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É sempre dia de ser filho

Adriano Correia de Oliveira

Adriano Correia de Oliveira

Duas crianças, surdas ou não, encontram-se. O que dizem uma à outra? “Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada”.

Seguem o anúncio mexicano Gracias Mama, da Nido, e a canção Minha Mãe, de Adriano Correia de Oliveira.

Marca: Nestlé/Nido. Título: Gracias Mama. Agência: McCann México. Direcção: Mario Muñoz. México, Maio 2017.

Adriano Correia de Oliveira. Minha Mãe. Fados de Coimbra II (EP, 1962).

À mexicana!

Sidral mundetÀ mexicana! À portuguesa! À francesa! À americana!… Expressões banais de que desconfio. Individualizam o colectivo, atribuem-lhe propriedades de pessoas, criam figuras que se reificam como almas cristalizadas. Transformam o plural polifónico em unidade monológica. Estas fantasias identitárias não são neutras. São interessadas. Não é fácil despir estas fardas simbólicas. O anúncio A la Mexicana, de Sidral Mundet, tem condão de, ao assumir uma inversão de valores, evidenciar a ambiguidade do todo e a arbitrariedade das partes. A expressão a la mexicana, habitualmente negativa, é, nesta campanha, virada do avesso. Enfatizam-se, agora, os sucessos e respectivos embaixadores. O objectivo consiste em mobilizar pro-activamente os mexicanos.

Marca: Sidral Mundet. Título: #alamexicana. Agência: Onlyif. México, Março 2016.

Marca: Sidral Mundet. Título: A la mexicana. Agência: Onlyif. México, Junho 2017.

Lançamento Sidral Mundet “A La Mexicana”. Junho 2017.

Liberdade excêntrica

Liberté sol

O anúncio mexicano “Vamos a hablar”, da Cerveza Sol”, é um despertador de vontades. Atropelam-se imagens e palavras, ao som de um ritmo heróico. A inversão dos preconceitos e dos chavões desenha um espaço de liberdade. Ser livre é ser diferente? “Um bicho raro”. Mas os outros existem! Não param de contar, avaliar e constranger. Será a excentricidade, e, de algum modo, a solidão, a condição da liberdade? Somos livres sem os outros? Livres de quê? Vem-me à memória, a contracorrente, uma frase de André Malraux (Les chaînes qu’on abat, 1971): “A liberdade consiste em poder escolher as cadeias”. O anúncio “Vamos a hablar” é romântico. Nada de estranho. Observa-se alguma reincidência romântica na pós-modernidade.

Este anúncio lembra-me várias canções dedicadas à liberdade. “Libre” (1972), de Nino Bravo, é uma canção que alcançou um enorme sucesso nos anos setenta. Enferrujou com os anos. Mesmo assim, num único site ultrapassa 5 milhões de visualizações. Nino Bravo faleceu, com 28 anos, vítima de um acidente rodoviário.

Marca: Cerveza Sol. Título: Vamos a hablar. Agência: Talent Comunicação e Planejamento Lda. Direcção: Cisma. México, 2016-2017.

Nino Bravo. Libre. Mi Tierra. 1972.

Apodrecimento

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O anúncio da 84 Lumber, em que mãe e filha mexicanas tentam entrar nos Estados Unidos, foi censurado pelo canal Fox durante o Super Bowl. Apenas uma parte foi transmitida.  O poder é como a fruta. Quando uma peça começa a apodrecer, apodrece toda a fruta em redor.

Marca: 84 Lumber. Título: The Journey. Agência: Brunner. Direcção: Cole Webley. Estados Unidos, Fevereiro 2017.

À procura da manhã clara

nescafeDois anúncios da Nescafé. Um mexicano. outro vietnamita.  No anúncio mexicano Wake up to life: sunrise, o sol anda um tanto a quanto esquecido e atrasado. O povo procura a luz e o Nescafé substitui o galo, mudo e sombrio, como catalisador da madrugada.

Marca: Nescafé. Título: Wake up to life: sunrise. Agência: Publicis México. México, Fevereiro 2015.

No anúncio vietnamita I love Vietnam, o Nescafé é um ícone ou um hino de um povo adorável que adora um país adorável. Belas imagens.

Marca: Nescafé. Título: I love Vietnam. Agência: Publicis Ho Chi Mihn. Direcção: Mark Toia. Vietname, Outubro 2016.

O título do artigo é um verso roubado ao Canto Moço, de José Afonso.

