Sísifo ou assobiar à beira do abismo
Sísifo
Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
(Miguel Torga, Diário XIII)
Estou a tentar fumar menos. A primeira vez, em 50 anos. Segundo os entendidos, devia cortar de vez. Mas tamanha e tão súbita castração ultrapassa-me. Para já, proponho-me reduzir de 25 para 15 cigarros por dia. Uma insignificância. Mas recorrendo aos artifícios matemáticos até parece muito: menos 40%! Não é fácil! Adotei a mezinha de intervalar pelo menos uma hora entre cigarros. Quando o apetite resulta apressado, recorro a alternativas compensadoras: leio cinco páginas de um livro (neste momento, La Vierge dans l’art, de Kirá Belán, de 2024); assisto e seleciono vídeos musicais de determinado intérprete; escrevo algumas linhas a interpretar uma imagem ou um texto (hoje, os versículos 12:42-53 do evangelho de São Lucas); telefono a alguém que estime disposto a aturar-me; tomo mais um banho quente; faço compras na Internet; escrevo um post, que é o que estou a fazer.

Nos intervalos, as tarefas e as músicas devem ser do agrado. Escolher, por exemplo, videoclips do Andrew Bird. Estes altos e baixos lembram-me a canção Sisyphus, com assobios e violino à beira do abismo. Acrescento Bloodless (a expressão “uncivil war” é sugestiva); Tenuously (sobressai como homem orquestra) e A Nervous Tic Motion of The Head To The Left (das minhas preferidas, ao vivo quando jovem).
O novo Sísifo
Um humor amoral, sem prólogo, epílogo, catarse, ou expiação, alicerçado numa minudência cósmica, é, no meu preconceito, humor das gentes do norte. Um humor destilado, como o whisky ou a cerveja. É um humor fino e espirituoso, sem anjos nem bestas, nos antípodas do riso farto e rasteiro. Temos humor e cerveja, falta a música. Há tantas músicas nórdicas! Opto por dois excertos da Suite Peer Gynt (1875), do compositor norueguês Edvard Grieg: Amanhecer (parte I) e Na Gruta do Rei da Montanha (parte IV).
Tenho o vício de colar adjacências ao tema principal, neste caso ao anúncio. Às vezes, acabam por ser as mais relevantes. É o caso presente.
Marca: Carlsberg. Título: Everest. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, 2011.
Edvard Grieg. Amanhecer. Peer Gynt. Orkiestra Filharmonii Narodowej.
Edvard Grieg. Na Gruta do Rei da Montanha. Peer Gynt. Berliner Philharmoniker. 2010.
Sisifite
Sisifite. Acabei de inventar a palavra. É uma inflamação associada ao trabalho inútil e interminável. Estou com uma sisifite aguda. Até me sinto grego. Sísifo era grego, não era? O provocador dos deuses e o burlão da morte. Os deuses são tramados, e caprichosos, quer morem no Olimpo, quer sejam os donos do euro. Sísifos há muitos. O mal é epidémico. Empurram um pedregulho monte acima, uns por ofensa aos deuses, outros por amor extremoso.
Porque perco tempo com este tipo de piadas? Porque me apetece. E porque acredito que uma piada como esta vale mais do que um voto para o Parlamento Europeu. E, no entanto, fui votar. Fomos, não fomos? Assinalou alguma das pessoas que lideram a Comunidade Europeia?
Truemax Academy. Sysiphus. 2011.


