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Internet e Humor

A internet é um vector de humor. O riso espreita a cada janela, a pretexto de tudo, de todos e de qualquer jeito. Em contrapartida, afigura-se-me que rimos pouco da nossa relação com a internet. Trata-se de um terreno fértil que só pede sementes. Este anúncio brasileiro é um bom exemplo.

Anunciante: Claro. Título: Cineasta de Cachorro. Agência: Ogilvy & Mather, São Paulo. Brasil, Agosto 2013.

O assunto não é irrisório. Em 1999, segundo um inquérito do INE, um português médio ocupava o seu dia do seguinte modo:

– cuidados pessoais (sono, refeições e outros cuidados pessoais), 11:32;

– trabalho profissional e estudo, 4:38;

– trabalho doméstico e cuidados à família, 2:42;

– actividades cívicas e de voluntariado, 0:17;

– em trajectos que não os de e para o trabalho, 1:07.

Sobram 3:39 para o convívio (0:47) e para o lazer (2:52). Não surge qualquer referência à internet (pode aceder aos resultados deste inquérito em http://www.cite.gov.pt/asstscite/downloads/Usos%20do%20tempo_Portugal_1999.pdf).

Não encontrei inquéritos recentes do mesmo teor para Portugal. Em França, o INSEE realizou um inquérito homólogo em 2010 (pode-se aceder aos resultados em http://insee.fr/fr/themes/document.asp?reg_id=0&ref_id=ip1377#inter4). A contramão, é curioso reparar como os portugueses ocupam mais tempo do que os franceses com a actividade profissional (4:38 contra 3:15) e dispõem de menos tempo de lazer (2:52 contra 4:04). Se assim era outrora, como vai ser agora com os ajustamentos em curso relativos ao horário de trabalho e à idade da reforma?

Une journée moyenne en France - 2010

A internet e os videojogos surgem discriminados, no inquérito francês, no quadro do tempo de lazer: 33 minutos diários do francês médio (ver Figura 2). Uma vez que este “francês médio” é uma ficção estatística, interessa especificar os resultados por sexo e por idade (ver Figura 3). No tempo consagrado ao ecrã, a televisão continua a dominar, aumentando o seu peso com a idade. Outros ventos sopram do lado da juventude: entre os mais novos (15-24 anos), a internet ultrapassa claramente a televisão. Sublinhe-se, por último, que o tempo dedicado à internet tende a ser maior nos homens do que nas mulheres (42 contra 26 minutos), em todas as idades.

Temps passé devant un écran selon l´âge et le sexe (France, 2010)

Temps passé devant un écran selon l´âge et le sexe (INSEE, France, 2010)

O tempo consagrado à internet tende a aumentar. Entre 1999 e 2010, o tempo médio dedicado à internet duplicou: passou de 16 para 33 minutos. Começa a ser considerável. Pelo sim, pelo não, ganhamos em temperar este “passatempo” com boas doses de humor.

O Amor e o Tempo

John Lewis. The Other Half.A famosa linha do tempo é um tédio. Um tédio recto e infinito. Apetece dobrá-la, redobrá-la e dar-lhe um nó. Fazer, por exemplo, coincidir 1925 e 2012, e, sem introdução nem conclusão, contar uma história de amor intemporal. “As coisas realmente importantes não mudam”. Pois… Que as coisas realmente importantes, sobretudo as inefáveis, não mudem, é ideia que não agrada, nem estorva. Mas que os seres rotulados importantes não mudem, é algo molesto: que mudem e que se mudem! Nem a seta do tempo nem a dialéctica pararão por esse motivo.

Marca: John Lewis. Título: The Other Half. Agência: adam&eveDDB. Direção:  Ringan Ledwidge. Reino Unido, Setembro 2012.

Time no longer matters

Em “Como nunca ninguém viu: O olhar na publicidade” (in Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Ed, 2011, pp 139-165), abordei a questão da propensão para a distorção do tempo no mundo contemporâneo, convocando uma dúzia de anúncios publicitários como exemplo. O tempo abranda, acelera, para, concorre com outros tempos. O tempo é cada vez menos mágico e cada vez mais alvo de magia. O artigo fecha com a análise de um anúncio em que um homem controla a marcha do tempo e do mundo com um comando de televisão. Este anúncio, uma paródia clara do Senhor dos Anéis, inscreve-se nesta tendência, subjectiva mas também objectiva, de relação distorcida com o tempo.

O eterno e o infinito

Nem sempre se proporciona confrontar dois anúncios excelentes e recentes. A qualidade é rara e nem sempre comparável.

O anúncio da Nokia aposta no encadeamento de fragmentos. Cada fragmento, contanto breve, concentra informação que o público consegue identificar, apreciar e assimilar. Em cada fragmento, prevalece a ideia de performance, a marca do extraordinário e a sensação de vertigem. O ritmo é acelerado. Adivinham-se homologias entre os fragmentos, o que não os impede de permanecer únicos e distintos. A ponte, ilusória, é providenciada pela própria aceleração. A ligação só se concretiza no fim do anúncio: os fragmentos desencontrados convergem para as oito teclas do telemóvel.

Anunciante: Nokia. Título: The amazing everyday. Novembro 2011.

O anúncio da John Lewis é também composto por uma longa série de fragmentos. Mas a sua variação é contida pela repetição: sempre o mesmo miúdo com ansiedade expectante. Alteram-se, apenas, os cenários. O ritmo, ao sabor da música, é lento e compassado. O desfecho é discreto. Resume-se a um pequeno texto: “For gifts you can’t wait to give” e “John Lewis in store / online / mobile”. Tudo, neste anúncio, respira espera.

Anunciante: John Lewis. Título: The Long Wait. Agência: Adam & Eve. Direcção: Dougal Wilson. Novembro 2011.

Em The amazing everyday, assisti-se a uma cavalgada no piano. As notas atropelam-se numa sucessão de instantâneos que percorrem o teclado. Em The long wait, os dedos obstinam-se a percorrer as mesmas sequências, o que proporciona uma sensação de duração. A multiplicidade instantânea cede o passo à continuidade, a um ensimesmamento melódico. Este tipo de duração é, paradoxalmente, uma quase eternidade, uma eternidade que se presentifica. Em suma, a cadeia de estabelecimentos comerciais John Lewis está, aqui e agora, sempre connosco. No caso de The amazing everiday, o instante, a cavalgada de instantâneos rumo ao telemóvel, torna-se, graças às novas tecnologias, infinito, uma plataforma de possibilidades sem fim.

Agarra o segundo

Agarra o segundo. O tempo pode esperar. Uma curta-metragem realizada por Wim Wenders.

“Your challenge as a video artist is to “seize the moment”. Everyone – professionals, amateurs, cell-phone camera enthusiasts — is invited to capture a one-second long moving picture. The subject can be anything you consider as beautiful: a smile, a child’s face, a flower, a piece of the world around you, as long as the video lasts only one second.”

Anunciante: Montblanc. Título: The beauty of a second. Agência: Leo Burnett Milan. Direcção Wim Wenders. Novembro 2011.