mais rápido a agarrar os bichos (ver Lama, excrementos e porcos; https://tendimag.com/2016/06/26/lama-excrementos-e-porcos/).

Vídeo 04. Apanha do porco. Covas. Vila Nova de Cerveira. 2012.

Recoloquemos o olhar na matriz medieval, nas festas dos loucos e na festa do burro. À semelhança do cobrador e do camponês, o eclesiástico eleito entra na igreja às arrecuas, montado num burro. Baseado em documentos de 1454 e 1482, Mr. du Tilliot descreve, em livro publicado em 1741, o pandemónio durante e após a celebração do ofício:

“On voyait les Clercs & les Prêtres faire en cette Fête un mèlange afreux de folies & d’impietez pendant le service Divin, où ils n’assistoient ce jour-là qu’en habits de Mascarade & de Comedie. Les uns étoient masquez, ou avec des visages barbouillés qui faisoient peur, ou que faisoient rire, les autres en habits de femmes ou de pantomimes, tels que sont les Ministres du Theatre. Ils dansoient dans le Choeur en chantant , & chantoient des chansons obscènes. Les Diacres & les Sou-diacres prenoient plaisir à manger des boudins & des saucices sur l’Autel, au nez du Prêtre célébrant : ils jouoient a ses yeux aux Cartes & aux Dez : ils mettoient dans l’Encensoir quelques morceaux de vieilles savates, pour lui faire respirer une mauvaise odeur. Après la Messe, chacun couroit, sautoit & dansoit par l’Eglise avec tant d’impudence, que quelques un n’avoient pas honte de se porter à toutes sortes d’indécences, & de se dépouiller entierement ; ensuite ils se faisoient trainer par les rues dans des tombereaux pleins d’ordures, où ils prenoient plaisir d’en jetter à la populace qui s’assembloit  autour d’eux » (Mr. du Tillier, 1741, Memoires pour servir a l’histoire de la Fête des Foux, Lausanne & Geneve, chez Marc-Michel Bousquet & Compagnie, pp. 5-6).

Alusão à Missa do Burro. Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Nord de France. 13e siècle.

Alusão à Missa do Burro. Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Norte de França. Séc. XIII.

“Sabemos que os excrementos desempenharam sempre um grande papel no ritual da “festa dos tolos”. No ofício solene celebrado pelo bispo para rir, usava-se na própria igreja excremento em lugar  de incenso. Depois do ofício religioso, o clero tomava lugar em charretes carregadas de excrementos; os padres percorriam as ruas e lançavam-­nos sobre o povo que os acompanhava (Bakhtin, Mikahil, 1987. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo. HUCITEC, P. 126).

Durante a Missa do Burro, o ofício e os cânticos eram talhados a preceito. As pessoas cantavam, bramiam e zurravam em devoção ao animal.

Clemencic Consort. Clemencic Consort. Kyrie Asini – Litanie. La Fête de l’Ane. 1985.

À semelhança dos Serviços da Tarde, a festa dos loucos começa invertida e acaba escatológica.

 

A Dança do Cego ganha em ser integrada na série dos trabalhos agrícolas dos Serviços da Tarde. Alude, inequivocamente, à adubação. O camponês dispunha o estrume em montículos para o espalhar por todo o campo antes da lavra. Fertilizante, a Dança do Cego não conhece princípio nem fim; é o princípio e o fim; é o recomeço, em adubo líquido. O eterno retorno do estranho sempre próximo. Forasteiros, o cego e o criado ameaçam a ordem local. O rapto e o resgate da mulher do sapateiro exprimem o carácter agonístico da competição sexual. Nos Serviços da tarde, tudo é movimento, metamorfose e vertigem. Território, comunidade, violência e sexualidade, dimensões cardeais da vida humana, borbulham no caldeirão da lama impura. Impuro sobre impuro gera libertação e esperança. Há batismos e batismos! A potência telúrica e a promessa das entranhas abraçam-se, dançam e envolvem-nos nos Serviços da Tarde da festa de São João de Sobrado. De geração em geração, desde tempos imemoriáveis.

Desconectados. Comunicação intergeracional

Elisa 2

A incomunicação no seio da família, principalmente entre os pais e os filhos, merece mais atenção por parte das entidades que vivem dos nossos problemas. Não consigo perceber as suas prioridades: ora materiais, ora simbólicas, ora esfíngicas, por vezes, de duvidosa e estranha oportunidade. O sexo que procria carece apoio. Por este andar, somos uma espécie a caminho da extinção. Na comunicação, há, pelo menos, dois lados. No anúncio Stay connected, o filho desliga a comunicação. A conexão sobrevém por vias travessas: uma situação de violência exógena. No âmbito do anúncio, é um desfecho coerente, mas não é a solução conveniente. Nunca houve tantos profissionais em comunicação e relações humanas! Nunca houve tantos organismos de solidariedade e sensibilização social! Andam descoordenados? Estrábicos? Impotentes? Sem avaliação? Sem pais e sem filhos, a sociedade torna-se insustentável. Sem comunicação, desenlaça-se. O nosso tempo transborda de causas nobres e espectaculares. Sofre de gastroenterite.

Marca: Elisa. Título: Stay connected. Agência : Bob the robot. Direcção: Pete Riski. Noruega, Outubro 2017.

A Cadeira de patinhar

É no vazio do pensamento que o mal se instala” (Hannah Arendt).

