Vacinas e chaves

Resulta cada vez mais difícil discernir o que provém da Inteligência Artificial. Na verdade, a “extensão do humano” não para! Antes, acelera. Que não se frature ou estampe. Por enquanto, o “demasiado humano”, as emoções e o delírio continuam de vento em popa, com as bombas a abafar cada vez mais as palmas.

O desenvolvimento da lA incentiva a busca de redutos e vacinas. A World oferece-se como uma plataforma que visa “criar provas de personalidade à escala global, proteger a identidade humana e expandir o acesso a um ecossistema que preserva a privacidade”.
Rostos gerados com recurso à IA a partir de obras de Otto Dix
Segue o anúncio “Human And You Know It”, da World, que retoma a canção tradicional “If you’re happy and you know it”.
Pandemónio

“Quando morrer vou para o paraíso porque já tive o meu tempo de inferno” (Stephen King, Rose Madder, 1995).
Na Idade Média, o inferno morava ao lado. Os seres humanos viviam rodeados de demónios, bruxas e possessos. Sentia-se o bafo de Satanás. Mas, por temíveis que fossem as incursões do diabo, o inferno pertencia a outro mundo. Normalmente, à direita nos painéis de Hieronymus Bosch; em baixo, também à direita, nas pinturas do juízo final.

Quando Jean-Paul Sartre afirma que “o inferno são os outros” altera a geografia do mal. O inferno está perto, está à nossa volta. Os quadros e as gravuras de Francisco de Goya já o evidenciavam. Há mais de dois séculos! Sejamos, porém, mais radicais. Basta um sobressalto de reflexividade: o inferno não são apenas os outros; o inferno somos nós. Os demónios, também. As pinturas de Otto Dix exprimem esta condição. Andamos todos estropiados porque nos estropiamos uns aos outros.

Máscaras de gás
Somos animais simbólicos (Ernst Cassirer). Os únicos animais simbólicos. Há símbolos e símbolos. Poucos estão tão associados à morte como a caveira e a máscara de gás: a caveira por dentro da pele; a máscara de gás por fora.
O anúncio Poisoned Playgrounds, da ClientEarth, lembra duas gravuras de Otto Dix, pintor expressionista veterano da I Guerra Mundial (ver diapositivos). Lembra, também, o vídeo musical Goodbye Blue Sky, dos Pink Floyd (The Wall, álbum: 1979; filme: 1982) e a capa do álbum Messin, dos Manfred Mann’s Earth Band (1973). O anúncio é duro, sem transigências. O problema da poluição do ar também é duro e com consequências. A poluição atmosférica não tem voz, nem rosto, como a máscara de gás.
Anunciante: ClientEarth. Título: Poisoned Playgrounds. Agência: BMB London. Reino Unido, Setembro 2017.
Pink Floyd. Goodbye Blue Sky. The Wall. 1982
Lembrar faz bem à memória
Na adolescência, quando estava a ler um livro e encontrava coisas que já sabia, ficava contente. Era sinal que já sabia. Hoje, quando leio um livro e encontro coisas que já sei, fico descontente. É sinal que não estou a aprender (Albertino Gonçalves).
A vaga terrorista actual parece sem precedentes. Mas tem precedentes. O artigo O ataque terrorista mais mortífero em Paris desde 1944, da RTP, de 07 de Janeiro de 2015, tem o condão de refrescar a memória no que respeita à França: Desde a Segunda Guerra Mundial, Paris nunca deixou de ser alvo de atentados mortíferos por parte de grupos terroristas nacionais e internacionais. Residi em Paris nos anos setenta. Uma cidade sob ameaça terrorista. Os alertas e as evacuações eram constantes.

Otto Dix. Ferido de Guerra. 1922.
Nos anos setenta, vários países debateram-se com a actividade de grupos terroristas internos: o grupo Baader-Meinhof na Alemanha, país palco do massacre de Munique de 1972; a ETA na Espanha (mais de mil pessoas mortas); as Brigate Rosse na Itália (recorde-se o assassinato de Aldo Moro) e o IRA no Reino Unido (acima de 3 500 mortes). Em Portugal, houve vítimas, não sei se houve autores. É verdade que, hoje, temos estados terroristas, mas nos anos setenta existiam estados que apoiavam declaradamente o terrorismo, por exemplo, a Líbia. Recorrendo a um pleonasmo, o terrorismo é aterrador e alcançou uma dimensão inédita. Mas não nasceu ontem. Com a História, nunca estamos sós. Nestes tempos orgulhosamente únicos, um pouco de História é um consolo.
Alguns autores marxistas, tais como Lukacs, Goldmann, Gabel ou Kosik, criticam a atrofia da consciência histórica. A falta de horizontes históricos conduz, segundo eles, a uma espacialização do pensamento, a uma reificação. Em termos mais simples, a um empobrecimento do espírito e da realidade.
Modern Monsters, da Amnesty International, é um excelente anúncio português, premiado no estrangeiro. Normalmente, o texto vem a propósito do vídeo. Neste artigo, o vídeo e as imagens colam-se, tenebrosas, ao texto. Nada condiz com nada. É uma extravagância.
Anunciante: Amnesty International. Título: Modern Monsters. Agência: W Portugal. Portugal, 2007.








