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O trenó dos hipermercados

Trenó Dinamarca

Imaginação, muita imaginação; vontade, muita vontade; e o sonho acontece. Voar num carrinho de compras que faz inveja ao trenó do Pai Natal. Os hipermercados têm a faculdade de transformar os desejos em realidades e as realidades em desejos (ver Albertino Gonçalves, 2002. Um perfume de utopia. Ir às compras ao hipermercado, Comunicação e Sociedade, Vol. 4, pp. 315-319).

Marca: Fotex. Título: Rollo the reindeer. Produção: Nobody Cph. Direcção: Rune Milton. Dinamarca, Novembro 2017.

 

O voo do avestruz

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“Não se teria jamais atingido o possível, se não se houvesse tentado o impossível” (Max Weber, 2004, Ciência e Política: Duas Vocações, São Paulo, Editora Cultrix, p. 123).

Costuma dizer-se “enfiar a cabeça num buraco como um avestruz”. Mas o avestruz não enfia a cabeça em nenhum buraco; em caso de ameaça, coloca a cabeça junto ao solo com o pescoço esticado para se camuflar, à distância, como um arbusto ou uma pequena rocha. Quem enfia a cabeça na areia somos nós, os seres humanos. Tanto que as nossas cabeças ficam a chocalhar. O avestruz voa? Graças à realidade virtual e ao sonho. A ilusão e o sonho tornados vontade e a vontade, técnica e magia. Mais ou menos como voam os seres humanos. Mas há muito quem nem sequer descole.

O voo constitui um dos tópicos preferidos do Tendências do Imaginário. O anúncio da Samsung, Ostrich, é brilhante. A ideia é original e inesperada. A técnica soberba. A história bem contada, a sequência com a sombra no solo do avestruz voador perseguida pelos outros avestruzes é espantosa. O slogan é intemporal: Do what you can’t.

Marca: Samsung. Título: Ostrich. Agência: Leo Burnett Chicago. Direcção: Matthijis Van Heijningen. USA, Março 2017.

 

Rare Bird. Flight. As your mind Flies By. 1970.

Técnica de sonho

Dois sonhos tecnicamente assistidos. O automóvel foge da sombra. A agência de viagens corre atrás do coelho. Álgebra de Boole e reciclagem de fadas. Muitos efeitos, pouca narrativa. Muita imagem e boa música. Os sonhos são pessoais. Quando me oferecem sonhos não sei onde os meter. Na arte? Na imaginação? Na criatividade? Na libertação? Talvez no bolso ou na estante.

Marca: Audi A5. Título: Pure Imagination. Produção: Nexus Studios. Direcção: GMUNK. Reino Unido, Janeiro 2017.

Marca: Tjäreborg. Título : Down the Rabit Hole. Agência: Cassius, Hensinki. Direcção: Pekka Hara. Finlância, Janeiro 2017.

Paródia de uma utopia

Este artigo é do meu rapaz mais novo, o Fernando. Importa assegurar o futuro do blogue.

paprika

“Até as senhoras da corte dançaram ao ritmo das flautas e tambores dos sapos. O remoinho de papel reciclado era uma vista para se ver, como gráficos de computadores! … O frigorífico e a caixa de correio vão liderar o caminho… Caminhem juntos em frente, eu sou o derradeiro governador” (Paprika, 2006).

O tema do filme de animação Paprika, dirigido por Satoshi Kon em 2006, incide sobre o alcance dos sonhos.

A um dado momento, ocorre uma invasão, com a forma de uma parada de vários objectos. O sonho do consumismo. Quem é o sonhador desta parada? Não se sabe. Cada um entra na parada e integra-se como se fosse o seu sonho, cada um é o “derradeiro governador”, um individuo consumido pelo consumismo. O sonho que não é de ninguém mas de todos.

“Pergunto-me aonde se dirigia a parada. Sinto que estava mesmo perto de controlar o mundo.” Os participantes na parada sentem uma promessa, uma recompensa final. Contudo, esta é uma parada sem fim, uma viagem em espiral, crescendo aos círculos.

No final, a parada invade o mundo real. As pessoas vão-se transformando em objectos. O individuo vale o que possui.

Os anúncios e a própria internet não são mais do que formas de sonho. Um sonho que se aloja no subconsciente. Um jogo em que a realidade afeta os sonhos que, por sua vez, afetam a realidade, uma realidade onírica.

Reencontram-se muitas figuras e situações do filme Paprika no filme Inception lançado quatro anos depois, nomeadamente a interpenetração entre sonho e realidade.

Paprika.Satoshi Kon. Japão. 2006. Excerto.

 

Máquinas de sonhos

Samsung

O sonho é de todos os tempos. Nosso é o “admirável mundo novo” das máquinas oníricas. A Samsung e a Wieder + Kennedy resgatam o sonho do inconsciente para o tornar refém de uma extensão do corpo: a realidade virtual propiciada pelo Smartphone Galazy S7 Edge: “Dreams are awesome. And if you could experience anything in a dream just by putting a phone on your face, why wouldn’t you get that phone?” Outrora, sonhávamos com máquinas, hoje, sonhamo-nos em máquinas. Nos sonhos, voa-se e levita-se. Este anúncio não é excepção. “Quando um homem sonha” é uma quimera; quando muitos homens partilham o mesmo sonho é uma realidade, uma realidade colectiva.

