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À maneira de Diógenes. Os sopradores de lâmpadas.

Estátua de Diogenes

Estátua de Diógenes.

O anúncio Indestructible, da Organisation Internationale de la Francophonie , é optimista. A ideia, por mais que a castiguem, nunca se apaga. Sou menos optimista. As ideias, as boas ideias, não têm a vida fácil. Como os cavalos, também se abatem. Inclino-me para um optimismo moderado: uma ideia bem pensada, embora abafada no presente, voltará a ser pensada no futuro.

A autoria e a propriedade intelectual fazem parte da retórica da Internet. No início de Outubro, milhares de artigos foram removidos da minha página do Facebook acusando-a de spam, a “coisa” (1982), de John Carpenter, na Internet. Assegurei que não havia spam; pediram-me para aguardar. Até agora, nenhuma mensagem. Será esta a versão digital do diálogo? Entretanto, a autoria e a propriedade intelectual dormem nas urtigas. Este processo é semelhante a um auto da fé.

Não consigo colocar links do Tendências do Imaginário na minha página do Facebook. Nem eu nem ninguém. Uma mensagem automática alerta que o site Tendências do Imaginário é perigoso. O Tendências do Imaginário não é nenhum Moriarty. Contém, é verdade, pensamentos críticos e, eventualmente, polémicos. É um blogue incómodo. É a sua vocação. Com os pés em Braga e a cabeça no mundo, não poupa nenhuma instituição, grande ou pequena, branca ou preta. O Tendências do Imaginário preza o comentário desinibido, apanágio de um pensador livre. O boicote à partilha configura uma censura.

À medida que o Tendências do Imaginário crescia, cresceu o meu receio por este tipo de percalços. Passo muitas horas no computador, mas não vejo o mundo pelo ecrã.

Termino com uma história de Diógenes. Quando alguém lhe lembrou que o povo de Sinopse o condenara ao exílio, ele retorquiu: “E eu condenei-os a permanecer em casa”.

Marca: Organisation Internationale de la Francophonie. Agência : TBWA Paris. Direcção : Vincent Gibaud. França, Outubro 2018.

Preservativo contra gatos digitais

Gato de Kazán. Rússia. Séc. XVIII.

Gato de Kazán. Rússia. Séc. XVIII.

No último artigo, os excrementos de gato eram preciosíssimos. Agora, os gatos são as maiores vedetas dos ecrãs contemporâneos. Desperdiçamos triliões de triliões de horas embasbacados com as peripécias felinas. Nós, trabalhadores inveterados, ascéticos até à medula. Os gatos desviam-nos do bom caminho. Por sua causa, caímos em procrastinação, adiamos o dever. Importa acabar com essa ameaça ao rendimento e à carreira profissional.

Um sindicato dinamarquês, investido por uma espécie de chamamento, inventou a extensão Katblocker, que livra o cibernauta da maléfica imagem felina. Quem instalar a extensão, está protegido contra os companheiros das bruxas.

Insólito, este anúncio suscita diversas leituras. O mundo é uma máquina do tempo dessincronizada. Nem sempre temos os pés, quanto menos o espírito, no presente. Este anúncio traz-me, por exemplo, à memória o calvinismo e o iconoclasmo do século XVI. Que o anúncio seja promovido por um sindicato, pouco me espanta: Max Weber demonstrou que o “espírito do capitalismo” tanto era perfilhado pelos burgueses como pelos trabalhadores.

A Danish labour union has declared war on cat videos in a new campaign video for The Katblocker, an extension that blocks cat videos in a browser to help workers overcome the natural urge to procrastinate.

The labour market is under constant development, and the pressure is on all of us to learn and grow. According to a new campaign from Danish union HK, procrastination is the enemy that stands between union members and the next step in their careers. That’s why they’ve now invented the Katblocker to fight the mother of all procrastination: Cat videos.

There’s currently about 91.6m, cat videos on YouTube totaling around 3,194,656,867 minutes of cats that can distract us from the next important step in our careers. The Katblocker was launched last week with a comical parody of the traditional TED Talk format, and the video has already earned a lot of nationwide attention with more than 1m views in its first week (http://www.thedrum.com/creative-works/project/co-noa-hk-katblocker).

