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Querer com as velas levar o vento

Pablo Picasso. Seated Harlequin. 1901.

P. Picasso. Seated Harlequin. 1901.

Longe no tempo, o ancião, longe no espaço, o eremita, ambos vêem de longe o que já viram de perto. “Cansada já a velhice” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IV, oitava 90), sabem que é insensato “querer com as velas levar o vento” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IV, oitava 91), bem como é imprudente querer com a técnica levar o mundo. Aos olhos sentados, a técnica corre sempre adiantada em relação a nós, sempre atrasada, em relação a ela própria. O controlo remoto, como no anúncio GPS, recalculando, da BC, é a sua metonímia.

Marca: BC. Título: GPS recalculando. Agência: Delcampo Nazca Saatchi & Saatchi. Argentina, 2010.

Por ora, ainda nos deixam morrer

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Os novos sábios sabem tudo; eu nem sequer sei o que sei.

Os fumadores podem respirar: aguardam mais imposto mas menos publicidade. Na roda dos inimigos públicos, é a vez do açúcar e dos refrigerantes. Tudo indica que os impostos sobre o tabaco e os refrigerantes se fundamentam na ciência. A velha máxima de Henri Poincaré, “de julgamentos de facto não se pode derivar julgamentos de valor”, é suplantada pela máxima “contra factos não há argumentos”. Retocando Habermas, estamos confrontados com a “política como ciência e técnica”.

Caricatura de Celeste Semanas

Caricatura de Celeste Semanas.

O Artigo 104º.4 da Constituição da República Portuguesa afirma o seguinte: “A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo”. O Artigo 104º.1 menciona “a diminuição das desigualdades” e o princípio da “progressividade” dos impostos. Em Portugal, as classes baixas consomem tantos refrigerantes e mais tabaco do que as classes altas. Nestes dois impostos, não se vislumbra nem progressividade fiscal, nem sobrecarga dos consumos de luxo, apenas necessidade de Estado. Num país com uma elevada desigualdade de rendimentos, o imposto sobre o tabaco e sobre os refrigerantes penaliza, ao contrário do IVA, do IUC ou do IMI, as classes baixas. Meio século após o “imposto do isqueiro”, adivinha-se um imposto sobre a pastilha elástica (tem açúcar e provoca aerofagia). Sem desconversar, há impostos piores. Com tamanha sabedoria política, técnica e científica a cuidar da nossa saúde, a eternidade está por um fio. Por ora, ainda nos deixam morrer.

Anunciante: Center for Science in the Public Interest. Título: The Real Bears. Agência: Colorado. Direcção: Lucas Zanotto. USA, 2012.

Repetição

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Ao arrepio das águas de Heráclito, podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio. Acontece repetir-me, não no absoluto, mas no relativo em que vivo. Na verdade, mesmo quando me repito, inovo. Volvidos seis anos, repesco este anúncio, logo repito. Mas não o vejo com os mesmos olhos. Entretanto fiquei pitosga. O mundo e o anúncio perderam luz e contraste. Perderam brilho e tornaram-se mais macios. Para compensar, a qualidade do vídeo é superior. Em suma, repito-me sem me repetir. O comentário, por preguiça, permanece o mesmo:

“Os anúncios de festivais de filmes costumam ser bons. Este não destoa. Fragmentos, metal, carne, metamorfose… E uma excelente sincronia entre a música e a imagem. A música esculpe e a imagem dança”.

Anunciante: Bitfilm Festival Bitfilm Festival 2007 (Lotus Trailer). Agência: Sehsucht. Alemanha, Agosto 2007.

Técnica de sonho

Dois sonhos tecnicamente assistidos. O automóvel foge da sombra. A agência de viagens corre atrás do coelho. Álgebra de Boole e reciclagem de fadas. Muitos efeitos, pouca narrativa. Muita imagem e boa música. Os sonhos são pessoais. Quando me oferecem sonhos não sei onde os meter. Na arte? Na imaginação? Na criatividade? Na libertação? Talvez no bolso ou na estante.

Marca: Audi A5. Título: Pure Imagination. Produção: Nexus Studios. Direcção: GMUNK. Reino Unido, Janeiro 2017.

Marca: Tjäreborg. Título : Down the Rabit Hole. Agência: Cassius, Hensinki. Direcção: Pekka Hara. Finlância, Janeiro 2017.

