A velha grávida e o riso da morte

O artigo O riso da velha grávida (revisto), colocado em 29 de janeiro de 2023, não surgiu por geração espontânea. Uma primeira versão homónima remonta ao do dia 13 de março de 2016. um intervalo de reincubação de quase sete anos. E ainda não está fechado. Hoje, volvidos três anos, introduzir-lhe-ia bastantes alterações. Mas assinei-o, e continuo a identificar-me com ele.
Imagem: Terracota com Baubo sentada num porco. British Museum.
O riso da velha grávida evidencia alguns defeitos e virtudes de uma forma de pensamento e de um estilo de escrita. Não são uniformes, nem lineares: adotam o desvio e a fragmentação como roteiro e arquitetura. Atardam-se nos detalhes e nas margens para aceder ao todo e ao núcleo. Como os vitrais, convocam uma variedade de pedaços não transparentes que aspriram a configurar-se juntos proporcionando uma nova luz. Pelo meio, esquecem a arte de ir direito ao assunto, de procurar sem se perder e de argumentar sem complicar. Empenham-se em seduzir o interlocutor, mas não ao ponto de lhe facilitar a recepção, um risco de preguiça mental e anestesia criativa.
Ontem, 31 de agosto, os artigos incidiram sobre a música e a publicidade. Hoje, será questão de imagens e pensamentos.
A princesa noiva e a velha grávida

Estou a escrever sobre velhas grávidas impúdicas, de preferência, risonhas [pertence a um conjunto de textos que não dá para publicar no Tendências]. Para compensar a carga grotesca e a penúria de escrita, recorro à músicas, sobretudo, músicas harmoniosas como as compostas por Mark knopfler para filmes dos anos oitenta.
Arvo Pärt. A tentação do grotesco
Regresso a Arvo Pärt, compositor estoniano. O Tendências do Imaginário dedica-lhe um artigo (Arvo Pärt. Sinos hipnóticos), com a seguinte apresentação:
“Hoje não é dia de publicidade, mas de Arvo Pärt, compositor contemporâneo estónio. As suas músicas aparecem em dezenas de filmes. Dizem que é minimalista, ele não acha; dizem que é místico, também não; alguns afiançam que é pós-moderno, não lhe diz nada. A sua música é hipnótica, principalmente por causa do seu método, a tintinabulação, que ele explica do seguinte modo: “Eu trabalho com bem poucos elementos – somente uma ou duas vozes. Construo a partir de um material primitivo – com o acorde perfeito, com uma tonalidade específica. As três notas de um acorde perfeito são como sinos. Por isso lhe chamei tintinabulação” (Arvo Pärt. Sinos hipnóticos: https://wordpress.com/post/tendimag.com/5655).
O artigo Arvo Pärt. Sinos hipnóticos inclui duas músicas: Spiegel im Spiegel (1978) e Summa for Strings (1977). Acrescento uma música mais antiga, Pro et Contra, Concerto para Violoncelo e Orquestra (1966), menos minimalista e sem sinos, um pouco mais grotesca.
Arvo Part. Pro et Contra, Concerto for Violoncello and Orchestra (1966). Belgorod State Symphony Orchestra. Violoncelo: Borislav Strulev. VI International BelgorodMusicFest. 2017.





