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Uma longa caminhada

LONE (Project). Ferdinand Bakker e Michel van Dijk

A collaboration between two former bandmates. A duo which decided to go solo. After their band Alquin stopped performing, Michel van Dijk and Ferdinand Bakker decided to make their own album, just titled LONE. They embarked on a quest of musical experimentation, a search for the stories and references that inspired them both. It was at these crossroads of mutual inspiration that their journey became most interesting, resulting in six more albums. Their new album is appropriately titled “We came a long way” (release 4-25-25). (http://www.loneproject.nl/).

A banda neerlandesa Alquin conheceu dois períodos de atividade: 1971-1977 e 2003-2012. O seu rock progressivo lembra os Camel, com a ressalva de terem lançado o primeiro álbum, Marks (1972), um ano antes dos Camel (1973) [escutar a faixa “Oriental Journey”].  

Após a dissolução da banda, Michel van Dijk e Ferdinand Bakker, criaram o duo Lone (Project). Desde 2013, lançaram 7 álbuns; o mais recente, com mais de 70 anos de idade, We came a long way, no passado dia 25 de abril. Existe pouca informação a seu respeito acessível na Intenet. Regra geral, o número de visualizações dos vídeos resulta ínfimo. Os Lone vêm de longe, mas, provavelmente, não irão tão longe quanto mereceriam.

Tenta-me, às vezes, prestar atenção a “menoridades” aparentes. O percurso do duo Lone recoloca-me uma pergunta que me inquieta: o que contribui para a notoriedade de um autor ou de uma obra? O que vale, portanto, o (in)sucesso?

Dada a “invisibilidade”, retive cinco canções dos Lone: “We came a long way” (2025); “Like a Mountain” (2025); “Wait for me” (2023); “Let it rain on me” (2020); e “The lighthouse” (2020). Acresce “Oriental Journey” (1972), dos Alquin.

LONE (Project) – We came a long way. We came a long way. 2025
LONE (Project) – Like a mountain. We came a long way. 2025
LONE (Project) – Wait for me. Isolated heroes. 2023
LONE (Project) – Let it rain on me. Let it rain on me. 2020
LONE (Project) – The Lighthouse. Let it rain on me. 2020. Live at ‘De Boerderij’ dec 2020

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Alquin – Oriental Journey. Marks. 1972

Artimanhas do marketing

Netflix. La censura. Sancho BBDO. Colômbia, 2025

Desencadear uma campanha negativa em torno de um produto pode proporcionar uma chave de ouro para o seu sucesso. Aconteceu recentemente com a estratégia de lançamento da série Medusa da Netflix na Colômbia. Um caso que, por acréscimo, evidencia as potencialidades das fake news.

“Medusa, la serie que expone los secretos más oscuros de una poderosa familia de Barranquilla, llega a Netflix. Por ello, Sancho BBDO realizó su lanzamiento, donde tomó un giro inesperado cuando la historia trascendió la pantalla y se convirtió en un caso “real”.
Como parte de la estrategia de lanzamiento, la agencia creó un universo donde la ficción superó la realidad con una demanda simulada que exigía a Netflix la cancelación del estreno de Medusa y, para potenciar esta estrategia contrató a Abelardo De La Espriella, el abogado más reconocido del país, para liderar dentro de la campaña de publicidad la supuesta batalla judicial. Quien gracias a su trayectoria y personalidad se convirtió en el único personaje capaz de generar el efecto deseado: “transformar el estreno de la serie en un escándalo legal que capturara la atención de todo el país”.
Así, De La Espriella asumió el rol de defensor de la familia protagonista de la serie y exigió la cancelación del estreno, argumentando que la producción vulneraba la privacidad y exponía información sensible. La exigencia de De La Espriella se viralizó en redes sociales, para activar la simulada censura de toda la publicidad exterior de la serie y que el tráiler desapareciera de plataformas digitales.
El resultado: un debate nacional, innumerables teorías sobre la identidad de la familia que intentó frenar el estreno y un tema que se convirtió en tendencia. La incertidumbre y la conversación crecieron exponencialmente, haciendo que la serie fuera más esperada que nunca.
“Cuando me propusieron el proyecto y lo estudié detenidamente, me encantó la idea de participar en una campaña tan creativa e innovadora como ficcionar una batalla judicial para promocionar una superproducción como Medusa”, expresó De La Espriella.”
Medusa se estrenó el 5 de marzo en Netflix. (https://www.adlatina.com/publicidad/nuevo-sancho-bbdo-y-netflix-transforman-una-historia-de-ficcin-en-un-caso-real).