O sonho é tema de inúmeras canções. Retenho duas: All I Have To do Is Dream (1958), dos Everly Brothers; e Dreamer (1974), dos Supertramp.

Marca: Samsung. Título: Dreams. Agência: Wieden + Kennedy (Portlland). Direcção: Adam Berg. USA, Abril 2016.

Everly Brothers. All I Have To Do Is Dream. 1958.

Supertramp. Dreamer. 1974.

 

Sonho à solta

“Que de sonhar ninguém se cansa” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

honda-dreamer-print (1)O sonho saiu à rua! Com quatro rodas. Esgueirou-se pela nuca do criador. Coisa de pasmar, fantástica e surreal! Abram! Abram alas à imaginação que o Honda Civic vai passar. Num rodopio. Gosto da palavra rodopio: combina curva, movimento e velocidade. Num mundo em perpétuo inacabamento, a travessia segue os passos de Antonio Machado: faz-se andando. Acaba mal começa. Desfaz-se em metamorfoses e fragmentos num puzzle desconexo e acelerado de paisagens e figuras oníricas. Pictóricas: os volumes e as diferenças sobrepõem-se aos contornos e aos elementos. Este anúncio lembra os culpados do costume: Hieronymus Bosch, Peter Bruegel, René Magritte, Salvador Dali… Também lembra outros anúncios. No meio de tanta lembrança, também vem a propósito a Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz. Sonhem! Que “o homem é do tamanho do seu sonho” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.

Honda the dreamerMarca: Honda. Título: The Dreamer. Agência: RPA. Direcção: Guto Terni, Sam Mason, Vinicius. USA, Dezembro 2015.

Berliotz Symphonie FantastiqueBerlioz: “Symphonie Fantastique” – 5th Mvt. – Leonard Bernstein

Os cães também sonham

Purina imagem

“Há muitos défices, mas talvez o mais importante neste momento seja o do sonho” (Manuel Alegre, DN, 16 de Abril de 2012).

Quatro patas aerodinâmicas e um pau. O pau é para o dono. Quanto maior melhor! Eis o sonho canino! Os cães sonham. O meu país, não sei!
Encontrei este anúncio nas catacumbas do grande arquivo electrónico. Bela fotografia, sequências magníficas, principalmente, na versão alargada (60 em vez de 30 segundos). Seleccionar HD.


Marca: Purina Pro Plan. Título: Fecht. Agência: Leo Burnet Chicago. Direcção: David Frankham. USA, 2013.

Contos de fadas

“Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares)

Western-Sydney-University-Deng-Thiak-Adut-UnlimitedQuem não gosta de contos de fadas? De gatas borralheiras princesas e de sapos príncipes? Não obstante o filtro da razão, contos de fadas não faltam. Por exemplo, na publicidade e, em particular, nos anúncios a universidades, onde estas, “espectros da razão”, convivem com os contos de fadas, “fantasmas da fé”. As universidades são dos maiores viveiros de sonho acordado. Estes anúncios da Western Sydney University regalam-nos com dois contos de fadas, porventura reais. No primeiro, Jay Manley Unlimited, um estudante australiano apaixonado por mecânica ingressa na vanguardista Tesla Motors, no Silicon Valley. No segundo, Deng Thiak Adut Unlimited, uma criança negra raptada por guerrilheiros no Corno de África consegue tornar-se um advogado de sucesso.

Marca: Western Sydney University. Título: Jay Manley Unlimited. Agência: WCD + WE. Collective. Direcção: Jae Morrison. Austrália, Setembro 2015.

Marca: Western Sydney University. Título: Deng Thiak Adut Unlimited. Agência: WCD + WE. Collective. Direcção: Jae Morrison. Austrália, Setembro 2015.

Nas mãos de uma criança

Um bebé afasta-se, a contraluz, rumo à janela. De fraldas em riste, rasga horizontes. Go and see just how kind this world can be. Um anúncio da  Airbnb, com imagem, texto, voz e música encantadores.

Marca: Airbnb. Título: Is Mankind? Agência: BWA/Chiat/Day, San Francisco. Direcção: Lance Acord. USA, Julho 2015.

Manuel FreireA propósito ou a despropósito, vale sempre a pena ouvir a Pedra Filosofal, de Manuel Freire, com letra de António Gedeão, estreada em 1969.

Naquele tempo, não éramos bons alunos em nada. Estava para vir a arte da sicofância (ver Sicofância: a arte dos lambe cús).

Manuel Freire. Pedra Filosofal. Letra de António Gedeão. 1969.

Barra de chocolate

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Os NoBrain são três directores que “funcionam como um único”. Realizaram vídeos memoráveis: por exemplo, New Road (Citröen, 2007) ou Huit (Mac Guff, 2009). Neste anúncio turco, a barra de chocolate Bi-Ruya é de uma beleza rara, as faixas são de uma extrema leveza e o final não podia ser mais crocante e estaladiço. Os ingredientes para o sonho são os do costume: o portal, a queda, a cama, a animação dos objectos… A sedução das barras de chocolate progrediu muito. Compare-se a sensualidade da actual Bi-Ruya com a da Kit-Kat de há cerca de 25 anos atrás.

Marca: Bi-Ruya. Título: Dream. Agência: Dinamo. Direcção: NoBrain. Turquia, Março 2015.

Marca: Kit-Kat. Título: Kit Capp. Agência: J. Walter Thompson. UK, 1991.