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O Prazer e os Seis Sentidos

No dia 19 de outubro, o Tendências do Imaginário alcançou 460 visualizações. O artigo Prazer surge em sétimo lugar. Bastante jovial, retomo-o, juntando, como anexo, Os seis sentidos.

O PRAZER (Dezembro 21, 2015)

Vida senhorial. Mulher banhando-se rodeada por assistentes. Tapeçaria. Escola francesa. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris

“O homem nasceu para o prazer: sente-o, dispensa mais provas. Segue assim a razão ao entregar-se ao prazer. Mas sente amiúde a paixão no seu coração sem saber como começou.

Um prazer verdadeiro ou falso pode igualmente satisfazer o espírito. Que importa que esse prazer seja falso, desde que estejamos persuadidos que é verdadeiro?
À força de falar de amor, ficamos apaixonados. Nada mais fácil. É a paixão mais natural no homem.
O amor não tem idade; está sempre a nascer”
(Blaise Pascal, Discours sur les Passions Amoureuses, 1ª ed. 1652-1653).

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.
Jacques Brel. Quand on a que l’amour. Jacques Brel 2 (estreia em 1957)

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OS SEIS SENTIDOS (Outubro 22, 2025)

La Dame à la licorne (A Dama e o unicórnio), exposta no Museu de Cluny, em Paris, é composta por seis tapeçarias, tecidas, provavelmente, na Flandres em finais do século XV. Destacam-se como uma obra-prima da arte medieval.

Galeria: La Dame à la licorne (A Dama e o unicórnio). Serie de apeçarias. Ca. 1500. Museu de Cluny

La Dame à la licorne (A Dama e o unicórnio). Série de apeçarias. Ca. 1500. Museu de Cluny

  1. Le toucher (o tacto). A Dama agarra com a mão esquerda o corno do unicórnio e com a direita o mastro de um estandarte;
  2. Le goût (o paladar). A Dama pega um confeito de uma taça e oferece-o a uma ave;
  3. L’odorat (o cheiro). Um macaco aspira o perfume de uma flor;
  4. L’ouïe (o ouvido). A Dama toca órgão;
  5. La vue (a vista). O unicórnio contempla-se num espelho segurado pela Dama;
  6. “À mon seul désir” (“ao meu único desejo”). A Dama tira o colar que coloca num baú.

A sexta tapeçaria, a do sexto sentido, só pode ser interpretada por dedução da hipótese dos cinco sentidos. Nela pode-se ler, emoldurada pelas iniciais A e V, a frase «Ao meu único desejo» no topo de uma tenda azul. (…) Nesta sexta tapeçaria, a senhora tira o colar que usava nas outras tapeçarias. (…) Num artigo escrito em 1977, Alain Erlande-Brandenburg, levanta a hipótese de que a sexta tapeçaria poderia simbolizar a renúncia aos sentidos (…) Para Jean-Patrice Boudet, esta tapeçaria seria uma alegoria do coração, o sexto sentido (…) O historiador de arte britânico Michael Camille (en) observa que a dama desta última tapeçaria é a única a ter cabelo curto” (Wikipedia, La dame à la licorne, 22.10.2025).

Tratar-se-ia, portanto, de uma espécie de despojamento material, de uma relação distinta com o mundo, mais aberta ao sentir do coração, o dito “sexto sentido”, próximo da acepção de Blaise Pascal (“Conhecemos a verdade, não apenas pela razão, mas também pelo coração”: Pensamentos, artigo XXII) ou de Antoine de Saint-Exupéry (“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”: O Pequeno Príncipe, cap. XVII ).

Ver a cara a Deus

Tulipán. Verle la cara a Dios. Argentina, setembro 2025

Ainda é domingo. Deixo o comentário do anúncio argentino “Verle la cara a Dios”, da Tulipán, para outros, mais entendidos.