Marca: Netflix. Título: La censura. Agência: Sancho BBDO. Colômbia, março 2025

És boa como um melão! Rugas, beleza e maturidade

Anonymous, Marcia Painting Self-Portrait Using Mirror (detail), in Giovanni Boccaccio’s De Mulieribus Claris, c. 1403. Bibliothèque Nationale de France.

A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa minoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude [ousa saber]! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento (Immanuel Kant).

O anúncio espanhol Espejito, espejito: ¿quién es la más bella?, da empresa Frutas Bruñó, surpreende. Pela excelência, pela forma e pelo conteúdo. Começa por contrapor o adágio da maturidade consolidada ao estereótipo da frescura superficial, mas nos últimos segundos somos instados, abruptamente, a reconsiderar: o anúncio não incide nem sobre o envelhecimento nem sobre a beleza mas sobre o melão, produto cujas rugas evidenciam qualidade. As mulheres e a beleza funcionam apenas como um pretexto ou uma alavanca. O alvo e a estrela é o melão. Sobram, entretanto, algumas dúvidas:

Por quê tantas mulheres e nenhum homem? Porque o melão tem forma de ovo? Não parece. Porque o binómio maturidade e beleza se conjuga sobretudo no feminino? Por quê o acento no corpo, com tempero de espírito, em vez da tónica no espírito, com tempero do corpo? Na verdade, o melão não deixa de ser uma coisa que, nos antípodas do cachimbo, enferma conotações intelectuais perversas.

Certo é que, ao visionar primeiro a versão inglesa, estranhei que o anúncio não fosse latino. Em particular, espanhol. Será que na publicidade subsiste uma “marca” ou um “toque” nacional? Por exemplo, uma pitada de salero? Registo, de qualquer modo, uma nova associação socio culinária: à feijoada das classes populares, à salada das novas classes médias e ao caviar das classes altas, acrescento o melão da excelsa maturidade feminina. Vislumbro, também, um novo elogio: “És boa como um melão!”

Este anúncio é “una reflexión sobre el paso del tiempo y la #madurez en una sociedad que suele asociar belleza con juventud. / Nosotros, en cambio, pensamos que la #belleza es un concepto mucho más grande. / De la misma forma que conseguir un melón perfecto requiere tiempo y que su corteza llena de estrías esconde un interior sabroso, creemos en la belleza de la experiencia, de lo aprendido y ganado con la madurez, y de todo lo que va más allá de la mirada superficial sobre las cosas y las personas” (Agencia Kids).

Marca: Frutas Bruñó. Título: Espejito, espejito: ¿quién es la más bella?. Agência: Kids. Direção: Alfonso Gavilán. Espanha, junho 2022.

Um mandamento novo

M.C. Escher. Eye. 1946.

Mandamentos antigos:

Amai-vos uns aos outros
Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje
Born, buy and die
Make love not war
Give peace a chance
Carpe die
Live and let die
Soyez réalistes, demandez l’impossible

Mandamento novo:

Be seen, be heard

Marca: HP Presence. Título: Be Seen. Agência: W+K PDX. Estados-Unidos, fevereiro 2022.

Acrescento um vídeo com a canção Questions, do álbum The Roaring Silence (1976), dos Manfred Mann’s Earth Band, com imagens do filme Blade Runner (1982).