Anunciante: HK. Título: Katblocker. Agência: &Co. Direcção: Peter Harton. Dinamarca, Janeiro 2018.

Conto de fadas à moda digital

McDonalds

Não há forma de evitar preconceitos e estereótipos. A mim, afigura-se-me que a publicidade oriental se dispõe entre dois extremos, sem meio termo: anúncios curtos e impactantes ou longos e emocionantes. O humor e o amor. Pelos vistos, rimos mais depressa do que choramos. O anúncio filipino The boy that loves to study é longo. É um conto de fadas com uploads, downloads e redes sociais. A fada madrinha é a McDonald’s.

Acrescento a canção Fate, interpretada, ao vivo, pela sul-coreana Sohyang (um cover de Lee Sun Hee).

Marca: McDonald’s. Título: The boy that loves to study. Agência: Leo Burnett. Filipinas, 2016.

Sohyang. Fate. Ao vivo. Cover de Lee Sun Hee.

A porca e o parafuso

Nos últimos dias, tomei conhecimento de duas iniciativas: a plataforma SHAIR (www.shairart.com), associada à galeria Emergentes, implementada pela empresa DST (Domingos da Silva Teixeira); e a limitação do acesso a redes sociais nas escolas por decisão do Governo. A primeira abre, a segunda, fecha. Ainda bem! Se todos abrissem as portas, a ventania arejava demasiado os espíritos. Em termos atmosféricos, não há nada como o ar condicionado.


DST. SHAIR. Como Funciona. Março 2014.

A DST, empresa sedeada em Braga, é reputada pelo apoio à cultura e à arte. A presente iniciativa aposta na divulgação e na avaliação de obras de arte, cruzando um espaço online, SHAIR (digital), com uma galeria física (Emergentes), sita na Rua do Raio, em Braga. “O “conceito” da plataforma consiste na “oportunidade” dada a artistas de exporem as suas obras sujeitando-as à votação do público, e de um especialista convidado pela dst, sendo que as mais votadas serão, depois, expostas no espaço físico da Galeria Emergentes dst” (Lusa, 20 de Março). Para mais informação, ver o anúncio promocional (vídeo 1) e a reportagem da Tv Minho (vídeo 2).


Tv Minho. Março 2014.

“No final da semana passada, as escolas receberam um e-mail da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) anunciando que o acesso a determinadas redes sociais e aplicações, tais como o Youtube, passava a estar “limitado a uma utilização máxima”, ou o Facebook, Instagram e Tumblr, que ficariam indisponíveis durante toda a manhã até às 13h30 e depois do almoço teriam também um “limite de utilização máxima”” (Lusa, 26 de Março de 2014). Pelos vistos, o motivo é técnico:Questionado pela Lusa sobre a decisão de limitar aquelas redes e aplicações, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) explicou que a DGEEC “verificou que a pressão sobre a rede decorria do acesso a determinados sites/aplicações que não são essenciais ao funcionamento das escolas e das atividades letivas”. Trata-se de garantir “as condições para o normal funcionamento da internet das escolas, quer para atividades letivas, quer para os serviços administrativos e similares”.

O problema é, portanto, técnico. Quer-me parecer que todos os problemas neste País são técnicos. E os nossos técnicos que são os melhores do mundo… Os melhores! E não há modo de casar o técnico com a técnica? A culpa deve ser, mais uma vez, do povo. Técnicos tão bons lá no alto e nós, cá em baixo, tão desaparafusados…

Maio 68. É proibido proibir.

Maio 68. É proibido proibir.

Sou injusto, mas a memória é vadia. Este problema técnico lembra-me o meu tempo do banco da escola. Lembra-me a proibição da Coca-Cola e dos livros. Lembra-me, também, a despropósito, o imposto dos isqueiros. Anda uma pessoa a desgastar neurónios para propor cursos oportunos e sustentáveis e a solução aqui tão perto: um mestrado em ciências da proibição.

Solidão Excitada

Zygmunt BaumanOuvir Zygmunt Bauman, nem que seja por três minutos, é um bálsamo e um desafio:

Quando eu era jovem, eu não tinha o conceito de redes, eu tinha o conceito de laços humanos, comunidades… esse tipo de coisa, mas não de redes (ver entrevista 3 minutos com Bauman: As amizades de Facebook, 22 Outubro 2013).

