Tag Archive | Vangelis

O cantar do galo

Egon Schiele. Death And The Maiden. 1915-1916

O galo anda à solta e de crista levantada. Canta fora de horas, e guia as almas na última viagem. Perdi, nestes dias, quatro pessoas queridas, uma hoje. Mas o galo não se cansa. Continua a rondar. Os tempos não estão para aleluias, mas para dúvidas e epitáfios.

Vangelis. Ask the Mountains. Voices. 1995.
King Crimson. Epitaph. In The Court Of King Crimson. 1969.

Lamentação. Críticas do Grilo Falante.

Existem muitas músicas da desgraça e da lamentação. Também existem muitas desgraças. No ciclo de músicas da desgraça, gostava de contemplar Vangelis, a meu ver, um mestre em músicas de lamentação. Retive três obras para acertar em duas.

O meu grilo falante quer dizer-me alguma coisa:
Grilo Falante: Não estás a colocar demasiada música? Ademais, triste. Duvido que seja da música que as pessoas gostam mais no teu blogue.
Ego: Que me recomendas fazer?
Grilo Falante: Coloca anúncios que emocionem, anúncios bem dispostos. São mais fáceis de encontrar do que essas pieguices enterradas na história.
Ego: Eu não decido em função do que as pessoas gostam, mas daquilo que eu gosto
Grilo Falante: Isso é o que acreditas e, imprudentemente, confessas aos outros.
Ego: Dou aos outros o que gosto, não aquilo de que gostam. Quando dou, dou uma parte de mim, não uma parte do outro. Por exemplo, a música 12 O’Clock, não sendo minha, é uma parte de mim. É uma dádiva, não é tiro ao alvo.
Grilo Falante: Parole, parole, parole, parole parole soltanto parole. Pelas músicas que escolhes, não danças há muito tempo.

Vangelis. Chant (Alternate). Alexander. 2004.
Vangelis. Rachel’s Song. Blade Runner. 1983.
Vangelis. Heaven and Hell Part II (12 O’ Clock). Heaven and Hell. 1975.

Divertimento

Figura 1. Codex Donaueschingen 113 ,Des Teufels Netz, Bodenseeraum, 1441

Interessar-se pela música do inferno é próprio de tolos desocupados. Pior ainda descobrir na terra músicos passíveis de tocar no inferno. A banda de demónios da figura 01 quer sair da porta do inferno. Prefere o interior com ar quente e cheiro a enxofre.

Há músicos com perfil para tocar no inferno: Rolling Stones (Sympathy for the devil), Deep Purple (Demon’s eye), Chris Rea (The road to hell), Uriah Heep (Demons and Wizards), Black Sabbath (Heaven and hell), AC/DC (Highway to hell), Pink Floyd (Run like hell)… Retive dois candidatos. O álbum Heaven and Hell (1975) do Vangelis inspira-se, em vários troços, no inferno. Parco em melodias e ritmos compassados, alguns sons são do outro mundo e muitas passagens incómodas. Mas o álbum de Vangelis é, do princípio ao fim, límpido e afinado. O que desagrada aos diabos, propensos a confusões, cacofonias e charivaris. Sobra, nestas condições, Marilyn Manson, exímio em animar os demónios e torturar as almas penadas.

Vangelis. Heaven and Hell. 1975. Excerto.
Marilyn Manson. mOBSCENE. The Golden Age of Grotesque. 2003.

Os condenados da terra

Starvation in Africa. httpswww.religiousforums.comthreadsafrica-as-americans-are-getting-fatter.207830

Starvation in Africa. httpswww.religiousforums.comthreadsafrica-as-americans-are-getting-fatter.207830

“Não faz muito tempo a terra tinha dois biliões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e um bilião e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros pediam-no emprestado” (Jean-Paul Sartre, Prefácio, Franz Fanon, Os Condenados da Terra, 1961).

Quando não se vive e não se está morto, recorda-se.

Existe um anúncio que me marcou profundamente e não consigo encontrar: da Unicef, sobre a fome em África e com a música Twelve o’clock do Vangelis (Heaven and Hell, 1975). Tornou-se uma obsessão. Passava, há mais de 30 anos, na televisão francesa na hora de jantar. O apetite encolhia-se perante o cortejo de imagens de desnutrição extrema acompanhado por um lamento do outro mundo.

