Ouvidos vadios

Continuemos a (a)variar. A banda francesa Orange Blossom presta-se. Fundada em Nantes em 1993, combina trip hop e rock, progressivo e eletrónico, com música oriental. Os membros principais são o francês PJ Chabot, violino, o mexicano Carlos Robles Arenas, percussão, e a egípcia Hend Ahmed, voz. Os demais têm origem argelina, marfinense e turca. “Multiculturais”, cantam em árabe, francês, inglês, turco, espanhol e português (Meu amor se foi).
Anónimo, ca. 1500. Univ. de Liège
O Canto das Crianças do Inferno
Para acompanhar os filhos, os pais ganham em aprender com eles

Quando aquilo que deveria estar longe está perto e o que deveria a estar perto está longe, dá vontade de mudar de lugar, de se deslocar para outras coordenadas espaciotemporais, mesmo que seja esporadicamente. Demandar, por exemplo, o rock japonês do início dos anos setenta ou os cânticos da Grécia Antiga de há dois milénios. Comecemos pelo rock progressivo e psicadélico japonês.
O Fernando mostrou-me uma pérola rara. “É a tua cara! A música e a letra.” Adoro quando me surpreendem adivinhando os meus gostos.
Quando era jovem, acompanhava artistas estrangeiros no rock, mas depois de ouvi-los novamente depois de muitos anos, descobri que artistas e bandas japonesas como J.A. Caesar, Jax e Happy End, que enveredam por um gênero um pouco diferente, alcançam muito mais profundidade e um nível mais alto do que as bandas britânicas e americanas da mesma época. (Comentário no YouTube: @blueearth5000).
J. A. Seazer (…), às vezes ortografado Julious Arnest Cesar ou Julious Arnest Caesar, batizado Terahara Takaaki (寺原 孝明?), é um músico e compositor de bandas sonoras japonês nascido a 6 de outubro de 1948. Alcançou alguma popularidade entre os estudantes japoneses nos anos sessenta e colaborou com o realizador Shuji Terayama (…) Adquiriu notoriedade com a composição da banda sonora da adaptação animada do manga de Suehiro Maruo, Mr. Araxhi’s Amazing Freak ShoW (Wikipedia, 16.06.2025).
Retive quatro vídeos. O primeiro, “When Everybody’s Going to Die” [Quando todos estiverem a morrer], foi o que o Fernando me deu a conhecer [coloco a letra no fim”. Pertence a um EP lançado em 1970, que inclui a canção do segundo vídeo: “Hanging Tree” [árvore da forca]. Segue a canção “Wasan” do álbum Kokkyou Junreika, de 1973. Estas músicas namoram o rock progressivo e psicadélico. O quarto vídeo contempla sete músicas da banda sonora do filme Den-en ni shisu (Pastoral: To Die in the Country), realizado por Shuji Terayama em 1974. Embora todas sejam notáveis, deste conjunto destaco as duas últimas canções: “Hymn of Praise” (12:53) e “Everyone Suddenly Disappears” (17:08). Já que se fez tão rara viagem, vale a pena atardar-se.
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Quando todos estiverem a morrer
(When Everybody’s Going to Die)
Quando todos estiverem a morrer,
cantarei um hino de amorQuando todos estiverem a morrer,
alguém cantará uma canção de embalarOs pássaros negros que se aglomeram nas árvores mortas
Gritarão na escuridãoQuando todos estiverem a morrer,
Gritarão na escuridãoQuando todos estiverem a morrer,
ouço a voz de uma mãeQuando todos estiverem a morrer,
há risos e chorosDas profundezas de uma garrafa enegrecida,
A voz das crianças do inferno a cantarQuando todos estiverem a morrer,
A voz das crianças do inferno a cantarQuando todos estiverem a morrer,
quando todos estiverem a morrer(J. A. Seazer, 1970)
Uma longa caminhada