Para além da luz

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A Samsung iniciou um serviço de apoio técnico ao domicílio na Índia. Iniciativa que justifica este anúncio. Publicado há duas semanas, com actores efectivamente cegos e quatro minutos de duração, já obteve perto de quarenta milhões de visualizações. Um anúncio para ver e sentir devagar.

Marca: Samsung. Título: We will take care of you, wherever you are. Agência: Cheil India. Índia, Dezembro 2016.

ABC da morte

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Há duas semanas, comecei um artigo que desejava publicar hoje, dia de rara comunhão dos vivos e dos mortos. O dito artigo ainda vai a meio. Opto, constrangido, por uma solução de recurso.

O vídeo ABC of Death presume-se ser um falso anúncio. Mas a Volvo autorizou a sua circulação. Apresenta uma série de mortes. O humor negro predomina. A morte é súbita, imprevista e, por vezes, ridícula. Mas não é essa a novidade! Digna de atenção é a seguinte mensagem: nos tempos que correm, os carros conduzem melhor do que os condutores. Ainda bem para os vivos!

Os realizadores do ABC of Death, Daniel Titz e Dorian Lebherz, dirigiram, em 2015, o anúncio Dear Brother, para a Johnnie Walker, um dos anúncios mais criativos e sublimes de que tenho memória. Retomo-o, sem hesitar.

Marca: “Volvo”. Título: ABC of Death. Produção: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Alemanha, Outubro 2016.

Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.

Guerras a brincar

Raul SolnadoEstamos mal de balas cá em Ranholas. Tanto que nas últimas manobras já tivemos que disparar com supositórios. Não, é que os supositórios além de não matar ainda curam por cima (Raul Solnado, Chamada para Washington, 1966).

No anúncio Trench, a guerra era, afinal, de faz de conta! E nós tão imersos a ouvir a morte nas trincheiras. A técnica ilude-nos, a nós, amadores de realidades técnicas.

Marca: Cinemex. Título: Trench. Agência: CDMX, Épica, Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia. México, Junho 2016.

De guerras a brincar ocupou-se Raul Solnado. Recorde-se A Guerra de 1908 (1962) e É do Inimigo (1963). Segue Chamada para Washington (1966).

Raul Solnado. Chamada para Washington. 1966.

Filhos da Revolução

Telenor

A descontinuidade da técnica na era da repetição cultural. Durante cinquenta anos, os rituais sucederam-se, apenas mudaram os objectos.

Marca: Telenor. Título: Telenor Mobile TV. Agência: Carbergs (Stockholm). Suécia, 2007.

Não resisto. Segue T. Rex, Children of Revolution. 1972.

T. Rex, Children of Revolution. 1972.

Sociologia sem palavras 22. A técnica como ideologia

António Silva

António Silva

A Eduarda enviou-me, da terra do Spirou, um anúncio português, de 1939, à Água Castello, com António Silva. Muito falado, em tempos da rádio, e ao estilo dos documentários para as salas de cinema. Uma figura pública, António Silva a antecipar, como embaixador da marca, George Clooney. A higiene da técnica e a técnica da qualidade. A ciência no seu apogeu ideológico. O anúncio abre e fecha como manda a arte. A Água Castello é única e inconfundível. É, também, pura, uma fonte de prazer, uma “delícia”. Em suma, um anúncio excelente.

Anúncio da Água Castello, de 1939, com António Silva. Portugal.

Pisar o risco

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A morte é central no imaginário grotesco. A gravidez e o nascimento, também. Multiplicam-se os anúncios que recorrem a estes temas. Umas vezes, aproximando-os, como no anúncio Champagne da XBOX (ver O parto na modernidade avançada ), outras, separando-os, como no anúncio Ultrasound, da Doritos, para o Superbowl. Gravidez e parto, sem morte, mas com gula. O apetite excessivo associado à gravidez; o apetite deslocado do pai; o apetite prodigioso de bebé, no ventre da mãe. Tudo possível graças às maravilhas mágicas da técnica. O anúncio mergulha-nos no âmago do grotesco: a gravidez, o nascimento, a gula, o corpo e a técnica. Faltam, por exemplo, a morte, a religião e o poder. Alguém anda a saltitar nos limiares da conveniência? Trata-se de uma obsessão do grotesco: pisar o risco.

Marca: Doritos. Título: Ultrasound. Direcção: Peter Carstairs. Austrália, 2016.