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Marretas

Falsos profetas. Queen Mary Apocalypse. Pormenor. Inglaterra, c. 1300-1325 (British Library, Royal MS 19 B XV, fol. 30v).

Por hábito, não vejo televisão. Entretenho-me bem sozinho. Mas, por artes alheias, está quase sempre ligada. Visitam-me, assiduamente, os comentadores. Irritam-me os comentadores! Iludo-me de que não preciso de quem pense por mim. Eles conhecem, porém, o futuro. Eu, não! Conhecem, pelo menos, dois terços do futuro, reputando o terço restante negligenciável. Como cada comentador se devota ao seu próprio oráculo, somos abençoados com mais futuros do que coelhos. Não se querem ideólogos, virtude que, para mim, que não sou pós-moderno, resulta, no mínimo, suspeita. Contrabalançam a míngua de ideologia com a fartura de fulanização. Não são ideólogos mas são idólatras. Falam mal de tudo e de todos, mas escondem, com mais ou menos sucesso, os seus messias e as suas promessas de paraíso neste vale de lixo e lágrimas. Sofrem de alergias ostensivas e de afinidades discretas. No xadrez mediático e político, são cavalos, rocinantes, que investem contra reis, rainhas, torres e bispos. Trazem a verdade na barriga e a o cérebro à mão. Raramente se enganam, a não ser quando o deslize se manifesta óbvio. Dispenso, contudo, esta procissão do espírito santo, este frenesim cortesão, que jorra dos palácios de Versalhes de Lisboa e do Trianon do Porto até aos confins da nossa ignorância. Entra-nos pela janela eletrónica e teima, infelizmente, em não nos sair pela porta. Mas, com tamanha visibilidade e audiência, não podem ser senão um destino nacional. Possuem o seu próprio poder, são performativos: fazem cócegas com palavras a um povo que não se cansa de se coçar. Existe, inclusivamente, quem prefira os programas de comentários às telenovelas e aos desenhos animados.

Queen Mary Apocalypse. Inglaterra, c. 1300-1325 (British Library, Royal MS 19 B XV, fol. 30v).

Televisão

A televisão é excelente para fechar os olhos. Discursos repetitivos, parciais e alinhadas. A televisão é boa para fechar os olhos e ouvir a música. Detesto catequeses, televisivas ou outras. Sou um ingrato do maná digital. Prefiro um Mozart a um milhão de jornalistas, convidados e moderadores.

Wolfgang Amadeus Mozart. Piano Concerto No. 21 – Andante. 1785. Intérpretes: Sir Colin Davis; Alicia De Larrocha.

Rodrigo Leão. Ruínas. Theatrum. 1996.

A televisão

Mordillo

La télévision n’est pas le reflet de ceux qui la font, mais de ceux qui la regardent.
(Françoise Giroud).

A televisão é uma tempestade de críticas e apelos. Desde a testemunha ocasional até ao político consagrado. Pede-se, com egoísmo assumido, sem eufemismo. Pedir é uma tradição, reparadora da pessoa e dos laços sociais. O segredo é criticar mais do que melhorar. Corrigir o mundo à sua imagem. A televisão é uma ilusão enganadora? A televisão não captura nem engana, mostra!

Isabelle Mayereau. Coup de Gomme. Parcours. 2016.

A estetização dos alimentos

Still-life. Mosaic, Roman artwork, 2nd century CE. From a villa at Tor Marancia, near the Catacombs of Domitilla.

A culinária é uma arte efémera? Existe uma estetização dos alimentos? Isto condiz com a febre de partilha de fotografias de comida na Internet? A pintura de alimentos é antiga (ver imagem). Atesta-o a quantidade de quadros com naturezas mortas. Existem excelentes anúncios com comida. O anúncio Sushi, da Sony, destaca-se. Vale a pena espreitar!

Marca: #Sony #4k Real 4k demo Sony. Título: Sushi. 2019.

