Moleza

Regresso de Melgaço com alguma fadiga no corpo e na alma. Subir e descer do ninho é mais dado à criação do que à idade. Excesso de afeto mói! No Jardim do Luxemburgo, em Paris, apreciava sentar-me junto à estátua de Verlaine. Com a ajuda de Léo Ferré, vou estender-me um momento a repousar na imaginação.
Jardin du Luxembourg. Paul Verlaine. Por Auguste de Niederhausem Rodo (1863-1913)
e-ternamente

NA MÃO DE DEUS
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero de Quental. Os sonetos completos de Anthero de Quental. 1886.
