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Nas nuvens

Quase todos os anos escrevo um artigo a agradecer os votos de bom aniversário. Hoje, com a ida a Melgaço, não sobrou tempo. Não faz mal: aumentam os anos e diminuem os artigos e a estatura. Mas continua a vontade de voar e de comunicar. E de sonhar, também. A amizade ajuda. Recoloco, tardiamente, dois artigos que convocam este espírito: “Memória reincidente” (2020) e “Novidade e originalidade” (2017).

Contra infestação

Cautela! Os intrujões andam imparáveis. A pretexto do nosso bem! Não apenas na Internet. Só vejo televisão quando a “atualidade” se presta: “cimeira decisiva”, “guerra aos incêndios”… Importunam-ne os comentadores residentes omniscientes ou os painéis que descambam em propaganda. Semelhantes intrometidos, estranhos ou conhecidos, são mais difíceis de identificar do que os vírus” bloqueados pela Telstra.

George Grosz, O Agitador. 1928

A nova campanha da Telstra, “Blocking Villains”, apresenta (…) um imperador intergaláctico que tenta aplicar golpes nos australianos, mas seus planos são frustrados pela segurança da rede da Telstra. A campanha (…) visa destacar os esforços da Telstra para bloquear ameaças cibernéticas e proteger os clientes de golpes. (…) A campanha utiliza a narrativa de uma invasão alienígena por meio de crimes cibernéticos para demonstrar a capacidade da rede da Telstra de bloquear golpes. (IA)

Marca: Telstra: Título: Blocking Villains – Scamageddon 90s. Agência: Bear Meets Eagle On Fire with +61. Direção: Randy Krallman. Austrália, agosto 2025
Marca: Telstra: Título: Blocking Villains – Scamalanche 15s. Agência: Bear Meets Eagle On Fire with +61. Direção: Randy Krallman. Austrália, agosto 2025

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Marca: Telstra: Título: Blocking Villains – Deceiver Lever 30s. Agência: Bear Meets Eagle On Fire with +61. Direção: Randy Krallman. Austrália, agosto 2025

Dança animal na publicidade 3. Girinos

Um bailado com girinos! Por que não? Em criança, como o menino do vídeo, também pasmava a observar o movimento gracioso dos ” cabeçudos” nas águas mais paradas do rego perto de casa. Vale a pena esperar 25 segundos pela espantosa coreografia coletiva que culmina o anúncio “Tadpoles”, da Freeview. A canção You Really Got Me, dos The Kinks, estreou em 1964.

Marca: Freeview. Título: Tadpoles. Agência: Leo Burnett (London). Direção: Ne-O. UK, 2013

Mergulhar na irrealidade: a banheira e o chuveiro (revisto)

O toque de Midas dos novos media visa o mergulho experiencial noutros mundos, mais ou menos irreais, estampados eventualessmente em ecrãs. Entre as novas “varinhas mágicas” constam a realidade virtual, as exposições imersivas, como a Living Van Gogh na Alfândega do Porto (2023), e os videojogos FPS (First Person Shooter) como o Half Life (1998). Somos convidados a participar em universos audiovisuais ou multissensoriais (com alterações e estímulos olfativos, táteis, térmicos), de um modo estático (sentados face a um ecrã fixo) ou dinâmico, como nos simuladores do Pavilhão da Realidade Virtual durante a Expo 98, porventura em interação, com o crescente e cada vez mais sofisticado auxílio de interfaces, luvas digitais, óculos estereoscópicos e capacetes de imersão. Em todos os casos, aventuramo-nos a sentir, experienciar, como reais situações ou ações irreais.

O mergulho na irrealidade pode processar-se segundo dois movimentos aparentemente inversos: a projeção e o envolvimento. Por um lado, sintonizamo-nos ou identificamo-nos com elementos do universo proposto: pessoas, humanóides, animais, animações ou objetos. Quanto maior for a semelhança mais fácil a identificação? Nem sempre. O contraste pode favorecer a “simpatia”. Atente-se em figuras como o E.T., o Shrek ou o WALL-E. Por outro lado, o universo proposto interpela-nos, cativa-nos e envolve-nos. No primeiro caso, na projeção, ocorre um efeito banheira; no segundo, no envolvimento, um efeito chuveiro. Frequentemente, projeção e absorção conjugam-se num reforço mútuo (o anúncio Cowboy, da Solo Soda, ilustra este entrelaçamento).

