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Sísifo ou assobiar à beira do abismo

Sísifo

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
(Miguel Torga, Diário XIII)

Estou a tentar fumar menos. A primeira vez, em 50 anos. Segundo os entendidos, devia cortar de vez. Mas tamanha e tão súbita castração ultrapassa-me. Para já, proponho-me reduzir de 25 para 15 cigarros por dia. Uma insignificância. Mas recorrendo aos artifícios matemáticos até parece muito: menos 40%! Não é fácil! Adotei a mezinha de intervalar pelo menos uma hora entre cigarros. Quando o apetite resulta apressado, recorro a alternativas compensadoras: leio cinco páginas de um livro (neste momento, La Vierge dans l’art, de Kirá Belán, de 2024); assisto e seleciono vídeos musicais de determinado intérprete; escrevo algumas linhas a interpretar uma imagem ou um texto (hoje, os versículos 12:42-53 do evangelho de São Lucas); telefono a alguém que estime disposto a aturar-me; tomo mais um banho quente; faço compras na Internet; escrevo um post, que é o que estou a fazer.

Nos intervalos, as tarefas e as músicas devem ser do agrado. Escolher, por exemplo, videoclips do Andrew Bird. Estes altos e baixos lembram-me a canção Sisyphus, com assobios e violino à beira do abismo. Acrescento Bloodless (a expressão “uncivil war” é sugestiva); Tenuously (sobressai como homem orquestra) e A Nervous Tic Motion of The Head To The Left (das minhas preferidas, ao vivo quando jovem).

Andrew Bird – Sisyphus. My Finest Work Yet. 2019
Andrew Bird – Bloodless. My Finest Work Yet, 2019. Music video by Andrew Bird performing Bloodless. © 2018
Andrew Bird – Tenuousness. Noble Beast, 2009. Live In The Basement, broadcast 24-12-2008 on Sky Arts
Andrew Bird – A Nervous Tic Motion of The Head To The Left. Andrew Bird & the Mysterious Production of Eggs, 2005. Live at Bonnaroo – June 16, 2006 – Manchester, TN.

O novo Sísifo

Carlsberg Everest

Um humor amoral, sem prólogo, epílogo, catarse, ou expiação, alicerçado numa minudência cósmica, é, no meu preconceito, humor das gentes do norte. Um humor destilado, como o whisky ou a cerveja. É um humor fino e espirituoso, sem anjos nem bestas, nos antípodas do riso farto e rasteiro. Temos humor e cerveja, falta a música. Há tantas músicas nórdicas! Opto por dois excertos da Suite Peer Gynt (1875), do compositor norueguês Edvard Grieg: Amanhecer (parte I) e Na Gruta do Rei da Montanha (parte IV).

Tenho o vício de colar adjacências ao tema principal, neste caso ao anúncio. Às vezes, acabam por ser as mais relevantes. É o caso presente.

Marca: Carlsberg. Título: Everest. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, 2011.

Edvard Grieg. Amanhecer. Peer Gynt. Orkiestra Filharmonii Narodowej.

Edvard Grieg. Na Gruta do Rei da Montanha. Peer Gynt. Berliner Philharmoniker. 2010.

Sisifite

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Virgiliu Narcis, A Sisif Life

Sisifite. Acabei de inventar a palavra. É uma inflamação associada ao trabalho inútil e interminável. Estou com uma sisifite aguda. Até me sinto grego. Sísifo era grego, não era? O provocador dos deuses e o burlão da morte. Os deuses são tramados, e caprichosos, quer morem no Olimpo, quer sejam os donos do euro. Sísifos há muitos. O mal é epidémico. Empurram um pedregulho monte acima, uns por ofensa aos deuses, outros por amor extremoso.

Porque perco tempo com este tipo de piadas? Porque me apetece. E porque acredito que uma piada como esta vale mais do que um voto para o Parlamento Europeu. E, no entanto, fui votar. Fomos, não fomos? Assinalou alguma das pessoas que lideram a Comunidade Europeia?

Truemax Academy. Sysiphus. 2011.