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Vida de esqueleto II. O espelho

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900.

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900

O esqueleto acompanha-nos desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso. A dança da morte da ponte Spreuer, em Lucerna, na Suíça (Figura 3), mostra Adão e Eva, mais o esqueleto, a sair, curvados, do paraíso:

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” (Genesis 3:3).

Dança macabra da ponte Spreuer, em Lucerna

O esqueleto sempre assombrou a humanidade. Condenado, tal como o ser humano, ao trabalho, esmera-se. Toca os clientes, captura-os e transporta-os para o outro mundo. Assedia como um toureiro, ceifa como um camponês, pesca como um lobo-do-mar e caça como um nobre ou como um predador furtivo. Usa a gadanha, o arco e a flecha, o machado, a espada, a lança, a rede e a pá. Desloca-se a pé, montado num caixão (Figura 1), num cavalo, num burro ou numa vaca. Por finais do século XIX, também voa (Figuras 6 a 11).

O ofício de esqueleto

Às vezes, o esqueleto, enquanto trabalha, diverte-se com outros esqueletos. Nas danças macabras, toca música e baila de mãos dadas com os vivos mortos. O transporte para o outro mundo resulta festivo. O esqueleto investe na política. Faz a guerra e não desdenha o poder. Nos triunfos, a morte senta-se no trono, rodeada pelo seu séquito, com as autoridades mundanas a seus pés (Figura 2 e 12 a 15).

Triunfo da morte

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

13 a 15. Triunfos da morte do Palazzo Abbattelis, de Clusone e de Pieter Bruegel

O esqueleto também repousa. Cansa-se, como o esqueleto sentado na escada da figura 15. Aprecia o lazer e a actividade espiritual. Dormita aconchegado em prazeres, come, joga, espera, aborrece-se, vê-se ao espelho, lê, contempla uma caveira (uma dupla vanitas), ouve e toca música, parodia a arte e, sublinhe-se, reza (ver figuras 16 a 29).

Actividades de lazer

O espelho da morte mostra-nos a nossa finitude. Em vez da nossa imagem, vemos a morte. As actividades do esqueleto são semelhantes às nossas. Podiam ser as nossas. Com a ressalva da procriação. Ao olhar para o espelho, mais do que a morte, vemo-nos a nós próprios. O esqueleto é uma projecção. O esqueleto somos nós. Somos, pelo menos, o modelo (Figuras 30 a 33)

O espelho da morte

Tanto nos dá para temer o esqueleto como para o venerar. Dedicamos-lhe cultos, os cultos da morte e dos mortos. Nas igrejas, nos cemitérios, em casa, na rua e durante o Halloween. Às vezes, exorbitamos. É o caso dos santos descobertos no século XVII nas catacumbas romanas que o papa distribuiu por várias igrejas germânicas. Identificados como esqueletos dos primeiros mártires, beneficiaram do esmero póstumo de freiras, joalheiros e outros artífices dos séculos XVII e XVIII (Figuras 34 a 37).

Santos das catacumbas romanas

Nas fotografias de Paul Koudounaris (2013, Heavenly Bodies, New York, Thames Hudson), contam-se mais jóias e ornamentos do que ossos. Ao bom jeito barroco, são esqueletos em majestade. Rivalizam com Nossa Senhora da Boa Morte ou com a Santa Morte, padroeira, entre outros, dos traficantes e dos bandidos (Figuras 38 a 41).

Morte santa

Se os esqueletos são ecos, por que os imaginamos? Para personalizar ou eufemizar a morte? Para acomodar o vazio? Ou será porque prestamos mais atenção ao eco do que à voz? A vida do esqueleto é o paroxismo da reflexividade e da catequese humanas.

É sempre dia de ser filho

Adriano Correia de Oliveira

Adriano Correia de Oliveira

Duas crianças, surdas ou não, encontram-se. O que dizem uma à outra? “Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada”.

Seguem o anúncio mexicano Gracias Mama, da Nido, e a canção Minha Mãe, de Adriano Correia de Oliveira.

Marca: Nestlé/Nido. Título: Gracias Mama. Agência: McCann México. Direcção: Mario Muñoz. México, Maio 2017.

Adriano Correia de Oliveira. Minha Mãe. Fados de Coimbra II (EP, 1962).

À mexicana!