As estrelas do confinamento

Tchaikovsky

Proliferam os peritos de nada e os sábios de tudo. Um deslumbramento. O carnaval da ignorância certificada. A medida de tudo e a relevância de nada, os novos candelabros da razão. Tudo merece uma martelada da notícia. Sem hesitação. Abundam os convidados, os entrevistados e os comunicadores nos estúdios ou à distância. São centenas os génios e milhares as asneiras. Repetidas, cada uma se oferece mais certeira que a outra. Tanta gente sábia e experiente. Sabem tudo, sabem tudo e não deixam nada. Sabem, de qualquer modo, mais do que os responsáveis, os idiotas dos bastidores. Como diria Goscinny, parecem aspirantes a vizires no lugar do vizir. Ver televisão ultrapassa as expectativas do público. Emerge uma nova geração de jornalistas. Perguntam imediatamente ao entrevistada quais são os problemas de uma dada iniciativa. Os objetivos, os recursos, as estratégias e os resultados são dispensáveis. A reflexividade jornalística também se tem adaptado. Numa entrevista, o jornalista faz as perguntas e dá as respostas, o entrevistado resume-se a uma mera mediação ou pretexto. Zelo profissional? Assim como não me oponho à figura do sociólogo engajado, também não me oponho à figura do jornalista que toma posição. Dispenso, no entanto, a exposição ao espetáculo mediático.

A televisão apresenta-se como um templo da modernidade. Temos direito à reivindicação e ao protesto. A televisão assume-se como uma plataforma ou uma alavanca de desejos e vontades. Sem eufemismos! Um cidadão ou uma categoria social, presumivelmente injustiçados, recorrem à televisão. Parte substantiva da programação inclui este peditório com laivos de egoísmo. Existe um plano de vacinação? Melhor não existisse. Nós devíamos ser os primeiros. Nós somos os prioritários. O egoísmo anda à solta. Não chegam os dedos das mãos para contar as categorias socias que defenderam estas correções. Lembram as corporações renascentistas!

Perdi, nos últimos meses, alguma mobilidade. Vejo bastante televisão. Com alguma estranheza. O jornalismo sempre teve a tentação de contar as notícias. Esta propensão exacerbou-se com a pandemia. As telenovelas representam uma fatia importante da oferta televisiva. A própria informação também está a adotar o formato da telenovela.

Nestes dias de confinamento, quase sempre que vejo televisão, o assunto é a pandemia: hospitais, médicos, enfermeiros, ambulâncias, doentes, mortos, vacina, estatísticas, previsões, entrevistas, testemunhos… Um canal de televisão quase monopolizado pela epidemia revela-se um excesso. É muito ecrã pandémico para uma população confinada e fustigada pela epidemia. Pois a televisão quase só mostra pandemia. É muita pandemia! Sei que existem teóricos que sustentam que a melhor forma de tratar a fobia de uma pessoa é submete-la sistematicamente a condições dessa fobia. Não creio que seja o caso do novo coronavírus nem da epidemia em palavras e imagens.

O mais avisado é ouvir música. O Tendências do Imaginário não contempla nenhuma obra de Tchaikovsky. Seguem dois excertos: do Piano Concerto No 1 e do Lago dos Cisnes.

Piotr Ilyich Tchaikovsky. Piano Concerto No. 1 / Alexis Weissenberg, piano; Herbert von Karajan, conductor. Berliner Philharmoniker. Recorded at the Berlin Philharmonie, April 1967.
Piotr Ilyich Tchaikovsky. Swan Lake (Theme). Israel Philharmonic orchestra. Tel Aviv. 2001.

As moscas e os pescoços de borracha

Geoge Grosz. O Eclipse do Sol. 1926.

Em convalescença, rendo-me ao apelo da televisão. Uma massagem à cabeça! Afigura-se-me que embarco num país de moscas, moscas que zumbem, pousam e remexem nos “assuntos”. Somos um país de moscas? Quero acreditar que não. Por um lado, Portugal não cabe no ecrã. Há muito País para além do ecrã. Por outro lado, a minha medicação pode provocar alucinações. O ecrã das moscas é, provavelmente, um delírio pessoal. Acresce que a leitura dos media requer literacia. No que respeita à televisão, faltam-me as skills necessárias. Sou incompetente em moscas e em televisão. Os pescoços de borracha (rubberneckers) são moscas especializadas em mapear a informação. Seguem duas músicas: Rubberneckin’, de Elvis Presley; e Rubbernecker, de Murray Head. Duas relíquias. As cirurgias têm efeitos insólitos. Uns ficam doridos, outros combalidos, outros mimados, eu torno-me bilioso. Uma mosca execrável que não despega do ecrã. Dêem-me um desconto.

Elvis Presley – Rubberneckin’ – From “Change Of Habit” – 1969.
Murray Head. Rubbernecker. Between Us. 1979.

Memória reincidente

Jean-Michel Folon. Lily aime moi. 1975.

Há longos anos que o genérico de fecho de emissão da Antenne 2 me enternece. Com desenhos de Jean-Michel Folon (1934-2005) e música de Michel Colombier (1939-2004). Memória reincidente. Folhas soltas. Salpicos numa liquidez pasmada. Uma leveza de espírito que enfia a cabeça nas nuvens.

