Tag Archive | pornografia

Paródia pornográfica

Figura 1. Pornhub. Baterade. 2019

O anúncio mais recente da Pornhub, uma empresa multinacional de pornografia, é, assumidamente, uma paródia do anúncio Hilltop da Coca-Cola (1971). Digo paródia para não pensar implante de criatividade alheia. Mudam-se as garrafas e acrescenta-se um ou outro rosto com cio. Até a música é a mesma. Ressalve-se o plano final, que transforma um coro numa colina numa espécie de Land Art pornográfica (ver Figura 1 e Galeria de obras de Robert Smithson).

Marca: Pornhub. Título: Baterade. Agência: Officer & Gentleman. Direcção: David Triviño. Espanha, Abril 2019.
Marca: Coca-Cola. Título: Hilltop. Agência: McCann Erickson. Estados Unidos, 1971.

Galeria: Robert Smithson. Obras de Land Art.

Sexualidade avançada

Auguste Rodin. Mains enlacées. 1908

Auguste Rodin. Mains enlacées. 1908

Sinal de senilidade, repito-me sem parar. A publicidade é omnívora. No limite, tudo pode ser publicitado. No limite, todo anúncio pode ser consumido. Seja qual for o tema e o propósito. Até o que não existe é anunciável, noticiável e profetizável. Por outro lado, tudo, logo nada, pode ser censurado. Não é bem assim! Nada é bem assim… Retomemos a ingenuidade do pensamento lapidar.

Há muito tempo que a humanidade entrou na era da universalização da mercadoria, mercadoria que ostenta as artes mágicas da cadeira de Karl Marx:

Auguste Rodin. Study of a hand, 20th century.

Auguste Rodin. Study of a hand, 20th century.

“Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e em sua cabeça de madeira nascem minhocas
que nos assombram muito mais do que se ela começasse a dançar por vontade própria” Marx, Karl, 1867, O Capital, Livro I, Secção I, Capítulo 1).

A mercadoria e o consumidor nunca mais pararam de dançar.

Estou a travar as palavras porque o anúncio da PornHub, Old School: a Complete Guide to Safe Sex after 65, reveste-se de alguma delicadeza. Aceleremos: se a introdução à sexualidade é importante para as crianças nas escolas, não é menos importante a pós-graduação em sexualidade dos idosos. Uma nova generosidade anda no vento. Nova, não por ser interessada e estratégica. A generosidade sempre foi interessada e estratégica. Nova, porque assumidamente interessada e estratégica. Uma generosidade egoísta. Uma espécie de neo altruísmo com embalagem pós-moderna. Ressalve-se, enfim, que nem tudo é novo na novidade. Por exemplo, a figura do “missionário do sexo” é antiga.

Gostava, um dia, de conhecer a distribuição por sexo e idade dos clientes do guia da “universidade sénior” da PornHub. Os desígnios da publicidade são insondáveis.

Marca: PornHub. Título: Old School: a Complete Guide to Safe Sex after 65. Agência: Officer & Gentleman. Direcção: David Triviño. Estados Unidos, Julho 2017.

 

 

O Chocolate e a Capuchinho Vermelho

Chocolat Lanvin, ca. 1950.

Chocolat Lanvin, ca. 1950. Dali participou num anúncio do chocolate Lanvin.

Nougat Croc by Cometi (1924).

Nougat Croc by Cometi (1924).

Na erótica da alimentação, o chocolate é talvez o alimento em que a gula e a luxúria mais se namoram. Voluptuosamente. Não é de admirar que o desodorizante Axe, a fragrância do arrebatamento libidinoso, associe um produto, Dark Temptation, ao chocolate: “Axe Dark Temptation as irresistible as chocolate”. O anúncio argentino “Hombre Chocolate” não deixa margem para dúvida. Transformado em homem chocolate após uma vaporização Axe, o protagonista é salvo pela duração do anúncio: um minuto. Mais alguns segundos e ficaria eunuco. É este apelo (sex-appeal) do chocolate que convoca, para além do Ambrósio, do anúncio da Ferrero Rocher, figuras tais como o lobo mau e a capuchinho vermelho. Qual é a razão? Bruno Bettelheim propõe uma resposta.

Marca: Axe. Título: Hombre Chocolate. Agência: Vega Olmos Ponce. Direção: Tom Kuntz. Argentina, 2007.

Reproduction of a Poster Advertising Menier Chocolate, 1893

Reproduction of a Poster Advertising Menier Chocolate, 1893 (?)

Print Chocolat Fondant Kolher. By John Onwy 1930

Print Chocolat Fondant Kolher. By John Onwy 1930

 

Pornografia alimentar

Marks & Spencer Foodies

A estetização da alimentação é antiga, mas tem vindo a requintar-se, incluindo na publicidade, como se pode comprovar nos seguintes exemplos: Comer com os olhos, Comer com os olhos / Os alimentos em Arcimboldo  e A roda dos alimentos.

O Mirror online, de 1 de Setembro, classifica o excelente anúncio da Marks & Spencer como pornografia alimentar (food porn). As declarações do responsável pelo marketing da M&S não apontam noutro sentido:

“Over the last decade, consumers’ culinary tastes have become more adventurous and Britain’s love affair with food has really ignited (…)It brings to life the hundreds of new ideas we have in our food halls every month by showcasing the sensual and surprising aspects of food – like its textures and movement – in a modern, stylish and precision format”.

Marca: M & S. Título: Adventure in imagination. Agência: RKCR/Y&R. Direção: Philippe Lhomme. UK, Setembro 2014.

Para além de estética da alimentação, pode falar-se em erótica da alimentação, como no caso do artigo A culinária do orgasmo. O teor dos anúncios justifica-o. Por sinal, há dez anos, um anúncio russo foi rotulado como striptease de frutas. Uma versão de  Arcimboldo animada e impertinente.

Enfim, sabendo que a gula e a luxúria sempre andaram associadas, falar em erótica da alimentação não é surpreendente.

Marca: Megapack. Título: Naughty Fruits. Agência: Immedia Holding. Direção: Roman Starikov. Rússia, 2004.

O pneu, a pornografia e a liberdade

7 Up

A 7 Up encontrou uma alternativa às pin ups dos calendários Pirelli: os camionistas. Uma paródia. Em 2002, a desinibição respirava outros ares. Menos filtrados. Comprova-se a onda neste e noutros anúncios. Entretanto, parece ter-se instalado uma nuvem de puritanismo pós-moderno. Pergunto-me se, para além das contas públicas, não está a aumentar o défice da liberdade quotidiana. De directiva em directiva, de rectificação em rectificação, de salvaguarda em salvaguarda, acabamos mais dirigidos e mais correctos. Acabamos tolhidos. Tolhidos…

Marca: 7 Up. Título: Calendar. Agência: Young & Rubican. USA, 2002.