Sidral mundetÀ mexicana! À portuguesa! À francesa! À americana!… Expressões banais de que desconfio. Individualizam o colectivo, atribuem-lhe propriedades de pessoas, criam figuras que se reificam como almas cristalizadas. Transformam o plural polifónico em unidade monológica. Estas fantasias identitárias não são neutras. São interessadas. Não é fácil despir estas fardas simbólicas. O anúncio A la Mexicana, de Sidral Mundet, tem condão de, ao assumir uma inversão de valores, evidenciar a ambiguidade do todo e a arbitrariedade das partes. A expressão a la mexicana, habitualmente negativa, é, nesta campanha, virada do avesso. Enfatizam-se, agora, os sucessos e respectivos embaixadores. O objectivo consiste em mobilizar pro-activamente os mexicanos.

Marca: Sidral Mundet. Título: #alamexicana. Agência: Onlyif. México, Março 2016.

Marca: Sidral Mundet. Título: A la mexicana. Agência: Onlyif. México, Junho 2017.

Lançamento Sidral Mundet “A La Mexicana”. Junho 2017.

Liberdade excêntrica

Liberté sol

O anúncio mexicano “Vamos a hablar”, da Cerveza Sol”, é um despertador de vontades. Atropelam-se imagens e palavras, ao som de um ritmo heróico. A inversão dos preconceitos e dos chavões desenha um espaço de liberdade. Ser livre é ser diferente? “Um bicho raro”. Mas os outros existem! Não param de contar, avaliar e constranger. Será a excentricidade, e, de algum modo, a solidão, a condição da liberdade? Somos livres sem os outros? Livres de quê? Vem-me à memória, a contracorrente, uma frase de André Malraux (Les chaînes qu’on abat, 1971): “A liberdade consiste em poder escolher as cadeias”. O anúncio “Vamos a hablar” é romântico. Nada de estranho. Observa-se alguma reincidência romântica na pós-modernidade.

Este anúncio lembra-me várias canções dedicadas à liberdade. “Libre” (1972), de Nino Bravo, é uma canção que alcançou um enorme sucesso nos anos setenta. Enferrujou com os anos. Mesmo assim, num único site ultrapassa 5 milhões de visualizações. Nino Bravo faleceu, com 28 anos, vítima de um acidente rodoviário.

Marca: Cerveza Sol. Título: Vamos a hablar. Agência: Talent Comunicação e Planejamento Lda. Direcção: Cisma. México, 2016-2017.

Nino Bravo. Libre. Mi Tierra. 1972.

Apodrecimento

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O anúncio da 84 Lumber, em que mãe e filha mexicanas tentam entrar nos Estados Unidos, foi censurado pelo canal Fox durante o Super Bowl. Apenas uma parte foi transmitida.  O poder é como a fruta. Quando uma peça começa a apodrecer, apodrece toda a fruta em redor.

Marca: 84 Lumber. Título: The Journey. Agência: Brunner. Direcção: Cole Webley. Estados Unidos, Fevereiro 2017.

À procura da manhã clara

nescafeDois anúncios da Nescafé. Um mexicano. outro vietnamita.  No anúncio mexicano Wake up to life: sunrise, o sol anda um tanto a quanto esquecido e atrasado. O povo procura a luz e o Nescafé substitui o galo, mudo e sombrio, como catalisador da madrugada.

Marca: Nescafé. Título: Wake up to life: sunrise. Agência: Publicis México. México, Fevereiro 2015.

No anúncio vietnamita I love Vietnam, o Nescafé é um ícone ou um hino de um povo adorável que adora um país adorável. Belas imagens.

Marca: Nescafé. Título: I love Vietnam. Agência: Publicis Ho Chi Mihn. Direcção: Mark Toia. Vietname, Outubro 2016.

O título do artigo é um verso roubado ao Canto Moço, de José Afonso.

José Afonso. Canto moço (Filhos da madrugada). Traz outro amigo também. 1970.