Trinta anos depois, quando eu era jovem, a sociologia dispunha, além dos conceitos de laços humanos e de comunidades, também do conceito de redes sociais. A par da edição do livro de Jeremy Boissevain (1974), Friends of Friends; Networks, Manipulators and Coalitions, Georges Balandier dedicou, em 1979, uma disciplina ao estudo das “redes de dependência pessoal”. Passo a resumir duas ou três ideias:

  1. Uma rede não é hierárquica. Numa hierarquia, se A manda em B e B manda em C, então A manda em C. Numa rede, A não manda necessariamente em C, pode nem o conhecer. Se A precisa dos serviços de C, e não tem uma ligação directa com ele, não os pode pedir directamente a C, mas a B e este, por seu turno, a C. Em suma, C tem uma relação de dependência com B, não com A. Neste tipo de rede social, as relações são diádicas e não são transitivas.
  2. Na rede, as relações pautam-se pelo princípio de reciprocidade. A e B têm direitos e obrigações, um face ao outro. Este princípio de reciprocidade é fundamental para que ambos tenham interesse na relação. Reciprocidade não significa simetria. Normalmente, a relação é assimétrica. Uns podem dar ou receber mais que outros.
  3. As redes são compostas por relações de dependência pessoal: trata-se de díades que envolvem pessoas, de relações diádicas pessoalizadas, como refere Bauman, “conexões reais, frente a frente, corpo a corpo, olho a olho”.
  4. O desempenho da rede é caracterizado pela previsibilidade. As redes são eficazes na prossecução dos objetivos. Corrigem a a mais pequena falha. Atente-se, por exemplo, na orgânica, na dinâmica e na eficácia da máfia e das redes do contrabando ou da emigração clandestina.

Não falo da mesma rede social que Bauman. Na minha perspetiva, Facebook, Twitter e Linkedln não configuram redes sociais, pelo menos, não correspondem ao meu conceito. Não comprometem pessoas na base da reciprocidade (não configuram direitos e obrigações mútuos), os resultados das ações não são previsíveis (iniciativas marcadas pela incerteza) e, como enfatiza Bauman, não assentam em “laços sociais”. As “redes sociais” de rede social têm muito pouco. São “redes electrónicas” que funcionam, como refere Bauman, por conexão/desconexão. Atendendo ao tipo de contacto, à configuração, ao envolvimento e à comunicação, as redes sociais, como o Facebook, o Twitter ou o Linkedln, aproximam-se mais da noção de multidão do que da noção sociológica de rede social. Uma multidão digital carregada de endereços electrónicos, com identificações, sentimentos e mobilizações que lembram, por vezes, La Psychologie des Foules, de Gustave Le Bon (1895): diluição da responsabilidade, emoção e contágio. Uma multidão eletrizada por um sem número de circuitos e de ignições. Uma multidão composta por contactos sem laços, com tendência para uma solidão excitada, ou, para retomar o título do livro de David Riesman (1950), para uma multidão solitária.

Que noção de redes sociais escolher? Pierre Bourdieu insistia que não é vocação do sociólogo andar atrás das palavras correntes como o peixe atrás do isco. À força de lavar conceitos na espuma dos dias nem sequer com conceitos híbridos, líquidos ou polissémicos ficamos, mas com conceitos que são, ironicamente, o contrário do original.

 

A Pesca Digital

Por falta de meios ou de visão, não é fácil conceber o futuro próximo das redes sociais. Um artigo do blogue Cidadão Publicitário reúne alguns dados sugestivos respeitantes ao Brasil. Para aceder, carregar na imagem ou no seguinte endereço:
http://cidadaopublicitario.wordpress.com/2013/09/02/um-brasil-mais-digital/.

Redes Sociais

Capuchinho vermelho na era digital

Dantes, o capuchinho vermelho perdia-se na floresta; agora, expõe-se nas redes sociais. Já não é uma donzela campestre, mas uma “noiva electrónica”. Nem sequer os prazeres são os mesmos. No tempo de Perrault, colhia flores para meter na boca do lobo. Agora, é só posicionar o cursor, abrir o ficheiro e fazer downloads e uploads.

Anunciante: Facemoods‘ Online Safety Kit. Título: Little Red Riding Mood. EUA, 2011.