Marca: Solo Soda. Título: Cowboy. Agência: DMB&B. Direção: Les Roenberg. Noruega, 1999

Vem este resumo a propósito da campanha publicitária inaugurada esta semana  pela empresa da Singapura Prism+. No primeiro anúncio, As close as you can get to the concert, mais próximo do “efeito chuveiro”, uma velhinha é arrebatada por uma estrela rock (releve-se o contraste entre as duas personagens); no segundo, As close as you can get to the cooking, mais próximo do “efeito banheira”, um telespetador identifica-se com um perú em vias de ser cozinhado; por último, no terceiro, As close as you can get to the drama, o mais próximo da interação, do duplo efeito de projeção e envolvimento, um casal participa como vítima numa cena de tortura. Ousadia e criatividade a desafiar os limites!

Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the concert. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023
Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the cooking. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023
Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the drama. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023

Espantalhos

Max Ernst. Birds also Birds, Fish, Snake and Scarecrow. c. 1921

Quase não vejo televisão. Ligo-a sempre num “canal de notícias”. Não tarda alguém a misturar notícia e opinião com ares de não saber o que diz. Às vezes, até duvido da boa fé. Por exemplo, ainda ontem um telejornal apresentou de uma forma deveras insólita, parcial e perversa os resultados do concurso para médicos de medicina geral e familiar. Talvez a informação e a urgência excedam as disponibilidades de jornalistas. Alérgico a influenciadores intrusivos, desligo o televisor, razão por que, não mudando, religo fatalmente um canal de notícias. Prefiro ler alguém que não pretende pensar por mim mas fazer-me pensar. Por exemplo, o Eduardo Lourenço:

“Um pensador não é um homem que pensa, mas sim um homem que faz pensar. Um criador não é um homem que sonha, mas um homem que faz sonhar. Ser grande pensador ou grande criador é fazer pensar e sonhar uma inumerável sucessão de homens e de tempos. Esta condição original dos pensadores e dos poetas explica o mistério aparente do triunfo histórico das obras obscuras, das sinfonias incompletas, das estátuas partidas. Toda a grande obra é obscura e incompleta e essa obscuridade e imperfeição são a sombra necessária à visão do sol contínuo que lhes constitui o cerne.” (“A arte ou as estátuas partidas”, Agosto de 1954, Da Pintura. Lisboa: Gradiva, 2017, pp. 120-121).

Segue a canção “Paranoimia” dos Art of Noise. “Paranoimia” resulta da junção de “paranoia” e “insónia”: estar com medo e incapaz de dormir. Há quem ande a semear “paranoimia”, insegurança e desassossego, talvez para colher avatares do Big Brother e admiráveis mundos novos.

The Art of Noise. Paranoimia. In Visible Silence. 1986. Com Max Headroom, Paranoimia, 2017
Queen. Radio Ga Ga. Bohemian Rhapsody. 1984
Roger Waters. Amused to Death. Amused to Death. 1992

Aflição fascinante

Nem sempre se recorre à doçura para cativar o guloso. Por vezes, o isco consiste no inverso: na acidez. É o caso dos anúncios It’s Free. But it Could Cost You/Wooing Jeff e Scary Fast. O primeiro denuncia o cúmulo, o extremo, da inconveniência associado à absorção alienante provocada pela exposição, quase hipnótica, ao canal de televisão TVZN. O segundo, uma paródia de um thriller de terror, introduz o potente e heroico todo-terreno Ford Raptor R que escapa ileso a uma série de ameaças e perigos diabólicos. Ambos aos anúncios resultam imediata e assumidamente desagradáveis. Esta opção não é novidade. Com receitas e doses apropriadas, a adversidade e a perversidade podem compensar.

