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Invenção, utilidade e tradição

Garfo de dois dentes. Cerca de 1700-20.

O antes e o depois. Pequenas invenções, grandes diferenças. Um tópico fascinante bem aproveitado no anúncio The Power of Ok, da Roku.  The best ideas are often the simplest. Like streaming made easy. Ok, Roku does that. Nada mais divertido e mais simples.

Marca: Roku. Título: The Power of Ok. Agência: R/GA California. Direção: Keith Schofield. Estados-Unidos, setembro 2021.

A implementação de um invento simples nem sempre é fácil. As atribulações da (re)introdução do garfo na Europa Ocidental constituem um bom exemplo.

“No seculo XI, um doge de Veneza casou-se com uma princesa grega. No círculo bizantino da princesa o garfo era evidentemente usado. De qualquer modo, sabemos que ela levava o alimento à boca “usando um pequeno garfo de ouro com dois dentes.” Este fato, porém, provocou um horrível escândalo em Veneza: “Esta novidade foi considerada um sinal tão exagerado de refinamento que a dogaresa recebeu severas repreensões dos eclesiásticos que invocaram para ela a ira divina. Pouco depois, ela foi acometida de uma doença repulsiva e São Boaventura não hesitou em declarar que isto foi um castigo de Deus.”
Mais cinco séculos se passariam antes que a estrutura das relações humanas mudasse o suficiente para que o uso desse utensilio atendesse a uma necessidade mais geral. Do século XVI em diante, pelo menos nas classes altas, o garfo passou a ser usado como utensilio para comer, chegando através da Itália primeiramente a França e, em seguida, a Inglaterra e Alemanha, depois de ter servido durante algum tempo apenas para retirar alimentos sólidos da travessa. Henrique III introduziu-o na França, trazendo-o provavelmente de Veneza. Seus cortesãos não foram pouco ridicularizados por essa maneira “afetada” de comer e, no princípio, não eram muito hábeis no usa do utensilio: pelo menos se dizia que metade da comida caía do garfo no caminho do prato à boca. Em data tão recente como o século XVII, o garfo era ainda basicamente artigo de luxo da classe alta, geralmente feito de prata ou ouro.” (Norbert Elias, O Processo Civilizador, 1ª ed. 1939, Rio de Janeiro, Zahar Ed.. 1990. Vol. I, pp. 81-82).

“Dicen que Leonardo quiso perfeccionar el tenedor poniéndole tres dientes, pero le quedó igualito al tridente del rey de los infiernos.
Siglos antes, san Pedro Damián había denunciado esta novedad venida de Bizancio:
—Dios no nos hubiera dado dedos si hubiera querido que usáramos ese instrumento satánico.
La reina Isabel de Inglaterra y el Rey Sol de Francia comían con las manos. El escritor Michel de Montaigne se mordía los dedos cuando almorzaba apurado. Cada vez que el músico Claudio Monteverdi se veía obligado a usar el tenedor, pagaba tres misas por el pecado cometido.” (Eduardo Galeano, Fundación del Tenedor, Espejos, Madrid, Siglo XXI, 2008).

Despojamento

Tantas ondas, e nenhuma igual. Tantos pinheiros, e nenhum igual. Tantas pessoas tantas vezes tratadas como iguais.

A simplicidade assenta bem. A música Can’t Get You Out Of My Head (2001), composta por Cathy Dennis e Rob Davis, e interpretada por Kylie Minogue, conheceu muitas versões. Gosto da versão instrumental, a mais despojada. Não colheu grande sucesso. A simplicidade e o sucesso nem sempre dão as mãos.

Cathy Dennis e Rob Davis. Can’t Get You Out Of My Head. Por Martin Ermen. 2001.

Para descompensação, acrescento o vídeo musical da Kylie Minogue que convoca outro tipo de despojamento.

Kylie Minogue. Can’t Get Out Of My Head. Álbum Fever. Vídeo dirigido por Dawn Shadforth. Música composta por Cathy Dennis e Rob Davis. 2001.