“Tulipán insiste en recordar que el placer importa, merece un lugar central y debe vivirse con respeto y cuidado. Debido a que el lanzamiento llega en un momento donde conviven la hipersexualización, la sobreexposición y el acceso ilimitado a porno con poca educación sexual. Paradójicamente, el deseo parece a la baja: menos ganas, más apatía.
Victoria Kopelowicz, directora de la marca, expresó: “‘Verle la cara a Dios’ es la forma más argentina de describir el máximo placer, y es exactamente eso lo que queremos transmitir con nuestra nueva línea de productos.” (Adlatina: Preestreno: Zurda y Tulipán anuncian una nueva colección de juguetes sexuales para “Verle la cara a Dios” )

Marca: Tulipán. Título: Verle la cara a Dios. Agência: Zurda Agency. Direção: Carmen Rivoira. Argentina, setembro 2025

Delírio ou deleite?

A publicidade pode aspirar a ser profética? Os novos tempos serão desvairados e agressivos, como no anúncio Goldilocks And The Three Trucks, da Dodge ou nem precipitados, nem furiosos, como no anúncio Not So Fast, Not So Furious, da Häagen-Dazs? Ambos os anúncios provêm de empresas norte-americanas e passaram ontem, dia 9 de fevereiro, durante o Super Bow 2025.

Marca: Dodge. Título: Goldilocks And The Three Trucks. Agência: Gsd&m. USA, fev 2025
Marca: Häagen-Dazs. Título: “Not So Fast, Not So Furious”, Agência: nice&frank. USA, fev 2025

O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 3

Com estas três parcerias de 2024, concluo este devaneio domingueiro acompanhado pela voz de Ekaterina. Desejo uma boa semana de trabalho, que, segundo alguns entendidos, o trabalho configura uma potencialidade do ser humano. Mudando de assunto, que este oferece-se resvaladiço, porventura mais consensual, a minha bisavó não se cansava de repetir: se perseguires o belo, talvez encontres o prazer!

Na canção e no vídeo “Stand Still”, vocacionada para uma conexão com a natureza, ela é o vento e ele a árvore.

Ekaterina Shelehova & Thom’Art Raidho – Stand Still. Stand Still, 2024

Ekaterina Shelehova, Vian Izak & RØRE – Glow in the Dark. Where do we end up when life goes on?, 2024
Ekaterina Shelehova, Nathan Pacheco & Leo Z – L’Assenza. L’Assenza, 2024

Um amor de robot reciclado

Preocupe-se com o ambiente, diga-o com um robot reciclado! Carregue na imagem para aceder ao anúncio Robot Love, da Miller.

Marca: Miller. Título: Robot Love. Agência: Fallon McElligott. Direção: TRAKTOR. Estados Unidos, 1998

As asas do desejo e a sombra redentora

Quando o novelo da beleza nos cai nas mãos, nos surpreende, importa desfiar o desejo em busca de outras flores da mesma planta. Deixar a sombra perseguir a borboleta, numa espécie de “empreendedorismo estético” focado no prazer. Fascinados com a curta-metragem LILA, de Carlos Lascano, importa sondar o resto da obra do autor. A curiosidade costuma compensar. Confirma-o a animação A Shadow of Blue, que, sublinhe-se, pede visualização até ao desenlace final.

Salvador Dalí. Flor Dalí. 1969

A Shadow of Blue. Written and Directed by Carlos Lascano. A co-production: Les Films du Cygne and DreamLife Studio in Association with Eallin Motion Art. 2012

Festival Awards :
. 3rd Festival of Marvellous and imaginary Film (2012) / Best Animation Award
. 23rd « Meetings days Youth Cinema of Tarn » (2012) / Best Direction Award
. Kimera International Film Festival (Italy, 2012) / Preselection 1rst Award, Audience Award, Jury Award
. Tabor Film Festival – Competition Kiki (children) (Croatia, 2012) / Special Mention
. Festival of Nations – Ebensee (Austria, 2012) / Golden Bear Award
. Malta Short Film Festival 2012 (Malta, 2012) / Best Foreign Animation Award
. Cinemadamare (Italy, 2012) / Best Screenplayer
. 30th International Festival of Youth Cinema or Rimousky (Canada, 2012) / Camerio Award – Best Animation Short
. Jahorina Film Festival (Bosnia and Herzgovina, 2012) / Golden Gentian Award
. Banjaluka Festival 2012 (Ex-Yugoslavia, 2012) / Special Mention
. Picture This… International Film Festival (Canada, 2013) / Special Mention
. Grand Bayou Short Film Showcase (USA, 2013) / Most Artistic Award

Suave e aveludado

Os últimos dias foram de concentração. Entreguei-me à construção de materiais audiovisuais para o próximo encontro dedicado aos antepassados do surrealismo, em particular aos maneiristas da segunda metade do séc. XVI, programado para o dia 27 de maio, sábado, às 17:00, no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Consistirá mais numa ilustração do que numa oratória. Esbocei ontem uma espécie de antestreia na disciplina de Sociologia da Arte, do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura. Um excelente teste com um mês de antecedência.

