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Repetição

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Ao arrepio das águas de Heráclito, podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio. Acontece repetir-me, não no absoluto, mas no relativo em que vivo. Na verdade, mesmo quando me repito, inovo. Volvidos seis anos, repesco este anúncio, logo repito. Mas não o vejo com os mesmos olhos. Entretanto fiquei pitosga. O mundo e o anúncio perderam luz e contraste. Perderam brilho e tornaram-se mais macios. Para compensar, a qualidade do vídeo é superior. Em suma, repito-me sem me repetir. O comentário, por preguiça, permanece o mesmo:

“Os anúncios de festivais de filmes costumam ser bons. Este não destoa. Fragmentos, metal, carne, metamorfose… E uma excelente sincronia entre a música e a imagem. A música esculpe e a imagem dança”.

Anunciante: Bitfilm Festival Bitfilm Festival 2007 (Lotus Trailer). Agência: Sehsucht. Alemanha, Agosto 2007.

Técnica de sonho

Dois sonhos tecnicamente assistidos. O automóvel foge da sombra. A agência de viagens corre atrás do coelho. Álgebra de Boole e reciclagem de fadas. Muitos efeitos, pouca narrativa. Muita imagem e boa música. Os sonhos são pessoais. Quando me oferecem sonhos não sei onde os meter. Na arte? Na imaginação? Na criatividade? Na libertação? Talvez no bolso ou na estante.

Marca: Audi A5. Título: Pure Imagination. Produção: Nexus Studios. Direcção: GMUNK. Reino Unido, Janeiro 2017.

Marca: Tjäreborg. Título : Down the Rabit Hole. Agência: Cassius, Hensinki. Direcção: Pekka Hara. Finlância, Janeiro 2017.

Para além da luz

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A Samsung iniciou um serviço de apoio técnico ao domicílio na Índia. Iniciativa que justifica este anúncio. Publicado há duas semanas, com actores efectivamente cegos e quatro minutos de duração, já obteve perto de quarenta milhões de visualizações. Um anúncio para ver e sentir devagar.

Marca: Samsung. Título: We will take care of you, wherever you are. Agência: Cheil India. Índia, Dezembro 2016.

ABC da morte

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Há duas semanas, comecei um artigo que desejava publicar hoje, dia de rara comunhão dos vivos e dos mortos. O dito artigo ainda vai a meio. Opto, constrangido, por uma solução de recurso.

O vídeo ABC of Death presume-se ser um falso anúncio. Mas a Volvo autorizou a sua circulação. Apresenta uma série de mortes. O humor negro predomina. A morte é súbita, imprevista e, por vezes, ridícula. Mas não é essa a novidade! Digna de atenção é a seguinte mensagem: nos tempos que correm, os carros conduzem melhor do que os condutores. Ainda bem para os vivos!

Os realizadores do ABC of Death, Daniel Titz e Dorian Lebherz, dirigiram, em 2015, o anúncio Dear Brother, para a Johnnie Walker, um dos anúncios mais criativos e sublimes de que tenho memória. Retomo-o, sem hesitar.

Marca: “Volvo”. Título: ABC of Death. Produção: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Alemanha, Outubro 2016.

Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.

Guerras a brincar

Raul SolnadoEstamos mal de balas cá em Ranholas. Tanto que nas últimas manobras já tivemos que disparar com supositórios. Não, é que os supositórios além de não matar ainda curam por cima (Raul Solnado, Chamada para Washington, 1966).

No anúncio Trench, a guerra era, afinal, de faz de conta! E nós tão imersos a ouvir a morte nas trincheiras. A técnica ilude-nos, a nós, amadores de realidades técnicas.

Marca: Cinemex. Título: Trench. Agência: CDMX, Épica, Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia. México, Junho 2016.

De guerras a brincar ocupou-se Raul Solnado. Recorde-se A Guerra de 1908 (1962) e É do Inimigo (1963). Segue Chamada para Washington (1966).

Raul Solnado. Chamada para Washington. 1966.

Filhos da Revolução

Telenor

A descontinuidade da técnica na era da repetição cultural. Durante cinquenta anos, os rituais sucederam-se, apenas mudaram os objectos.

Marca: Telenor. Título: Telenor Mobile TV. Agência: Carbergs (Stockholm). Suécia, 2007.

