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Incontinência da violência

Se precisar da entrega ao domicílio de um volume de tabaco resulta difícil. Tenho que me deslocar, até numa cadeira de rodas, a espaços cada vez menos acessíveis. É pormenor de somenos consideração. Os missionários do bem entendem tutelar-me. Mas já a intrusão da violência, esteja onde estiver, dispensa qualquer pedido. Copiosa, insinua-se por todos os canais.

Com o anúncio / videoclip “Reward The Scars”, concluo esta incursão centrada no tema da violência. Temo enfartar! Não viro a página, apenas me disponho a saltar algumas.

Korn – Reward The Scars | Official Music Video for Diablo IV: Lord of Hatred. Abril, 2026

A propósito, conhece o Renaud? Ainda vamos a tempo…

Renaud – Laisse béton. Laisse béton, 1977
Renaud & Axelle Red – Manhattan Kaboul. Boucan d’enfer, 2002

Vítimas da Verdade

Fotografia – Reprodução de La Jornada. México

Existem jornalistas de todos os tipos, feitios, interesses e ideologias. Esta diversidade representa um dos pilares das democracias e expõe-os como alvo a controlar ou a abater nos regimes autoritários e pelo crime organizado. O anúncio mexicano “Bullet Machine” ilustra-o de um modo original, veemente e impactante.

Article 19 Office for Mexico and Central America – Bullet Machine. Agência: Grey Mexico. Direção: Andrea Pelegrin & Francisco Paparella. México, abril 2026

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Rage Against The Machine – Killing In the Name. Rage Against the Machine, 1992
Muse – Uprising. The Resistance, 2009

A fatura bélica. Almas quebradas

Otto Dix. War cripples. 1920

Presente em cerca de 900 autarquias francesas, a estátua do soldado heroico é neste anúncio subvertida. O filme revela aquilo que o monumento silencia: a ferida invisível por detrás da figura trinfante.

Musée de la Grande Guerre du Pays de Meaux – Le poilu victorieux. Agência: BBDO Paris. França, abril 2026

Violência lúdica

Clash Royale

Construa o seu Baralho de Batalha e supere o inimigo em batalhas rápidas em tempo real. Produzido pelos criadores de CLASH OF CLANS,estreia um jogo de batalha multijogador em tempo real (…) Comece a lutar contra jogadores do mundo todo!

Estas palavras anunciam uma atualização recente do videojogo de origem finlandesa Clash Royale. No anúncio, milhares de balões explodem. Convenha-se que no que respeita a a rebentar coisas e pessoas não faltam fontes de inspiração.

O game mobile Clash Royale arrecadou US$ 2,5 bilhões em receita durante os três anos de existência, de acordo com dados da consultoria Sensor Tower. O valor arrecadado nos Estados Unidos representa 30%, com US$ 750 milhões desde o lançamento. O segundo colocado na lista é a Alemanha, com US$ 225 milhões (9%). (…) Clash Royale continua sendo um dos games mobile mais lucrativos do mundo. Em fevereiro, o título ficou em 18ª posição, com mais de US$ 33 milhões gastos por jogadores em todo o mundo em todas as plataformas. Estima-se que jogadores invistam US$ 2,3 milhões por dia no jogo.” (Clash Royale passou de US$ 2,5 bilhões em receita em três anos, segundo pesquisa).

Clash Royale – Hero Balloon. Agência: Uncommon Stockholm. Direção: Sam Gainsborough. Suécia, abril 2026

Do belo Horrível

Segue um artigo oportuno e lúcido sobre algumas tendências atuais do “processo civilizacional” estudado por Norbert Elias. Se o Luís Bastos não se importar, subscrevo. [Pode também aceder ao artigo carregando na imagem precedente]

Delírio ou deleite?

A publicidade pode aspirar a ser profética? Os novos tempos serão desvairados e agressivos, como no anúncio Goldilocks And The Three Trucks, da Dodge ou nem precipitados, nem furiosos, como no anúncio Not So Fast, Not So Furious, da Häagen-Dazs? Ambos os anúncios provêm de empresas norte-americanas e passaram ontem, dia 9 de fevereiro, durante o Super Bow 2025.

Marca: Dodge. Título: Goldilocks And The Three Trucks. Agência: Gsd&m. USA, fev 2025
Marca: Häagen-Dazs. Título: “Not So Fast, Not So Furious”, Agência: nice&frank. USA, fev 2025

Salvem as crianças!

Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!… (Augusto Gil. Balada da Neve. Luar de Janeiro, 1909)

“Há mais de 100 anos, em 1919, uma mulher chamada Eglantyne Jebb [1876-1928] fundou a Save the Children em resposta ao sofrimento que as crianças enfrentavam como resultado da Primeira Guerra Mundial. / Eglantyne Jebb mudou o curso da história quando declarou que todas as meninas e meninos deveriam ter direitos. Esta ideia, avançada para o seu tempo, desencadeou um movimento global para tornar o mundo um lugar melhor para as crianças. Eglantyne apresentou a primeira Declaração Universal dos Direitos da Criança na Liga das Nações, documento que serviu de base para a criação da Convenção sobre os Direitos da Criança.”

