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A Procissão da Burrinha

Procissão de Nossa Senhora da Burrinha – Braga,

“Vá até onde puder ver; quando lá chegar poderá ver ainda mais longe” (Goethe). Ver longe é uma vontade e um privilégio. Assim o estima Goethe mais as resmas de anões montados nos ombros dos gigantes. Gosto de ver as maravilhas onde elas estão: ora perto, ora longe. Richard Hoggart quase não teve que sair de casa para escrever The Uses of Literacy. Aspects of Working-Class Life with Special Reference to Publications and Entertainments (1957), um clássico da Sociologia. Quando enxergo maravilhas longe, fico encantado; quando ignoro maravilhas perto, não me perdoo.

Procissão da Burrinha. Braga TV.

A Procissão da Burrinha, na freguesia de S. Victor, em Braga, não podia ser mais próxima. Desde 1992, o número de figurantes, participantes, assistentes e turistas não para de crescer. Um sucesso que é um misto de religião oficial e religiosidade popular. A origem remonta aos anos 1870. Conheceu, entretanto, altos e baixos. Teve longos períodos de interrupção. Os motivos, os quadros e os figurantes mudaram ao longo do tempo. Outrora, em Julho, a procissão era dedicada às dores de Nossa Senhora, agora, inserida na Semana Santa, versa sobre o “Cortejo Bíblico Vós sereis o meu povo”. Até o SNI, órgão de propaganda do Estado Novo, pugnou, nos anos sessenta, pela renovação da Procissão da Burrinha. Ressalve-se, porém, que a partir do momento em que a imagem de Nossa Senhora do Egipto (a Senhora da Burrinha) se juntou, na procissão, à imagem de Nossa Senhora das Angústias, o núcleo duro permaneceu intacto: Nossa Senhora montada numa “jumentinha”, com o menino Jesus ao colo e São José a conduzir. Acrescenta-se um pormenor raro: Nossa Senhora porta um chapéu. Para se resguardar da inclemência solar durante a “fugida” para o Egipto? Por uma contingência local: quem organizava a procissão era a Irmandade de S. Tiago. “Esta corporação era constituída essencialmente pelos fabricantes de chapéus, os sombreireiros, que chegou a ser o mais importante ofício praticado na cidade de Braga” (Ferreira, Rui, 2007, Procissão da Burrinha, Braga, Junta de Freguesia de S. Victor). Nem tudo o que é divino cai dos céus.

Milhares nas ruas de Braga para aclamar a Procissão da Burrinha. Braga TV.

A imagem de Nossa Senhora, com chapéu, montada, o menino ao colo, avança numa burrinha conduzida por S. José (um figurante). Este é o coração da procissão. Rodeado e acompanhado por um mar de gente. Acontece estar perto o que não se encontra longe!

Preserve-se o nome “Nossa Senhora da Burrinha”, mais eloquente do que “Nossa Senhora das Angústias” ou “Nossa Senhora do Chapéu!

Procissão da Burrinha. Braga. Press Minho.

As informações constantes neste artigo provêm do livro Procissão da Burrinha, da autoria de Rui Ferreira. Apoia-se, ainda, num estudo, de que fui tutor, protagonizado por um grupo de alunos do curso de licenciatura em Sociologia da Universidade do Minho: Memória e Significado: O Caso da “Procissão da Burrinha”, por Ana Pereira, Ana Tavares, Daniela Pereira, Eduardo Mó e José Sendão.
A burrinha da procissão lembra o jumentinho do poema A moleirinha, de Guerra Junqueiro (Os Simples, 1892). A mesma humildade, quase a mesma divindade. “Quando a virgem pura foi para o Egipto, / Com certeza ia num burrico assim”.


Guerra Junqueiro. A Moleirinha.


Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!…

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa…
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume…
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume…

Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata…
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!

Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d’outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus…

Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!…
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar…

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d’astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d’oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!