Não sei se encontrei o anúncio, mas nunca estive tão perto. A memória audiovisual é vaga, muito vaga. O anúncio Don, da Unicef, corresponde na música e em algumas imagens, mas data de 1985. Regressei de França em 1982. Talvez seja uma sequência ou talvez o tenha visto numa das então muitas viagens a França.

O vídeo Africa Hunger aproxima-se bastante do dito anúncio. Tem imagens terríveis de desnutrição e música do Vangelis, embora diferente e mais recente: Rachel’s song (Blade Runner, 1994). Nem sequer é um anúncio, a não ser o da nossa irresponsabilidade. Para Paul Virilio, a realidade acelerou a uma velocidade nunca vista, mas nem tudo acelerou, há realidades que mudam demasiado devagar.

Anunciante: Unicef. Título: Don. Agência: Opus. França, 1985. Música Twelve o’clock, Heaven and Hell, 1975.

MarK Van Doich. Africa Hunger. 2009. Música: Vangelis. Rachel’s song. Album: Blade Runner. 1994.

Extremos

Vangelis in 1974

Vangelis em 1974

Uma centelha basta para aquecer o dia! Ouvir, por exemplo, a música Ask the mountains, do Vangelis (Voices, 1995). Engana a melancolia.Valoriza o anúncio Underwater World, da Ariston Aqualtis (2006) e desafia as montanhas no vídeo homónimo. É um sonho erguer o olhar e não tropeçar com burocratas, confrades e marialvas… Nem com o Zé Povinho a empurrar a encosta. Soltemos o olhar!

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater world. Agência: Buf Film Master. Direcção: Dario Piana. Itália, Março 2006.

Sofrimento

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“Mas as crianças Senhor / Porque lhes dais tanta dor?!” (Augusto Gil. Balada da Neve. 1909).

O anúncio Violence marks forever, da UNICEF, foi publicado no dia 5 de Dezembro. No mesmo dia, à noite, foi exibido integralmente no noticiário da SIC. É raro os noticiários passarem anúncios. Será por causa da instituição, a UNICEF? De David Beckham, embaixador de boa vontade da ONU? Do tema, a violência contra as crianças? Do modo, imagens animadas “tatuadas” na pele? Provavelmente, o conjunto. Nesta quadra de generosidade natalícia, a UNICEF cativa-nos com altíssima publicidade. Mas não é completamente original. Desconfio que a originalidade é veneno e a repetição néctar.

Os NoBrain criaram, em 2009, um vídeo, também para a ONU, intitulado Huit (os oito objectivos adoptados pelas Nações Unidas para o desenvolvimento mundial). As imagens são “projectadas” em corpos não identificados. Mas o efeito é semelhante. A pele é o suporte das imagens. A pele é sensibilidade e memória. O fascínio actual pelas tatuagens não desmente esta vocação da pele. “A violência fica marcada para sempre”.

Estes dois anúncios lembram um terceiro, com mais de trinta anos, também da UNICEF: imagens de crianças vítimas da fome acompanhadas pela música Twelve O’clock (1975), do Vangelis. Ainda não encontrei o anúncio. Um português, Luís Moreira, de Setúbal, produziu um vídeo que conjuga esta música do Vangelis com excertos do filme Jesus de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977). O resultado é interessante (ultrapassou dois milhões de visualizações).

Anunciante: unicef. Título: Violence marks forever. Agência: Blind Pig. Direcção: Jonas McQuiggim. Reino Unido, Dezembro de 2016.

Título: 8. Director: NoBrain. Produção: LDM Production. Pós-produção: Mac Guff Ligne. França, 2009.

Vangelis. 12 o’clock. Heaven and Hell. 1975. Vídeo produzido por Luís Moreira, com excertos do filme Jesús de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977).

Mais humano do que o humano

Há filmes que nos abalam os assentos: Laranja Mecânica, O Tambor, Blade Runner… As máquinas podem humanizar-se? Tenho muitas dúvidas. Os homens podem desumanizar-se? Tenho poucas dúvidas. Pareço um alambique a destilar trabalhos: gota a gota. Este, dedicado ao filme Blade Runner, é uma colheita bem refinada da disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura. Para aceder, clicar na imagem ou neste endereço http://comartecultura.wordpress.com/?s=blade+runner.