Vim descontrair para a beira-mar. Apetece-me partilhar um post que propicie uma atmosfera de repouso e indolência. Acodem-me os anúncios recentes da Velveeta, uma marca, como o nome sugere, de queijo “cremoso, suave e aveludado”. Um deleite minimalista com a ressonância, a ação, o compasso e o colorido certos para cativar a atenção, aguçar o desejo e distinguir a marca. Original e feliz! A que mais poderia aspirar uma publicidade?

Marca: Velveeta. Título: La Dolce Velveeta / Rider. Agência: Johannes Leonardo. Produção: Biscuit. Direção: Andreas Nilsson. USA, abril 2023
Marca: Velveeta. Título: La Dolce Velveeta / Breeze. Agência: Johannes Leonardo. Produção: Biscuit. Direção: Andreas Nilsson. USA, abril 2003
Marca: Velveeta. Título: Thats La Dolce Velveeta / Film. Agência: Johannes Leonardo. Direção: Harmony Korine. USA, janeiro 2022

O fóssil e a acendalha

Túmulo Borlando. Cemitério Monumental de Staglieno. Génova. 1920

Eros e Thanatos. Instintos de vida e morte. O amor é vida. Que a vida não o esqueça.
Norte-americana, com formação em canto operático, Minnie Riperton iniciou a sua carreira em soul, rythm e rock, aos 15 anos. A canção “Lovin’You”, do álbum Perfect Angel, foi um dos grandes sucessos da década de setenta. Morreu de cancro da mama, em 1979, com apenas trinta e um anos.
Os fósseis podem funcionar como acendalhas?

Minnie Riperton. Inside my love. Adventures in Paradise. 1975
Minnie Riperton. Lovin’You. Perfect Angel. 1974
Minnie Riperton. Light my fire (com José Feliciano). Minnie. 1979

Um pouco de amor e melancolia

Angel Olsen

We live together in a photograph of time” / Vivemos juntos numa fotografia do tempo (Antony And The Johnsons. Fistful Of Love)

Regularmente, o Tendências do Imaginário faz questão de introduzir uma pausa na conversa para “dar música”. Abrir uma janela lúdica entre artigos porventura mais densos. Que músicas? Quaisquer, de preferência que exprimam um gosto ou um estado de alma a partilhar. Estranho? O blogue é omnívoro e não possui contrato de exclusividade com assuntos ditos sérios nem é alérgico ao prazer. Não é só pela razão que se conhece e ainda menos se sente, se abraça, o mundo (Blaise Pascal, Pensées, 1670). Faz parte da sabedoria não espalmar a vibração dos sentidos, dos sentimentos e das emoções.

Angel Olson lançou este ano a canção Big Time. Associando Woman (2016) obtém-se um belo par que transmuta a melancolia em lamento e melodia, arte de que é mestre Antony. Recorde-se, por exemplo, Fistful Of Love. Um jeito de se deixar embalar em dia de chuva indolente.

Angel Olsen. Woman. My Woman. 2016. Ao vivo no KEXP studio, em 2017.
Angel Olsen. Big Time. Big Time. 2022. Vídeo oficial
Antony And The Johnsons. Firtful Of Love. I Am a Bird Now. 2005. Ao vivo.

Fantasma ao volante

Toyota HiLux

Com o dia dos mortos à porta, assombram-nos visões e medos. Como é costume, a publicidade antecipa-se: expandem-se os anúncios macabros. Para a Toyota, os espíritos querem-se ao volante.

Marca: Toyota HiLux. Título: An Unbreakable Connection. Agência: Saatchi & Saatchi (Sydney). Direção: Benji Weinstein. Austrália, setembro 2022.