No momento preciso em que as notas de dez e vinte euros caíam nas minhas mãos, tive a sensação física de que a tecnocracia de Bruxelas tomava o poder, e que o simples gesto de pegar nessas notas assinava o meu consentimento (Alain-Gérard Slama, Chroniques des peurs ordinaires : Journal de l’année 2002, 2003).
Um último apontamento sobre o “ideal tipo” de tecnocracia, assunto que, por sinal, pouco me entusiasma.
A ação tecnocrata preza, por princípio, o consenso entre os decisores. Importa que os objetivos e os métodos sejam incontroversos. A ausência de consenso interno insinua-se como uma pedra na engrenagem. Por isso os tecnocratas dispensam tanto tempo, energia e recursos em negociações preparatórias de “decisões conjuntas”. Não é descabido conjeturar que a dificuldade em alcançar consensos justifica a dualidade e a inconsistência das políticas tecnocráticas.
Extremam-se, por exemplo, as medidas para salvar o próximo do consumo do tabaco ativo ou passivo. Este empenho esmorece, porém, quando estão em causa outros vícios e dependências, não menos adversos à “saúde” individual e coletiva, tais como a droga, o álcool ou o jogo. É desconcertante este desconcerto!
Manuel Freire. Pequenos Deuses Caseiros. EP Abaixo D. Quixote. 1973
O último artigo do Tendências do Imaginário, “Convencer ou obrigar”, denso e elíptico, oferece-se como um fragmento, logo ferido de incompletude. Pode, assim, suscitar, alguma curiosidade. Pergunta uma amiga:
Concordo plenamente com a tua publicação ” convencer ou obrigar “. Mas fiquei curiosa, ao ver surgir esse desabafo, sem específico desenvolvimento.
Algum gatilho em particular que despoletou essa revolta?
A resposta será sucinta mas clara.
Entendo-me submetido ao exemplo mais extremo de tecnocracia com propensão autocrática de que tenho conhecimento na história da humanidade. Refiro-me ao Conselho Europeu. Traça objetivos com metas absolutas e distantes, por vezes com décadas de antecipação, e desdobra-se em normas e diretrizes, por seu turno reproduzidas e implementadas, porventura com excesso de zelo, por cada governo nacional.
René Magritte. O Presente. 1938
Independentemente do contexto europeu, Portugal é pródigo em exemplos específicos. Creio ser o caso do recente pacote “Mais Habitação”. O problema é remoto, notório e grave. Entretanto, pouco ou nada se fez, promoveu, sensibilizou, motivou ou incentivou. De um momento para o outro, obriga-se e proíbe-se! Restaura ou arrenda o imóvel ou alguém se encarregará, segundo o projeto de lei, de o fazer por ti; por outro lado, se o imóvel se situa nesta ou naquela localidade, segundo o mapa aprovado, assim será ou não permitido investir em alojamento local. Institui-se, deste modo, uma desigualdade entre os cidadãos com base no território.
O gatilho, confesso, é a fuga para frente da cruzada antitabaco. A antiguidade, a sistematicidade e a brutalidade das campanhas adotadas, algumas lesivas dos direitos dos cidadãos consignados na Constituição da República, não têm sido contempladas com resultados expressivos. Para que se inaugure em 2040 “uma geração livre de tabaco”, não se vislumbra alternativa à obstinação em obrigar e proibir: só fumarás e comprarás, alimentarás o vício, em espaços cada vez mais reduzidos, até te sentires como pareces ser concebido: uma aberração e um pária nocivo, circunstancialmente tolerado por lei e vergonhosamente lucrativo em matéria de impostos.
Esta “explicação” configura uma exceção. Continuarei a ser esfíngico na escrita e a apostar na interpretação alheia.
Isabelle Mayereau. Crocodiles. Déconfiture. 1979
Isabelle Mayereau. Bureau. Déconfiture. 1979
Crocodiles (Isabelle Mayereau)
Vous qui refaites le monde avec des gants de boxe Qui n’avez qu’une idée être premiers au box Office des PDG Vous écrasez les gens, vous marchez sur leur tête Vous y cognez dedans, un peu comme à la fête Décidés Et vous grimpez l’échelle des coefficients Agendas de croco, Mercedes six-cent Six-cent Six-cent Vous qui manipulez les gens comme des mounaques Qui en faites du mou à chat par kilos et en vrac Dégueulasse Vous glissez dans l’ velours de ces bureaux foncés Aux senteurs de havane légèrement sucrées Efficaces Et vous prenez le pas de tous ces géants Qui ont fait l’Amérique d’un seul coup de dents De dents De dents Et vous écrasez tout pour un seul bout de fric Vos mots, c’est pas des mots mais c’est des coups de trique Mais hélas Vous ne pourrez jamais pénétrer dans ma tête Y fourrer vos doigts sales en forme de chronomètres Carapace Et vous prenez le pas de tous ces volcans Qui ont vomi leur âme, c’était noir dedans Dedans Dedans Vous qui refaites le monde avec des gants de boxe Qui n’avez qu’une idée être premiers au box Office des PDG Vous écrasez les gens, vous marchez sur leur tête Vous y cognez dedans, un peu comme à la fête Décidés Vous nagez dans des eaux mais ce n’est pas le Nil On vous appelle parfois, parfois les crocodiles Codiles Crocodiles
A tecnocracia aspira a racionalizar, senão otimizar, através da ciência e da técnica, a relação entre, por um lado, os recursos e os meios disponíveis e, por outro, os fins assumidos. Pode obter algum sucesso quando estes são materiais. Tende, porém, a encalhar quando são iminentemente pessoais e sociais, quando não é apenas questão de mobilizar recursos e valores “objetivos” mas convicções e vontades. Confrontados com esta dificuldade, os tecnocratas democratas tendem a transformar-se em tecnocratas autocratas. Convencidos, não convencem, obrigam.
Francisco Fanhais. Cantilena (poema de Sebastião da Gama). 1969