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Agarrar o vento

Tenho duas dúzias de reis magos em casa. Dá para poucas escapadelas. Sou perito: deixo-me descair na cadeira e passo por baixo do tapete. Ninguém dá pela minha falta. A invisibilidade é crucial: o protagonismo é fatal às escapadelas. Sem tempo, resolvo escolher um álbum à sorte. Sai o Donovan’s Greatist Hits (1969). Donovan foi um compositor e cantor de sucesso, sobretudo, nos anos sessenta. Pertence à geração Bob Dylan, Velvet Underground e The Doors. Donovan foi amigo de um meu amigo, em Paris.

Um dos reis magos veio de Angola. Fomos fumar, à espera da estrela. Tive uma sensação de estranheza: o Marlboro dele não tinha cenas eventualmente chocantes. Em África, os profetas da desgraça devem ter outras preocupações. Segunda estranheza: o preço de um Marlboro em Angola é 1:20 euros. Em Portugal, ascende a 5 euros! Inspeccionei: a única diferença reside nas imagens eventualmente chocantes. Devem ser muito caras!

Donovan. Catch the wind (1966). Donovan’s Greatist Hits (1969).
Donovan. Season of the Witch (1966). Donovan’s Greatist Hits (1969).
Donovan. The Hurdy Gurdy Man (1968). Donovan’s Greatist Hits (1969).

Bananas

Oxfam. Let's Make Fruit Fair

Um anúncio simples, muito simples, assente numa ideia simples, muito simples, mais simples do que o ovo de Colombo. O comércio injusto funciona como um garrote para os produtores de fruta. As bananas sugerem o garrote.

Por falar em garrote, em 1974, em Espanha,  ainda houve execuções com recurso ao garrote. Foi um escândalo internacional. Recordo ter desenhado, a pontilhado, uma caricatura com o Franco numa cadeira de rodas a apertar o garrote.

Por falar em bananas, não convém esquecer a famosa saia de bananas da dançarina e actriz Josephine Baker. Tal como no anúncio, trata-se de uma adaptação/deslocação das bananas.

Anunciante: Oxfam International. Título: Let’ Make Fruit Fair- Now! Agência: M&C Saatchi Berlin. Direcção: Eric van den Hoonaard. Alemanha, 2015.

Josephine Baker. Dança das Bananas. Follies Bergères. 1927.

Não há dois sem três! Se bananas lembram bananas, então também lembram uma banana: a banana dos Velvet Underground e do Andy Wahrol.

Velvet Underground. Femme Fatale. Velvet Underground. 1967. Com capa e produção de Andy Wahrol.

Pneus surrealistas

Tony Kaye

Tony Kaye

Acabar a avaliação justifica uma celebração. O Joel, aluno de Sociologia da Arte, da licenciatura em música, analisou o anúncio Tested for the Unexpected I (Dunlop, 1993) do realizador Tony Kaye, que dirigiu vários filmes, documentários e vídeos musicais (e.g., Red Hot Chili Peppers, Roger Waters, Johnny Cash). De anúncio para anúncio, vem à memória o Tested for the Unexpected II, para a mesma marca (1993). O primeiro, com música dos Velvet Underground (Venus in Furs), o segundo com música dos Doors (The End). Estes anúncios são insólitos, com uma invejável desenvoltura grotesca. Metamorfoses, figuras estranhas, contornos indefinidos, deformações, movimentos bruscos… Convocam o surrealismo, a pop art, o psicadelismo e outros movimentos artísticos. Este género de anúncio marcou os anos noventa. Atente-se nos anúncios Diablo, do Renault Clio (1998) e Ghosts (1997) e Vampires (1997), da Citroen: https://tendimag.com/2013/01/08/nos-limites/. Gosto de anúncios assim, sulfurosos. Je suis comme je suis, je plais à qui je plaît (Jacques Prévert).

Marca: Dunlop. Título: Tested for the Unexpected I. Agência: AMV. Direcção: Tony Kaye. UK, 1993.

Marca: Dunlop. Título: Tested for the Unexpected II. Agência: AMV BBDO. Direcção: Jason Harrington. USA, 1993.