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Marca: TVZN+. Título: It’s Free. But it Could Cost You/Wooing Jeff. Agência: Dentsu Creative ANZ (Aotearoa). Direção: Damien Shatford. Nova Zelândia, junho 2022.
Marca: Ford Raptor R. Título: Scary Fast. Agência: Wieden+Kennedy New York. Direção: Lauren Sick. Estados-Unidos, julho 2022.

Marretas

Falsos profetas. Queen Mary Apocalypse. Pormenor. Inglaterra, c. 1300-1325 (British Library, Royal MS 19 B XV, fol. 30v).

Por hábito, não vejo televisão. Entretenho-me bem sozinho. Mas, por artes alheias, está quase sempre ligada. Visitam-me, assiduamente, os comentadores. Irritam-me os comentadores! Iludo-me de que não preciso de quem pense por mim. Eles conhecem, porém, o futuro. Eu, não! Conhecem, pelo menos, dois terços do futuro, reputando o terço restante negligenciável. Como cada comentador se devota ao seu próprio oráculo, somos abençoados com mais futuros do que coelhos. Não se querem ideólogos, virtude que, para mim, que não sou pós-moderno, resulta, no mínimo, suspeita. Contrabalançam a míngua de ideologia com a fartura de fulanização. Não são ideólogos mas são idólatras. Falam mal de tudo e de todos, mas escondem, com mais ou menos sucesso, os seus messias e as suas promessas de paraíso neste vale de lixo e lágrimas. Sofrem de alergias ostensivas e de afinidades discretas. No xadrez mediático e político, são cavalos, rocinantes, que investem contra reis, rainhas, torres e bispos. Trazem a verdade na barriga e a o cérebro à mão. Raramente se enganam, a não ser quando o deslize se manifesta óbvio. Dispenso, contudo, esta procissão do espírito santo, este frenesim cortesão, que jorra dos palácios de Versalhes de Lisboa e do Trianon do Porto até aos confins da nossa ignorância. Entra-nos pela janela eletrónica e teima, infelizmente, em não nos sair pela porta. Mas, com tamanha visibilidade e audiência, não podem ser senão um destino nacional. Possuem o seu próprio poder, são performativos: fazem cócegas com palavras a um povo que não se cansa de se coçar. Existe, inclusivamente, quem prefira os programas de comentários às telenovelas e aos desenhos animados.

Queen Mary Apocalypse. Inglaterra, c. 1300-1325 (British Library, Royal MS 19 B XV, fol. 30v).

Televisão

A televisão é excelente para fechar os olhos. Discursos repetitivos, parciais e alinhadas. A televisão é boa para fechar os olhos e ouvir a música. Detesto catequeses, televisivas ou outras. Sou um ingrato do maná digital. Prefiro um Mozart a um milhão de jornalistas, convidados e moderadores.

Wolfgang Amadeus Mozart. Piano Concerto No. 21 – Andante. 1785. Intérpretes: Sir Colin Davis; Alicia De Larrocha.

Rodrigo Leão. Ruínas. Theatrum. 1996.

A televisão

Mordillo

La télévision n’est pas le reflet de ceux qui la font, mais de ceux qui la regardent.
(Françoise Giroud).

A televisão é uma tempestade de críticas e apelos. Desde a testemunha ocasional até ao político consagrado. Pede-se, com egoísmo assumido, sem eufemismo. Pedir é uma tradição, reparadora da pessoa e dos laços sociais. O segredo é criticar mais do que melhorar. Corrigir o mundo à sua imagem. A televisão é uma ilusão enganadora? A televisão não captura nem engana, mostra!

Isabelle Mayereau. Coup de Gomme. Parcours. 2016.

A estetização dos alimentos

Still-life. Mosaic, Roman artwork, 2nd century CE. From a villa at Tor Marancia, near the Catacombs of Domitilla.

A culinária é uma arte efémera? Existe uma estetização dos alimentos? Isto condiz com a febre de partilha de fotografias de comida na Internet? A pintura de alimentos é antiga (ver imagem). Atesta-o a quantidade de quadros com naturezas mortas. Existem excelentes anúncios com comida. O anúncio Sushi, da Sony, destaca-se. Vale a pena espreitar!

Marca: #Sony #4k Real 4k demo Sony. Título: Sushi. 2019.