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Entroncamento auspicioso

Carrefour. La relación Precio Calidad. Argentina, 2025

Um dia, faz 43 anos, no Carrefour (encruzilhada), o preço e a qualidade encontraram-se, encetando uma história de amor feliz sem fim à vista, a não ser que, por capricho do mercado, o ponto de encontro, o Carrefour, feche as portas, como aconteceu em Braga, deixando saudades, pelo menos, aos francófilos.

Anunciante: Carrefour. Título: La relación Precio Calidad. Agência: Mercado McCann. Direção: Watta Fernández. Argentina, setembro 2025

Roupa fantasma

“Every synthetic garment ever made still exists in any form haunting our planet”. Nem mais, nem menos. Trata-se de uma coisa do outro mundo que está a acabar com o nosso! No anúncio “Wear Wool, Not Waste”, da Woolmark Company, a roupa sintética não sei se me lembra os pássaros do Alfred Hitchcock, se os zombies do George A. Romero. Sem poupar nos pixéis, com tanta roupa a cair, além de Os Pássaros (1963) e A Noite dos Mortos-Vivos (1968), acudir-me-ia também o Nove Semanas e Meia (1986), do Adrian Lyne.

Este anúncio é bem ao gosto da Beatriz, em particular da sua devoção pela reciclagem de roupa. Já o comentário, menos sério, duvido.

Marca: The Woolmark Company. Título: Wear Wool, Not Waste. Agência: 20Something. Direção: Jorik Dozy; Sil van der Woerd. Austrália, setembro 2024

És boa como um melão! Rugas, beleza e maturidade

Anonymous, Marcia Painting Self-Portrait Using Mirror (detail), in Giovanni Boccaccio’s De Mulieribus Claris, c. 1403. Bibliothèque Nationale de France.

A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa minoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude [ousa saber]! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento (Immanuel Kant).

O anúncio espanhol Espejito, espejito: ¿quién es la más bella?, da empresa Frutas Bruñó, surpreende. Pela excelência, pela forma e pelo conteúdo. Começa por contrapor o adágio da maturidade consolidada ao estereótipo da frescura superficial, mas nos últimos segundos somos instados, abruptamente, a reconsiderar: o anúncio não incide nem sobre o envelhecimento nem sobre a beleza mas sobre o melão, produto cujas rugas evidenciam qualidade. As mulheres e a beleza funcionam apenas como um pretexto ou uma alavanca. O alvo e a estrela é o melão. Sobram, entretanto, algumas dúvidas:

Por quê tantas mulheres e nenhum homem? Porque o melão tem forma de ovo? Não parece. Porque o binómio maturidade e beleza se conjuga sobretudo no feminino? Por quê o acento no corpo, com tempero de espírito, em vez da tónica no espírito, com tempero do corpo? Na verdade, o melão não deixa de ser uma coisa que, nos antípodas do cachimbo, enferma conotações intelectuais perversas.

Certo é que, ao visionar primeiro a versão inglesa, estranhei que o anúncio não fosse latino. Em particular, espanhol. Será que na publicidade subsiste uma “marca” ou um “toque” nacional? Por exemplo, uma pitada de salero? Registo, de qualquer modo, uma nova associação socio culinária: à feijoada das classes populares, à salada das novas classes médias e ao caviar das classes altas, acrescento o melão da excelsa maturidade feminina. Vislumbro, também, um novo elogio: “És boa como um melão!”

Este anúncio é “una reflexión sobre el paso del tiempo y la #madurez en una sociedad que suele asociar belleza con juventud. / Nosotros, en cambio, pensamos que la #belleza es un concepto mucho más grande. / De la misma forma que conseguir un melón perfecto requiere tiempo y que su corteza llena de estrías esconde un interior sabroso, creemos en la belleza de la experiencia, de lo aprendido y ganado con la madurez, y de todo lo que va más allá de la mirada superficial sobre las cosas y las personas” (Agencia Kids).

Marca: Frutas Bruñó. Título: Espejito, espejito: ¿quién es la más bella?. Agência: Kids. Direção: Alfonso Gavilán. Espanha, junho 2022.

Sobre carris

Claude Monet – The Gare Saint-Lazare, Arrival of a Train. 1877.

As imagens dos anúncios Traffic Jam e Hexagonal, da Ouigo e da Sncf, não provêm de Portugal. Encarnam uma vantagem que o País não possui. Uma herança que hipoteca o futuro. Uma aposta que, ano após ano, se manifesta cada vez mais errada. Mesmo assim, aconselho os reis magos a tomar, esta quadra, o comboio.

Marca: Ouigo. Título: Traffic Jam. Agência: Rosapark. Direção: Djawid Hakimyar. França, setembro 2020.
Marca: Sncf. Título: Hexagonal. Agência: Publicis Conseil. Direção: Raphaël Levy. França, agosto 2021.

Qualidade e sucesso

Micah P. Hinson

Existe sucesso sem qualidade; e qualidade sem sucesso. Não é preciso ser belo para ser bom, mas ajuda. Uma vida atribulada não impede a criatividade, mas corrói a credibilidade. O norte-americano Micah P. Hinson não é um Senhor Milhões de visualizações. É original, com uma voz e um som próprios. Esteve no Theatro Circo, Em Braga, no dia 1 de Fevereiro de 2019.

Micah P. Hinsob. Beneath The Rose. Micah P. Hinson and the Gospel of Progress. 2004. Marc Riley BBC 6 Music Session 06/11/2012.

Aceleração

“Ce que le vulgaire appelle du temps perdu est bien souvent du temps gagné” (Alexis de Tocqueville, La Démocracie en Amérique, 1835-1840).

O tempo tem muito a dizer ao tempo. Por exemplo, que é menos elástico do que se acredita, não obstante a compressão do espaço e do tempo, que, mais do que diminuir, gera outro espaço e outro tempo. O tempo não é geometria sem centro nem circunferência. O trabalho pede tempo, o cuidado de si, também. Actividade sobre actividade, a disponibilidade pessoal enrola-se numa bola  de sabão prestes a aterrar. A compressão e a policronia têm limites. Qualquer actividade é aviada num despacho qualquer. Despacham-se aulas, textos, júris, consultas, clientes… A curiosidade turística definha numa fotografia apressada. Até a caridade se despacha. E as ideias atropelam-se. Vivemos numa sociedade do presente, simultaneamente, efémera e acelerada. Nesta correria, do gato, biológico, ao telemóvel, digital, vamos despachando tarefas, emoções e sentimentos. O tempo é uma das principais matrizes da vida humana. Na era da compressão, precisamos da sabedoria que a míngua de tempo impede. Neste tempo sem tempo, a qualidade virtualiza-se, fantasiada em índices abstractos e fórmulas matemáticas. O triunfo da urgência acena-nos com o delírio do agir sem tempo, oportunista, órfão do cronómetro, do calendário e da razão. A nossa tragédia destemperada.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

vodafone 2

Marca: Vodafone. Título: Power to you. Agência: Jung von Matt. Internacional, 2013.