Uma obra-prima nunca está acabada. Inspira e inspira. Sucede com a música Emmanuel, de Michel Colombier. Gosto da versão de Toots Thielemans (1922-2016), um dos melhores tocadores de harmónica de boca do século XX.

Sessenta e um anos deste mundo. O triplo da idade em que me encantei com o genérico da Antenne 2. Agradeço a amizade. Um dia havemos de voar juntos como os homenzinhos de Folon.

Genérico da Antenne 2. Desenhos de Jean-Michel Folon e Música (Emmanuel) de Michel Colombier. França, anos setenta.
Emmanuel. Música de Michel Colombier (Wings, 1971). Versão de Toots Thielemans. Colombier Dreams, 2002.

Água do deserto

Sony Bravia. Desert Water. 2019

Os anúncios da Sony são extraordinários. Efeitos visuais fabulosos e uma estética fantástica. No anúncio Desert Water, o som é vedeta. Sai, incluindo a voz de Grace VanderWaal, do próprio ecrã. Uma gota de água avoluma-se, através de um dominó de monitores, até se despenhar numa cascata. O som, portentoso, é imersivo. Tão real como o real!

Da série de anúncios a televisores da Sony, o meu preferido é o Balls, de 2005 (ver https://tendimag.com/2013/11/05/erupcao-de-cores/). Recordo, não obstante, o Strangely Beautiful / Ice bubbles, de 2014.

We soon see the beginning of life, as a single drop of water emerges into the scene through a BRAVIA AG9 TV. The drop turns into a river as the music grows to match its intensity and strength. As the spot leads us through an ever-emotive experience, we witness the river becoming a beautiful waterfall, a climatic finish that lets the viewer be immersed in sound and vision (Innocean).

Marca: Sony. Título: Desert water. Agência: Innocean. Reino Unido, Maio 2019.
Marca: Sony. Título: Strangely Beautiful / Ice Bubbles. Agência: Adam&Eve BBD (London). Direcção: Leila & damien de Blinkk. Reino Unido, 2014.

O empoderamento do público

France 3

Se bem me lembro, houve telenovelas cujo final era escolhido pelos telespectadores. Agora, graças às novas tecnologias, pode-se acertar, quase em tempo real e sem sair do lugar, no assassino de um thriller.

O canal de televisão France 3 propõe um jogo sentado com assistência electrónica. Parafraseando uma campanha publicitária da Citroen, “nem imaginamos o que a France 3 pode fazer por nós”. Assistimos ao “empoderamento” do público com espinafres digitais. A televisão tem a arte de fazer do espectador um actor, com telecomando em riste. Detectives caseiros passam a rivalizar em inteligência com o Sherlock Holmes (Arthur Conan Doyle), o Hercule Poirot (Agatha Christie) e o Nero Wolfe (Rex Stout). Parafraseando René Descartes (Discurso sobre o Método, 1637), as “celulazinhas cinzentas” são a coisa mais bem distribuída do mundo.

Marca: France 3 + Winamax. Título: La Forêt. Agência: Publicis Conseil. França, Novembro 2017.

A informação e a felicidade

Oreo

Publiquei o anúncio Biblioteca, da Oreo, no facebook, em 2011. Retomo-o. É uma delícia. Trata da felicidade com que tantas vezes nos desencontramos. Ando com um pensamento a estorvar-me a cabeça: onde pára a felicidade na televisão, designadamente na informação? Nos anos sessenta chamava-se à televisão a “caixa mágica”, encarada como uma adição da sociedade do consumo e da imagem. Da sociedade do consumo e da imagem, ainda não saímos. E a felicidade na informação televisiva continua rara. Parece ser mais natural gerar medo, insegurança e tristeza do que inspirar confiança, esperança e felicidade. Há atracção pela aflição? Compensa dramatizar o drama e exacerbar a tragédia? Palpita-me que a felicidade não mora na informação televisiva. E o golo? E a canção? E o senhor euromilhões? E os festivais? E a saída do lixo? São alegrias, emoções passageiras. A felicidade é um sentimento. Na “caixa mágica” até as alegrias tendem a definhar como uma realidade enrugada passada a ferro de engomar. Não é fácil contribuir para a felicidade alheia. Tão pouco para a própria. Importa a interacção e o calor humano. Conheci a Felicidade; era uma excelente pessoa; morreu há muito tempo.

Marca: Oreo. Título: biblioteca. Agência: Draftfcb Argentina. Director: Martín Hodara. Argentina, 2010.