Manfred Mann’s Earth Band. Questions. The Roaring Silence. 1976.

A sociedade de sucesso e a flor do lixo

Sucesso, sucesso, sucesso! Estamos condenados ao sucesso. Ser mal sucedido é uma danação. Somos, provavelmente, a sociedade mais fisgada no sucesso. Pelo menos, no micromundo a que pertenço. Próximas só as sociedades de salvação, como a medieval e a moderna. A salvação pode ser encarada como uma espécie de sucesso eterno. Mas, já nesse tempo, o sucesso era decisivo: representava um indício de salvação (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, 1905).

Nadamos, por palavras, atos e omissões, em lixo. O sucesso e o lixo não são opostos, mas complementares: quanto mais sucesso mais lixo, quanto mais lixo mais sucesso. A nossa sociedade é um monumento ao lixo. Mas não tem o monopólio. O homem medieval, e moderno, usava socos em que enfiava o calçado para o proteger da porcaria das ruas (ver Dois dedos acima da lama: https://tendimag.com/2016/09/30/dois-dedos-acima-da-lama/). O plástico é a nossa perdição e a nossa obsessão. Convive, contudo, com outras ameaças, agora, em segundo plano: os resíduos radioativos, as marés negras, as descargas tóxicas…

O anúncio Make it real, da Square Space, transforma o lixo em arte, e o Ferrão, o monstro resmungão da Rua Sésamo, em artista. Graças a uma fotografia e à Internet, o Ferrão torna-se, num ápice, uma super estrela contrafeita. Santa Senhorinha precisou de mais tempo para calar as rãs. Em suma, uma página profissional na Internet logra prodígios. É esse, precisamente, o negócio da Square Space: disponibilizar páginas de sucesso.

Marca: Squarespace. Título: Make it real / Oscar the Grouch. Estados Unidos, Novembro 2019.

O tema da “arte do lixo” não é uma novidade (A Arte e o Lixo: https://tendimag.com/2013/09/15/7499/). Atente-se, por exemplo, nas esculturas com desperdícios de plástico do português, de renome internacional, Bordalo II (ver galeria). A expressão serve a gregos e a troianos. Para os detractores, denuncia a degradação a que chegou a arte. Para os adeptos, significa a autonomia da arte, contanto relativa e parcial. Quando se faz arte com lixo visa-se a forma e sublima-se o conteúdo. Por outro lado, o recurso ao lixo sublinha que a arte está para além da moral, da religião, da política, da economia e, como diria Pierre Bourdieu (La Distinction, 1979), do gosto bárbaro. A autonomia ergue-se como um baluarte da arte e do artista.

Ontem, um anúncio com o E.T., hoje, com o Ferrão. Será que o Pai Natal vai ter que rivalizar com os heróis infantis dos adultos?

Qualidade e sucesso

Micah P. Hinson

Existe sucesso sem qualidade; e qualidade sem sucesso. Não é preciso ser belo para ser bom, mas ajuda. Uma vida atribulada não impede a criatividade, mas corrói a credibilidade. O norte-americano Micah P. Hinson não é um Senhor Milhões de visualizações. É original, com uma voz e um som próprios. Esteve no Theatro Circo, Em Braga, no dia 1 de Fevereiro de 2019.

Micah P. Hinsob. Beneath The Rose. Micah P. Hinson and the Gospel of Progress. 2004. Marc Riley BBC 6 Music Session 06/11/2012.

Hambúrger

sofi-tukker

O anúncio da McDonald’s, Appetite needs Opportunity, proveniente da Austrália, sustenta, com vários exemplos, que a política laboral da empresa facilita o sucesso dos seus colaboradores. Mas o que me atraiu no anúncio foi a música. Uma canção brasileira num anúncio australiano: Drinkee, de Sofi Tukker (Soft Animals, 2016).

Marca: McDonald’s Australia. Título: Appetite needs opportunity. Agência: DDB Sydney. Direcção: Justin McMillan. Austrália, Fevereiro 2017.

