Agarrar o vento

Tenho duas dúzias de reis magos em casa. Dá para poucas escapadelas. Sou perito: deixo-me descair na cadeira e passo por baixo do tapete. Ninguém dá pela minha falta. A invisibilidade é crucial: o protagonismo é fatal às escapadelas. Sem tempo, resolvo escolher um álbum à sorte. Sai o Donovan’s Greatist Hits (1969). Donovan foi um compositor e cantor de sucesso, sobretudo, nos anos sessenta. Pertence à geração Bob Dylan, Velvet Underground e The Doors. Donovan foi amigo de um meu amigo, em Paris.
Um dos reis magos veio de Angola. Fomos fumar, à espera da estrela. Tive uma sensação de estranheza: o Marlboro dele não tinha cenas eventualmente chocantes. Em África, os profetas da desgraça devem ter outras preocupações. Segunda estranheza: o preço de um Marlboro em Angola é 1:20 euros. Em Portugal, ascende a 5 euros! Inspeccionei: a única diferença reside nas imagens eventualmente chocantes. Devem ser muito caras!
Bananas
Um anúncio simples, muito simples, assente numa ideia simples, muito simples, mais simples do que o ovo de Colombo. O comércio injusto funciona como um garrote para os produtores de fruta. As bananas sugerem o garrote.
Por falar em garrote, em 1974, em Espanha, ainda houve execuções com recurso ao garrote. Foi um escândalo internacional. Recordo ter desenhado, a pontilhado, uma caricatura com o Franco numa cadeira de rodas a apertar o garrote.
Por falar em bananas, não convém esquecer a famosa saia de bananas da dançarina e actriz Josephine Baker. Tal como no anúncio, trata-se de uma adaptação/deslocação das bananas.
Anunciante: Oxfam International. Título: Let’ Make Fruit Fair- Now! Agência: M&C Saatchi Berlin. Direcção: Eric van den Hoonaard. Alemanha, 2015.
Josephine Baker. Dança das Bananas. Follies Bergères. 1927.
Não há dois sem três! Se bananas lembram bananas, então também lembram uma banana: a banana dos Velvet Underground e do Andy Wahrol.
Velvet Underground. Femme Fatale. Velvet Underground. 1967. Com capa e produção de Andy Wahrol.
Pneus surrealistas
Acabar a avaliação justifica uma celebração. O Joel, aluno de Sociologia da Arte, da licenciatura em música, analisou o anúncio Tested for the Unexpected I (Dunlop, 1993) do realizador Tony Kaye, que dirigiu vários filmes, documentários e vídeos musicais (e.g., Red Hot Chili Peppers, Roger Waters, Johnny Cash). De anúncio para anúncio, vem à memória o Tested for the Unexpected II, para a mesma marca (1993). O primeiro, com música dos Velvet Underground (Venus in Furs), o segundo com música dos Doors (The End). Estes anúncios são insólitos, com uma invejável desenvoltura grotesca. Metamorfoses, figuras estranhas, contornos indefinidos, deformações, movimentos bruscos… Convocam o surrealismo, a pop art, o psicadelismo e outros movimentos artísticos. Este género de anúncio marcou os anos noventa. Atente-se nos anúncios Diablo, do Renault Clio (1998) e Ghosts (1997) e Vampires (1997), da Citroen: http://tendimag.com/2013/01/08/nos-limites/. Gosto de anúncios assim, sulfurosos. Je suis comme je suis, je plais à qui je plaît (Jacques Prévert).
Marca: Dunlop. Título: Tested for the Unexpected I. Agência: AMV. Direcção: Tony Kaye. UK, 1993.
Marca: Dunlop. Título: Tested for the Unexpected II. Agência: AMV BBDO. Direcção: Jason Harrington. USA, 1993.