Não resisto. Segue T. Rex, Children of Revolution. 1972.

T. Rex, Children of Revolution. 1972.

Sociologia sem palavras 22. A técnica como ideologia

António Silva

António Silva

A Eduarda enviou-me, da terra do Spirou, um anúncio português, de 1939, à Água Castello, com António Silva. Muito falado, em tempos da rádio, e ao estilo dos documentários para as salas de cinema. Uma figura pública, António Silva a antecipar, como embaixador da marca, George Clooney. A higiene da técnica e a técnica da qualidade. A ciência no seu apogeu ideológico. O anúncio abre e fecha como manda a arte. A Água Castello é única e inconfundível. É, também, pura, uma fonte de prazer, uma “delícia”. Em suma, um anúncio excelente.

Anúncio da Água Castello, de 1939, com António Silva. Portugal.

Pisar o risco

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A morte é central no imaginário grotesco. A gravidez e o nascimento, também. Multiplicam-se os anúncios que recorrem a estes temas. Umas vezes, aproximando-os, como no anúncio Champagne da XBOX (ver O parto na modernidade avançada ), outras, separando-os, como no anúncio Ultrasound, da Doritos, para o Superbowl. Gravidez e parto, sem morte, mas com gula. O apetite excessivo associado à gravidez; o apetite deslocado do pai; o apetite prodigioso de bebé, no ventre da mãe. Tudo possível graças às maravilhas mágicas da técnica. O anúncio mergulha-nos no âmago do grotesco: a gravidez, o nascimento, a gula, o corpo e a técnica. Faltam, por exemplo, a morte, a religião e o poder. Alguém anda a saltitar nos limiares da conveniência? Trata-se de uma obsessão do grotesco: pisar o risco.

Marca: Doritos. Título: Ultrasound. Direcção: Peter Carstairs. Austrália, 2016.

A técnica e a arte

Na era da aceleração técnica, o projecto tecnológico aproxima-se da obra de arte. Não porque a técnica se converta aos cânones da arte (não faz pinturas, esculturas ou instalações), mas porque a própria técnica se assume como arte, apostando na forma tanto quanto na função. O maneirismo que envolve nos anúncios os objectos técnicos é um sinal claro dessa tendência. Tendência que não se cinge à publicidade. Atente-se nos mistos de arquitectura e técnica que albergam museus, fundações e outras construções congéneres. A forma abraça a função. O edifício rivaliza com a colecção ou a exposição. É arte sobre arte. O público assim o entende, demandando os novos roteiros das maravilhas estéticas da técnica. Falar da técnica como arte é insensato e imprudente. É certo que o assunto se entrevê nas páginas do livro de Jürgen Habermas:  A Técnica e a Ciência como “Ideologia” (1968). O que não impede que Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Georg Lukacs ou Lucien Goldmann se indignem no paraíso. Paciência! Se Deus morreu, não é o intelectual que o vai substituir.

O anúncio italiano Mechatronic Harmonies, da Wittenstein, é um exemplo desta aspiração estética. Depurado, estilizado, a marca só no fim aparece discreta e fugidia. Lembra E.C. Escher, Wenzel Jamnitzer e outros gravuristas maneiristas dos séculos XVI e XVII. Estranho? Nem por isso. A inovação e o arcaísmo costumam encontrar-se nas dobras do destino.

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Wittenstein

Marca: Wittenstein. Título: Mechatronic Harmonies. Agência: Negrini & Varetto. Direcção: Luigi Pane. Itália, Janeiro 2016.

 

A técnica e a vida

Há anúncios cujos pormenores são cinzelados ao milímetro e ao segundo. O anúncio Experience Amazing, da Intel, é, de facto, uma experiência assombrosa. Uma cascata de imagens pontuada pela 5ª Sinfonia de Beethoven. Cada fragmento oferece-se como uma janela para um mundo assinado pela Intel: arte, música, dança, desporto, moda, videojogos, máquinas, aeronáutica, corpo, próteses, saúde, natureza, performances, ficção, computadores, multimédia, cinema, animação… A sequência final relativa ao vestido com borboletas é magnífica. Fragmento após fragmento, constrói-se o “impossível”. A utopia do diálogo entre a técnica e a vida. Com a Intel inside.

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Marca: Intel. Título: Experience Amazing. Agência: McGarryBowen New York. USA, Janeiro 2016.