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O Natal de São José

Livre d'heures de Béatrice de Rieux - La Nativité. 1390.

Livre d’heures de Béatrice de Rieux – La Nativité. 1390.

É véspera de Natal. Apetece-me celebrar São José. Em muitas iluminuras medievais aparece afastado de Maria e do Menino, à margem, encolhido, fatigado, quase alheado. Mais espectador do que actor, ao contrário de Maria e dos reis magos, São José não tem direito a coroa nem, por vezes, a auréola. Desde o episódio da vara florida até ao nascimento de Jesus, tamanha passividade comove-me.

Adoration of the Magi, from a Medieval manuscript in the Bodleian Library, Oxford, 15th c.

Adoration of the Magi, from a Medieval manuscript in the Bodleian Library, Oxford, 15th c.

Para além destas duas iluminuras, dos séculos XIV e XV, acrescento um anúncio português, História do Natal Digital, produzido em Dezembro de 2010 pela agência Excentric, de Lisboa.

Votos de um feliz Natal e de um ano novo atento aos vossos méritos e desejos.

A vara do noivo

01 Casamento da Virgem Maria. Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti, c. 1380. Por Giovanni de’Grassi.

Casamento da Virgem Maria. Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti, c. 1380. Por Giovanni de’Grassi.

Mal me sentei à secretária, uma voz interpela-me: – Está na hora de dedicares um artigo ao casamento.

A minha pesquisa de imagens tem três velocidades: rápida, lenta e ultralenta. A maioria quase nem as enquadro. Outras deixam-me, porém, congelado, pasmado, absorto em configurações e pormenores. Foi o caso desta iluminura do Casamento da Virgem Maria, incluída no magnífico Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti (c. 1380).

Bernardo Daddi. Casamento da Virgem. Políptico de San Pancrazio. 1335-40.

Bernardo Daddi. Casamento da Virgem. Políptico de San Pancrazio. 1335-40.

José e Maria casam-se à moda medieval. A cerimónia culmina no momento em que os noivos se dão a mão direita. Os homens, à direita, estão separados das mulheres, à esquerda. Esta segregação por género nos ofícios religiosos ainda era prática corrente na minha infância. O que me intriga é que cada homem segure uma vara, e que alguns se empenhem em a partir. A vara de José tem uma pomba.

Como entender este protagonismo das varas? Esta iluminura é um caso isolado? Corresponde a um ritual ou a uma crença? Nada como procurar, navegando entre  textos e imagens.

Casamento de Maria. Notre Dame des Fontaines. França. Fim séc. XV.

Casamento de Maria. Notre Dame des Fontaines. França. Fim séc. XV.

As varas aparecem em várias pinturas, todas alusivas ao casamento da Virgem.

No Políptico de San Pancrazio (Uffizi, 1335-40) e na Igreja de Notre Dame des Fontaines (França, fim do séc. XV) os homens, pouco atentos à cerimónia, canalizam ostensivamente o descontentamento para as varas. No quadro de Rafael (1504), o ambiente é mais sereno. As varas estão, agora, bem alinhadas. Apenas um homem parte, compenetrado, a sua vara.

Rafael. Casamento da Virgem. 1504.

Rafael. Casamento da Virgem. 1504.

Foi fácil encontrar imagens, respeitantes ao casamento da Virgem, com homens munidos com varas. A iluminura do Livro de Horas de Visconti não é, portanto, um caso isolado. Captar o significado do conteúdo dessas imagens foi mais difícil. Nos rituais matrimoniais da Idade Média, nem um suspiro de indício. Estive para desistir. Como a raposa das uvas, perguntava-me: que te interessam as varas do casamento da Virgem? Mas lá acabei por atracar em porto abençoado: uma página da internet do Centre de Recherche sur la Canne et le Bâton.

Em artigo intitulado A Vara anuncia casamento de José e Maria, Laurent Bastard escreve (minha tradução):

“Até ao Concílio de Trento, no século XVI, circulavam na Cristandade os Evangelhos apócrifos, ou seja, não oficiais, para além dos de Mateus, Lucas, Marco e João. Os artistas da Idade Média foram aí buscar muitos dos detalhes reproduzidos na pedra. Naquele que é conhecido por “Proto-evangelho de Tiago” (porque relata acontecimentos anteriores aos dos quatro evangelhos), datado do século II, descobre-se um rito associado às varas e à intervenção divina.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. A entrega das varas no templo. 1305.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. A entrega das varas no templo. 1305.

Eis o texto em que é questão encontrar um esposo para Maria: “O padre vestiu o hábito com doze pequenas campainhas, penetrou no Santo dos Santos e pôs-se a rezar. Eis que um anjo do Senhor apareceu dizendo: “Zacarias, Zacarias, sai e convoca os viúvos do povo. Que cada um traga uma vara. E aquele a quem o Senhor mostrar um sinal a tomará como esposa.” (…) José pousou o seu machado e foi juntar-se ao grupo. Aproximaram-se, em conjunto, com as respectivas varas, do padre. O padre pegou nas varas, entrou no templo e rezou. Acabada a oração, retomou as varas, saiu e devolveu-as. Nenhuma apresentava qualquer sinal. Ora, José recebeu a sua em último lugar. E eis que uma pomba levanta voo da sua vara e pousa na sua cabeça. Então o padre: “José, José, disse, tu és o eleito, és tu quem tomará conta da virgem do Senhor” (http://www.crcb.org/la-baguette-annonce-le-mariage-de-joseph-et-marie/.html).

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. Casamento da Virgem. 1305.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. Casamento da Virgem. 1305.

Dois quadros de Giotto ilustram perfeitamente esta passagem do evangelho apócrifo de Tiago. No primeiro, um grupo de homens, cada um com sua vara, entra no templo. No segundo, José e Maria casam-se. Os homens preteridos não escondem a desilusão. Na vara de José, a pomba está prestes a levantar voo. Missão cumprida.