Elogio da confusão

DHLO General de Gaulle gostava de contar a seguinte anedota:
“Um dia, fui convidado a assistir ao lançamento de um foguetão nos Estados-Unidos. Todos, cada um no seu posto, impecáveis e concentrados. Começa a contagem: 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0… E o foguetão não partiu!
Noutra ocasião, fui convidado a assistir ao lançamento de um foguetão na Rússia. Todos fora de lugar, a comer, a beber, a conversar… 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0… E o foguetão partiu!”
Um filósofo, creio que Giambattista Vico, contrapôs a outro filósofo, creio que René Descartes, que uma “cabeça cheia de ideias claras e distintas” era uma cabeça morta.
Diz-se que da confusão nasce a luz. Mas Blaise Pascal não resiste a complicar: “demasiada luz ofusca”.
Os tempos que correm são favoráveis àqueles que andam com a cabeça cheia de ideias claras e distintas. Os faróis. Para mal dos nossos pecados, nem sombra fazem!
Vêm estes apontamentos a propósito do anúncio Mexican Curious, da DHL. A confusão reina na sinalética das ruas da cidade de México. E, no entanto, aposto que funciona.

Marca: DHL. Título: Mexican Curious. Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia / Luis Villalobos. México, 2005.

O deus da bola

Tecate noéDizem que o futebol é uma religião. Existem santuários, altares, peregrinos, fiéis e orações. Fazem-se promessas e aguardam-se milagres. Há o mal e o bem, exegetas e, até, “a mão de Deus”. Os anúncios da América Latina prestam-se a esta confusão entre o futebol e o sagrado (ver artigo Bendita Bola: https://tendimag.com/2013/12/08/bendita-bola/). O anúncio La Cancha de Noé, da cerveja mexicana Tecate, é mais um exemplo.

Norberto Orlando Echeverriá, Noé para os amigos, tem uma revelação divina: Diego Maradona (deus) diz-lhe o seguinte: “Al fútbol solo lo puede salvar el amor al fútbol. Construíte una cancha”. Noé assim fez: em vez da arca, constrói um campo de futebol. Acabada a obra, em madeira como a arca, e acolhidas as parelhas, o campo é inaugurado com um jogo em que Diego Maradona veste a camisola nº 10 e mete um golo, não com a mão, mas com a cabeça. Milagre!

Marca: Tecate. Título: La cancha de Noé. Agência: Nómades. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. México, Maio 2016.

O chá e o clister

Aplicando Enema. Cerâmica Maia de Escuinta. Chiapas. México

Aplicando Enema. Cerâmica Maia de Escuinta. Chiapas. México.

A publicidade aprecia confrontar-nos com dilemas: bom/mau; belo/feio; leve/pesado… O anúncio Colonic da PG Tips propõe vários pares de oposição: dor/prazer; limpo/sujo; alto/baixo; e, sobretudo, infusão ou intrusão. Infusão do chá; intrusão do clister (enema).

Enema. Pressão com uma bexiga de animal. Escultura africana de madeira. Séc. XIX.

Enema. Pressão com bexiga de animal. Escultura africana de madeira. Séc. XIX.

Entre Deus e o Diabo, o cliente que escolha: ou clister, ou chá. Parafraseando Lenine, o maniqueísmo é a doença infantil da publicidade. O recurso à personificação do cliente mediante crianças, animais, peluches ou desenhos animados tende a aumentar o efeito de persuasão. Em suma, se sofre dos intestinos, se tem cólicas, nada como um chá verde!

Marca: TG Tips. Título: Colonic. Agência: Mother London. Direcção: Mark Denton. UK, Maio 2016.

 

 

Arqueologia de uma relação

Pavlov's dogO anúncio The First Meeting, da Pedigree, apresenta uma travessia solitária num mundo lunar ou vulcânico. Há lugares onde os passos não deixam marca nem levam a lado nenhum. Mas, ao contrário do Godot de Samuel Beckett, quem procura, mesmo sem saber o quê, pode encontrar. A epifania, com ou sem anjos, é a bênção das almas perdidas. Pois este anúncio termina com uma epifania. Para além da esperança razoável, o cão encontrou o homem.
Hoje, falei num mosteiro. Apetece-me, agora, ouvir. Duas músicas do álbum que mais ofereci: Pavlov’s Dog, Pampered Menial, 1974. Optei por duas interpretações ao vivo, mais raras. Não dispensam a audição da gravação de estúdio. Os Pavlov’Dog eram músicos exímios e originais. O vocalista é um assombro. Foram, contudo, um caso exemplar de insucesso comercial.

Marca: Pedigree. Título: The First Meeting. Agência: Proximity BBDO Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia. México, Abril 2016.

Pavlov’s Dog. Julia. Pampered Menial. 1974.

Pavlov’s Dog. Theme From Subway Sue. Pampered Menial. 1974.