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Música para mortos

Na hipermodernidade avançada, desaparafusados, era bastante desaparafusada, sobrevêm excentricidades delirantes que, confesso, conseguem ultrapassar a minha, apesar de tudo, fértil imaginação.

Os egípcios do tempo dos faraós costumavam colocar nos túmulos dos defuntos tudo o que estimavam necessário para a outra vida após a morte:

Objetos pessoais: roupas, joias, cosméticos, jogos e utensílios do dia a dia
Comida e bebida: pão, cerveja, vinho, carnes secas — para sustento no além
Estatuetas shabti (ou ushabti): pequenos servos mágicos que trabalhariam para o morto na outra vida
Objetos religiosos e amuletos: para proteção espiritual
Textos funerários, como o Livro dos Mortos, com feitiços e instruções para atravessar o além
Vasos canópicos: onde eram guardados órgãos mumificados (fígado, pulmões, estômago e intestinos)
No caso dos faraós e nobres, o luxo subia de nível:
Ouro, móveis, carros, armas — e em épocas mais antigas até servos e animais sacrificados, para continuarem a servi-los depois da morte. (ChatGPT, 26.02.2026).

Até ao momento, não deparei com nenhuma menção a vasos musicais para júbilo, entretimento e apaziguamento dos mortos.

Pois, nunca é tarde para reparar!

A Spotify e a empresa norte-americana de água enlatada Liquid Death, que mata a sede, acabam de criar “a primeira urna do mundo capaz de reproduzir música em streaming”, graças à qual “a morte passa a ser, finalmente, muito menos entediante. Com a Urna da Playlist Eterna, agora os mortos podem ouvir suas músicas favoritas para toda a eternidade”.

Liquid Death & Spotify – Eternal Playlist Urn. USA, fevereiro 2026

Verde que te quero verde

A morte de um jardineiro não lesa a árvore. Mas se ameaçares a árvore, então o jardineiro morre duas vezes (Antoine de Saint-Exupéry, Citadelle, 1948)

A presente onda de calor lembra-me três anúncios dedicados aos riscos de desflorestação. O primeiro, “Refugee Tree”, brasileiro, é promovido por organismos estatais (The Climate Reality Project Brasil, GT.INFRA e ENGAJAMUNDO), o segundo, “Weird Search Requests”, internacional, pela plataforma privada Ecosia, e o terceiro, “EcoAlarm”, pela parceria público privada entre a fundação argentina Banco de Bostes e a Spotify.

Total de incêndios em Portugal. Fonte – FOGOS.pt

Segundo a FAO, entre 2010 e 2020, o planeta sofreu uma perda líquida cerca de 4,7 milhões de hectares de floresta por ano. Em contrapartida, no mesmo período, a Europa, incluindo a Rússia, conheceu um aumento líquido da área florestal de cerca de 0,3 milhões de hectares por ano. Em Portugal, a cobertura não está a diminuir significativamente, mas a qualidade e a resiliência dos ecossistemas florestais estão a degradar-se, devido, sobretudo, aos incêndios e à expansão da monocultura, designadamente, do eucalipto.      

Anunciante: The Climate Reality Project. Título: Refugee Tree. Agência: Africa DDB Sao Paulo. Brasil, 2021
Anunciante: Ecosia. Título: Weird Search Requests. Produção: Filmacademy Baden-Württemberg. Direção: Sandro Rados. Internacional, 2021
Anunciante: Banco de Bostes / Spotify. Título: EcoAlarm. Argentina, 2017