Despertei com o anúncio “Fer” da Saven the Children, do México. Extenso e lento (dura mais de 6 minutos), algo enigmático (desconhece-se, até ao final, o motivo), nem sempre lógico (por que se deixa crescer tanto o cabelo?), faz todo o sentido: ” Desde el embarazo infantil hasta el feminicidio, las niñas viven con miedo en lugar de tener la libertad para crecer y desarrollarse plenamente”.

Anunciante: Save the Children Mexico. Título: “Fer”. Agência: Anónimo Agencia. México, novembro 2024

Crise da reflexividade crítica e autodestruição

A quem nunca tem dúvidas e raramente se engana

Francisco de Goya. Episódio na guerra da independência espanhola, ca. 1810

El sueño de la razón produce monstruos (Francisco de Goya)

Preocupam algumas dinâmicas e tendências atuais. Em particular, a crescente mobilização em termos raciais, étnicos, religiosos, nacionalistas… com pretensas estirpes naturais, “antropológicas” e “biológicas”. Por exemplo, vários maniqueísmos tais como filias e fobias sionistas e islamistas.

“Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e pessoas da história mundial acontecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1ª ed. 1852). Nada impede, porém, que se repitam como tragédias, eventualmente maiores.

Imagem: Francisco de Goya. Visión fantasmal, ca.1801

Parece estar em curso um eclipse do propriamente político e do espírito (auto) crítico. O regresso à identificação e ao pensamento automáticos e estereotipados. Convém recordar o mundo e, especialmente, a Europa antes da primeira e da segunda guerras mundiais.

Imagem: Francisco Goya (atribuído a). O colosso. Após 1808

Para complicar, a história também revela que a mera razão não é suficiente para enfrentar o delírio simbólico. Sem o sustento e o fermento do imaginário e do emocional pouco consegue. O racional carece de uma centelha irracional para se manter aceso, para motivar e mover os seres humanos.

Existem anúncios de consciencialização que se propõem, e podem, ajudar. É o caso do anúncio “The 100th Edition”, do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Grande Prémio, na categoria “impresso”, no âmbito dos 2024 New York Festivals Advertising Awards.

Imagem: Francisco de Goya. Pátio de um manicómio. 1794

Hegel e Marx podem estar certos. É plausível que a história se repita de um modo cíclico ou em espiral. Mas existe uma realidade que não obedece a este retorno. Não só não recua como não para de avançar: a capacidade humana de autodestruição.

Anunciante: Frankfurter Allgemeine Zeitung. Título: The 100th Edition. Direção:  Scholz & Friends. Alemanha, junho 2024

Brutal

Tenho um amigo que perante uma realidade invulgarmente impactante costuma classificá-la como “brutal”. Este anúncio de consciencialização da Change The Ref é deveras impressionante. O desfecho, criativo, é surpreendente.

Fundamentado em dados dos Centros de Controle de Doenças (CDC) que revelam que as armas de fogo são a principal causa de morte de crianças e adolescentes, o anúncio de sensibilização “American Cancer Story” confronta a violência armada e o câncer pediátrico a partir da experiência de uma jovem que tendo sobrevivido a um cancro se depara com um tiroteio no seu regresso à escola.

Anunciante: Change The Ref. Título: American Cancer Story. Agência: Klick Health. Direção: José Padilha. USA, abril 2024

Mãos que protegem; mãos que castigam

Mãos exageradas, para orientar o olhar para o Menino e para significar proteção. Virgen con el Niño. Catedral de Nuestra Señora de la Asunción. Valladolid. Meados do séc. XIII.

Moi j’ai les mains sales. Jusqu’aux coudes. Je les ai plongées dans la merde et dans le sang. Et puis après ? Est-ce que tu t’imagines qu’on peut gouverner innocemment ? (Jean-Paul Sartre. Les Mains Sales. Éditions Gallimard. 1948. Pág. 200)

A associação francesa StopVEO Enfance Sans Violences acaba de publicar um anúncio de sensibilização excelente a alertar para a violência de que são vítimas as crianças com a justificação de contribuir para a sua educação. A mão, motivo principal brilhantemente explorado, remete sobretudo para o contato físico. Aguarda-se uma segunda parte que incida sobre a cabeça e a violência psicológica. Evidência que a Stop VEO não ignora:

“L’acronyme « VEO » est la Violence (physique, psychologique ou verbale) utilisée envers les enfants dans une intention Éducative (pour leur « bien », pour qu’ils aient un « bon comportement »), culturellement admise et tolérée, dans tous les lieux et tous les milieux ; elle en devient alors « Ordinaire ».”
“Les conséquences de la VEO sont considérables. Elles constituent une question de santé publique parce qu’elle est encore très largement employée : 85 % des parents reconnaissent avoir recours à la fessée (71,5% à des « petites gifles »). La moitié des enfants sont frappés avant l’âge de 2 ans, et les trois quarts avant l’âge de 5 ans (étude menée par l’OVEO (Observatoire de la violence éducative ordinaire) en 2017)”. (https://stopveo.org/veo-violence-educative-ordinaire/)

Anunciante: StopVEO Enfance Sans Violences. Título: The Legacy. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direção: Cole Webley. França, abril 2024