Re:ZERO

Encontro-me diariamente com o meu filho Fernando. Costumamos partilhar as nossas atividades. Ontem, conversámos sobre uma comunicação que vai apresentar sobre o anime Re:ZERO − Starting Life in Another World. Entre os excertos que me mostrou, o episódio 47 da segunda temporada. Os anime oferecem-se como um dos géneros mais caraterísticos do fantástico contemporâneo. Representam uma das modalidades mais propagadas da denominada “orientalização do Ocidente”.
Flamengo japonês
A influência da cultura oriental no Ocidente é antiga. Declaradamente assumida pelos românticos do século XIX, precede as missões dos jesuítas portugueses no Japão do século XVI. Aproximadamente a partir dos anos sessenta, a “orientalização do Ocidente” resulta cada vez mais estudada e teorizada no âmbito das Ciências Sociais.
Por seu turno, o movimento inverso, a “ocidentalização do Oriente”, acentua-se e acelera-se nas décadas mais recentes. Em várias vertentes, entre as quais a música, mormente em segmentos mais abrangentes com vocação global, como a pop e o rock. O rock coreano (K-rock) representa uma boa ilustração. Mas esta repercussão observa-se, também, embora mais discreta, em géneros mais específicos e localizados, tais como o tango, o flamengo e o fado. Reservo para este último os próximos artigos. Neste, o foco incide sobre o flamengo adaptado e interpretado em japonês por Noriko Martín. Um híbrido de espantar!
Agradeço aos ventos que, hoje, sopraram novidades, não do Sudeste vimaranense, mas do Norte galego.
David Sylvian, Japan e os anime

Orientalização do Ocidente? A questão já se colocava, há meio século, a Fernando Namora (ver https://tendimag.com/2022/01/23/estamos-no-vento/). O entusiasmo pelos manga e pelos anime constitui um dos sinais. Continuo, no entanto, desde os anos setenta, a estranhá-los. Estou em crer que, no meu caso, a orientalização do ocidente tenha revertido numa oxidação da razão com a respetiva camada de ferrugem. Mas admito que a explicação mais plausível remete para a falta de exposição: quem não prova, não entranha.
Constato, contudo, que os anime, dignos de culto, evidenciam qualidade, criatividade e recursos. E aproveitaram a pausa da pandemia. A nova temporada do anime Golden Kamuy oferece-se como exemplo.
David Sylvian, e o grupo Japan (1974-1982), tornaram-se, ajudados pelo nome, particularmente populares no Japão. Adotadas pelos anime, algumas das suas músicas viram a audiência disparar. É o caso da canção For The Love Of Life, tema final do anime Monster. Acrescento Ghosts; condiz com a conversa que vou dedicar às “coisas do outro mundo” (Melgaço, 21 de outubro).
Estamos no vento

Fluxos e refluxos, eventualmente, alterados. De onde sopram os ventos? Do Oeste? Do Leste? Os seguintes anúncios provenientes de quatro países (Tailândia, Índia, Malásia e China) dão que pensar.
Em Window with view, da SCG Home, a ilusão publicitária externa é substituída pela interioridade do lar; em It’s time to change the equation, da Olay, a desigualdade de género não remete para uma falocracia abstrata mas para a proximidade experiencial comunitária, tendo como agentes o pai, a mãe, os vizinhos, o amigo, a professora, o funcionário; em A spark for change, do RHB Bank, a redenção ecológica de uma civilização incivil não é fruto de uma qualquer organização global mas da soma mimética de um impulso infantil, espontâneo, puro e inocente; e em Meet the OnePlus Buds Z2, da OnePlus, a ficção ocidental à James Bond é parodiada com uma sobrecarga de motivos absurdos e grotescos.
Assistimos a uma ocidentalização do oriente ou a uma orientalização do ocidente? Há quem sustente que o tempo é de orientalização. É plausível. Certo é que, de um ou de outro quadrante, estamos no vento, vento que sopra hoje o amanhã emergente.
Estamos no vento: narrativa literário-sociológica (1974) é o título de um livro de Fernando Namora dedicado às transformações e aos novos movimentos sociais, em particular juvenis, que desafiam o Ocidente. Esta obra, que se propõe sentir a pulsação da sociedade contemporânea, inspirou a minha vocação. Um legado e uma memória que se me afigura não vibrar o suficiente no rodopio da paisagem intelectual portuguesa atual. Pelo menos, vista de onde estou, do meu inconformado miradouro. Representa, porém, uma abordagem lúcida, atenta à mudança, uma brisa de frescura na crista da história.
“A sociedade ocidental está em crise: crise de crescimento, crise de adaptação. As velhas estruturas não suportam já uma mentalidade que, partindo da juventude, dia a dia se impõe e generaliza” (Fernando Namora. Estamos no vento, 1974, da capa do livro).
Regressando ao tema inicial, Fernando Namora releva, há quase meio século, a tendência de “orientalização do Ocidente”. Leia-se, por exemplo, o que escreve na página 190:

