Tag Archive | Político

Morte, erotismo e política (revisto)

 

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

01. Jean-Michel Basqjuiat. Riding with Death. 1988.

Riding With Death, de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), é uma pintura que surpreende. Foi concluída em 1988, ano em que Basquiat faleceu, com 27 anos de idade, vítima de uma overdose de uma mistura de cocaína e heroína. Muitos encaram esta pintura como uma premonição. Mas quase toda a obra de Basquiat convoca a morte: esqueletos, caveiras, corpos transparentes, frases… Entre as imagens da morte, não tenho memória de uma “figura humana”, eventualmente híbrida, a cavalgar a morte. São, aliás, raras as imagens em que a morte aparece subordinada, como no episódio da descida de Cristo ao inferno (ver O Triunfo sobre a Morte).

Quem conduz? O título do quadro não é “Riding Death”, cavalgando a morte, mas Riding With Death, cavalgando com a morte. Estes cambiantes lembram duas lendas. Na primeira, conduz quem é montado. É o caso do rapto de Europa por Zeus, transformado em touro. Europa senta-se no dorso do touro que a sequestra ( ver O rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor). Na segunda lenda, com Filis e Aristóteles, conduz quem monta.

Alexandre O Grande andava perdido de amores por Fílis, uma bela mulher proveniente da Índia. Ao ponto de descurar as responsabilidades e o governo do império. Aristóteles, tutor de Alexandre, chamou-o à razão: devia moderar os seus encontros com Fílis. Alexandre acedeu ao pedido de Aristóteles.

Fílis não gostou da interferência de Aristóteles. Decidiu, com êxito, seduzi-lo. É a vez de Aristóteles andar perdido de amores por Fílis.

06. Filis e Aristóteles., Cadouin Abbey, França

06. Filis e Aristóteles., Cadouin Abbey, França. Fim do séc. XV – início do séc. XVI.

Um dia, Fílis propõe a Aristóteles: “dou-te o meu corpo, mas, primeiro, acedes que ande montada nas tuas costas”, segundo algumas imagens, com rédeas, chicote e esporas (ver Figura 9). Alexandre, avisado, assistiu à cena. Quis expulsar Aristóteles. Mas, em verdade, só agora a lição se perfazia: se até um velho sábio não resiste ao encanto de uma mulher, que esperar de um jovem rei”.

A imagem de Fílis a montar Aristóteles, com trejeitos de sadomasoquismo, tornou-se célebre, em particular, na Idade Média e, sobretudo, no chamado Renascimento do Norte. De qualquer modo, esta lenda comporta uma lição claramente expressa: o erótico desafia o sábio e o político.

09. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Para além das rédeas, Filis usa esporas.

09. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Para além das rédeas, Filis usa esporas.

Um último apontamento sobre a Farsa de Inês Pereira (1523), de Gil Vicente. Inspirada na máxima “mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, a farsa termina com o segundo marido a carregar às costas Inês Pereira para a levar até ao amante, o Ermitão. “Pois assi se fazem as cousas” ( ver pdf: Gil Vicente. Farsa de Inês Pereira. Parte final).

Que língua falam os santos?

Peneda Escadório

Santuário da Senhora da Peneda. Escadório e templo.

Ontem, 6 de Agosto, fiz uma comunicação sobre a fronteira no âmbito do evento Filmes do Homem, organizado pela câmara municipal de Melgaço e pela Associação Ao Norte. No magnífico auditório da Porta de Lamas de Mouro, cerca de uma centena de pessoas, a maioria estrangeiras e profissionais do audiovisual.

Como se compreendia que a romaria da Senhora da Peneda, sendo em território português, tenha, desde tempos imemoriais, tantos peregrinos galegos? Esta adquire ainda mais oportunidade quanto no catálogo dos Filmes do Homem escrevo um artigo sobre a festa.

Filmes do Homem. Lamas de Mouro. 06.08.2017

Filmes do Homem. Lamas de Mouro. 06.08.2017

A geografia do sagrado pode não coincidir com a geografia política. São duas arquitecturas distintas de construir o mundo. É certo que quem desenha fronteiras políticas pretende outorgar-lhes uma aura sagrada:

Regere fines, o acto que consiste a “traçar por linhas direitas as fronteiras”, a separar o “interior e o exterior, o reino do sagrado e o reino do profano, o território nacional e o território estrangeiro”, é um acto religioso realizado pela personagem investida da mais alta autoridade, o rex, encarregado de regere sacra” (Bourdieu, Pierre, 1980,  “L’identité et la représentation”, In: Actes de la recherche en sciences sociales, Vol. 35, Nov. 1980, pp. 63-72, p. 65).

Filmes do Homem. Lamas de Mouro. 06.08. 2017

Filmes do Homem. Lamas de Mouro. 06.08. 2017

A Igreja também desenha fronteiras, a começar pelas paróquias cujo traçado nem sempre coincide com o das freguesias. Os lugares sagrados têm fronteiras. Os romeiros que chegam ao escadório da Senhora da Peneda sabem e sentem que têm que moderar o comportamento. Há gestos e palavras que devem ficar para trás. A contenção reforça-se com a aproximação ao templo. O sagrado tem fronteiras, que têm sido motivo de conflito, por exemplo, com as comissões das festas. Por finais dos anos vinte, a Igreja, incomodada com as cenas de paganismo sob os olhos dos santos, adoptou uma série de interdições relativas aos locais de culto.

A geografia religiosa e a geografia política são distintas. Os fenómenos religiosos podem combinar uma ancoragem local e uma irradiação, em último caso, global. Atente-se nas peregrinações a Santiago de Compostela, a Lourdes, a Meca e a Fátima. Os pés dos peregrinos pisam fronteiras. A devoção não tem ceptro, nem centro, nem pouso fixo. O que move os romeiros é a fé. Deslocam-se no seu território, o território do sagrado. Uma fronteira política representa, quando muito, uma adversidade suplementar na narrativa dos sacrifícios.

Estas frases são como ossos de um esqueleto. Convém acrescentar um pouco de carne. Algo como uma conversa que não significa nada mas perdura na memória.

Iglesia Santa Maria la Real de Entrimo

Igreja Santa Maria La Real, em Entrimo (Ourense).

José Pinto (Os santos esperam mas não perdoam… Um estudo sobre a romaria da Peneda, 2002, ed. do autor) relata o testemunho de uma devota. Tem em casa uma imagem da Senhora da Peneda. Fala com ela e, por vezes, garante que a santa lhe responde. Quero acreditar que, se fosse em Entrimo, na Galiza, a Senhora da Peneda responderia na mesma, mas, não admiraria, em galego, a língua de S. Rosendo.

Seguem os links par a página dos Filmes do Homem (http://www.filmesdohomem.pt/) e para o catálogo deste ano (http://www.filmesdohomem.pt/doc/fdh2017.pdf). Para terminar, o Ave Mundi, de Rodrigo Leão e o Games Without Frontiers, do Peter Gabriel.

Rodrigo Leão. Ave Mundi. Ave Mundi Luminar. 1993.

Peter Gabriel. Games Without Frontiers. 1980.