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Nenúfares

Woodstock. 1969.

Dedilhei os cds da última gaveta. Passei pelo Bob Marley e comentei: “O reggae é que foi um apagão! É difícil encontrar memória mais esquecida”. Respondem-me: “Mudaram as drogas. Agora são ácidos”. Fiquei a ruminar. A imagem veiculada pelo Woodstock (1969) foi a de uma descontração desvelada. Até os nus que deslizavam na água pareciam nenúfares. O mesmo no festival da ilha de Wight, em 1970. A imagem de Bob Marley respirava paz e amor (ver vídeo 2). A tendência era apolínea (Friedrich Nietzsche, O nascimento da tragédia, 1872; Ruth Benedict, Padrões de cultura, 1934). A aura dos festivais atuais parece mais dionisíaca. O meu rapaz envia-me um vídeo ilustrativo com a nova versão do Gollum numa tribo efervescente a chapinhar em trajes mínimos (vídeo 1).

Fernando e Albertino

“Gollum na Woodstocku 2014”
Bob Marley & The Wailers. One Love. Exodus. 1977.

A estética do surf

Surf Blue Moon

O teaser View From A Blue Moon, de John Florence & Blake Vincent Kueny, é uma preciosidade estética: um hino ao surf. Filmadas em locais como Nova Zelândia, Brasil ou Hawaii, as imagens são fantásticas, pautadas por detalhes cirúrgicos: o carro que levanta voo numa lomba; a velocidade dos tubarões; a visão inesperada das favelas; a barreira masculina sob a água; o corvo marinho (?) na cabeça do surfista… Mas o pormenor digno de maior menção afigura-se-me radicar na citação do som do clássico Good Things Come To Those Who Wait, da Guinness (1999).

Título: View From A Blue Moon. Agência: ArtOfficial Agency CPH. Direcção: John Florence & Blake Vincent Kueny. Produção: Brain Farm. Efeitos sonoros: Martin Dirkov. Suécia, 2015.

 

Mercúrios

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Fotografia de Jules Michelet por Félix Nadar.

Jules Michelet, por Félix Nadar.

Nós, independentemente do que tenhamos perdido, pedíamos algo mais do que lágrimas à solidão, algo mais do que o bálsamo que adoça os corações magoados. Procurávamos um tónico para caminhar sempre em frente, uma gota das nascentes inesgotáveis, uma força nova, e asas.
(Jules Michelet, L’Oiseau, 1ª ed. 1856, Paris, Librairie Hachette e Cie, 1908, p. 5).

Neste anúncio da ASICS, It’s a big world. Go run it, bandos de mercúrios rasteiros correm com asas nos pés.

Marca: ASICS. Título: It’s a big world. Go run it. Agência: 180 Amsterdam. Direcção: Chris Sargent. Holanda, Fevereiro 2015.

Aproximar

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O excesso de álcool é amigo do sono. O “artista”, consumidor moderado, pinta os corpos dos amigos adormecidos. As pinturas, graffiti sobre pele, adaptam-se ao corpo com humor. O anúncio Be the artist, not the canvas, da Steinlager, aborda, assim, com boa disposição, um comportamento socialmente indesejado: o alcoolismo. Não precisa de indispor a tela, nem o artista, nem o público. As pinturas não estigmatizam, convocam e tribalizam. Aqui, o lúdico dispensa diabolizações e maniqueísmos. Quem bebe em excesso é envolvido numa homeopatia sem catarse, que chama sem afastar e convence sem anular. Uma opção rara na publicidade de consciencialização. Curiosamente, este é um anúncio a uma marca de cerveja. Leão de Ouro em Cannes!

Marca: Steinlager. Título: Be the artist, not the canvas. Agência: DDB New Zealand. Direcção: Pippa Lekner. Austrália, Outubro 2013.

“Light my Fire”

Anúncio Ride, da “Burn” (Coca Cola), com comentário de Carlos Nascimento:

Marca: The Coca-Cola Company, Burn. Título: Ride. Agência: PUBLICIS MOJO Sydney. Direção: Garth Davis. Austrália, Junho 2011.

“Se Maffesoli precisasse de um exemplo audiovisual para exemplificar as tribus, de que fala, bem como de todo o universo que estas implicam, este filme quase bastaria. O filme começa num espaço anónimo, enterrado, ignorado. Uma voz off, humaniza-o, lançando um desejo: “I have this crazy fantasy on my head… Energy trapped inside my body. The energy commes out. We can do whatever we want”. Enquanto se formula esse desejo, vai surgindo um grupo em movimento. Nenhum em particular é dono daquela voz, daquela ideia interior. Não é um líder que comanda o grupo. Não há dialogo sequer. Aquele pensamento podia ser exteriorizado por qualquer um e não foi por ninguém. O laço entre o grupo é tão forte que nem precisa de diálogo. Cada um pensa por si e sabe que os outros também pensando por si, pensam a mesma coisa que o outro. Não há ligação mais forte do que aquela que não precisa de sinais nem de rituais. Neste grupo de skaters, mais do que ligação é pura conexão. A seguir, é tempo de deixar a energia sair. Sai-lhes do corpo de uma forma sobrenatural, mas, nem por isso, lhes confere poderes assim. O corpo a arder é apenas uma identificação exterior do que os une interiormente. Um sentido que dá prazer maior ao prazer simples que os reúne, o skating. Volte-se ao “we can do whatever we want”. Neste filme esta afirmação tem tudo de sensível e nada de físico. É uma possibilidade que, mais do que implir à acção e à transformação, leva à transcendência. O espaço urbano é um recreio depois da noite cair. Os rastos de fogo na noite têm tanto de belo como de trágico. A música, cujo ritmo impele, também avisa: “Make your move now and try to win the game, but in the end always stays the same.” Nada podia ser mais inconsequente e sem desígnio. O raiar do dia chega e, com ele a normalidade, a dos outros, não a daquele grupo, que mantém presente, e à parte, o seu próprio sonho. “You have to keep that dream alive in your mind.” Só quem é assim é que se vê assim” (O Lugar da Estética na Publicidade Actual, Projecto de Investigação para Candidatura a Doutoramento em Ciências da Comunicação, Universidade do Minho, 2012).

A Tribo da Baleia

Portugal produz boa publicidade. Alguma, por sinal, pouco vista no País. Quem se lembra deste anúncio da Optimus em que um grupo de telemobilizados bem parecidos salva uma baleia? Bem parecidos e disponíveis, porque não é qualquer pessoa que pode largar, de repente, tudo o que está a fazer para ir empurrar um cetáceo. A ecologia e o (neo)tribalismo são traços da sociedade actual. Se acrescentarmos uma juventude fresca, livre e bem dotada, aproximamo-nos da fórmula de muitos anúncios nacionais.

Marca: Optimus. Título: Whale / Corrente. Agência: BBDO Portugal Agência de Publicidade / Krypton. Portugal, Agosto 2004.

Culinária desportiva

A culinária está na moda. Há quem diga que o tribalismo também. E o desporto, nem se fala! Misturando-os, temos estes biscoitos aguerridos.

Anunciante: Baking Industry Association of New Zealand. Título: Gingerbread Haka. Agência:  Blackwood Communications Group (Auckland). Direcção: Karl Butler. Nova Zelândia, 2007.