A collaboration between two former bandmates. A duo which decided to go solo. After their band Alquin stopped performing, Michel van Dijk and Ferdinand Bakker decided to make their own album, just titled LONE. They embarked on a quest of musical experimentation, a search for the stories and references that inspired them both. It was at these crossroads of mutual inspiration that their journey became most interesting, resulting in six more albums. Their new album is appropriately titled “We came a long way” (release 4-25-25). (http://www.loneproject.nl/).
A banda neerlandesa Alquin conheceu dois períodos de atividade: 1971-1977 e 2003-2012. O seu rock progressivo lembra os Camel, com a ressalva de terem lançado o primeiro álbum, Marks (1972), um ano antes dos Camel (1973) [escutar a faixa “Oriental Journey”].
Após a dissolução da banda, Michel van Dijk e Ferdinand Bakker, criaram o duo Lone (Project). Desde 2013, lançaram 7 álbuns; o mais recente, com mais de 70 anos de idade, We came a long way, no passado dia 25 de abril. Existe pouca informação a seu respeito acessível na Intenet. Regra geral, o número de visualizações dos vídeos resulta ínfimo. Os Lone vêm de longe, mas, provavelmente, não irão tão longe quanto mereceriam.
Tenta-me, às vezes, prestar atenção a “menoridades” aparentes. O percurso do duo Lone recoloca-me uma pergunta que me inquieta: o que contribui para a notoriedade de um autor ou de uma obra? O que vale, portanto, o (in)sucesso?
Dada a “invisibilidade”, retive cinco canções dos Lone: “We came a long way” (2025); “Like a Mountain” (2025); “Wait for me” (2023); “Let it rain on me” (2020); e “The lighthouse” (2020). Acresce “Oriental Journey” (1972), dos Alquin.
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Heróis anónimos do rock progressivo

O concerto dos Camel, “heróis [quase] anónimos do rock progressivo”, um dos meus grupos prediletos dos anos setenta, no Royal Albert Hall, no dia 17 de setembro de 2018, impressiona a vários títulos. Não tanto pela idade de alguns membros: Andrew Latimer, a figura principal, ronda os 70 anos de idade. Habituámo-nos a ver cantores e membros de bandas clássicos dos anos sessenta e setenta a continuar ativos com rugas e cabelos brancos (ver Entrar na idade). Não consigo esquecer o Leonard Cohen (ver Coro Salgado).
O concerto dos Camel no Royal Albert Hall é notável pela prestação e pelo ambiente. Por um lado, a fidelidade em relação à gravação em estúdio e a concentração dos intérpretes. Nenhum improviso, nenhuma agitação corporal. A exemplo de grupos como os Moody Blues ou os Pink Floyd e não os Rolling Stones. Por outro, o público permanece sentado, silencioso, sem grandes efusões e gesticulações rituais. Não fosse o tipo de música e lembraria o mais clássico dos concertos clássicos.
Segue uma sequência de três canções: da quarta à sexta do DVD com o concerto: “Spirit of the Water”, “Another Night” e “Air Born”, por sinal, ainda não colocadas no Tendências do Imaginário.
Harmonium: Histórias sem palavras | Como um tolo

