Sede de vencer

O anúncio da Vitalis propõe-se homenagear os paralímpicos portugueses adoptando uma retórica de superação física.
“O vídeo é um manifesto sobre motivação, superação, empenho e trabalho árduo, retratado pela força e garra dos vários atletas paralímpicos da delegação portuguesa, que participam no filme.”
“E tu tens sede de quê?” Do resto. De outras águas, menos agonísticas. Será inevitável a sede, sofrida, de vencer? A propósito dos jogos olímpicos da Antiguidade, Norbert Elias falava em “ética do guerreiro”.
Boa voz, boa imagem, belo anúncio!
Marca: Vitalis. Título: E tu tens sede de quê? Agência: Havas. Direcção: Pedro Pinto. Portugal, Setembro 2016.
Super-humanos
“O indivíduo estigmatizado pode, também, tentar corrigir a sua condição de maneira indireta, dedicando um grande esforço individual ao domínio de áreas de atividade consideradas, geralmente, como fechadas, por motivos físicos e circunstanciais, a pessoas com o seu defeito. Isso é ilustrado pelo aleijado que aprende ou reaprende a nadar, montar, jogar tênis ou pilotar aviões, ou pelo cego que se torna perito em esquiar ou em escalar montanhas” (Erving Goffman, Estigma, 1963).
Há várias formas de lidar com o estigma. Por exemplo, ultrapassar os limites. O indivíduo estigmatizado, portador de deficiência, excede-se num gesto que o aproxima do estatuto de um herói ou de um semideus. É uma forma não vitimizadora de lidar com o estigma.
O anúncio, excelente, da Channel 4, para os Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, convoca atletas, músicos e artistas que superam as suas próprias limitações: We’re the Superhumans. O anúncio apresenta seres humanos extraordinários. Recuando no tempo, insinuam-se os fantasmas dos circos e das galerias dos séculos XIX e XX. Atente-se, por exemplo, no filme O Homem Elefante (1980), de David Lynch, inspirado no caso de Joseph Merrick (1866-1890). De deriva em deriva, o anúncio aproxima-se de uma galeria da era digital.
Marca: Channel 4. Título: We’re the Superhumans. Agência: Channel 4 Blink Productions. Direcção: Dougal Winson. UK, Julho 2016.
Estigma. Desporto e missão
O Comité Paralímpico de Portugal compara, no anúncio The Most Difficult Sport, o lançamento de uma bola de basquetebol de um jogador profissional e de um atleta paralímpico. Atendendo às diferenças, a performance do atleta paralímpico ultrapassa a performance do jogador profissional.
Anunciante: Portuguese Paralympic Committee. Título: The Most Difficult Sport. Agência: FCB Lisbon. Direcção: Mário Patrocínio. Portugal, Maio 2016.

Atletas paralímpicos de SCB com o meu terceiro rapaz, que está no Qatar. Somos um país pequeno para tanta gente tão grande. Uns têm pernas para sair e outros um apetite sem limites.
A superação, ser melhor do que os “normais”, surge como um desafio para os “estigmatizados” e respectivas associações. O objectivo é ambivalente e, eventualmente, perverso. Ambivalente porque tanto pode mobilizar como desmobilizar. Perverso porque o reforço identitário corre o risco de reverter em obsessão e alienação.
Segue um excerto do livro Estigma em que Erving Goffman aborda algumas destas questões.


