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Vítimas da Verdade

Fotografia – Reprodução de La Jornada. México

Existem jornalistas de todos os tipos, feitios, interesses e ideologias. Esta diversidade representa um dos pilares das democracias e expõe-os como alvo a controlar ou a abater nos regimes autoritários e pelo crime organizado. O anúncio mexicano “Bullet Machine” ilustra-o de um modo original, veemente e impactante.

Article 19 Office for Mexico and Central America – Bullet Machine. Agência: Grey Mexico. Direção: Andrea Pelegrin & Francisco Paparella. México, abril 2026

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Rage Against The Machine – Killing In the Name. Rage Against the Machine, 1992
Muse – Uprising. The Resistance, 2009

Fantasmas do Mês dos Medos

O anúncio mexicano “Todo por Cheetos”, da Pepsico, inaugura brilhantemente e com sentido de oportunidade o mês dos medos. Associado à série Merlina, da Netflix, foi supervisionado por Tim Burton.

Mano a mano, pasito a pasito, a publicidade leva o Tendências do Imaginário um pouco por todo o mundo. Inclino-me, contudo, a contornar as geografias que tresandam a ódio (por todos os contentores e conteúdos, incluindo as vacinas) e a excesso de higienização (com overdoses de salvadores e detergentes). Não me cativam as misérias alheias sublimadas em emblemas pessoais de trazer ao peito.

Prefiro dirigir o olhar, cansado e limitado, para os centros e eixos passíveis de decidir o (meu) futuro, com ou sem candidatos a prémios da paz. Pelo caminho, sobram paladinos genuínos da generosidade, cujas maçãs caem menos vítimas de ventos adversos e mais por apodrecimento interno. “Hoje é domingo, ai que preguiça! Hoje é domingo, não vou à missa!”

Anunciante: Pepsico. Produto: Cheetos. Título: Todo Por Cheetos. Agência: Isla Ciudad de México. Canção: “La Llorona”, interpretada por Chavela Vargas. México, outubro 2025

Abensonhar

Ministerio de la Educación de Colombia. El Balígrafo. 2016

“Abensonhar” é um verbo criado por Mia Couto no livro Estórias Abensonhadas (1994), cujos contos “falam desse território onde nos vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada”. Creio que estes dois anúncios latino-americanos, com balas transformadas em canetas (e votos) e um campeonato de pesca de plástico, foram, a seu tempo (2016 e 2022), abensonhados. O Presidente da República de Colômbia, Juan Manuel Santos, presente no primeiro anúncio, foi distinguido com o Nobel da Paz em 2016.

[Este artigo foi removido do Facebook]

Anunciante: Ministerio de Educación de Colombia. Título: El Balígrafo. Agência: McCann Colombia. Colômbia, 2016
Anunciante: AB INBEV/Corona. Título: Campeonato de Pesca de Plástico. Agência: We Believers. México, 2022

Imortalidade funerária

Como se desenvencilham as agências funerárias para fazer publicidade? De muitas formas. Tenho especialmente gravado na memória o anúncio deveras criativo da Funerária Funalcoitão de Alcabideche do Município de Cascais (ver O Prazer dos Mortos).

A campanha recente da empresa J. García López, do México, terra da Santa Muerte, é um caso. Seguem três anúncios da série “Volvámonos inmortales”, a que acrescento dois mais antigos: “Sigues aquí: nuestro gran Homenaje®️ a la vida” (2024), com recurso à IA, e “Lo que quiero hacer antes de morir” (2012).

Anunciante: Funerarias J. García López. Título: Volvámonos inmortales cada día. Agência: Ganem. Direção: Hari Sama. México, junho 2025
Anunciante: Funerarias J. García López. Título: Volvámonos inmortales [1]. Agência: Ganem. Direção: Hari Sama. México, junho 2025
Anunciante: Funerarias J. García López. Título: Volvámonos inmortales [2]. Agência: Ganem. Direção: Hari Sama. México, junho 2025
Anunciante: Funerarias J. García López. Título: Sigues aquí: nuestro gran Homenaje®️ a la vida. México, outubro 2024
Anunciante: Funerarias J. García López. Título: Lo que quiero hacer antes de morir. México, outubro 2012

Salvem as crianças!

Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!… (Augusto Gil. Balada da Neve. Luar de Janeiro, 1909)

“Há mais de 100 anos, em 1919, uma mulher chamada Eglantyne Jebb [1876-1928] fundou a Save the Children em resposta ao sofrimento que as crianças enfrentavam como resultado da Primeira Guerra Mundial. / Eglantyne Jebb mudou o curso da história quando declarou que todas as meninas e meninos deveriam ter direitos. Esta ideia, avançada para o seu tempo, desencadeou um movimento global para tornar o mundo um lugar melhor para as crianças. Eglantyne apresentou a primeira Declaração Universal dos Direitos da Criança na Liga das Nações, documento que serviu de base para a criação da Convenção sobre os Direitos da Criança.”