Nós somos bons a fazer o mal. O Marquês de Sade não é um caso isolado. Qualquer dúvida evapora-se com uma visita a um museu, ou exposição, de instrumentos de execução ou tortura. Por exemplo, o Museu da Tortura de Amesterdão. Saimos estarrecidos com tanto engenho, imaginação e requinte em matéria de sofrimento e morte.

Ducking Stool. Tortura por imersão na água. Séc. XVII

Ducking Stool. Tortura por imersão na água. Séc. XVII

Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, durante os reinados de Isabel I e Jaime I, a bruxaria foi severamente perseguida. Recordem-se, do outro lado do oceano, as “bruxas de Salém (1692). Além da fogueira e da forca, pontificavam inúmeros recursos disciplinares. Por exemplo, the ducking stool, a “cadeira de patinhar”. Sentada e suspensa numa cadeira, a mulher acusada de bruxaria, de prostituição ou de outros crimes era mergulhada, repetidamente, na água. Tratava-se de um teste que, devidamente interpretado, pode resultar no seguinte dilema: se a mulher afogar, é inocente; se não afogar, é culpada e castigada em conformidade. Tratava-se, também, de mais um método de execução e humilhação pública. Em local exposto, o público não se fazia rogado. Constituía um espectáculo! Um espectáculo do poder! De quem detém a responsabilidade e legitimidade de vigiar, julgar e punir.

17th century punishment for 'disorderly women' in #Manchester. The ducking stool at the Daub Holes

17th century punishment for ‘disorderly women’ in Manchester. The ducking stool at the Daub Holes

O francês François Maximilien Misson, viajante por terras de Inglaterra no final do século XVII, faz a seguinte observação:

“Na Inglaterra, a maneira de castigar as mulheres desordeiras e depravadas é bastante engraçada. Atam uma cadeira de braços à extremidade de duas traves, de quatro ou cinco metros de comprimento, paralelas uma à outra, de modo a que estes dois pedaços de madeira abracem, nas duas extremidades, a cadeira, que se encaixa entre eles sobre uma espécie de eixo, o que significa que se movem livremente permanecendo a cadeira sempre na posição horizontal, o que permite que a pessoa esteja convenientemente sentada nela, tanto a subir como a descer. Erguem um poste na margem de um lago ou de um rio, e, sobre este poste, põem em equilíbrio os dois pedaços de madeira, sendo que numa das extremidades a cadeira fica suspensa sobre a água. Colocam a mulher na cadeira e submergem-na na água, o número de vezes que a sentença o estipular, de modo a arrefecer o seu calor imoderado” (Misson, François Maximilien, 1698, Memoires et observations faites par un voyageur en Angleterre, La Haye,Henri van Bulderen,Marchand Libraire,p.41).

The ducking stool

Leominster Ducking Stool, Last Used 1809

Algumas vezes o “calor imoderado” da vítimas arrefecia definitivamente.

“Em alguns casos, o castigo era levado ao extremo de causar a morte. Um antigo texto, sem data, intitulado “Strange and Wonderful Relation of the Old Woman who was Drowned THE DUCKING-STOOL. 5 at Ratcliff Highway a fortnight ago”, relata que “a pobre mulher foi mergulhada demasiadas vezes; concluída a operação, foi encontrada morta”” (Andrews, William, 1890, Old-Time Punishments, London, Simpkin, Marshall, Hamilton, Kent & Co., p. 5).

Nestes sobressaltos de crime e castigo, de efervescências e “calores imoderados”, de tanto aparato, não cabe o demónio? Desencante-se quem pensa que o diabo não anda nos corredores da polícia e da justiça. Estes actos sacrificiais configuram ritos de esconjuração. Atente-se no seguinte testemunho:

“A duckingstool mantinha-se permanentemente pendurada no seu lugar e na parte de trás, junto às acusações, estavam gravados diabos, etc. Algum tempo depois, uma nova cadeira foi erguida no lugar da antiga, com os mesmos apetrechos esculpidos, bem pintados e ornamentados. Quando a nova ponte de pedra foi erguida, em 1754, a cadeira foi retirada” (Hole citado por Willam Andrews (1890. Old-Time Punishments, op. cit, p. 9).

Charles Stanley Reinhart. The Duckingstool. 1896

Charles Stanley Reinhart. The Duckingstool. 1896

E nós, (pós)modernos, pioneiros do terceiro milénio e herdeiros de séculos de civilização, declinamos ou não o espectáculo da violência, do crime e do castigo? Na verdade, já não acorremos, a toque de tambor, às execuções públicas. E se for a toque de ecrã? Porventura, um telejornal indignado ou uma série CSI? Talvez não sejamos multidão apinhada à volta do patíbulo, mas somos opinião pública, audiência, que não dispensa nem o “sofrimento à distância”, nem as emoções confortáveis. Violência, carrascos e vítimas, cada vez mais alheios, cada vez menos estranhos.

“Paralelamente à eliminação do espectáculo dos actos de tortura, assistimos, por compensação (…), à proliferação de imagens mediatizadas de cenas de violência. Estas, longe de nos tocarem como pretende ser por vezes o seu propósito explícito, levam-nos a pactuar de modo crescente com a sua banalidade e com uma indiferença que a imagem introduz (…) ao interpor-se entre nós e o real, distanciando-o” (Carvalho, Adalberto Dias de, 2010, “Da violência como anátema à educação como projecto antropológico”, in Henning, Leoni & Abbud, Maria (orgs.), Violência, indisciplina e educação, Londrina, online, 19-25, p. 21).