José Afonso. Canto moço (Filhos da madrugada). Traz outro amigo também. 1970.

Elogio da confusão

DHLO General de Gaulle gostava de contar a seguinte anedota:
“Um dia, fui convidado a assistir ao lançamento de um foguetão nos Estados-Unidos. Todos, cada um no seu posto, impecáveis e concentrados. Começa a contagem: 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0… E o foguetão não partiu!
Noutra ocasião, fui convidado a assistir ao lançamento de um foguetão na Rússia. Todos fora de lugar, a comer, a beber, a conversar… 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0… E o foguetão partiu!”
Um filósofo, creio que Giambattista Vico, contrapôs a outro filósofo, creio que René Descartes, que uma “cabeça cheia de ideias claras e distintas” era uma cabeça morta.
Diz-se que da confusão nasce a luz. Mas Blaise Pascal não resiste a complicar: “demasiada luz ofusca”.
Os tempos que correm são favoráveis àqueles que andam com a cabeça cheia de ideias claras e distintas. Os faróis. Para mal dos nossos pecados, nem sombra fazem!
Vêm estes apontamentos a propósito do anúncio Mexican Curious, da DHL. A confusão reina na sinalética das ruas da cidade de México. E, no entanto, aposto que funciona.

Marca: DHL. Título: Mexican Curious. Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia / Luis Villalobos. México, 2005.

O deus da bola

Tecate noéDizem que o futebol é uma religião. Existem santuários, altares, peregrinos, fiéis e orações. Fazem-se promessas e aguardam-se milagres. Há o mal e o bem, exegetas e, até, “a mão de Deus”. Os anúncios da América Latina prestam-se a esta confusão entre o futebol e o sagrado (ver artigo Bendita Bola: https://tendimag.com/2013/12/08/bendita-bola/). O anúncio La Cancha de Noé, da cerveja mexicana Tecate, é mais um exemplo.

Norberto Orlando Echeverriá, Noé para os amigos, tem uma revelação divina: Diego Maradona (deus) diz-lhe o seguinte: “Al fútbol solo lo puede salvar el amor al fútbol. Construíte una cancha”. Noé assim fez: em vez da arca, constrói um campo de futebol. Acabada a obra, em madeira como a arca, e acolhidas as parelhas, o campo é inaugurado com um jogo em que Diego Maradona veste a camisola nº 10 e mete um golo, não com a mão, mas com a cabeça. Milagre!

Marca: Tecate. Título: La cancha de Noé. Agência: Nómades. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. México, Maio 2016.

O chá e o clister

Aplicando Enema. Cerâmica Maia de Escuinta. Chiapas. México

Aplicando Enema. Cerâmica Maia de Escuinta. Chiapas. México.

A publicidade aprecia confrontar-nos com dilemas: bom/mau; belo/feio; leve/pesado… O anúncio Colonic da PG Tips propõe vários pares de oposição: dor/prazer; limpo/sujo; alto/baixo; e, sobretudo, infusão ou intrusão. Infusão do chá; intrusão do clister (enema).

Enema. Pressão com uma bexiga de animal. Escultura africana de madeira. Séc. XIX.

Enema. Pressão com bexiga de animal. Escultura africana de madeira. Séc. XIX.

Entre Deus e o Diabo, o cliente que escolha: ou clister, ou chá. Parafraseando Lenine, o maniqueísmo é a doença infantil da publicidade. O recurso à personificação do cliente mediante crianças, animais, peluches ou desenhos animados tende a aumentar o efeito de persuasão. Em suma, se sofre dos intestinos, se tem cólicas, nada como um chá verde!

Marca: TG Tips. Título: Colonic. Agência: Mother London. Direcção: Mark Denton. UK, Maio 2016.

 

 

Arqueologia de uma relação

Pavlov's dogO anúncio The First Meeting, da Pedigree, apresenta uma travessia solitária num mundo lunar ou vulcânico. Há lugares onde os passos não deixam marca nem levam a lado nenhum. Mas, ao contrário do Godot de Samuel Beckett, quem procura, mesmo sem saber o quê, pode encontrar. A epifania, com ou sem anjos, é a bênção das almas perdidas. Pois este anúncio termina com uma epifania. Para além da esperança razoável, o cão encontrou o homem.
Hoje, falei num mosteiro. Apetece-me, agora, ouvir. Duas músicas do álbum que mais ofereci: Pavlov’s Dog, Pampered Menial, 1974. Optei por duas interpretações ao vivo, mais raras. Não dispensam a audição da gravação de estúdio. Os Pavlov’Dog eram músicos exímios e originais. O vocalista é um assombro. Foram, contudo, um caso exemplar de insucesso comercial.