Despertei com o anúncio “Fer” da Saven the Children, do México. Extenso e lento (dura mais de 6 minutos), algo enigmático (desconhece-se, até ao final, o motivo), nem sempre lógico (por que se deixa crescer tanto o cabelo?), faz todo o sentido: ” Desde el embarazo infantil hasta el feminicidio, las niñas viven con miedo en lugar de tener la libertad para crecer y desarrollarse plenamente”.

Anunciante: Save the Children Mexico. Título: “Fer”. Agência: Anónimo Agencia. México, novembro 2024

Pomba branca, pomba negra

“A vida é uma roleta em que apostamos todos”

Existem muitas artes de cantar. Por exemplo, mexicanas. Canções impressionantes, de amor e morte. E vozes como Tania Libertad, La Santa Cecilia ou Lila Downs. Filha de uma índia mixteca, cantora, compositora, atriz e antropóloga, Lila Downs recebeu o Grammy Latino em 2004, 2011 e 2014. Seguem os seus êxitos: Cielo Rojo; Paloma Negra; e Fallaste Corazón.

Lila Downs – Cielo Rojo. Una Sangre (One Blood). 2004
Lila Downs – Paloma Negra. The Very Best of el Alma de Lila Downs. 2007. Ao vivo em 2012
Lila Downs – Fallaste Corazón. Pecados y Milagros. 2011. Ao vivo em 2012

O Cavalo da Morte

Salvador Dalí. Le cheval de la mort. 1972. Litografia edição do autor assinada à mão

Gosto muito do Le cheval de la mort do Salvador Dalí. Há dias esteve em leilão uma litografia de 1972, edição do autor assinada à mão pelo próprio Dalí. Licitei e licitei até que, frustrado, considerei o valor exagerado. Quando deixei de acompanhar o leilão, já ofereciam 1 500 euros. Por uma litografia! Até mesmo do Dalí…

Não tive outro remédio senão contentar-me com a canção El Jinete [de la muerte] interpretada, à mexicana, por Tania Libertad.

Tania Libertad – El jinete. José Alfredo y Yo. 2017.

Finalmentes

Existem os preliminares, os entremezes e os finalmentes. Este “Concierto para una Sola Voz”, da peruana-mexicana Tania Libertad, Embaixadora da Paz pela UNESCO, vale sobretudo, sem desmerecer o resto, pela performance da segunda parte. Em tempos que me parecem devotados à ostracização dos prazeres, não perca esta oportunidade. Não se contenha!

Imagem: Tania Libertad. Fonte: LAMULA.PE

Tania Libertad – Concierto para una Sola Voz. Alguien cantando. 1982.Tania 50 Años de Libertad (En Vivo). 2012

Filhos do Tempo: O Culto dos Mortos

Le temps passe et la mort vient (provérbio francês)

Hermanos Gutiérrez. Hijos del Sol. 2020

O Dia dos Fiéis Defuntos, dos Finados ou dos Mortos é amanhã, 2 de novembro, mas é hoje, Dia de Todos os Santos, que ocorre a maior afluência aos cemitérios. Provavelmente por virtude do feriado. A celebração é particularmente fervorosa no México, país onde a relação, a “comunhão”, com os familiares e amigos antepassados é experienciada, convivial, ao mesmo tempo, íntima e expressiva.

A origem dos Hermanos Gutiérrez, Alejandro e Estevan, não é mexicana: residentes em Zurique, a mãe é equatoriana e o pai suíço. Não obstante, assumem o México como referência. Uma viagem ao país, em fevereiro de 2020, “fue como ir a casa”. O álbum Hijos del Sol, estreado em setembro de 2020, inspira-se nos lugares e nas memórias do México. Foi precedido por uma curta-metragem de oito minutos realizada por Fernando Guisa… Incluindo quatro músicas, visa “desmitificar lo fatal de la muerte”.

Pelo tema, pela música, pela fotografia e, sobretudo, pela delicadeza, reservei o filme Hijos del Sol para comemorar este Dia no Tendências do Imaginário. Um gesto singelo em jeito de oração.

Hermanos Gutiérres. Hijos des Sol. Vídeo oficial, dirigido por Fernando Guisa. Agosto 2020

La Llorona

A Llorona é uma figura mitológica, sobrenatural, de origem milenar, da América Latina, nomeadamente do México. Alude a uma mãe que, traída pelo marido, afoga, num ataque de ciúmes, os próprios filhos. Arrependida e incapaz de resgatá-los, ela também se afoga, mas é-lhe impedida a entrada no outro mundo, na vida após a morte. Resulta, assim, condenada a penar aparecendo, de noite, principalmente, vestida de branco e perto de lugares com água.

Carmen Goett. La Llorona. Vídeo oficial, 2019. Postales, 2022

Programa da Noite dos Medos, em Melgaço