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Somente em ser mudável tem firmeza

Rapto de Europa. Pompeia. Casa di Giasone.

Rapto de Europa. Pompeia. Casa di Giasone.

Esta noite sonhei com as Metamorfoses de Ovídio: Io a transformar-se em novilha, Aracne em aranha, Procne e Filomena em aves, Byblis em fonte, Cila em monstros e Dafne em loureiro. La Donna è Mobile (a mulher é volúvel) é uma das árias mais populares da história da música (Verdi, Rigoletto, 1851). Três séculos antes, Camões antecipa esta ideia no soneto Somente em Ser Mudável Tem Firmeza, que termina com os seguintes versos:

«Nunca ponha ninguém sua esperança
em peito feminil, que de Natura
somente em ser mudável tem firmeza».

O anúncio da 3 Suisses, de 1991, retoma o refrão: “É fascinante quanto uma mulher pode mudar quando se muda” (“c’est fascinant comme une femme peut changer quand elle se change”). O tema viria a ser adoptado, anos mais tarde, com outra estética, por Bruno Aveillan (http://tendimag.com/2013/08/10/palavras-com-imagens/).

Marca: 3 Suisses. Título: La voiture. Agência: BDDP. Direcção: Bertrand Blier. França, 1991.

Que fazer perante tamanha inconstância? Seria fácil caso Deus tivesse dotado os homens com bons descodificadores. Antes pelo contrário, em quase todos os sistemas simbólicos, cabe ao homem a linearidade focalizada. As curvas panorâmicas são, pelos vistos, apanágio feminino.

Quem abraçar? Um tronco de árvore ou um “peito feminil”? O “repouso” estável ou o “ardor” inseguro?

William-Adolphe Bouguereau. Biblis (1884)

William-Adolphe Bouguereau. Biblis (1884)

Luís de Camões:

Todo animal da calma repousava,
Hilário o ardor dela não sentia,
que o repouso do fogo em que ele ardia
consistia na Ninfa que buscava.

Os montes parecia que abalava
o doce som das mágoas que dizia;
mas nada o duro peito comovia,
que na vontade d”outrem posto estava.

Cansado já de andar pela espessura,
no tronco de uma faia, por lembrança,
escreve estas palavras de tristeza:

«Nunca ponha ninguém sua esperança
em peito feminil, que de Natura
somente em ser mudável tem firmeza».

Kit mitológico

Eis-me regressado de duas mostras do intelecto na luminosa Lisboa. Já sentia saudades de deitar o cérebro nos lençóis do ecrã.

A animação dos objectos é uma tentação ancestral. Atestam-no As Metamorfoses de Ovídio (43 a.C./17 d.C.) ou o Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos de E.T.A. Hoffmann (1776 – 1822). Pedras, bonecos, árvores, utensílios, tudo pode ganhar vida com o sopro da imaginação. No anúncio “hummingbird”, um minúsculo pássaro metálico voa caprichosamente até encontrar a alma gémea: uma majestade mecânica denominada Audi.

Anunciante: Audi. Título: Hummingbird. Agência: BBH, UK. Direcção: Daniel Barber. Reino Unido, Setembro 2011.

Quem diz mitologia, diz Grécia. E grego é o anúncio “A Night at the Store” (uma paródia de Night at the Museum) composto por uma animação (libertação temporária) de objectos, muito ao gosto dos contos de E.T.A. Hoffmann.

Anunciante: Wind Telecommunications. Título: A Night at the Store. Agência: Leo Burnett, Athens, Greece. Direcção: Matthias Zentner. Grécia, Setembro 2011.

De têmpera divina, são os hamburgers Carl’s Jr, amassados pela fúria dos deuses e devorados por amazonas, nãomáquinas, desejantes.

Nestes tempos em que os homens e as mulheres ainda são seres humanos, a mitologia e a fantasia portam-se ambas bem. Palavra de Roland Barthes.

Anunciante: Carl’s Jr. Título: Hamblor, God of Hamburgers. Agência: David&Goliath, USA. Direcção: Guy Shelmerdine. EUA, Setembro 2011.