Tag Archive | Normalização

Campanhas de m*rda

Ça sent la mer d’ici (trocadilho francês)

Acontece as novidades chegarem aos molhos. Com os anúncios “La campagne de merde”, “Conquer the First School Poo” e “Le Studio”, temos elementos para iniciar um tratado de coprologia. Abordam temas fecais, desde a prevenção até à libertação, passando pela depuração.

Imagem: Ilustração do livro Gargantua

O texto mais estapafúrdio que conheço nesta matéria é da autoria do François Rabelais: o capítulo XIII da obra Gargântua (1534), intitulado “Como Grandgousier reconheceu a maravilhosa inteligência de Gargântua graças à invenção de um limpa cu”. Cinco páginas de delírio grotesco, cuja leitura pode ser escutada nos dois vídeos que seguem aos anúncios.

Imagem: O pequeno Gargântua segurando com as mãos um limpa cu. Gravura de Gustave Doré

Anunciante: Croque la vie. Título: La campagne de m*rde. Agência: Productman. França, maio 2025
Anunciante: Les Petits Culottés. Título: Le Studio. Agência: Customer Service. França, maio 2025
Anunciante: Andrex. Título: Conquer the First School Poo. Agência: FCB Inferno/London. Direção: Andreas Nilsson. Reino Unido, maio 2025

*****

1 PARTE do Limpa Cu em “Gârgantua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado: 15/11/2021
2 PARTE do Limpa cu em “Gargântua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado em 15/11/2021

Mãos que protegem; mãos que castigam

Mãos exageradas, para orientar o olhar para o Menino e para significar proteção. Virgen con el Niño. Catedral de Nuestra Señora de la Asunción. Valladolid. Meados do séc. XIII.

Moi j’ai les mains sales. Jusqu’aux coudes. Je les ai plongées dans la merde et dans le sang. Et puis après ? Est-ce que tu t’imagines qu’on peut gouverner innocemment ? (Jean-Paul Sartre. Les Mains Sales. Éditions Gallimard. 1948. Pág. 200)

A associação francesa StopVEO Enfance Sans Violences acaba de publicar um anúncio de sensibilização excelente a alertar para a violência de que são vítimas as crianças com a justificação de contribuir para a sua educação. A mão, motivo principal brilhantemente explorado, remete sobretudo para o contato físico. Aguarda-se uma segunda parte que incida sobre a cabeça e a violência psicológica. Evidência que a Stop VEO não ignora:

“L’acronyme « VEO » est la Violence (physique, psychologique ou verbale) utilisée envers les enfants dans une intention Éducative (pour leur « bien », pour qu’ils aient un « bon comportement »), culturellement admise et tolérée, dans tous les lieux et tous les milieux ; elle en devient alors « Ordinaire ».”
“Les conséquences de la VEO sont considérables. Elles constituent une question de santé publique parce qu’elle est encore très largement employée : 85 % des parents reconnaissent avoir recours à la fessée (71,5% à des « petites gifles »). La moitié des enfants sont frappés avant l’âge de 2 ans, et les trois quarts avant l’âge de 5 ans (étude menée par l’OVEO (Observatoire de la violence éducative ordinaire) en 2017)”. (https://stopveo.org/veo-violence-educative-ordinaire/)

Anunciante: StopVEO Enfance Sans Violences. Título: The Legacy. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direção: Cole Webley. França, abril 2024

A regra e a originalidade

René Magritte. Not to be reproduced. 1937

É nos tempos de crise que se toma o pulso às instituições. Um mar de regras inunda as aulas. Espremidas como limões, vertem burocracia por todos os lados. Na linguagem de Max Weber, o professor deixou de ser uma autoridade carismática, como o profeta, e passou a deter um poder de direcção, de pastor, como o árbitro de futebol. O ensino evolui numa arena cercada por um coliseu de normas. Admito que estou a exagerar, mas a hipérbole afirma-se como um excelente artifício de comunicação. Requisitos, regras, plataformas e ferramentas, o que individualiza o ensino?

Entende a intelligentsia orgânica (para cruzar Karl Manheim e Antonio Gramsci) que uma aula ganha em ter um rosto, nem que seja estampado num ecrã. Concordo! Mas ganha em quê? Em aprendizagem? Duvido. Em “hiperritualização” (Erving Goffman)? Talvez. Todos concordamos que a sabedoria mora na testa, sai pela boca e resplandece nos olhos. Um dia, as aulas oscilarão entre o défice de atenção e o excedente de informação. Entre o défice e o excedente, repousa, recatada, a sabedoria. Normalize-se e certifique-se, que a originalidade é um estorvo.

Uma ovelha negra melancólica não resiste à voz “abrasiva” de Tom Waits.

Tom Waits. Cold Cold Ground. Franks Wild Years. 1987.
Tom Waits. Hold On. Mule Variations.1999.