Sofi Tukker. Drinkee. Soft Animals. 2016.

O pós-sapatinho de Cinderela

dinosaur-adventureO meu rapaz mais novo desafia-me com um novo prodígio digital. O sucesso da futilidade na Internet é incomensurável. Este “cover” (vídeo 1) de um excerto de uma animação alemã (vídeo 2; minuto 9) colheu, desde Fevereiro de 2012, cerca de 17,5 milhões de visualizações! Trinta vezes mais do que o original. Ultrapassa a canção “While my guitar gently Weeps”, dos Beatles… Sinal dos tempos? Antigamente falava-se em “nadas muito bonitos”; agora, em “nadas muito insólitos”. As pessoas gostam daquilo que as exprime: faculdades, gestos e fantasias. Pós-verdade ou não, a Internet é o pós-sapatinho de Cinderela.

Yee. “I dinosauri antropomorfi hanno il sangue nel ritmo”. 2012.

The Little Dinosaur (Dinosaur Adventure, na versão da Phoenix). Direcção: Ludwig Ickert, Simone Greiss. Produção: Dingo Pictures. Alemanha, 2000.

The Beatles. While My Guitar Gently Weeps. The Beatles. 1968.

Tentação

Sprite Ambition

“Um hoje vale por dois amanhãs, e mais, se tiver algo para fazer amanhã, faça hoje” (Benjamin Franklin, The Way to Wealth, 1757).

Gustav Klimt. Adão e Eva. 1917-18.

Gustav Klimt. Adão e Eva. 1918.

“Lembre-se que o tempo é dinheiro (…) Lembre-se que o dinheiro é de natureza prolífica e geradora. O dinheiro pode gerar dinheiro, e seu produto gerar mais, e assim por diante. Cinco shillings circulando são seis; circulando de novo são sete e três pence e assim por diante, até se tornarem cem libras”.

(Benjamin Franklin, Advice to a Young Tradesman, 1748).

O anúncio Ambition, da Sprite, tem dois protagonistas. Um, velho, parece uma reencarnação de Benjamin Franklin; o outro, jovem, lembra Eva a colher uma garrafa da árvore do prazer. Qual vai ser o destino da bebida?

Entre o dever calculista, moderno, e o prazer imediatista, pós-moderno, qual dos dois vingará? O prazer, que não dá ouvidos ao dever.

Gosto! Gosto de anúncios que nos distraem da catequese do bem e do sucesso.

Marca: Sprite. Título: Ambition. Agência: Hello. Direcção: Perlorian Brothers. Uruguai, Novembro 2015.

A felicidade e o sucesso

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Um novo anúncio da Johnny Walker costuma ser um acontecimento. A máxima mudou: mais do que caminhar, convida-nos a caminhar felizes, porque a felicidade é fator de sucesso. Este anúncio cativou-me por vias travessas: a música é do cantor belga Plastic Bertrand, um caso à parte da canção francófona. “Ça plane pour moi” estreou em 1977. Um anúncio dos Estados Unidos com música de um cantor francófono? Admirável! Se o anúncio fosse português, nenhuma hesitação: qualquer coisa anglo-saxónica sem mácula latina, por exemplo, os Kraftwerk, os Queen ou os Kiss. Nós somos assim. Gostamos do que somos e escolhemos os outros! Avançados no tempo como o velho do Restelo… O anúncio da Johnny Walker apregoa que a felicidade ajuda a progredir e a ter sucesso. A fazer fé nos inquéritos, os portugueses constam entre os povos menos felizes da Europa. Se calhar, é este fado lusitano que nos afasta do progresso e do sucesso. E se fosse o contrário? O nível de sucesso a espalhar tristeza neste país encalhado?

Um último apontamento: a felicidade da Johnny Walker rima com velocidade. Mas tudo acaba em voo.

Marca: Johnny Walker. Título: Joy will take you further. Agência: Bartle Bogle Hegarty. Direcção: Max Malkin. USA, setembro 2015.