Marca: Pedigree. Título: The First Meeting. Agência: Proximity BBDO Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia. México, Abril 2016.

Pavlov’s Dog. Julia. Pampered Menial. 1974.

Pavlov’s Dog. Theme From Subway Sue. Pampered Menial. 1974.

 

Quando a bola é quadrada

“We can lose everything, but we will never lose the fight. Rise up! Rise Up! We are warriors built of blood and glory ” (AT&T, Journey).

“A influência do futebol na vida psicossocial dos adeptos pode revestir, ainda, outras formas. Segundo Elias (1989/90), nas sociedades modernas desenvolveu-se, nos últimos séculos, um processo civilizacional promotor da auto-disciplina e da autocontenção dos instintos, das pulsões e da agressividade. Apesar deste recalcamento, subsistem sempre riscos de a violência eclodir onde e quando menos se espera. Como contra-argumentava um padre da Idade Média ao Papa, se uma pipa de vinho nunca for arejada acabará por rebentar (Bakhtine, 1977). Numa perspectiva funcionalista (Coser, 1956), tudo se passaria como se as sociedades actuais, para seu próprio equilíbrio, se vissem confrontadas com a necessidade de drenar a violência, canalizando-a para determinados espaços e tempos. Nestes, 1) a violência seria permitida, e até suscitada, desde que mantida dentro dos limites de tolerância socialmente aceites, 2) a violência seria simulada até ao ponto de gerar níveis de emoção e de excitação próximos dos provocados pela violência real, 3) acabaria por se verificar uma consumição da violência e dos impulsos violentos. Os desportos constituem arenas privilegiadas para a realização deste triplo propósito. Herdeiros dos jogos medievais, colectivos e duros, os desportos de combate, como o futebol, enfrentam o seguinte desafio: “manter, ao mesmo tempo, os riscos de ferimentos a um nível relativamente baixo e a excitação agradável decorrente do afrontamento a um nível elevado” (Elias & Dunning, 1992). Tensos e instáveis, com contornos móveis e contingentes, estes equilíbrios são difíceis de gerir. Tanto mais que os conflitos e as contradições das sociedades envolventes se introduzem, sem filtragem eficaz, nos espectáculos e nos recintos desportivos. Se forem ultrapassados os limiares da violência permitida, o que é sempre uma possibilidade a não descurar, as competições desportivas podem degenerar em situações perversas que dão azo a infernos bárbaros de consequências trágicas (e.g., Heisel Park).

O desempenho do futebol no que respeita a estas funções (catarse, excitação e válvula de escape da violência) provém, em boa medida, do facto de este desporto consistir num simulacro de batalha. Num desafio afrontam-se duas equipas, cada uma com seu campo, lideradas, nas operações, por um capitão e, à distância, por um treinador, incumbidas de conquistar o “último reduto” do adversário (marcar um golo). Ganha a equipa que mais vezes o consegue. A dinâmica do jogo é compassada por ataques, defesas e contra-ataques. Cada participante tem a sua especialidade e posição no terreno: guarda-redes, defesas, médios, avançados, laterais, centrais, líberos, alas, extremos… Segundo as regras do jogo, e do fair-play, o objectivo é vencer o adversário. Os gestos, a linguagem e as metáforas são de ordem guerreira. Trata-se de uma encenação que, para proporcionar os efeitos desejados (catarse, excitação, válvula de escape), carece ser vivida e sentida como real. A fronteira entre o consumo da violência simulada e a produção de violência efectiva é deveras ténue e delicada. Comprova-o a frequência de agressões no relvado, nas bancadas, nos bastidores, nas imediações do estádio; antes, durante e após o jogo. Se os hooligans, os skin-heads e outros grupos violentos privilegiam os estádios como lugares de eleição para exibição, propaganda e recrutamento, isso não se deve ao acaso. O caldo, a cultura, dos espectáculos desportivos contém os condimentos propícios à exacerbação e ao transbordo de tribalismos violentos” (Albertino Gonçalves, “O desporto do nosso contentamento”, Boletim Cultural de Melgaço, nº1, 2002, pp. 127-161).
Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.

AT&T 2

Marca: AT&T Mexico. Título: Journey. Produção: Quad. Direcção: Antony Hoffman. México, 2015.