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Sociologia sem palavras 23. Rituais.

William_Blake. The Night of Enitharmon's Joy, 1795. Blake's.

William Blake. The Night of Eritharmon’s Joy. 1795.

Os rituais são fenómenos sociais de extrema importância. Objectiva e subjectivamente (cf., por exemplo, James George Frazer, The Golden Bough, 1911-1915: Marcel Mauss, Oeuvres, 1968-1969; Mary Douglas, Pure and Danger, 1966; Victor Turner, The Forest of Symbols, 1967; ou Jean Cazeneuve, Sociologie du Rite, 1971). Uma mão cheia de referências, sem valor acrescentado… Lamentavelmente, no que respeita às referências, quantas mais, menos! Esqueci Van Gennep, Evans-Pritchard, Malinowski, Ruth Benedict, Margareth Mead, Gregory Bateson, Edward T. Hall, Georges Condominas, Erving Goffman, Pierre Bourdieu… Esqueci, no mínimo, dezenas de bibliotecas. Paradoxalmente, quantas menos refiro, menos esqueço. Como é belo e tentador não referir. A “vertigem das listas” bibliográficas é um risco. Confessionário e penitências à parte, quem não quero esquecer é o tão esquecido Claude Lévi-Strauss.

Ritos e Mitos. A opinião de Claude Lévi-Stauss. Terre Humaine. RTBF. 07.03.1969. Excerto.

A parte final do filme Nostalgia (1983), de Andrei Tarkovski, alonga-se sobre um ritual. Promessa sacrificial, incerteza e purificação. A travessia de uma piscina vazia com uma vela acesa na mão. Apagada a vela, recomeça o percurso, solitário, de devoção e purificação. A missão, a fé e a entrega não são meramente individuais. A prova está carregada de símbolos. O simbólico religa. O ritual está ancorado no colectivo, mobiliza o colectivo e destina-se ao colectivo. A purificação e a redenção relevam da comunhão, eventualmente uma solidão comunitária (ver https://wordpress.com/stats/day/tendimag.com). Cada passo na piscina é uma incógnita. Tanto pode aproximar do fim como do início. Cada passo representa um nada necessário ao todo. A vela é uma chama, um chamamento. Sem chama, não há destino, nem caminho. Como diria Lucien Goldmann (Dieu Caché, 1955), os deuses permanecem mudos. Não falam, e nós não os sabemos ouvir. Uma tragédia em sentido duplo.

nostalghia

Andrei Tarkovski. Nostalgia. 1983.

O protagonista do filme avança com uma vela acesa numa piscina vazia. Pisa charcos de água. A piscina vazia forma um recipiente, uma cavidade. Quanto à água, sobressai como um dos principais símbolos da humanidade. Apenas um apontamento alheio: “As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Estes três temas encontram-se nas tradições mais antigas e formam as combinações mais variadas, ao mesmo tempo que as mais coerentes” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, 1969). Em termos simbólicos, a vela e a água interligam-se. A piscina forma uma cavidade. Três lugares e elementos de fecundidade e regeneração… Acode-me uma súbita e passageira alergia à semiótica. A vela, a água e a piscina ainda acabam por me levar para além da Índia, e não quero. Não querem tomar conta do leme e prosseguir a navegação? Alguns autores podem soprar nas velas: Gaston Bachelard, L’Eau et les Rêves, 1941; Gilbert Durand, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, 1960; e Georges Vigarello, Le Propre et le Sale, 1987. Os filmes de Tarkovski são autênticos “bancos de símbolos”. Mas, por hoje, basta de escavação semiótica.

Andrei Tarkovski. Nostalgia. 1983. Excerto. Versão original.

Velas

Nostalgia_poster_goldposter_com_4.jpg@0o_0l_800w_80qVisitar relíquias faz bem à identidade. Andrei Tarkovski é um realizador de culto. Um Tarkovski é um Tarkovski. Mas há quem o desconheça e ainda menos o admire. Quem quer sentir a repetição lenta da tragédia da vida? Porquê convocar Tarkovski? Porquê ser um grande eco quando podemos ser um pequeno grito? Neste excerto final do filme Nostalgia (1983), um homem cumpre uma promessa: a travessia de uma piscina vazia com uma vela acesa. Um gesto sacrificial que lembra Sísifo. Um ritual de purificação contagiosa que a vela representa. Sobre a vela como símbolo de purificação, Paulo VI dizia:

“A vela simboliza a pura e primitiva fonte em que se devem iluminar as religiosas. Pela sua rectidão e doçura, ela é a imagem da inocência e da pureza (…) A vela é, enfim, destinada a consumir-se em silêncio, tal como a vossa vida se consume no drama, contanto inevitável do vosso coração consagrado” (Paulo VI, 2 de Fevereiro de 1973, in Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, 1969).

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Lisa Gerrard.

A vela é um símbolo nuclear na obra de Tarkovski. Recordo o filme Espelho (1975): pousada sobre a mesa da cozinha, uma vela pontua o tempo e a vida.
Lisa Gerrard é Lisa Gerrard. Antes e depois dos Dead Can Dance, antes e depois do Gladiador (2000). Uma voz e um modo de cantar únicos. Alguém se lembrou de fazer bricolage. Extraiu o episódio da piscina e da vela, do filme Nostalgia, de Tarkovski, retirou o som original e substituiu-o pela canção Adrift de Lisa Gerrard (álbum Twilight Kingdom, 2014). O resultado é, no mínimo, interessante.

Antrei Tarkovski, Nostalgia (excerto), 1983 / Lisa Gerrard, Adrift, Twilight Kingdom, 2014.