Extravagâncias surrealistas da idade avançada
Ao Moisés
“É preciso chegar a velho de boa hora para permanecer velho mais tempo” (atribuído a Catão, o Velho, 234 – 149 a.C.; provérbio milenar bastante atual)

“65 anos de estar vivo”! Que quereis que vos diga? Está-me a saber bem a velhice! Mais do que as quatro décadas de atividade profissional e a meia dúzia de anos tóxicos que a antecedeu. Enquanto for possível, houver “saúde, dinheiro e amor” suficientes, entregar-me-ei ao que quero e não ao que os outros requerem. A velhice, além dos netos, tem proveitos e potencialidades apreciáveis. Mais árvore que ruína, encaro-a como um tempo, uma oportunidade, de libertação e esperança. Quem diria?! Efeitos do sol de Moledo, provavelmente…

Afeiçoo-me à velhice tal como adotei a morte como interlocutora (ando a adiar desde 2017 a edição do livro A morte na arte, porventura, para não terminar o namoro). Assim, escutar músicas dedicadas ao envelhecimento releva menos do exorcismo ou da lamentação e mais do encanto ou da celebração. Obtuso? Talvez se assevere um sentimento mais partilhado do que se pressupõe.
Octavio Ocampo. Visions of Quixote. 1989
De qualquer modo, esta espécie de “proclamação” traduz um estado de alma prenhe de visões quixotescas acalentadas por um aniversariante mimado… Não sendo a vida constante, outros seguirão. Tão certo como, agora, estas cinco velhas e belas canções castelhanas.
Histórias de Amor

“Por que realizar uma obra, quando é tão belo somente sonhá-la?” (Pier Paolo Pasolini, Decameron, 1970). [Seja! Mas, em matéria de corpos, entre o calor sólido e o fascínio gasoso…]
Continuam a soprar ventos latinos. Desta vez, duas versões em francês de “histórias de um amor”, que não superam os originais hispânicos. Uma do grupo francês French Latino, pela orquestração, a outra da romena Cristina Dascalescu (canta fados portugueses), pelo vídeo.
Clara-Jumi Kang. Violinista sul-coreana
Não convém confundir popularidade com populismo, nem populismo com totalitarismo, embora, por vezes, se deem as mãos. Atravessamos momentos em que o que pode ser é. E o que parece, também. Este atalho no entendimento não deixa de comportar riscos no que respeita à justeza dos comportamentos e dos pensamentos.

Este é um artigo com rabo na boca. Com origem e destino em casa. A violinista Clara-Jumi Kang, figura célebre da Coreia do Sul, interpreta Meditation, da ópera Thais (1894), de Jules Massenet, e Primavera, das Quatro Estações de Buenos Aires (1969), de Astor Piazzolla. É acompanhada, respetivamente, pela Orquestra Filarmónica de Seul e pela orquestra de câmara Sejong Soloists, ambas sul-coreanas. Um lote à feição do Fernando, apreciador de culturas orientais, e da Conceição, incondicional do Astor Piazzolla.
Aleluia

Ao Jean Martin Rabot que conheci há 40 anos em Paris na casa do Michel Maffesoli.
No regresso de uma aula ao doutoramento em Estudos Culturais, aguarda-me uma surpresa agradável: um atalho para a canção Una Noche Más, de Yasmin Levy. A terceira sugestão de Rui Rito, após a música Born Free, de Giovanni Marradi (https://www.youtube.com/watch?v=KBtYWkxOOCA), e a canção Et si tu n’existais pas, de Joe Dassin (https://www.youtube.com/watch?v=Ueba8LaflnE). Trata-se de um gesto raro que me sensibiliza. Ao Tendências do Imaginário e à minha página no facebook falta-lhes o oxigénio da reação dos visitantes. Nem sombra de reciprocidade. Os artigos parecem dar sumiço num monstruoso buraco negro, sem ressonância.

Desde janeiro de 2011, com 3 758 artigos e 1 228 271 visualizações, o Tendências do Imaginário mereceu 1 156 comentários, 968 circunscritos a apenas sete pessoas, somando uma 785. No facebook, uma dúzia de “gostos” num artigo, quase sempre pelos mesmos amigos, já satisfaz. Escrevo para um público que, eletronicamente, não corresponde. Como se houvesse alguma intimidação ou toxicidade. Uma sugestão ergue-se como uma flor no deserto, a mais improvável e encantadora.
Escutar Yasmin Levy aproxima-se de uma revelação. Lembra, com a devida modéstia, a madalena da Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, ou a espreguiçadeira de Hans Castorp no sanatório da Montanha Mágica, de Thomas Mann. Escutei de enfiada até às tantas da madrugada uma trintena de canções. Desconhecia Yasmin Levy. Ainda bem. Neste mar de ignorância, uma descoberta é uma jangada, uma oportunidade de sabedoria. Demasiado recente, o parco conhecimento da obra de Yasmin Levy dificulta a seleção das músicas. Segue, portanto, uma incontinência de cinco vídeos.

Nascida em Israel, em 1975, Yasmin Levy é filha de um folclorista turco, Yitzhak Levy, (…) que colectava canções em ladino (a língua dos judeus da Península Ibérica). A obra de Yasmin inclui músicas em ladino, espanhol, hebraico, árabe e turco (…) O jornal Guardian considerou Yasmin “uma das melhores cantoras do Médio Oriente” (…) Numa mescla de música cigana (flamenco) com instrumentos como o alaúde, o violoncelo, e o piano e uma maneira moderna de cantar, ela deu nova vida a letras muito antigas, vindas dos bairros judeus habitados pelos descendentes dos exilados de Portugal e Espanha no século XVI” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Yasmin_Levy).
La esperanza caminando despacito

Una soledad que no acaba
…
Uno sale de uno
– un día –
y se encuentra
Y sín saludarse se reconoce.
Entonces se ve:
– el alma encogida,
– arrugas en la sinceridad,
– un dolor por ahí,
acurrucado
(como un niño poeta frente a la muerte),
y la vida,
caminando despacito,
despacito,
encorvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).
Uma solidão que não acaba
…
Um sai de si próprio
– um dia –
e encontra-se
E sem saudar-se reconhece-se
Então vê-se:
– a alma encolhida
– rugas na sinceridade
– uma dor ao redor,
de cócoras
(como uma criança poeta face à morte),
e a vida,
caminhando devagarinho,
devagarinho,
encurvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).
Perguntar não ofende

“O Tango é uma tradição que se desloca. Este estado deslocado diferencia-o dos folclores fazendo dele uma cultura de viagem. Viagem dos imigrantes que escrevem o seu próprio romance, passo a passo, na cidade de Buenos Aires. Este romance é um livro aberto à estrutura destroçada. Mesmo nesta cidade, os Argentinos vivem como gente de viagem. Com um instrumento sob o braço ou uma melodia assobiada no canto dos lábios, eles põem em prática a teoria da viagem” (Nathalie Clouet : http://francoisheim.com/arpaban-tango.html).
Passar, mentalmente, pelo Rio da Prata comporta riscos. Por exemplo, o risco de conjeturar. Se “perguntar não ofende”, permito-me perguntar: se o tango canta as pessoas que se deslocam, que viajam, o fado quem canta e o que canta? A viagem dos que ficam?
O efeito Piazzolla
Quando somos difíceis de aturar, cumpre-nos, ao menos, conhecer os gostos de quem nos suporta. Bastam três notas de Piazzolla para que nos promovam de castigo de Deus a caso especial digno de atenção. Como o gato.
Astor Piazzola interpreta “Adios Nonino” con la Sinfónica “Cologne Radio Orchestra” de Alemania. Extraído del documental “Astor Piazzolla: The Next Tango”.
Astor Piazzola. Libertango. Chamber orchestra and chorus of the Staatskapelle Berlin. Berlin Philharmonic hall. 2014.
Astor Piazzolla. Oblivion. Interpretação de Hauser. Arena Zagreb. Zagreb Philharmonic Orchestra. 2012.
Interrogação
Qual é o motivo por que nos sentimos tão satisfeitos quando alguém tem os mesmos gostos que nós? Por exemplo, a canção Royals, da Lorde. Afinidade eletiva? Por que nos sentimos extasiados quando alguém nos fala de algo que nunca faremos? Por exemplo, descer, numa cápsula submarina, a Fossa do Mindanao (ponto oceânico nas Filipinas com 10 540 metros de profundidade). Disparidade projetiva? E se, na escuridão da Fossa do Mindanao, colocarmos os auscultadores para ouvir a canção Royals?
E que sentimos ao ver dois automóveis a fazer patinagem artística?
Este vídeo foi enviado pela Joana Ferraz Ribeiro. Uma gentileza.
Sergei Romanchikov. Tango on Ice.
Flamengo de ouro
Amanhã, 1 de Dezembro, estreia este anúncio natalício da marca catalã Freixenet. Requinte e bom gosto. A música, um flamengo eivado de tango, da autoria de Iván Llopis, foi composta expressa e exclusivamente para o anúncio. Com a bailarina e coreógrafa flamenga Sara Baras e o bailarino e coreógrafo José Carlos Martínez, director artístico da Companhia Nacional de Dança, de Espanha, assistimos, por entre as borbulhas de Freixenet, a um diálogo de dois estilos de dança distintos.
Marca: Freixenet. Título: Christmas 2011. Agência: JWT, Barcelona. Direcção: Howard Greenhalgh. Espanha, Dezembro 2011.