Tenho uma memória instantânea de grilo ou, se se preferir, de galinha. Em contrapartida, não me queixo da memória que apelido subterrânea, arqueológica. Os fantasmas do mais recôndito purgatório do passado acodem-me à consciência como pirilampos, emergindo sem convite nem cerimónia.
Acaba de acontecer com os Harmonium, um grupo francófono do Québec (Canadá), criado em 1972 e ativo até 1978. Publicaram três álbuns de estúdio: Harmonium (1974); Si on avait besoin d’une cinquième saison (1975); e L’Heptade (1976). O rock progressivo dos Harmonium aproxima-os de bandas tais como os Camel ou os Renaissance, mas com muito menos reconhecimento. À semelhança de outras bandas, reuniram-se cerca de quarenta anos depois, já mais amadurecidos, para reeditar álbuns e tocar em concertos ao vivo. Seguem: 1) um pequeno excerto do concerto sinfónico Harmonium Symphonique, publicado em 2021; 2) a interpretação integral ao vivo, em 2017, da música Histoires sans paroles (original de 1975); e 3) a canção Comme un fou, remasterizada, do álbum L’Heptade (1976).
Muito poucos conhecerão a música dos Harmonium. Passados tantos anos, reconheço-me nela. Acredito que nos identificamos menos pelo que comungamos e mais pelo que nos distingue.
Triumvirat
É hora de dar folga aos olhos. Os Triumvirat são um grupo alemão de rock progressivo activo entre 1969 e 1980. Publicaram sete álbuns, mas passaram algo despercebidos num tempo em que a concorrência era dura. Poucos jovens dos anos setenta os conheceram, muito menos dos anos 2010. Encontrar alguém que goste dos Triumvirat é como fotografar um extraterrestre na praia de Copacabana. Não conhecer e, eventualmente, não gostar é recomendável. Gostar é apegar-se. E apegar-se é abdicar de liberdade líquida. Apegar-se? É melhor escorregar! Aprecio o modo como os Triumvirat combinam ritmo e melodia. Seguem um pequeno excerto (Dawning), do álbum Illusion On A Double Dimple, de 1974 (ouvir álbum em: https://www.youtube.com/watch?v=gWOY4uLpxgI), e a canção The Deadly Dream Of Freedom, do álbum Spartacus, de 1975 (ouvir álbum em: https://www.youtube.com/watch?v=SNY8JqtYmcU).
Triumvirat. Dawning. Illusion On a Double Dimple. 1974.
Triumvirat. The Deadly Dream Of Freedom. Spartacus. 1975.
Psico
O mais tardar em 1975, assisti a um concerto dos Psico junto à Sé de Braga. Com o Álvaro e o John. Fugimos do colégio. Ainda o concerto ia no início, avisaram-nos que o director andava à nossa procura. Pernoitámos na casa de uma “tia” fictícia, que nos devolveu ao colégio, de madrugada, com uma história insustentável. Na verdade, o importante não era a história, mas o desfecho.
Os Psico, do Porto, criados em 1968, editaram um único single com as músicas: A. Als e B. Epitáfio. Uma raridade!
Psico. Als & Epitáfio. 1978.
Primeiro single dos Pink Floyd

Hoje não me apetece elaborar. Fim de mês, fim de férias. Nem mísera crítica, nem piada incógnita. Vou apenas anexar o videoclip da primeira música publicada pelos Pink Floyd: Arnold Layne, single, 1967.
Pink Floyd. Arnold Layne. 1967.
Já agora, no mesmo ano, 1967, a outra grande banda do rock progressivo britânico dos anos sessenta, The Moody Blues, lança o segundo álbum (LP): Days of Future Passed, com Nights in White Satin. Carregar na imagem para aceder.
The Moody Blues, Nights in White Satin, ORTF, França, 1969.
Tangerina Electrónica
Os Tangerine Dream são uma banda alemã de rock progressivo formada em 1967. Ainda em atividade, foram, com os kraftwerk, pioneiros da música eletrónica. Publicaram mais de meia centena de discos. Stratosfear não é das músicas mais populares, nem das mais elaboradas. É, contudo, aquela que quando penso Tangerine Dream logo me vem à memória. Integra o álbum homónimo editado em 1976. Quem tiver a paciência de a ouvir, será regalado com alguns trechos compensadores. Para acompanhar, juntei umas tantas imagens das capas dos discos.
Tangerine Dream. Stratosfear. Stratosfear. 1976.
Renaissance
Lembra-se dos Renaissance? Não são do seu tempo? Passou ao lado? Esqueceu? É bom recordar. Se não, um dia, uma pessoa acorda e ainda pensa que nasceu com 53 anos. Os Renaissance eram uma banda de rock progressivo. Editaram os primeiros discos em 1969. “Mother Russia” é uma faixa do álbum Turn of the Cards, de 1974.
Renaissance: Mother Russia. Turn of the Cards. 1974.


